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terça-feira, 13 de março de 2012

O Capote-Nikolai Gogol-Conto Fantasmagórico




                              O CAPOTE
                          Por:
  Nicolai Gogol (Russia -Ucrânia-1809 a  1852)

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                               O CAPOTE

Na Repartição de... Mas será melhor não a nomearmos, porque nada há
mais susceptível do que os nossos empregados públicos, desde os
amanuenses aos chefes de repartição. Actualmente, cada um sente-se em
particular como se na sua pessoa toda a sociedade tivesse sido ofendida.
Diz-se que um capitão da polícia apresentou, ainda não há muito tempo,
uma queixa - não me recordo em que cidade isto se passou - revelando
claramente que os decretos imperiais eram desdenhados por toda a gente e
que o santo nome de um oficial era proferido com desprezo. E juntava, como
prova, o volumoso tomo de certa novela em que, de dez em dez páginas,
aparecia um capitão da polícia, e, o que é demais, em completo estado de
embriaguez. Deste modo, para evitar desgostos, em vez de indicar a
repartição onde ocorreu o facto, é preferível dizer apenas: "Numa
repartição..."
Por conseguinte, "numa repartição" servia "um funcionário". Esse
funcionário, é justo dizê-lo, era muito distinto: de estatura baixa, um pouco
picado das bexigas e igualmente um pouco curto de vista, com uma pequena
calva a principiar na testa, rugas nas duas faces e, no rosto, essa cor
característica do hemorroidal ... Que se lhe há-de fazer: A culpa era do clima
de Sampetersburgo. Pelo que se refere à sua categoria (pois é entre nós a
primeira coisa que se menciona), era o que se designa por "conselheiro
titular perpétuo", um daqueles com que satirizam certos escritores que têm
o benemérito hábito de cair a fundo sobre os inofensivos.
O nosso funcionário tinha o apelido de Blaquemaquine (sapateiro), e já por
esse apelido se vê qual tinha sido a sua ascendência; mas quando, onde e
de que maneira tal apelido surgira ninguém o sabia; sabia-se apenas que
pai, o avô e até mesmo o cunhado, e em geral todos os Blaquemaquines,
tinham ascendentes sapateiros.
Chamava-se Acaqui Acaquievich. Ora é possível que o leitor considere este
nome um pouco estranho e pretensioso, mas pode crer que não é assim: ele
foi-lhe posto nas circunstancias mais naturais e é fácil ver que não poderia
ter sido outro.
Acaqui Acaquievich nasceu na noite de 23 de Março. A sua defunta mãe,
esposa de um funcionário, muito boa mulher, dispôs as coisas para que o

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Nikolai Gogol-Rússia-Ucrânia-(1809 a 1852)

menino fosse baptizado segundo as praxes. A mãezinha estava ainda de
cama em frente da porta; à direita, de pé, o padrinho, Ivan Ivanovitch
Erochquine, excelente homem, chefe de uma secretaria do Senado, e a
madrinha, Arina Semenovna Bielobriuchkova, esposa de um oficial e mulher
de extraordinárias virtudes. Apresentaram à parturiente três nomes para
que escolhesse aquele de que mais gostasse: Moquia, Sosia, ou então o
nome do mártir Josdasata. "Não!", pensou a doente. "Que nomes!" Para lhe
serem agradáveis, levantaram a folhinha do calendário e leram, noutro
lugar, mais três nomes: Trifili, Dula e Varaiasi. "Que castigo este!",
comentou a mulher. " São tão bonitos como os outros! Nunca ouvi esses
nomes! Ainda se fosse Varadat, ou Varui, mas agora Trifili e Varaiasi!"
Voltaram mais uma folhinha do calendário e deparou-se-lhes: Pafsicai e
Vaitisi. "Já vejo", disse, "é o destino que o quer! Nesse caso, prefiro que
tenha o nome do pai. O pai chamava-se Acaqui, e o nome do filho será,
portanto, Acaqui." Resultou dessa maneira Acaqui Acaquievich. O menino foi
baptizado, chorou e fez grandes caretas, como se pressentisse que teria de
ser conselheiro titular. Foi isso que aconteceu.
Contámos isto com o propósito de levar o leitor a compreender por si próprio
como foi fatal a impossibilidade de lhe dar outro nome. Quando teria sido
colocado na repartição e quem o teria nomeado são coisas de que ninguém
se recorda. Todos os directores e todos os chefes de repartição que por lá
passaram viram-no sempre no mesmo lugar, na mesma posição e com a
inalterável dignidade de um burocrata que compulsa requerimentos; ao vê-
lo, poderia julgar-se que assim nascera neste mundo, completamente
burocratizado, de uniforme e calvo.
Ninguém na repartição o respeitava. O porteiro não só não se levantava à
sua passagem como nem sequer se dignava lançar-lhe um olhar: importava-
se tanto com Acaqui como com uma mosca. Os chefes aproximavam-se dele
com uma frieza autoritária. Qualquer ajudante do chefe de secretaria metia-
lhe um oficio debaixo do nariz sem lhe dizer sequer: "Copie!", ou "Aqui tem
você um belo trabalhinho, uma tarefa interessante", ou outra qualquer coisa
amável, como é estrito dever dos funcionários inferiores bem-educados
dizerem. O nosso homem pegava no ofício, olhava-o, sem mesmo reparar
em quem lho entregara ou se aquele trabalho lhe competia, e punha-se
imediatamente a escrever. Os empregados mais jovens elegiam-no por tema
de zombarias e chacotas e os amanuenses, que se presumiam de
espirituosos, contavam, na sua presença e de diversos modos, a sua própria
história e a da sua hospedeira, velhota dos seus 70 anos, que, segundo
diziam, o espancava; e perguntavam quando era o casório, atirando-lhe à
cabeça pequenos pedaços de papel, a fingir de flocos de neve. Acaqui
Acaquievich não respondia uma só palavra às zombarias, como se ali
estivesse sozinho. Essas chalaças nem sequer exerciam influência na tarefa
que o absorvia: apesar de todas as impertinências de que era objecto, não
fazia um único erro de escrita. Só quando a brincadeira se tornava

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insuportável e lhe batiam no cotovelo, desviando-lhe a atenção. exclamava:
"Deixem-me! Porque zombam de mim?" E havia alguma coisa de estranho
nas suas palavras e na voz alterada com que as pronunciava. Alguma coisa
soava nelas que despertava compaixão; e, por isso, um jovem colocado na
repartição havia pouco tempo, que, seguindo o exemplo dos demais, se
permitia zombar dele, deteve-se, impressionado, e modificou, a partir de
certa altura, o seu comportamento, como se tudo, repentinamente, se
tivesse transformado. Que forca sobrenatural o elevava acima de todos os
seus companheiros, a quem, até então, considerara pessoas correctas e
civilizadas! E muito tempo depois, no meio das suas alegrias e prazeres,
detinha-se, perplexo, a recordar o funcionário baixo, de calva a principiar na
testa, e ouvia-lhe as penetrantes palavras: "Deixem-me! Porque me
vexam?" E juntamente com essas palavras penetrantes ressoavam outras:
"Sou vosso irmão!" E o jovem cobria o rosto com as mãos e estremecia
intensamente, vendo quanta desumanidade existe no homem e quanta
grosseria se disfarça sob a polidez, a educação e as maneiras da gente fina.
"Deus meu! Até mesmo aquele cavalheiro a quem toda a gente considera
digno e honrado..."
Dizer que servia com zelo não basta; deve dizer-se: servia com amor. Ali,
naquelas cópias, revia-se como num mundo tranquilo e feliz. O prazer
gritava-lhe na face. Havia letras que eram suas favoritas e, quando as
escrevia, ficava como que excitado: sorria, devorava-as com os olhos e
acompanhava a tarefa soletrando com os lábios, de maneira que era quase
possível ler-lhe no rosto cada uma das letras que com a pena escrevia. Se
tivesse sido proposta uma recompensa proporcional à sua diligência, talvez
que, com espanto seu, já tivesse sido nomeado conselheiro de Estado. Mas
tudo quanto ouviu foi uma cruel alusão dos seus companheiros irónicos: que
em vez de uma condecoração na lapela tinha hemorróidas noutro sítio. E era
assim a consideração que mostravam ter por ele. Um director, homem de
bom coração, desejando recompensá-lo pelos seus diligentes serviços,
ordenou que lhe dessem alguns trabalhos de mais importância do que as
simples cópias vulgares; encarregaram-no de informar outra repartição
acerca dos documentos passados naquela a que pertencia, consistindo a sua
tarefa em mudar os títulos e passar os textos da primeira pessoa gramatical
para a terceira. Isto exigia-lhe tamanho esforço que, sem exagero,
transpirava; esfregando a testa, exclamou por fim: "Não; é melhor que me
dêem um trabalho de cópia." E desde então ficou, para sempre, copista.
Fora do mundo das cópias de ofícios, nada para ele existia. Nem sequer se
preocupava com o vestuário; o seu uniforme perdera a cor amarela e tinha
agora um tom desbotado e indefinido; a gola do casaco era estreita e baixa,
de modo que o pescoço, apesar de ser um pouco gordo, parecia de uma
extraordinária altura, lembrando aqueles gatitos de gesso que movem a
cabeça.
Trazia sempre qualquer coisa agarrada ao uniforme, fossem palhas ou

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palitos, pois tinha tanta sorte, ao ir pela rua, que passava debaixo de uma
janela no preciso momento em que deitavam fora uma lata vazia, e trazia
sempre no chapéu de chuva pevides e cascas de melão, ou coisas
semelhantes. Nem uma só vez na vida prestara atenção ao que se passava
ou sucedia diariamente na rua. Nisso era muito diferente dos jovens
funcionários, que, de olhar extremamente móvel e penetrante,
imediatamente notavam quem levava os fundilhos das calças um pouco
coçados, sorrindo com irónico prazer das alheias misérias. Acaqui
Acaquievich, embora divagando o olhar por tudo isso, via exclusivamente os
seus ofícios correctos, copiados com uma letra esmerada, e só por
casualidade, quando lhe roçava pelo ombro o focinho de um cavalo e o vento
lhe soprava no rosto, só então, dava conta de que se não encontrava no
meio de um parágrafo, mas no meio da rua.
Ao chegar a casa, sentava-se à mesa, levava rapidamente à boca umas
tantas colheradas de sopa, comia a carne de vaca com cebola, sem atender
sequer ao paladar: era capaz de come-la com moscas e tudo. Quando
verificava que começava a ter o estômago cheio, levantava-se da mesa, ia
buscar um pequeno tinteiro e copiava os papéis que trouxera da repartição
para trabalhar em casa; se não trouxera trabalho, ocupava-se então a copiar
por gosto e divertimento, e fazia-o com uma íntima satisfação, não derivada
apenas do belo talhe de letra que possuía, mas da importância da pessoa a
quem imaginava que o ofício se dirigia.
Até quando se obscurece totalmente o céu nevoento de Sampetersburgo e
toda a multidão de empregados ceia segundo as suas possibilidades,
conforme os vencimentos e os gostos particulares de cada qual; quando
todos descansam de ouvir o incessante arranhar da pena no papel e do
constante vaivém da vida diária, quer das andanças realizadas por motivo da
profissão, quer de todas quantas empreendem homens insatisfeitos e
inquietos; quando os funcionários se apresentam a dedicar o tempo que lhes
resta em distracções várias - uns no teatro, outros na rua, observando
certas sombrinhas elegantes, outros ainda adorando uma bela e modesta
dama, estrela de um pequeno círculo de empregados, e, ainda mais
frequentemente, algum outro em casa de um colega que habita no segundo
ou terceiro andar, em dois diminutos compartimentos, tais como uma
antessala e uma cozinha e uma lâmpada ou qualquer outro objecto que
ostensivamente pretende estar na moda e que custou muitos sacrifícios,
renúncias a prazeres e divertimentos -, numa palavra, à hora em que todos
os burocratas se dispersam pelas exíguas habitações dos amigos, para jogar
o whist, bebendo aos golos pequenos chá com açúcar, apertando-se uns
contra os outros no ambiente denso do fumo que se evola dos grandes
cachimbos, contando o resultado de qualquer intriga da alta sociedade, coisa
a que nunca o Russo, e em qualquer condição, pode renunciar, ou então,
quando não há outro assunto, repetindo uma velha anedota acerca de um
comandante a quem vieram dizer que tinha sido cortado o pescoço do cavalo

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do monumento de Pedro, o Grande; em suma, até nos momentos em que
todos procuram divertir-se, Acaqui Acaquievich não se entregava a
divertimento algum. Ninguém podia afirmar tê-lo visto num sarau. Depois de
copiar o mais que podia, deitava-se, antecipadamente se regozijando a
pensar no dia seguinte. "Que lhe ofereceria Deus para copiar amanhã?"
Assim se escoava a vida do homem pacífico a quem bastaria uma modesta
aposentação para fazer feliz e que teria de prosseguir a mesma vida até à
mais provecta idade se não sucedesse qualquer das desgraças que não
surgem apenas na vida de um titular, mas também na dos próprios
conselheiros secretos efectivos e na dos conselheiros da coroa, inclusive na
daqueles que não dão conselho algum e de quem, de resto, nem se aceitam.
Em Sampetersburgo existe um poderosíssimo inimigo de todos os que
recebem uns quatrocentos rublos de vencimentos anuais. Esse inimigo não é
outro senão o frio do Inverno, que é, aliás, considerado, por alguns, muito
sadio. Às dez da manhã, ou seja à hora em que as ruas se enchem de todos
os que se dirigem para as respectivas repartições, começa o vento a
distribuir fortes zurzidelas, que cortam todos os narizes à direita e à
esquerda, sem selecção de nenhuma espécie, de maneira que os pobres
funcionários não sabem onde e como os podem resguardar. À hora em que
até aos mais altos empregados dói a cabeça com frio e em que as lágrimas
lhes saltam irresistivelmente dos olhos os pobres conselheiros titulares
encontram-se, por vezes, indefesos. A única salvação consiste em caminhar
o mais depressa possível, embrulhados nos finos capotes, percorrendo cinco
ou seis ruas, e deixar depois arrefecer os pés na portaria, perdendo assim a
única vantagem da ofegante caminhada.
Acaqui Acaquievich andava há tempos a sentir intensas picadas nas costas e
nos ombros, apesar de se esforçar por transpor as distâncias o mais
rapidamente possível. Começou a pensar se o responsável disso não seria o
seu capote. Ao chegar a casa, examinou-o cuidadosamente e descobriu que
a fazenda estava puída em dois ou três lugares, precisamente nas costas e
nos ombros, de tal modo que se tornara uma rede, e em virtude de o forro
se encontrar também esgarçado. Convém saber que o capote de Acaqui
Acaquievich servia também de motivo de chacota aos funcionários;
chegaram até a recusar-lhe o nobre nome de capote e a chamarem-lhe
capinha. Tinha, efectivamente, uma forma pouco comum nos capotes, visto
que a gola diminuía de ano para ano, porque era utilizada para remendar o
resto. Quanto aos remendos, não demonstravam gosto algum da parte do
alfaiate; demonstravam, muito pelo contrário, grosseria e fealdade.
Tendo Acaqui Acaquievich considerado ponderadamente os prós e os
contras, decidiu-se a levar o capote a Petrovich, um alfaiate que habitava
num quarto andar sem sol e que, apesar de zarolho e bexiguento, se
ocupava, com bastante habilidade, em consertar calças e fraques de
funcionários, isto, é claro, nos momentos em que não se encontrava em
estado de completa embriaguez e não alimentava na sua cabeça outras

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ideias. Não faria falta, dir-se-á, falar deste alfaiate, mas, já que é costume
dar a conhecer plenamente em todas as histórias o carácter de uma
personagem, não deve haver inconveniente em que apresentemos aqui
Petrovich. Começara por se chamar simplesmente Gregório, e era então um
homem equilibrado, servo de um senhor. O nome Petrovich data da época
em que alcançara a liberdade e em que dera em emborrachar-se
valentemente todos os dias de festa; primeiro só nos dias grandes, e depois,
sem destrinças, em todos os dias santificados, sempre que no calendário
encontrasse uma cruz. Permanecia, por este lado, fiel aos costumes dos
antepassados, e, ralhando com a mulher, chamava-lhe mundana e tudesca.
Já que citámos a consorte, conviria dizer duas palavras acerca dela: por
desgraça, tudo quanto se sabe a seu respeito é que era mulher de Petrovich,
que usava gorro à russa e não lenço; não parecia distinguir-se pela sua
beleza, e o mais que aconteceu foi encontrarem-se duma vez com ela os
soldados da guarda ao regimento, mirarem-na por baixo do gorro, fazerem
trejeitos com a boca e proferirem certas palavras que não podemos repetir.
Subindo a escada que conduzia a casa de Petrovich - escada essa que, para
dizer a verdade inteira, estava cheia de pequenas poças de água de cheiro
nauseabundo e penetrante, vencendo esse odor estonteante que faz até
arder os olhos e que, como se sabe, constitui característica inseparável de
todos os andares interiores das casas de Sampetersburgo -, subindo a
escada, meditava Acaqui Acaquievich naquilo que podia pedir-lhe Petrovich,
e a si mesmo jurava não dar mais de dois rublos. A porta estava aberta. A
mulher do alfaiate cozinhava peixe e provocara tal fumarada na cozinha que
não era sequer possível descortinar as baratas. Acaqui Acaquievich passou
junto da cozinha sem que a mulher o notasse e chegou ao quarto, onde
encontrou Petrovich sentado sobre uma grande mesa de madeira, com as
pernas cruzadas como um paxá. Estando de pés descalços, como é costume
entre sapateiros quando estão a trabalhar, despertavam atenção, pelo seu
tamanho, os artelhos, bem conhecidos de Acaqui Acaquievich, com as unhas
enormes, espessas e fortes como carapaças de tartaruga. Em volta do
pescoço tinha fios de linha e de seda e estendidos nas pernas farrapos
velhos de variegadas cores. Havia três minutos já que tentava enfiar a
agulha, sem o conseguir, e por isso praguejava exaltadamente contra a
obscuridade e contra a maldita linha, gritando em altos berros: "A imbecil
não entra na agulha! Esta maldita cai-me das mãos!"
Era para Acaqui Acaquievich extremamente desagradável chegar ali no
momento exacto em que Petrovich experimentava um tal assomo de cólera:
preferiria encarregá-lo do trabalho noutra altura, quando tivesse perdido a
fúria ou, como dizia a mulher, quando esse diabo torto estivesse adormecido
pela aguardente. Nessas ocasiões, Petrovich mostrava-se relativamente
afectuoso e aquiescente, chegando mesmo a conceder um cumprimento ou
a agradecer. A mulher vinha, é claro, acto contínuo, a chorar, dizer que o
marido estava embriagado e que, por isso, ajustara o trabalho por uma

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ninharia; mas, juntando dez copeques ao preço estipulado, o assunto ficava
resolvido.
Neste momento, Petrovich encontrava-se, segundo parecia, num dos seus
dias de temperança, e, por conseguinte, rígido, pouco falador e disposto a
pedir preços exorbitantes. Compreendendo-o, Acaqui Acaquievich ainda
pensou em retroceder, sem ser visto; mas era demasiado tarde. Petrovich
virou para ele o seu único olho e Acaqui Acaquievich disse, sem querer:
- Bom dia, Petrovich!
- Muito bom dia, cavalheiro! - replicou Petrovich, desviando o olho em
direcção às mãos de Acaqui Acaquievich, a ver que bela prenda lhe traria.
- Venho a tua casa, Petrovich, efectivamente...
Convém saber que Acaqui Acaquievich se exprimia quase sempre mediante
partículas gramaticais sem qualquer significado. Se o assunto era muito
complicado, tinha por costume não terminar a frase, de modo que os
elementos principais da oração eram precedidos das palavras "coisa, com
efeito, absolutamente ..", e calava-se depois, supondo ter já dito tudo
quanto pretendia.
- Quê? Vamos lá a ver... - interpôs Petrovich, observando naquele instante,
com o seu único olho, toda a fatiota, desde a gola às mangas, desde as
costas à labita e às pernas das calças, tudo tão seu conhecido, como produto
da virtuosidade das suas mãos. Era o que, como um verdadeiro alfaiate,
fazia antes de mais conversa.
- Pois eu, o caso é este, Petrovich... este capote, a fazenda... como vês, está
ainda boa em todos os sítios... um pouco coçada, é certo, e com aspecto de
velha, embora seja nova ainda, se exceptuares neste sítio um rasgãozito,
uma coisa pequena aqui... nas costas... e também aqui... neste ombro, um
pouquinho puído. E só isto, vês? Não é grande coisa.
Petrovich pegou no capote, estendeu-o em cima da mesa, examinou-o
durante largo tempo, abanou a cabeça e estendeu a mão para uma velha
caixa de rapé que tinha na tampa o retrato de um general, cujo nome não é
possível precisar por a sua fisionomia estar suja dos dedos do possuidor.
Depois de tomar uma pitada, Petrovich pôs o capote contra a luz e voltou a
abanar a cabeça: tornou a pegar na caixa que tinha o general na tampa e,
introduzindo o rapé no nariz, fechou-a e pô-la de lado, dizendo finalmente:
- Não, não tem conserto; isto é um monte de trapos.
Ao ouvir estas palavras, a Acaqui Acaquievich oprimiu-se-lhe o coração.
- Porque dizes isso, Petrovich? - murmurou ele quase implorativamente, com
a sua voz infantil. - Só está um pouco puído aqui nos ombros, mas tu,
certamente, hás-de ter algum pedaço que...
- Não seria essa a dúvida, ainda tenho dessa fazenda - disse Petrovich. -
Mas a dificuldade reside no cosê-lo; está completamente podre, tão podre
que não aguenta a linha.
- Podes aproveitá-lo, cosendo uns remendos por cima.
- Uns remendos por cima! Mas não se segura numa fazenda neste estado! O

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próprio vento é capaz de o arrancar.
- Nesse caso, reforça então a fazenda por dentro, e ficará bem...
- Não - objectou Petrovich com decisão -, nada se pode fazer. O melhor,
visto que se aproxima agora o maior frio do Inverno, será você fazer umas
polainas desta fazenda. Sempre lhe resguardarão as pernas melhor do que
as meias, que são apenas invenção dos Alemães para ganhar dinheiro.
(Agradava a Petrovich aproveitar a ocasião para insultar os Alemães.)
Quanto ao capote, o melhor é mandar fazer um novo.
Ao ouvir a palavra "novo", toldaram-se os olhos de Acaqui Acaquievich, que
começou a ver andar à roda de si tudo quanto se encontrava naquela sala.
Só via claramente a figura do general na caixa do rapé.
- Novo? - dizia como em sonho. - Desgraçadamente, não tenho dinheiro
para tal.
- Sim, novo - repetia Petrovich com uma calma brutal.
- E, sendo novo, a quanto montaria?
- Quanto custaria?
- Sim.
- Teria de gastar uns cento e cinquenta rublos - disse Petrovich, cerrando os
lábios.
Era partidário dos efeitos fortes; agradava-lhe desconcertar por completo
alguém e lançar um olhar de soslaio para observar a cara do assustado ao
ouvi-lo.
- Cento e cinquenta rublos pelo capote! - exclamou o pobre Acaqui
Acaquievich, sendo talvez este o primeiro grito desde que nasceu, já que,
geralmente, se conservava em silêncio.
- Naturalmente - afirmou Petrovich. - E isso conforme seja o capote. Se
levar gola de marta e bandas de seda, atira a uns duzentos.
- Por Deus, Petrovich! - disse Acaqui Acaquievich com voz suplicante, sem
escutar nem pretender considerar as palavras de Petrovich ou os seus
efeitos. Arranja-me este como puder ser, para que ainda me sirva algum
tempo.
- De modo nenhum; seria perder trabalho e dinheiro - respondeu Petrovich.
Depois de ouvir aquelas palavras, Acaqui Acaquievich saiu, acabrunhado.
Petrovich viu-o caminhar pela rua e permaneceu largo tempo de pé, com os
lábios cerrados, sem fazer caso do trabalho, tal era o seu contentamento por
não se ter rebaixado nem traído a sua nobre arte de alfaiate.
Quando Acaqui Acaquievich chegou à rua, encontrava-se como num sonho.
"Alguém viu já semelhante coisa?", dizia ele com os seus botões, "Nunca
pensaria que podia chegar a tal..." E logo, após um silêncio, acrescentou:
"Ora aí está! Cheguei finalmente a isto! Nunca teria suposto que fosse
assim." E, depois de outro largo silêncio, voltou a exclamar: "Assim é, pois!
Já não há esperança possível... Acabou-se... As circunstâncias requerem-
no!"
E, dito isto, em vez de ir para casa, seguiu na direcção contrária, sem se dar

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de maneira alguma conta disso. Enquanto caminhava, roçou por ele um
limpa-chaminés, que o sujou no ombro, e caiu-lhe também em cima um
pedaço de argamassa de uma casa em construção. Não se apercebia de
nada, e, mais tarde, quando tropeçou contra um guarda municipal, ao
mudar este a espingarda para tirar tabaco do bolso, despertou ao ouvir o
mesmo admoestá-lo:
- Porque te metes debaixo do meu nariz? Não te chega a rua?
Aquilo obrigou-o a reflectir e a dirigir-se a casa. Só então lhe foi dado
concentrar os seus pensamentos e viu com clareza a sua presente situação;
começou a falar com os seus botões, sem a anterior incoerência, mas
meditando com lógica, como se revelasse a um amigo inteligente o mais
intimo segredo do seu coração.
"Não", monologava Acaqui Acaquievich. "Não convém hoje tratar com
Petrovich. Hoje, a mulher... deve ter-lhe dado uma sova. O melhor será
voltar domingo de manhã: depois da bebedeira da véspera estará ainda com
o olho pisco e sonolento, e, como precisa de voltar a beber e a mulher não
lhe dá dinheiro, se eu lhe passar uns rublos para a mão, deixa-se convencer
e conserta-me o capote."
Assim ia monologando e assim se ia animando Acaqui Acaquievich. Esperou
até ao domingo seguinte e, depois de ver a mulher de Petrovich sair de
casa, entrou com ar decidido.
Custava muitíssimo a Petrovich, com efeito, abrir o seu único olho depois do
que bebera na véspera, e cabeceava, sonolento; mas, apenas soube do que
se tratava, pareceu que se apossara dele o Diabo.
- Não pode ser! - disse. - Tem de se lazer outro novo.
Acaqui Acaquievich meteu-lhe uns copeques na mão.
- Obrigado, senhor. Agora poderei fortalecer-me um pouco à sua saúde -
disse o alfaiate. - E não se preocupe você com o capote: não serve para
nada. Far-lhe-ei um novo; e, quanto ao preço, havemos de entender-nos.
Acaqui Acaquievich preferia que ele lhe cosesse o velho, mas Petrovich não
fazia caso das suas palavras e insistia:
- Far-lhe-ei um novo, com toda a perfeição; tenha confiança em mim, farei
quanto puder. E, se for preciso, até lhe ponho botões de prata, pois agora
estão na moda.
E Acaqui Acaquievich, vendo que não tinha outra solução senão fazer um
capote novo, sentia um grande pavor na sua alma. Era necessário, tinha de
ser, mas o dinheiro? Podia, certamente, contar com a gratificação que
receberia nas próximas festas, mas esse dinheiro estava há muito já
destinado. Necessitava fazer umas calças novas, pagar ao sapateiro uma
dívida antiga de umas meias solas e, além disso, tinha de mandar fazer, sem
falta, três camisas novas, duas das quais brancas; numa palavra, o dinheiro
estava já destinado, e, ainda que tivesse um director compreensivo, capaz
de conceder uma gratificação de quarenta e cinco ou cinquenta rublos, em
vez de quarenta, o restante seria apenas uma insignificância para a soma de

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que necessitava para o capote - uma verdadeira gota de água no oceano.
Sabia perfeitamente que Petrovich costumava fazer preços exorbitantes, de
tal modo que até a mulher não podia conter-se e exclamava: "Mas tu estás
com o juízo todo? Umas vezes aceitas o trabalho por nada, e agora atreves-
te a pedir um preço que nem tu próprio vales." E sabia perfeitamente
também que Petrovich acabaria por fazer-lhe o capote por oitenta rublos;
entretanto, donde haviam de vir-lhe esses oitenta rublos? Metade ainda
podia arranjar-se: metade, sim, e talvez um pouco mais; mas onde
conseguir a outra metade? Antes de prosseguirmos, deve o leitor ficar a
saber donde lhe podia vir a primeira metade.
Acaqui Acaquievich tinha o costume de reservar uma pequena quantia por
cada rublo que gastava num mealheiro pequeno e fechado, com uma larga
abertura. Ao cabo de cada meio ano contava o dinheiro em cobre e trocava-
o por moedas de prata. Assim procedera durante muito tempo, e, desta
maneira, ao fim de alguns anos reunira uma soma superior a quarenta
rublos. A metade, por conseguinte, encontrava-se nas suas mãos; mas a
outra metade? Onde obter os outros quarenta rublos? Acaqui Acaquievich
pensava, pensava, e chegou à conclusão de que o único recurso era reduzir
até ao extremo possível todos os gastos ordinários durante um ano, abolir o
hábito de tomar chá à noite, não acender a luz e, quando precisasse de
copiar qualquer coisa, ir ao quarto da patroa e trabalhar à luz da sua vela;
ao caminhar pela rua, fazer por andar o mais cuidadosamente possível e
evitar as pedras ou pedaços de ferro, para não gastar rapidamente as solas
dos sapatos; dar à lavadeira a roupa branca com a menor frequência
possível e, para que se não gastasse, tirá-la logo ao chegar a casa e
substitui-la pela camisa de dormir, que era de algodão, muito velha, e não
podia durar muito mais.
Para dizer inteiramente a verdade, consignaremos que, a principio, lhe
custou muito habituar-se a todas estas privações, mas depois, uma vez
acostumado, chegou até a suprimir a refeição da noite; em compensação,
alimentava-se espiritualmente, pensando no seu futuro capote. A partir daí
pareceu encontrar um complemento do seu ser, como se fora casar, ou
como se se sentisse outro, como se não estivesse sozinho na vida, como se
tivesse encontrado uma companheira que aceitasse seguir juntamente com
ele pela estrada da vida; ora esta companheira não era outra senão o seu
capote, de grosso forro, sem a menor passagem. Tornou-se mais animado e
de carácter mais firme, como um homem que se propôs um fim
determinado. Do seu rosto e até dos seus passos desapareceram a dúvida e
a indecisão. No seu olhar aparecia mesmo um certo lampejo; no cérebro
passavam-lhe, como relâmpagos, pensamentos audazes e temerários:
"Porque não havia de pôr a gola de marta?" Com estas ideias tornou-se um
tanto distraído. Uma ocasião, ao copiar um oficio, esteve a ponto de fazer
um erro; quase gritou em voz alta "ai!" e fez o sinal da cruz. Uma vez por
mês, pelo menos, visitava Petrovich, com o propósito de lhe falar acerca do

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capote: onde conviria comprar a fazenda, de que cor e por que preço sairia;
e, embora um pouco preocupado, voltava sempre satisfeito a casa,
pensando que em breve chegaria o momento de comprar tudo o que era
necessário e ter pronto o capote.
O caso resolveu-se ainda mais rapidamente do que ele pensava. Contra toda
a sua expectativa, o director concedeu-lhe não só quarenta ou quarenta e
cinco, mas sessenta rublos. E esta circunstância apressou o caso. Dois ou
três meses mais de pequenos jejuns e Acaqui Acaquievich reunia
exactamente oitenta rublos. E o seu coração, de ordinário tranquilo,
começou a bater fortemente.
Logo no primeiro dia dirigiu-se, com Petrovich, a um armazém. Compraram
uma fazenda muito bonita e que não era cara, porque estes tinham sido os
seus pensamentos durante os últimos seis meses, e não se teria passado um
mês sem que tivesse ido ao armazém informar-se dos preços. Mestre
Petrovich asseverava, pelo seu lado, que não havia melhor fazenda.
Escolheram um forro de seda indiana, tão bom e tão forte que, no dizer de
Petrovich, dificilmente poderia encontrar-se seda que lhe fosse superior no
aspecto e no brilho. Não compraram marta porque, com efeito, o preço era
exorbitante; mas escolheram, em compensação, pele de gato, a melhor que
havia no armazém de pelagem, tão fina que, de longe, qualquer a tomaria
por marta. Petrovich ocupou-se duas semanas completas na feitura do
capote: era preciso pespontar muito; doutro modo tê-lo-ia terminado antes.
Pelo seu trabalho cobrou ele doze rublos, e menos não podia levar: tudo fora
cosido com costura dupla e em cada uma delas recorrera Petrovich à ajuda
dos seus próprios dentes.
Foi - não é fácil precisar qual, mas é quase certo - o dia mais solene da vida
de Acaqui Acaquievich aquele em que, por fim, Petrovich lhe trouxe o
capote. Trouxe-o numa manhã, no instante preciso em que Acaqui
Acaquievich ia a sair, para a repartição. Em nenhuma outra altura teria sido
mais oportuno, pois já o frio começara a fazer-se sentir com intensidade e
ameaçava vir ainda a ser mais agreste. Apareceu Petrovich com o capote,
como convém a um bom alfaiate. Via-se no seu rosto uma expressão tão
orgulhosa como Acaqui Acaquievich jamais vira. Parecia sentir com
intensidade que a sua obra não era nenhuma pequenez e que existia um
abismo de diferença entre os alfaiates que só põem remendos e os que
confeccionam roupa nova. Desembrulhou a obra (que trazia envolta numa
toalha de chita, que dobrou e meteu cuidadosamente no bolso). Uma vez
destapado o capote, mirou-o com grande satisfação, segurando-o com
ambas as mãos, colocou-o habilmente nos ombros de Acaqui Acaquievich e
esticou-o muito cuidadosamente, sem o abotoar. Acaqui Acaquievich, como
homem experiente, desejara verificar o comprimento das mangas; Petrovich
ajudou-o, vendo-se logo que também estas ficavam a primor. Numa palavra,
o capote estava feito com irrepreensível correcção. Petrovich não perdeu a
oportunidade de dizer que aquilo só era possível por viver, sem tabuleta,

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numa rua tão modesta; demais a mais já há muito sabia Acaqui Acaquievich
porque lhe cobrara tão barato; se fosse um alfaiate de Nevsqui Prospect
(Avenida do Neva), teria cobrado, só pelo trabalho, setenta e cinco rublos. A
Acaqui Acaquievich não agradava falar mais deste assunto com Petrovich, a
tal ponto temia aquelas formidáveis quantias com que este o assaltava!
Pagou-lhe, agradeceu-lhe e, envergando já o seu capote novo, dirigiu-se à
repartição. Petrovich seguiu-o e, parando a meio da rua, contemplou
demoradamente a sua obra, e até passou para o outro lado, adiantou-se e
voltou para trás, para observar de novo o capote de frente. Entretanto,
Acaqui Acaquievich caminhava com um ar exuberante. Sentia a todo o
momento que levava aos ombros um capote novo e, até, por diversas vezes,
sorriu de íntimo prazer. Experimentava, com efeito, duas vantagens: a
primeira, sentir mais calor; a segunda, sentir-se outro. Não se demorou pelo
caminho e chegou rapidamente à repartição; entregou o capote ao porteiro
e, olhando à direita e à esquerda, recomendou-o ao seu especial cuidado.
Não se sabe de que maneira, o certo é que correu, sem demora, por toda a
repartição que Acaqui Acaquievich tinha um capote novo e que a velha
capinha desaparecera. Todos correram à portaria a admirar o novo capote
de Acaqui Acaquievich. Desataram a felicitá-lo e deram-lhe as boas-vindas,
de tal maneira que ele começou por sorrir de contentamento e acabou por
se envergonhar. Quando o rodearam todos, dizendo que era preciso molhar
o capote novo e que, pelo menos, tinha de lhes pagar uma bebida, Acaqui
Acaquievich perdeu a calma sem saber que responder nem como defender-
se. Afirmava, muito corado, que não era um capote novo, mas velho. Por
último, um dos funcionários, ajudante do chefe, talvez para demonstrar que
não era orgulhoso e que sabia tratar com os inferiores, disse:
- Pois, então, fá-lo-ei eu em vez de Acaqui Acaquievich, e convido-os a
tomar hoje o chá em minha casa; até calha bem, por ser o dia do meu
aniversário.
Os funcionários, como é de supor, felicitaram o ajudante do chefe e
aceitaram o seu convite. Acaqui Acaquievich quis desculpar-se, mas todos o
increparam, dizendo-lhe que era um malcriado, que devia envergonhar-se
daquela incorrecção, e isto de maneira tal que não pôde escusar-se. Por
outro lado, agradava-lhe pensar que iria ao chá com o seu capote novo.
Todo aquele dia pôde considerar-se como de festa para Acaqui Acaquievich.
Voltou a casa na mesma disposição de espirito, tirou o capote e pendurou-o
cuidadosamente; regozijou-se mais uma vez com a qualidade da fazenda e
do forro e até vestiu o capote velho para fazer a comparação. Ao ver-se,
sorriu: tão grande era a diferença! E ainda muito depois de comer ele se
sorria, e mal pensava nas novas possibilidades de vida que o capote lhe
proporcionava. Comeu alegremente, não escreveu nem o mais insignificante
papel e, com voluptuosidade, deitou-se na cama até ao escurecer. Logo,
sem mais demora, se vestiu e, com o capote pelos ombros, saiu para a rua.
Sinto não poder dizer onde habitava o funcionário anfitrião: a minha

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memória começa a fraquejar e os nomes das ruas de Sampetersburgo
misturaram-se-me de tal maneira na cabeça que me é muito difícil ordená-
las. Seja como for, o facto é que vivia numa das melhores artérias da
cidade, bastante longe de Acaqui Acaquievich. Teve este de seguir
primeiramente através de ruas solitárias, de iluminação escassa; mas, à
medida que se aproximava do domicílio do funcionário, as ruas eram mais
animadas, a iluminação maior e mais intensa; os viandantes iam e vinham,
mais frequentes, multiplicavam-se as mulheres elegantemente vestidas; os
homens levavam golas de pele de castor; quase não se viam já os bancos de
madeira esburacada; os cocheiros, de libré dourada e gorro de veludo
carmesim, sobre os trenós envernizados e forrados de peles, vagueavam
pelas ruas... Acaqui Acaquievich admirava tudo aquilo como uma novidade;
há muitos anos que não saía à noite. Cheio de curiosidade, deteve-se diante
de uma montra para ver o quadro de uma mulher belíssima a descalçar um
sapato, mostrando assim toda a perna escultural; por detrás dela assomava
a uma porta um sujeito de patilhas e com uma bonita barba ao gosto
espanhol. Acaqui Acaquievich abanou a cabeça, sorrindo, e prosseguiu o seu
caminho. Porque sorria ele? Talvez por lhe serem desconhecidas todas as
pessoas com quem cruzava, ou talvez por um sentimento oculto em relação
a esse ambiente, ou então porque pensava como pensam funcionários: "Vá!
Estes Franceses! O que se diz! Que inveja causa! Há que ver, precisamente
e tal!...", ou então seria isto que pensava: que não é possível perscrutar a
alma de um homem e apreender tudo quanto pensa. Chegou por fim à casa
em que habitava o ajudante do chefe. Este vivia à grande: a escadaria era
iluminada por um magnífico candelabro; a habitação ficava no segundo
andar.
Ao entrar na antecâmara, Acaqui Acaquievich viu uma fila de taças. Entre
estas, a meio do compartimento, fervia um samovar, que espargia volutas
de vapor. Pelas paredes estavam pendurados os vários capotes e agasalhos,
alguns dos quais tinham golas de castor ou de veludo. Ouviam-se por detrás
da parede ruídos e diálogos, que se tornaram mais próximos quando um
criado abriu a porta e saiu com chávenas e taças vazias, uma compoteira e
uma bandeja com pastéis. Concluía-se que os funcionários se encontravam
reunidos já há algum tempo e que acabavam de tomar a primeira chávena
de chá. Acaqui Acaquievich despiu o capote sozinho e penetrou no salão;
ante ele resplandeceram as velas, os funcionários, os cachimbos, as mesas
de jogo, e surpreenderam-no confusamente os diversos ruídos; ouvia-se em
todas as direcções rumor de conversas e movimentos de cadeiras.
Permaneceu atónito no centro do salão, pensando no que devia fazer. Mas já
tinham reparado nele; rodearam-no, com alguns gritos, e levaram-no à
antecâmara, para que lhes mostrasse o capote. Acaqui Acaquievich
encontrava-se um tanto aflito, mas, como homem de bom coração, não
pôde deixar de alegrar-se ao ver como todos elogiavam o seu capote.
Depois, claro está, deixaram-no a ele e ao seu capote e voltaram para as

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mesas de jogo.
Tudo aquilo - ruído, conversação, grande número de convivas - era para
Acaqui Acaquievich como que um sonho. Não sabia verdadeiramente o que
experimentava, nem onde havia de colocar as mãos, os pés, o seu próprio
ser; por último, aproximou-se dos jogadores, olhou as cartas, contemplou
ora um, ora outro, e pouco depois começou a bocejar, sentindo que se
aborrecia, tanto mais que havia passado há muito a hora a que costumava
deitar-se. Quis, por conseguinte, despedir-se do dono da casa, mas não lho
consentiram, alegando que tinha de beber uma taça de champanhe em
honra do novo elemento da sua indumentária. Uma hora mais tarde foi
servida a ceia, composta de fiambre, vitela, empada, pastéis e champanhe.
Acaqui Acaquievich teve de beber duas taças, sentindo que, depois delas, se
tornava ainda mais alegre e ruidoso tudo quanto o cercava; entretanto, não
se esqueceu de que dera já a meia-noite, e, portanto, muito tarde para estar
fora de casa. A fim de que ninguém o obrigasse a permanecer ali, saiu
silenciosamente do salão e procurou o seu capote, que, não sem íntimo
desgosto, encontrou caído no chão; apanhou-o, sacudiu-o, limpou-o, pô-lo
pelos ombros, desceu as escadas e encontrou-se ao ar livre.
Na rua tudo estava iluminado. Algumas tabernas (que são os clubes dos
porteiros e gente parecida) achavam-se ainda abertas; das outras, já
fechadas, saiam longos feixes de luz por entre os interstícios das portas,
mostrando que não estavam sem freguesia, criados certamente que se
entretinham a falar e a dizer mal dos patrões. Acaqui Acaquievich caminhava
com alegre disposição de ânimo e quase se sentiu capaz de correr atrás de
uma dama que passou veloz por diante dele, dama cujo corpo se lhe
afigurou extraordinariamente flexível. Dominou-se, no entanto, e prosseguiu
muito lentamente, admirado de si próprio. Em breve se estenderam ante ele
as ruas desertas, onde de dia não se notava alegria alguma, quanto mais de
noite. Apareciam-lhe agora mais profundas e isoladas, luziam os candeeiros
cada vez menos, porque já o azeite se ia esgotando; começavam a surgir as
casas de madeira dos bairros mais pobres; em parte alguma se via vivalma;
a única luz era agora a que reflectia a neve do chão; e sobre a neve
recortavam-se lugubremente as sombras das baixas choupanas, de janelas
cerradas. Aproximava-se do lugar em que a rua desembocava numa praça
enorme, mal se podendo ver as casas do outro lado, como se se tratasse de
um terrível deserto.
Ao longe (só Deus sabe onde!) brilhava o fogo de alguma guarita, que
parecia encontrar-se nos confins do mundo. A boa disposição de Acaqui
Acaquievich passara já. Penetrou na praça, não sem certo terror, como se o
seu coração pressentisse perigo. Olhou para trás de si e para o lado; em
volta via-se apenas o espaço deserto. "É melhor não olhar", pensou.
Continuou a avançar, de olhos fechados. Quando os abriu, para ver se
estava já próximo do outro extremo da praça, observou que tinha diante de
si gente de bigode. Mas nada mais pôde distinguir. Toldaram-se-lhe os olhos

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e recebeu uma pancada no peito. "Este capote é meu!", disse um dos
homens, agarrando-lhe pela gola. Acaqui Acaquievich quis ainda gritar: "Ó
da guarda!", mas o outro colocou-lhe a mão na boca e disse: "Desgraçado
de ti se gritas!" O nosso herói só se deu conta de que lhe arrancavam o
capote e de que lhe davam um violento pontapé. Caiu então de costas na
neve e nada mais sentiu. Voltou a si minutos depois, mas já não viu
ninguém. Sentindo a frialdade do chão e a falta do capote, começou a gritar;
parecia entretanto que a sua voz se perdia naquela praça enorme e não
atingia o outro lado. Desesperado, sem parar de gritar, pôs-se a correr em
direcção à guarita, atrás da qual estava um soldado apoiado à sua arma;
parecia perguntar-se, com curiosidade, quem diabo era aquele que vinha
assim a correr e a gritar com voz humana. Acaqui Acaquievich chegou,
ofegante, junto dele e começou, com voz aguda, a clamar que se tinha
embriagado e que nada mais sabia senão que dois homens o tinham
roubado. O soldado replicou nada ter visto; tinha observado apenas que dois
homens o deixavam no meio da praça, mas supusera que eram seus
amigos; acrescentou que, em vez de queixar-se ali, em vão, devia ir no dia
seguinte à esquadra, onde por certo investigariam acerca de quem lhe
roubara o capote.
Acaqui Acaquievich dirigiu-se para casa num estado lamentável: os cabelos,
que ainda lhe restavam, em pequenas quantidades, nas têmporas e na nuca,
totalmente desgrenhados; o peito, as costas e as calças cobertos de neve. A
velha patroa, ao ouvir o tremendo ruído do batente da porta, saltou
rapidamente da cama, calçando apenas uma meia, e foi a correr abrir
aquela, segurando pudibundamente a camisa contra os seios; mal abriu, ao
ver Acaqui Acaquievich, esqueceu o seu pudor. Quando o hóspede contou o
que lhe sucedera, ela cruzou as mãos de espanto e disse ser preciso recorrer
sem demora ao capitão da polícia, "porque o tenente nada mais faz que
ouvir, fazer muitas promessas e dar tempo ao tempo"; melhor era ir
directamente ao capitão, de quem ela tinha boas informações, pois Ana, que
fora sua cozinheira estava agora de ama em casa dele. Acrescentou que o
via muitas vezes, principalmente ao domingo, na igreja, onde rezava com
muita devoção e, ao mesmo tempo, olhava amigavelmente para toda a
gente, parecendo um homem bondoso. Depois de ouvir este conselho,
Acaqui Acaquievich, amargurado, retirou-se para a sua habitação. Como ele
passou a noite... compreendê-lo-á quem tenha capacidade de se imaginar
na situação de uma outra pessoa.
Na manhã seguinte, muito cedo, dirigiu-se ao Comissariado, mas disseram-
lhe que o capitão estava ainda a dormir; foi às dez e disseram-lhe outra vez:
"Está a dormir"; foi às onze e responderam-lhe: "Não está"; à hora de
comer... Mas os amanuenses não lhe consentiam de maneira nenhuma vê-
lo, e queriam saber exactamente do que se tratava e o que acontecera; de
maneira que Acaqui Acaquievich quis provar, uma vez na vida, que tinha
energia e disse, com ar decidido, que precisava de falar ao inspector, que

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não consentia que lhe negassem a entrada, que vinha da repartição tal, do
ministério tal, para tratar de um assunto de serviço, que se veria obrigado a
apresentar reclamações contra eles e saberiam então como elas doíam.
Contra isto não se atreveram os amanuenses a dizer nada e foram anunciá-
lo ao inspector. Este tomou distraídamente nota do roubo do capote. Em vez
de atender ao ponto principal da questão, começou a perguntar a Acaqui
Acaquievich: "Porque voltava tão tarde a casa? Tinha passado a noite
nalguma casa de perdição?" - de tal maneira que, ao sair, Acaqui
Acaquievich não sabia já bem se lhe tinha ou não exposto o assunto do
capote.
Faltou nesse dia ao serviço, pela primeira vez na sua vida. No dia seguinte
apresentou-se pálido e com o antigo capote, que parecia agora muito mais
esfarrapado.
A noticia do roubo - apesar de alguns funcionários aproveitarem a ocasião
para novas zombarias - comoveu, no entanto, muitos. Resolveram fazer
uma subscrição, mas o resultado foi insignificante: os empregados da
repartição tinham subscrito já para o retrato do director e tinham comprado,
por indicação do chefe, amigo do autor, um livro que acabara de publicar-se.
Um, mais disposto a compadecer-se, decidiu, pelo menos, ajudar Acaqui
Acaquievich com um bom conselho e disse-lhe que não devia ir à Inspecção,
pois podia suceder que, mesmo que o inspector encontrasse o capote, este
continuasse nas mãos da polícia, se não fosse capaz de demonstrar
legalmente que lhe pertencia; melhor seria dirigir-se a uma "alta
personalidade", com a mediação da qual pudesse dar-se mais rapidez ao
andamento do caso.
Não pareceu mal a Acaqui Acaquievich tal conselho, e por isso decidiu
dirigir-se a uma "alta personalidade". Convém saber que essa "alta
personalidade" ascendera há pouco tempo, tendo sido, até ai,
completamente ignorada. A sua posição, não sendo, aliás, das mais
elevadas, comparada a outras, não era destituída de relevo. Sempre se
encontrará gente disposta a apreciar estas personalidades que carecem de
intrínseca importância e que, no entanto, são elevadas em relação a muitos.
A personalidade a que nos referimos esforçara-se por se evidenciar de
muitas maneiras, a saber: introduzira o costume de que os funcionários
inferiores o esperassem na escada quando entrava de serviço e estabelecera
que ninguém teria directo acesso à sua presença, devendo observar-se
estritamente a ordem seguinte: o amanuense devia entregar a petição ao
oficial; este, por sua vez, entregá-la-ia ao funcionário de categoria
imediatamente superior, até chegar, de grau em grau, ao seu destino. Assim
se encontra tudo infectado na santa Rússia pela imitação: julga cada um
desempenhar bem o seu importante papel imitando o que lhe está acima.
Diz-se até que certo conselheiro titular, quando o fizeram director de uma
repartição modestíssima, fez separar, por um tabique, o seu gabinete
daquilo a que ele chamava "o pessoal de serviço", pondo à porta dois

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contínuos agaloados, que abriam a porta a quem chegava: e convém saber
que nesta importante secretaria de Estado pouco mais cabia que uma vulgar
secretária.
O modo de receber, assim como os gestos e hábitos da "alta personalidade",
eram graves e majestosos, mas um tanto complicados. O fundamento
principal do seu sistema era a disciplina. "Disciplina, disciplina e...
disciplina", costumava ele dizer. E ao repetir pela terceira vez esta palavra
fixava intensamente a pessoa a quem se dirigia, ainda mesmo sem o menor
motivo para tal, pois os dez funcionários de que se compunha o mecanismo
burocrático da repartição andavam sempre num verdadeiro terror. A
conversação da "alta personalidade" com os inferiores recaia, em geral, no
tema disciplina e compunha-se de frases deste género: "Como se atreve
você? Sabe com quem está a falar? Sabe bem quem é que se encontra
diante de si?" Era, noutros aspectos, homem de bom coração, afável e até
serviçal para os da sua classe; mas a patente de general fizera-lhe perder o
senso comum. Desde que recebera a nomeação, andava desvairado,
descontrolara-se e não se apercebia bem do que se passava nele próprio. Se
tratava com iguais, era um homem correcto, ordenado, e até, sob muitos
aspectos; inteligente, mas, apenas se encontrava num grupo de gente de
situação social inferior, já não sabia onde tinha a mão direita: tornava-se
hirto e silencioso e a sua situação era tanto mais digna de dó quanto é certo
que ele era o primeiro a saber que poderia passar o tempo de maneira muito
mais agradável. Transparecia, às vezes, nos seus olhos o desejo de
entabular uma conversa interessante com os funcionários; mas paralisava-o
este pensamento: "Não seria excesso da sua parte? Não seria excesso de
familiaridade, com que a sua dignidade perigasse?" Como consequência de
tais reflexões, permanecia eternamente só, impenetrável, limitando-se a
emitir um ou outro monossílabo. Conquistou por esta razão o título de "o
homem que se aborrece".
Foi perante esta "alta personalidade" que se apresentou Acaqui Acaquievich,
precisamente no momento menos favorável, muito adverso para ele,
embora o mais oportuno possível para a "alta personalidade", que nessa
própria ocasião se encontrava no seu gabinete e dialogava muito
alegremente com um antigo conhecido, companheiro de infância, a quem há
já vários anos não via. Tal foi o momento em que lhe anunciaram um tal
Baquemaquine. Perguntou bruscamente: "Quem é?" Responderam-lhe que
"um funcionário". "Bom, que espere; não tenho agora tempo", replicou a
"alta personalidade". É preciso dizer-se que a "alta personalidade" mentia
descaradamente. Tinha tempo; já acabara a conversa entre os dois amigos e
estavam naquele ponto em que se recorre a frases desta espécie: "Assim
era nesse tempo, Ivan Abramovich." "E como dizes, Estêvão Valarmovich."
Entretanto, mandou que o funcionário esperasse, com o propósito de
demonstrar ao amigo, há muito retirado do serviço oficial numa casinha da
aldeia, quanto tempo tinham de esperar os funcionários na sua antecâmara.

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Finalmente, depois de terem falado quanto quiseram (ou, melhor dizendo,
depois de terem calado o suficiente) e terem fumado um cigarro sentados
nas comodíssimas poltronas, de repente, como se por casualidade se
recordasse, disse ao secretário, que estava de pé, junto à porta, com uns
papéis para informar: "Se ainda ai está esperando o funcionário, diga que
pode entrar."
Vendo o humilde Acaqui Acaquievich, com o seu velho uniforme, voltou a
cara de repente e perguntou: "Que deseja?", com o tom de voz brusco e
forte que antes experimentara em casa para tais emergências. Acaqui
Acaquievich, que era um homem muito respeitador, atrapalhou-se um pouco
e, com a liberdade com que lhe era possível dispor da sua língua, explicou,
juntando agora com mais frequência partículas desnecessárias, que o capote
era completamente novo, que lho tinham roubado de um modo desumano,
que se lhe dirigia para que interviesse, escrevendo ao inspector, fazendo
aparecer o capote.
Pareceu ao general que tais maneiras eram demasiado familiares,
- Que é isso, senhor? - perguntou bruscamente. - Não conhece o
regulamento? Donde vem? Não sabe como se procede em tais casos? A
primeira coisa que devia fazer era dirigir um requerimento à secretaria; esse
requerimento seria então remetido, pelas vias competentes, ao chefe de
repartição; este, por seu turno, remetê-lo-ia ao secretário, e o secretário tê-
lo-ia remetido a mim...
- Mas, Excelência... - disse Acaqui Acaquievich, esforçando-se por reunir a
pouca força que encerrava a sua alma e sentindo que transpirava de modo
atroz. - Eu, Excelência, atrevi-me a apresentar-me directamente, porque os
tais secretários... é gente em que se não pode confiar...
- Quê? ... O quê?... O quê?... - clamou a "alta personalidade"... - Onde foi o
senhor buscar essa ideia? Donde lhe surgiram tais pensamentos? Que
audácia se está generalizando entre os jovens contra os superiores e a
hierarquia?
A "alta personalidade" demonstrava assim que não reparara em Acaqui
Acaquievich, o qual estava já nos 50; doutra maneira, chamar-lhe jovem
seria bastante estranho.
- Sabe com quem está a falar? Sabe bem quem tem diante de si? Percebe
isto? Percebe?, pergunto eu.
E deu uma forte patada no chão, imprimindo à voz tanta energia que mesmo
um outro que não fosse Acaqui Acaquievich teria ficado bastante assustado.
Este, porém, deveras aterrado, sentiu um abalo interior e começou a tremer
convulsivamente; mal se podia aguentar de pé, e, se um empregado não
acorresse a ampará-lo, teria caído ao chão; retiraram-no hirto do gabinete.
Mas a "alta personalidade" estava contente com o efeito, que fora muito
além de todos os seus cálculos. Embriagado com a ideia de que a sua voz
forte era capaz de perturbar um homem até àquele ponto, olhou de lado
para observar a impressão que fizera a cena, notando, não sem profundo

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prazer, que o amigo se encontrava na mesma situação indefinível e que até
começava a sentir angústia.
Do modo como saíra do gabinete da "alta personalidade" e como chegara à
rua nunca Acaqui Acaquievich foi capaz de se recordar. Não podia fixar-se no
que acontecera: jamais, em toda a sua vida, um general, e demais o vento e
a neve fustigavam-no; seguia pelo meio da rua, com a boca aberta,
perplexo; o vento soprava, soprava, como é habitual em Sampetersburgo
soprar o vento nas quatro direcções, de todas as encruzilhadas. Em certo
momento a garganta resfriou-se-lhe, começou a sentir os sintomas de uma
angina e, quando chegou a casa, não tinha sequer forças para proferir uma
palavra. Deitou-se na cama com o pescoço exageradamente inchado. No dia
seguinte sobreveio uma febre altíssima. Graças à magnânima ajuda do clima
sampetersburguês, a enfermidade progrediu mais rápidamente do que
poderia esperar-se, e quando chegou o doutor tomou-lhe o pulso e entendeu
que devia limitar-se a receitar qualquer coisa para o enfermo não morrer
sem o benéfico auxílio da medicina; quanto ao mais, declarou que não
viveria além de dia e meio; dirigiu-se à patroa, dizendo: "E a senhora não
perca tempo: mande vir um caixão de pinho, pois um de mogno é muito
mais caro."
Não sabemos se Acaqui Acaquievich ouviu essas palavras proferidas acerca
da sua sorte; e, no caso de as ter ouvido, não sabemos se foram
susceptíveis de o emocionar, porquanto permaneceu constantemente no
delírio da febre. Visionava sucessivos conjuntos de memórias e de fantasias:
ia visitar Petrovich e encarregava-o de lhe fazer um capote, mas com uma
defesa contra os ladrões, que lhe surgiam sem cessar por baixo da cama, e
pedia à patroa que lhe trouxesse um deles preso e coberto com a manta;
logo perguntava porque lhe traziam um capote velho, quando possuía um
novo; depois julgava encontrar-se diante do general, ouvindo os seus
insultos, e dizia: "Perdoe Vossa Excelência"; por último praguejava nos
termos mais grosseiros, de tal modo que a velha hospedeira se benzia e
persignava, pois nunca tinha ouvido sair da boca dele tais palavrões, tanto
mais quanto essas palavras eram contraditórias com as que anteriormente
proferira, e principalmente com a expressão "Vossa Excelência". Começou
depois a falar sem o mínimo sentido, de tal modo que era impossível
perceber fosse o que fosse; só podia inferir-se que as expressões
incoerentes dos seus pensamentos convergiam para um único e idêntico
objectivo: o capote. Finalmente, o pobre Acaqui Acaquievich morreu. Não foi
selada a habitação, nem coisa alguma arrolada; em primeiro lugar, porque
não existiam sucessores, e, em segundo lugar, porque a sua herança era,
realmente, muito pequena, a saber: um embrulhinho com penas de ganso,
um livro de papel branco do usado nos ofícios, três pares de coturnos, dois
ou três botões caídos das calças e o capote já nosso conhecido. Só Deus
sabe para quem tudo isso ficou; supomos, aliás, que não interessa aos
leitores este pormenor da nossa narrativa. Levaram Acaqui Acaquievich a

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enterrar. E Sampetersburgo ficou sem Acaqui Acaquievich, como se nunca
ali tivesse existido.
Desapareceu e ocultou-se um ser a quem ninguém protegera, a quem
ninguém dedicara afeição e que nem sequer atraíra o interesse de qualquer
naturalista, um desses indivíduos que não desdenham pôr num alfinete a
mosca vulgar e observá-la ao microscópio; um homem que atraíra a
zombaria dos seus companheiros de repartição e que desceu à sepultura
sem ter realizado qualquer acto excepcional; antes pelo contrário, a quem
nada importava, ainda que no fim da sua vida brilhasse para ele a luz sob a
forma de um capote, reanimando um momento fugaz a sua pobre vida, e
sobre quem caiu depois a desgraça em grau superior às suas forças, como
cai também, por vezes, sobre os mais poderosos da Terra... Poucos dias
depois da sua morte compareceu na sua residência um contínuo, enviado
pela repartição, com ordem para se apresentar imediatamente; exigia-o o
chefe; mas o homem teve de voltar sozinho, levando a informação de que o
funcionário não podia apresentar-se. Tendo-lhe sido perguntado: "Porque
não pode?", respondeu estas palavras: "Não pode: morreu; há quatro dias
que o enterraram." Desta maneira se conheceu na repartição a morte de
Acaqui Acaquievich, e no dia seguinte já estava sentado no seu lugar um
novo funcionário, muito mais alto, que não desenhava as letras em linhas
tão rectas, mas, pelo contrário, em linhas muito mais inclinadas e
contrafeitas,
Mas quem poderia imaginar que ainda não dissemos tudo acerca de Acaqui
Acaquievich, condenado a tornar-se famoso alguns tempos depois da morte,
como recompensa de uma vida que passou ignorada? Sucedeu
efectivamente isso, e a nossa pobre história tem uma abrupta conclusão.
Começou a difundir-se por Sampetersburgo o rumor de que na ponte de
Kaliuquine, nas ruas vizinhas e nos bairros a que ela conduzia aparecia de
noite um fantasma, com aspecto de funcionário público, que procurava um
capote roubado e tirava capotes de todos os ombros, sem diferençar classes
ou profissões: os de gola de pele de gato, de castor, de coelho, de raposa ou
de qualquer outra espécie de pele. Um dos funcionários da repartição viu
com os seus próprios olhos o fantasma e reconheceu imediatamente o
defunto Acaqui Acaquievich; mas produziu-lhe este tal terror que se pôs a
correr quanto podia, sem se atrever a voltar a olhar para o fantasma, que o
ameaçava com o dedo espetado. De todos os lados surgiam queixas de
indivíduos a quem tinham desaparecido os capotes, e isso acontecia a
titulares e também às altas gentes do Paço; muitos tinham-se até
constipado em consequência do roubo. A polícia fez investigações para se
apoderar do defunto, vivo ou morto, e castiga-lo severamente, para exemplo
de outros, mas a diligência não resultou. Assim, por exemplo, um polícia de
vigilância a uma das pequenas ruas de Kiriuquine, tendo agarrado o defunto
pela gola (no momento em que este ia a roubar o capote de certo músico,
que então tocava flauta), chamou em seu auxílio outros guardas de ronda,

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enquanto tirava do bolso a caixa de rapé para encher o nariz, que já lhe
gelara seis vezes; mas o rapé devia ser de tal qualidade que nem sequer o
morto pôde suportá-lo. Mal o polícia, fechando com o dedo a narina direita,
meteu o rapé na esquerda, o defunto espirrou tão fortemente que lançou
salpicos pelos olhos. E enquanto o polícia esfregava os olhos com as mãos, o
defunto desaparecia. Chegaram a duvidar se, na verdade, o tinham tido na
mão. Desde aí, os polícias amedrontaram-se tanto com as almas do outro
mundo que não se atreviam a apanhá-las nem sequer vivas, e só de longe
gritavam: "Olá, segue o teu caminho!"
E o funcionário defunto começou a aparecer também na ponte Kaliuquine,
suscitando terror às pessoas tímidas.
Mas abandonámos por completo a "alta personalidade", verdadeira
responsável porque a nossa história tenha tido um fim fantástico. Para honra
da verdade, devemos dizer, antes de mais nada, que a "alta personalidade",
depois da morte do pobre Acaqui Acaquievich, sentiu alguma compaixão. A
piedade não lhe era completamente estranha; o seu coração sentia impulsos
de muito boas acções; simplesmente a sua categoria não lhe permitia segui-
los. Mal o amigo que o visitara saiu do seu gabinete, começou a pensar no
pobre Acaqui Acaquievich. E desde então, muitas vezes, quase diariamente,
evocava Acaqui Acaquievich, pálido, humilde, incapaz de reagir à sua
repreensão. Aquela recordação causava-lhe tão grande intranquilidade que,
decorrida uma semana, resolveu enviar um funcionário a casa de Acaqui
Acaquievich para se informar do que havia, como estava e se nalguma coisa
podia ajudá-lo. Ao saber que morrera de febre, de um dia para o outro,
comoveu-se profundamente, escutou as censuras da sua consciência e
esteve um dia inteiro de mau humor.
Desejando distrair-se e esquecer aquela desagradável impressão, foi, à
noite, a casa de um amigo, o que se reflectiu de um modo admirável no seu
estado de espírito. Esteve animada a conversa, que decorreu agradável e
amistosa; numa palavra, passou a noite muito satisfeito. Ao cear, bebeu
duas taças de champanhe, que, como se sabe, é um excelente meio de
aumentar a alegria. O champanhe, modificando-lhe o humor, decidiu-o a ir
visitar certa senhora sua conhecida, Catarina Ivanovna, uma alemã,
segundo parece, com quem mantinha afectuosas e excessivamente íntimas
relações. Devemos acrescentar que a "alta personalidade" não era já um
homem novo e solteiro; era casado e todos o consideravam um honrado pai
de família. Tinha um filho funcionário na Chancelaria e uma filha, bonita
rapariga de 16 anos, com o nariz um pouco adunco, que vinha todos os dias
beijar-lhe a mão, dizendo: "Bonjour, papa!" A esposa, que não se pode dizer
que fosse velha ou feia, estendia-lhe a mão para que ele lha beijasse;
depois, voltando-se para o outro lado, beijava-lhe ela, por seu turno, a mão.
Mas a "alta personalidade", que se encontrava, aliás, plenamente satisfeito
com as ternuras domésticas, achou, no entanto, muito importante, para se
impor aos amigos, ter uma amante num bairro da cidade afastado daquele

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onde vivia. A amante não era nem mais nova nem mais fresca do que a
esposa, mas estes enigmas existem no mundo, e não é nosso propósito
esmiuçá-los. Assim, pois, a "alta personalidade" saiu de casa do seu amigo
e, sentando-se na carruagem, disse ao cocheiro: "Para casa de Catarina
Ivanovna"; e, embrulhando-se no seu quente capote, permaneceu nesse
estado agradável, como não é possível imaginar melhor para um russo, em
que nada se pensa e em que, entretanto, as ideias se agitam na cabeça,
cada qual mais lisonjeira, sem haver o penoso encargo de as seguir ou
coordenar. Toda a sua alegria consistia em recordar o sítio onde passara a
noite e todos os ditos com que fizera rir às gargalhadas o restrito e amável
círculo dos seus amigos; repetia a meia voz muitos desses ditos espirituosos
e observava que conservavam toda a graça dos antigos tempos, não
podendo assim deixar de rir-se sozinho com vontade.
Incomodou-o subitamente a ventania que se levantara, Deus sabe donde e
porquê, fustigando-o fortemente no rosto, atirando-lhe flocos de neve aos
olhos, bufando-lhe na gola do capote como na vela de um navio, ou, pelo
contrário, colando-lha inesperadamente à cara com força sobrenatural, de
tal modo que se agitava constantemente de uma maneira e de outra, sem
poder libertar-se. De repente sentiu a "alta personalidade" que alguém o
agarrava muito fortemente pela gola do capote. Ao voltar-se, notou que era
um indivíduo de pequena estatura, com um fato velho e coçado, e
reconheceu com terror Acaqui Acaquievich.
O rosto do funcionário estava pálido e o olhar era bem o de um defunto. Mas
o terror da "alta personalidade" não teve limites quando viu que a boca do
morto se abria e, exalando um odor de sepultura, lhe dirigia estas palavras:
"Sempre te apanhei! Agarrei-te finalmente pela gola! Preciso do teu capote!
Não quiseste preocupar-te com o meu, e até me insultaste! Dá-me agora o
teu!" A pobre "alta personalidade" por pouco não morreu de susto.
Era bem conhecida a sua severidade para com os inferiores e, considerando
o seu aspecto enérgico, todos diziam: "Está ali uma personalidade!" No
entanto, aqui, como muitos outros que posam de heróis, sentia tal pavor
que, não sem razão, começou a recear cair doente. Ele próprio despiu o
capote e disse para o cocheiro, com voz alterada: "Segue para casa! Sem
demora!" Mal o cocheiro ouviu aquele tom de voz, que o amo só empregava
nos momentos decisivos e que era acompanhado muitas vezes de alguma
coisa de mais efectivo, ocultando a cabeça entre os ombros, brandiu o
chicote e a carruagem despediu como um raio. Seis minutos depois achava-
se a "alta personalidade" à porta da cocheira. Pálido, amedrontado e sem
capote, em vez de visitar Catarina Ivanovna, entrou em casa, ocultou-se
num quarto interior e passou a noite muito inquieto. No dia seguinte de
manhã, à hora do pequeno-almoço, a filha, ao vê-lo, disse imediatamente:
"Como estás pálido, papá!"; mas o papa calou-se e a ninguém confessou
palavra do sucedido, nem acerca do lugar onde estivera, nem onde se
dirigira depois. Aquele sucesso impressionara-o fortemente. E muito poucas

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vezes mais lhe ouviram dizer: "Como se atreve o senhor? Sabe quem tem
diante de si?"; e, se tal acontecia, nunca era sem se informar antes do que
se tratava.
E o mais notável foi, todavia, que a partir daquele dia não voltou a aparecer
o funcionário defunto: talvez porque o capote do general lhe ficava
perfeitamente. O certo é que nunca mais se ouviu falar de um roubo de
capote do mesmo género. Muitos, já se vê, não queriam ainda tranquilizar-
se e contavam que em certos sítios da cidade mais afastados aparecia o
funcionário defunto. Um polícia viu, com os seus próprios olhos, sair o
fantasma de uma casa; mas, achando-se um tanto debilitado e falto de
forças, não se atreveu a detê-lo e limitou-se a segui-lo de longe. O
fantasma, em determinado sítio, deu uma volta, olhou e polícia e perguntou-
lhe: "Que desejas?", mostrando um punho que não é possível observar nos
seres vivos. O polícia replicou: "Nada", e voltou para trás. O fantasma, que
era, no entanto, muito mais alto e tinha uns imensos bigodes, dirigiu-se com
grandes passadas para a ponte de Obujo, desaparecendo nas trevas da
noite.

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Fontes:

http://www.virtualbooks.com.br/v2/capa/
http://www.lendo.org/wp-content/uploads/2007/06/nicolai-gogol-o-capote.pdf

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