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terça-feira, 28 de junho de 2011

O Sargento Verde-Conto de Monteiro Lobato

O Sargento Verde
Por : Monteiro (Histórias de Tia Nastácia)


Era uma vez um homem muito rico, que tinha uma filha, linda, linda. Um dia apareceu um moço, também muito lindo, que quis casar com ela. Foi combinado o casamento, mas Nossa Senhora, que era madrinha de batismo da moça, apareceu-lhe num sonho e disse:

— Minha filha, toma cuidado, porque vais casar com o "cão". Depois do casamento teu marido há de querer levar-te para a casa dele, e o que tens de fazer é o seguinte: irás montada no cavalo mais magro que houver; quando chegares a um ponto do caminho, onde há uma encruzilhada, teu marido quererá tomar pela esquerda; tu tomaras pela direita e nesse momento lhe mostrarás um rosário. Ele então estoura e vai para o inferno.


Afinal chegou o dia do casamento e houve grandes festas, mas desde a noite do sonho a moça andava numa grande tristeza. As palavras de Nossa Senhora não lhe saíam da imaginação.

Na hora da partida trouxeram-lhe um lindo cavalo. Ela recordou-se do sonho e não quis montar nele; pediu outro — o mais magro e feio que houvesse. O pai estranhou aquela esquisitice, mas a moça tanto insistiu que ele teve de ceder — e lá se foi ela no cavalo mais magro e feio que havia.
Quando chegaram à encruzilhada, o "cão" quis que a moça tomasse pelo lado
esquerdo, dizendo ser esse o caminho que levava à sua casa.
— Vá o senhor na frente — respondeu a moça — eu sigo atrás. — E assim que ele
enveredou pela esquerda, ela tomou pela direita e sacudiu no ar o rosário.
Mal fez isso, ouviu-se um estouro e o ar se encheu de fedor de enxofre. É que o "'cão"
havia rebentado e ido para o inferno.

A moça continuou a galope por aquele caminho da direita, até que bem lá adiante teve a idéia de mudar de figura. Apeou, cortou os cabelos e vestiu-se de homem — uma roupa verde. E, verdinha assim, chegou a um reino onde se ofereceu para entrar no exército do rei como sargento.

O rei gostou muito daquele sargento, a ponto de convidá-lo a passear com ele pelos jardins do palácio. É tantos passeios houve que a rainha ficou apaixonada pelo sargento e lhe declarou o seu amor. Mas o sargento respondeu: "Senhora, eu jamais trairei meu rei."
A rainha, furiosa da vida, levantou um falso contra ele, dizendo ao marido o seguinte:

— Saiba Vossa Majestade que o Sargento Verde anda se gabando de que é capaz de subir a cavalo as escadarias do palácio, jogando para o ar três laranjas e aparando-as no mesmo copo.
Admirado daquilo, o rei mandou chamar o Sargento Verde e contou-lhe o caso. O
Sargento Verde respondeu:
— Saiba Vossa Majestade que eu não disse isso; mas como a rainha minha senhora
afirma que eu disse, estou pronto para subir a cavalo as escadarias e jogar as três laranjas.

Disse aquilo por dizer e, muito triste da vida, foi conversar com o seu cavalo magro, ao qual contou tudo. O cavalo aconselhou-a a que não se amofinasse e que no dia marcado tudo fizesse como a rainha queria.

No dia marcado o Sargento Verde se apresentou para a grande prova, e de fato subiu e desceu várias vezes as escadarias, montado em seu cavalo magro; e lançou para o ar as três laranjas, que aparou direitinho no copo, sem errar uma só.
Teve os maiores aplausos de todos, menos da rainha, que mordeu os lábios de ódioDias depois, num dos seus passeios pelos jardins do palácio, a rainha achou jeito de novamente lhe declarar amor — e pela segunda vez o sargento respondeu que jamais trairia o seu bom rei. A rainha, então, mais danada ainda, inventou que o Sargento Verde andava dizendo que era capaz de plantar uma bananeira à hora do almoço e ter bananas maduras à hora do jantar.

O rei mandou chamar o Sargento Verde e indagou dele se era verdade aquilo. O sargento respondeu que nada havia dito, mas como não queria desmentir a rainha, estava pronto para plantar a bananeira.
Disse isso e foi, muito triste, conversar com o cavalo magro, o qual lhe falou que
plantasse a bananeira e deixasse o resto por sua conta.

No outro dia, lá pela hora do almoço, o Sargento Verde foi e plantou uma muda de bananeira no pátio do palácio, e a planta começou logo a crescer e a deitar cacho, de modo que quando o jantar foi posto na mesa já havia bananas maduras.

Todos abriram a boca de admiração, mas a rainha mordeu os lábios até verter sangue. Apesar disso, tentou mais uma vez o Sargento Verde, declarando-se apaixonada por ele, e o sargento pela terceira vez respondeu que jamais enganaria o seu bom rei. A malvada rainha então foi dizer ao marido que o Sargento Verde andava se gabando de ser capaz de passear a cavalo sobre ovos, sem quebrar um só.

O rei mandou chamá-lo e perguntou se era verdade. O Sargento Verde respondeu que não era, mas como não queria desmentir a rainha, estava pronto para andar a cavalo em cima dos ovos. E andou. Passeou montado no cavalo magro por cima de dúzias de ovos sem quebrar um só.

A rainha inventou contra ele uma quarta perversidade, e foi que ele andava dizendo ser capaz de ir ao fundo do oceano em busca da irmã do rei, que fora aprisionada por um monstro.

O rei chamou o Sargento Verde e indagou se era verdade. Ele disse que não, mas que estava pronto para ir ao fundo do mar em busca da princesa encarcerada. Disse isso e foi conversar com o cavalo magro, ao qual contou tudo.

— Não se amofine — murmurou o cavalo — arranje uma garrafa de azeite, um saquinho de sal e um papel de alfinetes; depois monte em mim e vá para a praia; lá puxe a espada e corte o mar em cruz: as águas se abrirão; entre pela abertura e vá até onde estiver a moça; agarre-a e ponha-a na garupa e toque para trás. Mas muito cuidado com o monstro que guarda a princesa; ele vai persegui-la, e o meio de evitar isso é derramar o saquinho de sal e depois soltar os alfinetes. Durante a corrida a moça pronunciará três palavras. Tome muito sentido nessas palavras.

O Sargento Verde prestou a maior atenção a tudo; arranjou o azeite, o sal, os alfinetes e partiu para a praia do mar. Lá puxou a espada e cortou as águas em cruz. Imediatamente as águas se abriram e ele entrou, e foi até onde estava a princesa encarcerada. Agarrou-a, botou-a à garupa e voltou correndo para a praia. Assim que saiu do mar, a moça disse: "Já!" Ele tomou nota da palavra e viu que o monstro vinha correndo atrás deles.

Lembrando-se da recomendação do cavalo, derramou o saquinho de sal. Imediatamente formou-se uma cerração que atrapalhou o monstro a ponto de fazê-lo parar, sem saber para onde dirigir-se. Enquanto isso, o moço continuava no galope, com a moça à garupa. Logo adiante ela murmurou "Bela!" O Sargento Verde tomou nota da palavra e viu que o monstro havia rompido o nevoeiro e vinha vindo na disparada. Então soltou no ar os alfinetes. Imediatamente se formou uma cerradíssima floresta de espinheiros, que o monstro não pôde atravessar.

Logo depois a princesa, avistando o palácio, murmurou "Tudo!" — e o Sargento Verde tomou nota. Chegaram, houve grandes festas e a rainha ficou ainda mais apaixonada pelo Sargento Verde.

Mas a princesa trazida do fundo do mar não falava. Além das três palavras ditas durante a viagem não pronunciou nem mais uma só. Todos se convenceram de que era muda — e a rainha se aproveitou do fato para lançar outra falsidade contra o Sargento
Verde. "Ele anda dizendo — cochichou ao ouvido do rei — que é capaz de fazer a princesa
muda falar."
O rei indagou do Sargento Verde se era verdade e ele respondeu como das outras
vezes; depois foi perguntar ao cavalo o que devia fazer.

— Não tenha medo de nada — respondeu o cavalo. — Na hora do almoço, dê com uma corda na princesa até que ela conte qual foi a primeira palavra que pronunciou logo ao sair do mar; e na hora do jantar dê-lhe outra sova até que ela conte qual foi a segunda palavra; e na hora da ceia, outra sova até que diga a terceira palavra. Faça isso que a princesa ficará falando.

O Sargento Verde assim fez. Na hora do almoço passou mão numa corda e gritou: "Conte, moça, qual foi a palavra que me disse logo que saímos do mar!" E como ela se conservasse de boca fechada, êle, lepte! lepte! e tanto deu que ela falou: "Já!" "E que quer dizer isso?" Com mais algumas lambadas a moça respondeu que queria dizer: "Já estou livre de muitos trabalhos."

No jantar repetiu-se a cena, e tantas lambadas levou a princesa que repetiu a segunda palavra, "Bela!" e explicou que aquilo queria dizer: "Somos duas donzelas, eu e o Sargento Verde, cujo verdadeiro nome é Lucinda."
Na ceia, a corda fez que a moça repetisse a terceira palavra, "Tudo!" isto é, que se
Lucinda fosse homem há muito tempo que a rainha já teria fugido com ele.

Esses acontecimentos assombraram menos ao rei e à corte do que verem Lucinda aparecer vestida de mulher, com o seu cavalo magro virado num lindo príncipe, que logo se casou com a princesa trazida do fundo do mar. O rei não perdoou a traição da rainha. Mandou que a soltassem pelos campos amarrada a dois burros bravos, e casou-se com a boa Lucinda, no meio de grandes festas. E acabou-se a história.


sábado, 25 de junho de 2011

Contos Brasileiros-A Moura Torta

A MOURA TORTA
por:Luis Câmara Cascudo


Era uma vez um rei chamado Massad, que governava um país extenso e cheio de fartura. Esse rei tinha apenas um filho, cha­mado Anuar, um príncipe virtuoso e de bom coração.

Quando Massad morreu, Anuar o suce­deu no trono, governando, desde o início, com sabedoria e justiça. E o povo, que já o estimava sinceramente, passou a amá-lo e respeitá-lo ainda mais.

Um único problema, entretanto, afligia Anuar: passado o período de um ano, que se guardava como luto pela morte do rei ante­rior, as leis do país exigiam que o novo rei se casasse tantas vezes quantas fossem ne­cessárias, até que tivesse um filho para ser o futuro soberano. Mas Anuar não gostava de nenhuma mulher, nem acreditava que pudes­se amar uma pessoa.

Os conselheiros da coroa, com medo de que Anuar perdesse o trono, começaram a procurar-lhe pretendentes entre as princesas de outros países. Viviam a enaltecer a beleza e as virtudes dessas moças, mas o rei nem sequer ouvia as descrições que eles faziam.

Anuar tinha o hábito de todos os dias pas­sear incógnito pelas terras do reino, para poder conversar com os súditos e saber quais eram suas reais necessidades. Um dia, quan­do dava um de seus passeios habituais, che­gou às margens de um rio, onde avistou, sen­tada à sombra de uma árvore frondosa, uma jovem de radiante formosura.

Ao vê-la, o coração de Anuar começou a bater mais forte, e ele imediatamente descobriu que, pela primeira vez na vida, estava apaixonado. Tentando disfarçar a emoção, dirigiu-se à jovem e, depois de revelar sua Verdadeira identidade, pediu-a em casamen­to. O rosto da moça, que estava melancólico, :;<i abriu num sorriso. Afinal, ela tinha se sen­tado ali justamente para pensar no amor que lentia pelo rei e que julgava nunca poder ser Correspondido. Assim, aceitou o pedido sem pensar duas vezes.

A futura rainha, entretanto, deveria ser apresentada à corte condignamente vestida e acompanhada por um cortejo cheio de pompa. Assim, Anuar pediu à noiva que subisse na árvore e se escondesse entre os galhos, en­quanto ele iria até a cidade para providenciar tudo. Recomendou-lhe que não falasse com ninguém nem desse sinal de vida durante sua ausência, pois tinha receio de que a roubas­sem.

A moça atendeu prontamente ao pedido e subiu na árvore para esperar o noivo. Algum tempo depois, viu se aproximar uma escrava muito feia, conhecida como a Moura Torta, que vinha buscar água para os patrões. Tinha as pernas tortas e caminhava com dificulda­de, carregando um pote de barro sobre a cabeça.

Cansada, a Moura Torta sentou-se bem no lugar onde a jovem tinha sido encontrada pelo rei, e começou a pensar na vida.

Obedecendo aos conselhos do rei, a jovem não fez nenhum ruído para que a escrava não desse pela sua presença. Entretanto, quando a Moura Torta se curvou sobre o rio para encher o pote, viu refletida nas águas tran­qüilas a imagem formosa da noiva do rei. E, como não sabia que a moça estava ali, achou que aquela imagem fosse a sua própria.

— Que desaforo! — disse ela, então. — Uma moça tão linda como eu fazendo um tra­balho pesado desse jeito!

E, num acesso de raiva, jogou o pote de barro no chão, fazendo-o em mil pedaços. Depois foi-se embora.

A jovem, do alto da árvore, precisou segurar o riso para não ser descoberta.

Ao chegar em casa, a Moura Torta disse aos patrões que havia levado um tombo e que­brado o pote de barro pelo caminho. Deram--lhe então um barril de madeira, que não se quebrava tão facilmente, e a mandaram outra vez buscar água.

Mas, quando se abaixou para encher o barril, a escrava viu novamente a imagem da linda moça refletida na água. Acreditando de novo que aquela era a sua própria imagem, exclamou com raiva:

— Isso não pode ser! Uma jovem deslum­brante como eu servindo de escrava para os outros!

E, louca de ódio, jogou o barril contra as pedras, espatifando-o.

Desta vez, a noiva do rei teve mais difi­culdade em segurar o riso, e precisou colo­car um lenço junto à boca para não explodir numa gargalhada.

Mais uma vez a Moura Torta voltou para casa e mentiu aos patrões, dizendo que havia escorregado de novo e que o barril havia se espatifado no chão. Deram-lhe então um cal­deirão de ferro e a mandaram buscar água.

Dali a pouco ela chegava ao rio e se de­bruçava sobre as águas para encher o cal­deirão. Mas lá estava novamente a bela ima­gem refletida, e a escrava, sem se conter, gritou:

— Não, não e não! Decididamente sou
bela demais para fazer este trabalho!

E, tomada de um acesso de fúria, come­çou a atirar o caldeirão contra as pedras que havia na margem do rio, tentando quebrá-lo. Como não conseguia, foi ficando cada vez mais irritada, aumentando sua feiúra com caretas e gestos desesperados. Até que a jo­vem, que a tudo assistia, não resistiu mais e soltou uma gostosa gargalhada.

A Moura Torta, assustada, olhou então para o alto da árvore e avistou a noiva do rei.

— Ah, então é você, sua malandra! — ela gritou. — É você quem está fazendo com que eu quebre minhas vasilhas?!

E, para susto da moça, começou a subir na árvore. Mas, chegando ao galho onde estava sentada, não lhe fez nada. Falou de sua vida, da tristeza de ser escrava, até con­seguir conquistar-lhe a simpatia. Depois, co­meçou a afagar-lhe os cabelos, elogiando-lhe a beleza. Quando a moça estava distraída, a Moura Torta, que entendia de bruxarias, ti­rou do bolso um alfinete encantado e, sem que a jovem percebesse, espetou-lhe com força na cabeça. Imediatamente a linda noiva do rei se transformou numa pombinha, que saiu voando dali.

Horas depois o rei chegava, acompanha­do por numeroso cortejo, com soldados, .cria­dos e todos os nobres da corte. Na frente, vinha uma banda de música para abrir pas­sagem. O reino estava em festa com a notí­cia de que o rei iria se casar.

Qual não foi a decepção de Anuar, po­rém, ao encontrar, em vez da belíssima jo­vem que havia escolhido para esposa, a es­crava feia e de pernas tortas a esperá-lo na copa da árvore!

—   Mas o que aconteceu? — ele pergun­tou, surpreso.

—   Oh, Majestade! — disse a Moura Tor­ta. — Foram tantas horas de espera, debaixo de sol e de vento, que minha pele sensível não resistiu!

Anuar ficou completamente desorientado com aquilo, mas não suspeitou de nada. E, como já havia prometido casamento a moça e comunicado ao reino todo sua decisão, não podia voltar atrás. Assim, prosseguiu com a festa e casou-se com aquela mulher horro­rosa.

Um dia depois do casamento, quando o jardineiro do palácio começou a trabalhar, viu pousar numa planta uma linda pombinha, que começou a cantar:

Ó bondoso jardineiro, se não se importa, me diga como passa o rei com sua Moura Torta!

E o jardineiro respondeu:

Come bem e passa bem, passa vida regalada, tão serena e sossegada, como no mundo ninguém!

A pombinha, tristemente, cantou:

Ai, pobres de nós, pombinhas, que só comemos pedrinhas!

E depois saiu voando, desaparecendo do jardim. O jardineiro, espantado, foi corren­do comunicar ao rei o que acabava de ver e ouvir. Curioso, Anuar lhe ordenou que ten­tasse agarrar aquela ave fantástica de qual­quer forma.

No dia seguinte, à mesma hora, lá estava de novo a pombinha, pousada na mesma plan­ta, cantando:

Ó bondoso jardineiro, se não se importa, me diga como passa o rei com sua Moura Torta!

E o jardineiro novamente respondeu:

Come bem e passa bem, passa vida regalada, tão serena e sossegada, como no mundo ninguém!

E a pombinha tornou a cantar:

Ai, pobres de nós, pombínhas, que só comemos pedrinhas!

Mas desta vez, antes que ela se fosse, o jardineiro ofereceu-lhe um laço de barbante, dizendo:

—   Ponha o pé aqui, linda pombinha!

—   Não — ela respondeu. — Meus pés não foram feitos para laços de barbante!

E depois voou, desaparecendo ao longe.

Novamente o jardineiro correu para con­tar ao rei tudo o que havia visto e ouvido. Anuar, cada vez mais intrigado, ordenou-lhe que oferecesse à pombinha um laço de prata.

No dia seguinte, ela voltou a aparecer no jardim e, depois de fazer a pergunta de sem­pre e de receber a mesma resposta do jardi-neiro, este ofereceu-lhe o laço de prata. Mas a pombinha novamente recusou, dizendo que aquilo era muito pouco para ela.

No quarto dia, o rei mandou oferecer-lhe um laço de ouro, que também foi recusado. Só no quinto dia, quando lhe foi oferecido um laço magnífico, todo cravejado de pérolas e diamantes, foi que a pombinha aceitou que lhe prendessem o pé.

O jardineiro a levou então à presença de Anuar, que ficou encantado com a delicadeza da ave e ainda mais porque ela podia real­mente falar.

Prepararam-lhe então uma gaiola deslum­brante e a colocaram na sala do trono, onde todos os dias o rei passava horas e horas a admirá-la e a alisar-lhe as penas.

Um dia, quando Anuar estava mais uma vez agradando sua avezinha, começou a afa­gar-lhe delicadamente a cabeça até que, de repente, passou os dedos pelo alfinete que ali estava espetado.

— Pobrezinha! — disse ele, ao ver do que se tratava. — Quem pôde lhe fazer tamanha maldade?

E, penalizado, segurou-a com carinho, ti­rando, com muita paciência, o alfinete da delicada cabecinha. No mesmo instante, viu surgir à sua frente a linda jovem que havia encontrado às margens do rio.

A moça contou-lhe então tudo o que havia acontecido naquele dia, enquanto esperava por ele sentada nos galhos da árvore. E Anuar descobriu, horrorizado, que estava casado com uma feiticeira má e invejosa. Anulou o casamento e, em seguida, casou-se com a linda jovem.

Para a Moura Torta, reservou um casti­go impiedoso: mandou que a prendessem em um barril cheio de canivetes espetados, de fora para dentro, com as lâminas abertas. Depois, que a jogassem montanha abaixo,  para que rolasse pela ladeira. A Moura Torta já não vivia quando chegou ao pé da monta­nha.  Estava toda estraçalhada.

O rei Anuar e a esposa viveram anos e anos, sempre rodeados de felicidade.

Contos Brasileiros-A Festa no Céu

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Conto tradicional do brasil
A FESTA NO CÉU
por: Luís Câmara Cascudo


Entre todas as aves, espalhou-se a notícia de uma festa no Céu. Todas as aves compareceriam e começaram a fazer inveja aos animais e outros bichos da terra incapazes de voar.
Imaginem quem foi dizer que também ia à festa... O Sapo! Logo ele, pesadão e não sabendo sequer correr, seria capaz de subir àquelas alturas! Pois o Sapo disse que tinha sido convidado e que ia sem dúvida nenhuma. Os bichos morriam de tanto rir. Os pássaros, então, nem se fala!
Mas o Sapo tinha um plano. Na véspera, procurou o Urubu e ficou bastante tempo conversando com ele, divertindo-o muito. Depois disse:
_ Bem, camarada Urubu, quem é coxo parte cedo e eu vou indo, porque o caminho é comprido.
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O Urubu respondeu:
_ você vai mesmo?
_ se vou? Claro que sim, lá nos encontraremos!
Em vez de sair, o Sapo deu meia volta, entrou no quarto do Urubu e, vendo a viola em cima da cama, entrou lá dentro, encolhendo-se todo.
O Urubu, mais tarde, pegou na viola, amarrou-a a tiracolo e bateu asas para o céu, rru-rru-rru...
Chegando ao céu, o Urubu arrumou a viola num canto e foi à procura das outras aves. O Sapo espreitou por uma fresta e, vendo que estava sozinho, deu um pulo e veio para a rua, todo satisfeito.
Nem queiram saber o espanto que as aves tiveram, ao verem o Sapo pulando no céu! Perguntaram, perguntaram, mas o Sapo fazia-se desentendido e não adiantava nada.
A festa começou e o Sapo saltitou de um lado para o outro, divertindo-se muito.
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Pela madrugada, sabendo que só podia voltar da mesma forma que tinha vindo, mestre Sapo foi-se esgueirando e correu para onde o Urubu se havia hospedado. Procurou a viola e acomodou-se, como da outra vez.
Ao pôr-do-sol acabou-se a festa e os convidados foram-se embora voando, cada qual para seu destino. O Urubu agarrou a viola e rumou para a Terra, rru-rru-rru...
Ia a meio caminho quando, numa curva, o Sapo se mexeu e o Urubu, olhando para dentro do instrumento, viu o bicho lá no escuro, todo curvado, feito uma bola. _ Ah! camarada Sapo! É assim que você vai à festa no Céu? Deixe de ser xico esperto...!
E, àquela altitude, virou a viola. O Sapo começou a cair, acelerando de tal forma que até zunia. E dizia, na queda:
_ Béu-Béu!
Se eu desta escapar...
Nunca mais festas no céu!...
E vendo as serras lá embaixo:
_ Afastem-se pedras, se não eu parto-as todas!
Bateu em cima das pedras como um figo maduro, espedaçando-se todo. Ficou em pedaços.

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Nossa Senhora, com pena do sapo, juntou todos os pedaços e fê-lo reviver.
Por isso o sapo tem a pele assim cheia de remendos.


Músicas da Toca


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