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sábado, 9 de julho de 2011

Manuel da Bengala-Conto de Monteiro Lobato

Manuel da Bengala
Por: Monteiro Lobato

Era uma vez um rei que teve um filho que nasceu grandão e forte demais. Com oito dias de idade já devorava um boi inteiro. O rei, muito assustado, chamou seus conselheiros para lhe darem opinião, porque naquela toada o menino acabaria com todos os bois do reino. Os conselheiros acharam que o melhor era soltá-lo pelo mundo. O rei concordou. Deu ao filho uma bengala de ferro, um machado, uma foice de bom tamanho e soltou-o no mundo.

O príncipe saiu. Chegando a uma fazenda, pediu serviço. O fazendeiro ajustou-o e mandou-o roçar um pedaço de mato. O moço meteu a foice no mato com tanta fúria que assustou o fazendeiro. Na hora de jantar deu risada da comida que lhe trouxeram. Queria um boi inteiro, com um alqueire de farinha. O fazendeiro achou graça e fez a experiência, certo de que ele só comeria um pedacinho do boi e no máximo um litro de farinha; mas quando viu todo o boi desaparecer no seu bucho, e mais o alqueire de farinha, não quis saber de histórias — despediu-o.

O príncipe voltou para o palácio do rei, onde passou uns tempos. Por fim o rei cocou a cabeça e reuniu novamente os conselheiros. "Que fazer deste rapaz que me devora um boi por dia?" Os conselheiros aconselharam o rei a mandá-lo pegar seis leões na floresta, certos de que os leões num instantinho dariam cabo dele.
O príncipe pediu um carro com três juntas de bois — e foi para a floresta, onde passou
seis dias. Cada dia comia um boi e pegava um leão, que amansava e punha no carro, em
lugar do boi comido. Quando completou a conta, entupiu o carro de árvore e tocou para a
cidade.

O rei e todo o povo se encheram de espanto com a façanha de Manuel da Bengala, que era como lhe chamavam. Coisa como aquela ninguém ainda tinha visto. O rei cocou a cabeça. Por fim mandou que o príncipe saísse pelo mundo e nunca mais lhe aparecesse. O príncipe saiu.
Foi andando, andando. Em certo ponto encontrou um homem que atravessava um rio

sem se molhar. Era o Passa-vau.
— Bom dia, Manuel da Bengala! — gritou o homem.
— Passa-vau — disse o príncipe — quer passar-me para a margem de lá?
Passa-vau passou-o e seguiram juntos. Adiante encontraram um homem cortando

cipó. Chamava-se Arranca-serra.
— Bom dia, Manuel da Bengala! — gritou o homem.
— Arranca-serra — disse o príncipe — quer viajar comigo?
O homem aceitou e lá seguiram os três.

Cada dia um deles tinha de arranjar comida para o bando. Certa vez em que Passa-vau saíra a cuidar disso, encontrou um molequinho de carapuça vermelha, que lhe pediu fogo para o cachimbo. Passa-vau não quis dar e o moleque pregou--lhe tal cachimbada na cabeça que o fez vir ao chão, como morto. Só uma hora depois voltou a si, e foi contar aos companheiros o acontecido.
— Você não vale nada — disse Arranca-serra. — Quem vai buscar comida amanhã sou
eu. — E foi.

O molequinho da carapuça apareceu de novo, pedindo fogo para o cachimbo. Arranca- serra não quis dar e levou outra cachimbada na cabeça que também o deitou por terra, sem sentidos. Quando voltou a si e foi em procura dos companheiros, Manuel da Bengala riu-se muito.
— Vocês não valem nada. Quem vai buscar comida amanhã sou eu. — E foi.

O moleque da carapuça apareceu pela terceira vez, sempre pedindo fogo. Manuel da Bengala respondeu ao pedido com um golpe da sua tremenda bengala de ferro. O moleque resistiu e deu-lhe com o cachimbo na cabeça. Travou-se luta medonha, até que uma bengalada arrancou a carapuça da cabeça do moleque. Manuel guardou-a no bolso.
— Manuel da Bengala, me dê minha carapuça — pediu o moleque com voz de choro.

— Não dou, não dou — foi a resposta, e seguiram andando os dois, um a insistir pela carapuça e outro a negar. Por fim Manuel da Bengala disse: "Só te darei a carapuça se me entregares as três princesas que tens encarceradas."
O moleque, que era o "cão", respondeu: "Isso não, porque minhas não são."

Foram andando, andando. Em certo ponto o moleque entrou por uma gruta — e Manuel da Bengala atrás. Foram dar num reino lá no fundo da terra, onde trabalhavam muitos escravos. Era o inferno. O moleque não parava de pedir a carapuça, e Manuel não parava de pedir as princesas. Por fim, vendo o "cão" que não podia com a vida daquele homem, deu- lhe as princesas. "Agora passe para cá minha carapuça!" Manuel respondeu: "Espere! Primeiro tem que me botar lá fora, no caminho."

O moleque resistiu; Manuel pregou--lhe a bengala até que ele cedesse e o levasse para fora, com as três princesas na frente. Assim que as três princesas surgiram na abertura da caverna, os companheiros de Manuel da Bengala, que estavam por ali, agarraram-nas e dispararam com elas.

Quando Manuel se viu na estrada, restituiu a carapuça ao moleque, mas ficou muito espantado de não ver as moças. Os seus companheiros já estavam longe. Haviam ido entregá-las ao rei, dizendo que as tinham salvo e pois deviam recebê-las como esposas.
O rei ficou contentíssimo de rever as filhas mas as moças puseram-se a chorar,
dizendo que o salvador das três não era nenhum daqueles homens.

Lá longe, Manuel da Bengala, sentado à beira do caminho, pensava na vida. Tinha ficado com os lenços das moças. Pegou num deles e disse: "Voa, voa, e vai cair no colo delas." O lenço virou num papagaio que foi sentar-se no colo duma das princesas.
— Eu só me casarei com o dono deste papagaio — disse a moça.
Manuel da Bengala pegou nos outros lenços e disse: "Voai e levai-me ao palácio das
princesas", e os lenços voaram e levaram-no ao palácio das princesas.

Lá chegando, as três reconheceram-no como o seu salvador, e Manuel casou-se com a do papagaio. Os dois embusteiros depois de uma grande sova, foram expulsos do reino. As outras casaram-se com dois lindos príncipes.

A Raposinha-Conto de Monteiro Lobato

 
A Raposinha
Por Monteiro Lobato

Era uma vez um príncipe que saiu a correr mundo, em procura dum remédio para o rei, seu pai, que estava cego. De pois de muito andar, passou por uma aldeia, onde viu vários homens dando uma sova num defunto.
— Que é isso? — perguntou o príncipe.
— É que este homem nos devia dinheiro e morreu sem pagar. O costume cá da aldeia
manda meter a lenha no cadáver.
O príncipe revoltou-se contra a brutalidade, e pagando a dívida do morto deu ordem
para que o enterrassem.
Seguiu caminho. Adiante encontrou uma raposa que lhe perguntou para onde ia. O
príncipe contou que andava atrás dum remédio para a cegueira do rei, seu pai.

— Pois sei dum remédio — disse a raposinha. — Basta esfregar nos olhos do rei um pouco de "ungüento de papagaio", mas dum certo papagaio lá do reino dos Papagaios. Vá lá, meu príncipe, entre à meia-noite no lugar onde estão esses pássaros e não olhe para os bonitos, os que moram em gaiolas douradas. Pegue no mais velho de todos, o mais depenado e sujo, que está a um canto, num poleiro imundo. Esse é o bom.

O príncipe foi. Quando entrou no reino dos Papagaios, ficou de boca aberta de tantas aves lindas que viu, em gaiolas de prata e ouro, e até cravejadas de diamantes. Esquecido da recomendação da raposinha, pegou na gaiola do mais bonito e foi saindo. Mas o papagaio deu um' berro. Os guardas acordaram e prenderam o príncipe.
— Que queres com este papagaio? — disseram. — Vais morrer, gatuno!
O príncipe, com muito medo, explicou do que se tratava. Os guardas então lhe
disseram:
— Pois muito bem: damos-te o papagaio se fores ao reino das Espadas e nos
trouxeres uma — e soltaram-no.
O príncipe saiu muito triste porque não sabia onde era o tal reino. A raposinha
apareceu-lhe de novo.
— Então, meu príncipe, que tristeza é essa? — e depois de saber do acontecido falou
assim: — Eu bem recomendei que pegasse o papagaio mais velho e feio.

Agora o que tem a fazer é o seguinte: vá ao reino das Espadas (e contou onde era) e entre lá à meia-noite. Encontrará espadas de todos os jeitos, de ouro e prata, muitas cravejadas de pedras preciosas — mas não pegue nenhuma dessas. Pegue uma velhinha e enferrujada, que está num canto. Essa é a boa.

O príncipe foi, e lá no reino das Espadas ficou de boca aberta diante das tantas mavilhosas que viu. Mas não teve coragem de pegar na espada mais velha e ferrujenta; escolheu, ao contrário, a mais rica de todas. Quando ia saindo, fez barulho sem querer; os guardas acordaram e o prenderam. Iam levá-lo ao rei de Espadas.
O príncipe, porém, contou sua triste história de modo a comover os guardas, os quais
disseram: "Bem. Perdoaremos o seu crime, se for ao reino dos Cavalos e nos trouxer um."
O príncipe saiu em procura do reino dos Cavalos. Logo adiante encontrou a raposinha.
"Para onde vai tão triste o senhor príncipe?" — perguntou ela.
O príncipe contou tudo.

— Bem feito — disse a raposinha. — Por que não fez como eu disse? O remédio agora é um só — ir ao reino dos Cavalos (e contou onde era) e lá entrar à meia-noite. Encontrará muitíssimos cavalos de todas as cores e raças, cada qual mais lindo. Mas não pegue nenhum desses. Escolha o mais velho e feio. Esse é o bom.

O príncipe foi, mas tão lindos animais viu no reino dos Cavalos que não teve ânimo de pegar no mais velho e feio. Escolheu, ao contrário, o mais lindo de todos. Ao sair, o cavalo rinchou, acordando os guardas, que o prenderam.
Houve explicação e por fim os guardas disseram:
— Pois bem, nós o perdoaremos se você furtar a filha do rei.
O príncipe prometeu e saiu. Logo adiante encontrou a raposinha que lhe disse:

— Príncipe, saiba que sou a alma daquele defunto que levou a sova por causa das dívidas. Ando a protegê-lo por todos os modos, mas nada tem adiantado. Você nunca faz o que eu digo. Vamos ver se agora me atende. Arranje um cavalo e vá à meia-noite ao palácio do rei; entre; agarre a moça, ponha-a na garupa e dispare no galope. Passe pelo reino dos Cavalos e pegue o que eu disse. Depois passe pelo reino das Espadas e pegue a que eu disse. Depois passe pelo reino dos Papagaios e pegue o que eu disse. E dispare a toda para a casa de seu pai, porque o velho está morre não morre. Mas nunca entre por veredas, nem dê atenção a coisa nenhuma antes de chegar em casa. E adeus

O príncipe lá se foi. Chegando ao palácio do rei, furtou a moça; chegando ao reino dos Cavalos, pegou o mais velho e feio; chegando ao reino das Espadas, levou a mais velha; chegando ao reino dos Papagaios, pegou o mais feio — e seguiu no galope na direção de sua casa.

Pelo caminho, porém, encontrou seus irmãos que tinham saído à procura dele, mas que ao verem aqueles objetos ficaram com inveja e resolveram matá-lo para roubar. Para isso convenceram-no de que devia deixar a estrada e seguir por um atalho, porque indo pelo atalho estaria livre de ser assaltado por ladrões.

O moço caiu na esparrela; tomou pelo atalho. Logo adiante os maus irmãos assaltaram-no, roubaram-no e jogaram-no numa buraqueira, certos de que estava morto. E voltaram para casa com os des-pojos. Aconteceu, porém, uma porção de coisas. A moça não queria comer nem falar; o papagaio enfiou a cabeça sob a asa e não disse uma só palavra; a espada ficou mais enferrujada ainda e o cavalo pendeu a cabeça como se fosse morrer.

Quando o moço, lá na buraqueira, acordou do longo desmaio, viu diante de si a raposa, a qual o tirou dali e o botou no caminho. Ele seguiu para casa manquitolando. Assim que chegou, a espada perdeu a ferrugem, ficando novinha em folha; o papagaio criou penas novas e foi sentar-se em seu ombro; a moça deu uma gargalhada gostosa e falou pelos cotovelos; o cavalo ergueu a cabeça e engordou num instante.
O príncipe, então, dirigiu-se ao quarto do rei cego e esfregou-lhe nos olhos um pouco
de "ungüento de papagaio" — e o rei imediatamente recobrou a vista e a saúde.
Foi uma grande alegria na corte. O bom príncipe casou-se com a moça e os maus
irmãos foram expulsos do reino.

A Princesa Ladrona-Conto de Monteiro Lobato

A princesa ladrona

por: Monteiro Lobato
Havia um pai com três filhos; um plantou um pé de laranjeira, outro plantou um pé de
limeira e outro plantou um pé de limoeiro. Certo dia o mais velho foi ter com o pai e disse:
— Meu pai, já estou homem feito e quero sair pelo mundo.
O pai achou que era ainda cedo, mas o moço tanto insistiu que ele teve de concordar.
E então disse:
— Pois saia, mas antes deve resolver se quer levar minha bênção com pouco dinheiro
ou minha maldição com muito dinheiro.

O moço quis maldição com muito dinheiro — e o pai o amaldiçoou, depois de dar-lhe um saco de dinheiro. Antes de partir, esse moço disse aos irmãos que quando a sua laranjeira começasse a murchar isso era sinal de que se achava em grandes apuros — e eles que fossem socorrê-lo.

Combinado esse ponto, o moço partiu. Andou, andou, andou, e por fim, já muito cansado, viu uma fumaça ao longe. Encaminhou-se para lá. Era um palácio. A dona do palácio era uma princesa que o recebeu com grandes amabilidades. Jantou com ele e depois convidou-o a um passeio pela horta. Ao atravessar um riacho, a princesa ladrona ergueu o vestido de modo a mostrar o pé, e depois que voltaram à sala perguntou ao moço que é que havia visto de mais lindo na horta.
— As couves — respondeu o moço.

A princesa mordeu os lábios e convidou-o para um joguinho — e num instante ganhou todo o dinheiro que ele trazia. Depois disso mandou que seus criados o prendessem e só lhe dessem couve para comer.
Logo que isso aconteceu, lá em casa do pai do moço a laranjeira começou a murchar.
O irmão do meio, vendo aquilo, foi ter com o pai e disse:
— Meu irmão está em grandes apuros e eu vou correr mundo para socorrê-lo.

O pai concordou e perguntou o que ele queria, bênção com pouco dinheiro ou maldição com muito dinheiro. Esse moço também preferiu maldição com muito dinheiro — e o pai o amaldiçoou, depois de lhe dar um saco de dinheiro — e ele lá se foi.

Andou, andou, andou até sentir-se exausto, e nesse momento viu ao longe uma fumaça. Encaminhou-se para lá. Era o palácio da princesa ladrona. A princesa recebeu-o com as amabilidades de sempre, e depois do jantar levou-o a passeio pela horta. Ao atravessar o riozinho mostrou o pé, e ao voltarem à sala fez-lhe a mesma pergunta.
— Então, que mais apreciou na minha horta?
— As alfaces — respondeu o moço.
A princesa pensou consigo que aquele era igualzinho ao outro; convidou-o para jogar,
ganhou-lhe todo o dinheiro e o mandou prender, com ordem de só lhe darem alface.
Assim que isso aconteceu, lá na casa do pai do moço a limeira começou a murchar. O
terceiro filho foi ter com o pai.
— Meu pai, quero sair pelo mundo em socorro dos meus irmãos; a laranjeira e a
limeira estão dando sinal do grande perigo que eles correm.
— Pois vá — respondeu o pai — mas antes terá de decidir se quer minha bênção com
pouco dinheiro ou minha maldição com muito dinheiro.
— Meu pai — respondeu o moço — quero sua bênção com pouco dinheiro.
O pai abençoou-o e ele partiu. Bem longe dali encontrou uma velhinha, que era Nossa

Senhora disfarçada.
— Para onde vai, meu filho?
— Vou pelo mundo ganhar a vida e procurar meus irmãos — respondeu o moço.
A velhinha deu-lhe uma toalha, dizendo:
— Quando tiver fome meu filho, pegue esta toalha e diga: "Põe a mesa, toalha!" — e
um banquete aparecerá.
 Deu-lhe também uma bolsa, dizendo: "Esta bolsa faz o mesmo que a tolha." E deu-lhe ainda uma violinha dizendo' "Se perder a toalha e a bolsa, basta tocar nesta violinha que não sentirá fome, nem privação de nada."

O moço agradeceu os presentes e lá se foi pela estrada afora. Chegou afinal ao palácio da princesa ladrona, onde bateu e foi recebido com grandes amabilidades. Depois do jantar houve o tal passeio à horta, tudo exatinho como havia acontecido com os seus dois irmãos. De volta do passeio a princesa perguntou o que mais ele tinha apreciado.
— O lindo pé da senhora princesa — respondeu o moço gentilmente.

À princesa sorriu, como quem diz: Este me serve. Em seguida convidou-o para jogar e no jogo limpou-o do pouco dinheiro que ele trazia. E também mandou que o prendessem junto com os demais.
Lá pela tarde chegou a hora de dar comida aos presos, e uma preta apareceu diante
das grades com um prato de couves.
— Muito obrigado — disse o moço. — Diga à sua senhora que não preciso de nada
disso. — E estendendo a toalha teve o gosto de ver surgir um verdadeiro banquete.
A prisão estava cheia de prisioneiros, todos quase mortos de fome, de modo que o
regalo foi grande. A negra, que trouxera a comida, abriu a boca, assombrada.
— Minha senhora — foi correndo dizer à princesa — aquele preso de ontem tem uma
toalha mágica, que basta abrir para virar num banquete.

A princesa ficou logo desejosa de possuir tal toalha, e mandou a preta saber do moço se queria vendê-la. O moço respondeu que teria muito gosto em dá-la de presente, com a condição de dormir uma noite na porta do quarto da princesa do lado de fora. A princesa danou com a resposta, que lhe pareceu um grande desaforo, mas por fim concordou.

No dia seguinte, quando a negra foi levar a couve aos presos, o moço recusou de novo, e abrindo a bolsa fez aparecer um banquete mágico, de que todos comeram até não poder mais. A negra foi correndo dizer à princesa: "Minha senhora, ele tem uma bolsa ainda mais mágica que a toalha. Aquilo é que é uma bolsa de princesa."

A princesa mandou propor a compra da bolsa, e o moço disse que lhe dava a bolsa de presente, com a condição de dormir na porta do seu quarto, mas do lado de dentro. A princesa danou, mas a negra achou que ela devia aceitar, pois que dormiria na cama e ele no chão duro. Fez-se o negócio e o moço dormiu no quarto da princesa do lado de dentro, perto da porta.

No dia seguinte a negra foi de novo levar a couve aos presos e viu o moço pegar na violinha e começar a tocar. E todos os presos puseram-se a dançar como se não tivessem fome nenhuma. E até a negra pegou fogo e pôs-se a dançar também. A festa durou tanto tempo que a princesa mandou chamar a negra.
— Ah, minha senhora, o tal moço tem uma violinha que é mesmo a maior das

maravilhas. Aquilo é que é viola de princesa!
— Pois vá saber dele se quer me vender a tal viola.
A negra foi e o moço respondeu que só daria a viola se a princesa se casasse com ele.
A princesa a princípio danou, mas depois resolveu aceitar a proposta e casou-se.
Então todos os presos foram soltos e houve grandes festas.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O Sargento Verde-Conto de Monteiro Lobato

O Sargento Verde
Por : Monteiro (Histórias de Tia Nastácia)


Era uma vez um homem muito rico, que tinha uma filha, linda, linda. Um dia apareceu um moço, também muito lindo, que quis casar com ela. Foi combinado o casamento, mas Nossa Senhora, que era madrinha de batismo da moça, apareceu-lhe num sonho e disse:

— Minha filha, toma cuidado, porque vais casar com o "cão". Depois do casamento teu marido há de querer levar-te para a casa dele, e o que tens de fazer é o seguinte: irás montada no cavalo mais magro que houver; quando chegares a um ponto do caminho, onde há uma encruzilhada, teu marido quererá tomar pela esquerda; tu tomaras pela direita e nesse momento lhe mostrarás um rosário. Ele então estoura e vai para o inferno.


Afinal chegou o dia do casamento e houve grandes festas, mas desde a noite do sonho a moça andava numa grande tristeza. As palavras de Nossa Senhora não lhe saíam da imaginação.

Na hora da partida trouxeram-lhe um lindo cavalo. Ela recordou-se do sonho e não quis montar nele; pediu outro — o mais magro e feio que houvesse. O pai estranhou aquela esquisitice, mas a moça tanto insistiu que ele teve de ceder — e lá se foi ela no cavalo mais magro e feio que havia.
Quando chegaram à encruzilhada, o "cão" quis que a moça tomasse pelo lado
esquerdo, dizendo ser esse o caminho que levava à sua casa.
— Vá o senhor na frente — respondeu a moça — eu sigo atrás. — E assim que ele
enveredou pela esquerda, ela tomou pela direita e sacudiu no ar o rosário.
Mal fez isso, ouviu-se um estouro e o ar se encheu de fedor de enxofre. É que o "'cão"
havia rebentado e ido para o inferno.

A moça continuou a galope por aquele caminho da direita, até que bem lá adiante teve a idéia de mudar de figura. Apeou, cortou os cabelos e vestiu-se de homem — uma roupa verde. E, verdinha assim, chegou a um reino onde se ofereceu para entrar no exército do rei como sargento.

O rei gostou muito daquele sargento, a ponto de convidá-lo a passear com ele pelos jardins do palácio. É tantos passeios houve que a rainha ficou apaixonada pelo sargento e lhe declarou o seu amor. Mas o sargento respondeu: "Senhora, eu jamais trairei meu rei."
A rainha, furiosa da vida, levantou um falso contra ele, dizendo ao marido o seguinte:

— Saiba Vossa Majestade que o Sargento Verde anda se gabando de que é capaz de subir a cavalo as escadarias do palácio, jogando para o ar três laranjas e aparando-as no mesmo copo.
Admirado daquilo, o rei mandou chamar o Sargento Verde e contou-lhe o caso. O
Sargento Verde respondeu:
— Saiba Vossa Majestade que eu não disse isso; mas como a rainha minha senhora
afirma que eu disse, estou pronto para subir a cavalo as escadarias e jogar as três laranjas.

Disse aquilo por dizer e, muito triste da vida, foi conversar com o seu cavalo magro, ao qual contou tudo. O cavalo aconselhou-a a que não se amofinasse e que no dia marcado tudo fizesse como a rainha queria.

No dia marcado o Sargento Verde se apresentou para a grande prova, e de fato subiu e desceu várias vezes as escadarias, montado em seu cavalo magro; e lançou para o ar as três laranjas, que aparou direitinho no copo, sem errar uma só.
Teve os maiores aplausos de todos, menos da rainha, que mordeu os lábios de ódioDias depois, num dos seus passeios pelos jardins do palácio, a rainha achou jeito de novamente lhe declarar amor — e pela segunda vez o sargento respondeu que jamais trairia o seu bom rei. A rainha, então, mais danada ainda, inventou que o Sargento Verde andava dizendo que era capaz de plantar uma bananeira à hora do almoço e ter bananas maduras à hora do jantar.

O rei mandou chamar o Sargento Verde e indagou dele se era verdade aquilo. O sargento respondeu que nada havia dito, mas como não queria desmentir a rainha, estava pronto para plantar a bananeira.
Disse isso e foi, muito triste, conversar com o cavalo magro, o qual lhe falou que
plantasse a bananeira e deixasse o resto por sua conta.

No outro dia, lá pela hora do almoço, o Sargento Verde foi e plantou uma muda de bananeira no pátio do palácio, e a planta começou logo a crescer e a deitar cacho, de modo que quando o jantar foi posto na mesa já havia bananas maduras.

Todos abriram a boca de admiração, mas a rainha mordeu os lábios até verter sangue. Apesar disso, tentou mais uma vez o Sargento Verde, declarando-se apaixonada por ele, e o sargento pela terceira vez respondeu que jamais enganaria o seu bom rei. A malvada rainha então foi dizer ao marido que o Sargento Verde andava se gabando de ser capaz de passear a cavalo sobre ovos, sem quebrar um só.

O rei mandou chamá-lo e perguntou se era verdade. O Sargento Verde respondeu que não era, mas como não queria desmentir a rainha, estava pronto para andar a cavalo em cima dos ovos. E andou. Passeou montado no cavalo magro por cima de dúzias de ovos sem quebrar um só.

A rainha inventou contra ele uma quarta perversidade, e foi que ele andava dizendo ser capaz de ir ao fundo do oceano em busca da irmã do rei, que fora aprisionada por um monstro.

O rei chamou o Sargento Verde e indagou se era verdade. Ele disse que não, mas que estava pronto para ir ao fundo do mar em busca da princesa encarcerada. Disse isso e foi conversar com o cavalo magro, ao qual contou tudo.

— Não se amofine — murmurou o cavalo — arranje uma garrafa de azeite, um saquinho de sal e um papel de alfinetes; depois monte em mim e vá para a praia; lá puxe a espada e corte o mar em cruz: as águas se abrirão; entre pela abertura e vá até onde estiver a moça; agarre-a e ponha-a na garupa e toque para trás. Mas muito cuidado com o monstro que guarda a princesa; ele vai persegui-la, e o meio de evitar isso é derramar o saquinho de sal e depois soltar os alfinetes. Durante a corrida a moça pronunciará três palavras. Tome muito sentido nessas palavras.

O Sargento Verde prestou a maior atenção a tudo; arranjou o azeite, o sal, os alfinetes e partiu para a praia do mar. Lá puxou a espada e cortou as águas em cruz. Imediatamente as águas se abriram e ele entrou, e foi até onde estava a princesa encarcerada. Agarrou-a, botou-a à garupa e voltou correndo para a praia. Assim que saiu do mar, a moça disse: "Já!" Ele tomou nota da palavra e viu que o monstro vinha correndo atrás deles.

Lembrando-se da recomendação do cavalo, derramou o saquinho de sal. Imediatamente formou-se uma cerração que atrapalhou o monstro a ponto de fazê-lo parar, sem saber para onde dirigir-se. Enquanto isso, o moço continuava no galope, com a moça à garupa. Logo adiante ela murmurou "Bela!" O Sargento Verde tomou nota da palavra e viu que o monstro havia rompido o nevoeiro e vinha vindo na disparada. Então soltou no ar os alfinetes. Imediatamente se formou uma cerradíssima floresta de espinheiros, que o monstro não pôde atravessar.

Logo depois a princesa, avistando o palácio, murmurou "Tudo!" — e o Sargento Verde tomou nota. Chegaram, houve grandes festas e a rainha ficou ainda mais apaixonada pelo Sargento Verde.

Mas a princesa trazida do fundo do mar não falava. Além das três palavras ditas durante a viagem não pronunciou nem mais uma só. Todos se convenceram de que era muda — e a rainha se aproveitou do fato para lançar outra falsidade contra o Sargento
Verde. "Ele anda dizendo — cochichou ao ouvido do rei — que é capaz de fazer a princesa
muda falar."
O rei indagou do Sargento Verde se era verdade e ele respondeu como das outras
vezes; depois foi perguntar ao cavalo o que devia fazer.

— Não tenha medo de nada — respondeu o cavalo. — Na hora do almoço, dê com uma corda na princesa até que ela conte qual foi a primeira palavra que pronunciou logo ao sair do mar; e na hora do jantar dê-lhe outra sova até que ela conte qual foi a segunda palavra; e na hora da ceia, outra sova até que diga a terceira palavra. Faça isso que a princesa ficará falando.

O Sargento Verde assim fez. Na hora do almoço passou mão numa corda e gritou: "Conte, moça, qual foi a palavra que me disse logo que saímos do mar!" E como ela se conservasse de boca fechada, êle, lepte! lepte! e tanto deu que ela falou: "Já!" "E que quer dizer isso?" Com mais algumas lambadas a moça respondeu que queria dizer: "Já estou livre de muitos trabalhos."

No jantar repetiu-se a cena, e tantas lambadas levou a princesa que repetiu a segunda palavra, "Bela!" e explicou que aquilo queria dizer: "Somos duas donzelas, eu e o Sargento Verde, cujo verdadeiro nome é Lucinda."
Na ceia, a corda fez que a moça repetisse a terceira palavra, "Tudo!" isto é, que se
Lucinda fosse homem há muito tempo que a rainha já teria fugido com ele.

Esses acontecimentos assombraram menos ao rei e à corte do que verem Lucinda aparecer vestida de mulher, com o seu cavalo magro virado num lindo príncipe, que logo se casou com a princesa trazida do fundo do mar. O rei não perdoou a traição da rainha. Mandou que a soltassem pelos campos amarrada a dois burros bravos, e casou-se com a boa Lucinda, no meio de grandes festas. E acabou-se a história.


domingo, 26 de junho de 2011

O Bicho Manjaléu-Conto de Monteiro Lobato

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O Bicho Manjaléu
Por : Monteiro Lobato
ERA UMA VEZ um velho que tinha três filhas muito bonitas, mas um velho muito pobre, que vivia de fazer gamelas. Uma vez passou pela sua casa um lindo moço a cavalo; parou e declarou que comprar uma das moças. O velho se ofendeu; disse que por ser pobre não era nenhum malvado que andasse vendendo as filhas; mas diante das ameaças do moço teve que aceitar o negócio. Lá se foi a sua primeira filha na garupa do cavaleiro, e o velho ficou olhando para o ouro recebido.


No dia seguinte apareceu outro moço, ainda mais lindo, montado num cavalo ainda mais bonito e propôs-se a comprar a filha do meio. O velho, bastante aborrecido, contou o que se tinha passado com a primeira, e não quis aceitar o negócio. O moço ameaçou matá-lo, e também lá se foi com a segunda moça na garupa, deixando com o velho dois sacos de dinheiro.
No dia imediato apareceu terceiro moço e depois da mesma discussão lá se foi com a derradeira moça na garupa, deixando em troca três sacos de dinheiro.
O velho ficou muito rico, mas sem as filhas, e começou a criar com grandes mimos um filhinho que havia nascido fora de tempo. Quando já estava na escola esse menino teve uma briga com um companheiro, o qual lhe disse: "Você está prosa por ter pai rico, mas saiba que ele já foi um pobre diabo que vivia de fazer gamelas. Está rico porque vendeu as filhas."
O menino voltou pensativo para casa, mas nada disse. Só quando ficou moço é que pediu ao pai que lhe contasse a história das três irmãs vendidas. O pai contou tudo e ele resolveu sair pelo mundo em procura das irmãs.
No meio do caminho encontrou três irmãos brigando por causa duma bota, duma carapuça e duma chave. Indagando o valor daquilo, soube que eram uma bota, uma carapuça e uma chave mágicas. Quando alguém dizia à bota: "Bota, bote-me em tal parte!" a bota botava. E se diziam à carapuça: "Carapuça, encarapuce-me!" a carapuça encarapuçava, isto é, escondia a pessoa. E se diziam à chave: "Chave, abre!" a chave abria qualquer porta.
O moço ofereceu pelos três objetos o dinheiro que trazia e lá se foi com eles.
Logo adiante parou e disse: "Bota, bote-me em casa de minha primeira irmã." Mal acabou de pronunciar tais palavras, já se achou na porta de uma palácio maravilhoso. Falou com o porteiro. Pediu para entrar, dizendo que a dona do palácio era sua irmã. A irmã soube de sua chegada, acreditou em suas palavras e o recebeu muito bem.
__ Mas como conseguiu chegar até aqui, meu irmão?
__ Por meio da bota mágica - respondeu ele.
E contou toda a história de sua partida e do encontro dos três objetos mágicos.
Tudo correu muito bem, mas assim que começou a entardecer a irmã pôs-se a chorar.
__ Por que chora, minha irmã?
__ Ah - respondeu ela - choro porque sou casada com o rei dos Peixes, um príncipe muito bravo que não quer que eu receba ninguém neste palácio. Ele não tarda a chegar, e mata você, se enxergar você aqui...
O moço deu uma risadinha, dizendo:
__ Não tenha medo de nada. Com a carapuça mágica saberei esconder-me.
O rei chegou e logo levantou o nariz para o ar, farejando: - "Sinto cheiro de gente de fora!" mas a rainha mostrou que não havia por ali ninguém e ele sossegou. Tomou um banho e se desencantou num lindo moço.
Durante o jantar a rainha fez esta pergunta:
__ Se aparecesse por cá um irmão meu, que faria vossa Majestade?
__ Recebia-o muito bem - disse o rei - porque o irmão da rainha, cunhado do rei é. E se ele está por aqui, que apareça.
O irmão encarapuçado apresentou-se, sendo muito bem recebido. Contou toda a sua história, mas não aceitou o convite de ficar morando ali por ter de continuar pelo mundo em procura das outras irmãs. O rei olhou com inveja para as botas mágicas, dizendo: "Se eu as pilhasse, iria ver a rainha de Castela."
Na hora da partida o rei deu-lhe uma escama. "Quando estiver em apuros, pegue nesta escama e diga: Valha-me, rei dos Peixes!"
O moço agradeceu o presente e lá se foi depois de dizer à bota: "Bota, bote-me na casa de minha segunda irmã", e imediatamente se achou defronte de outro palácio, onde foi recebido pela segunda irmã, que era a esposa do rei dos Carneiros. "Meu marido logo chega por aí, a dar marradas a torto e a direito, e você não escapa."
__ Com a minha carapuça escapo - respondeu o rapaz, rindo-se. E contou a virtude da carapuça encantada. E de fato foi assim, correndo tudo direitinho como lá no palácio do reis dos Peixes. Na hora da partida o rei dos Carneiros disse: "Tome este fio de lã. Quando estiver em apuros, basta que pegue nele e diga: "Valha-me, rei dos Carneiros!" Em seguida, olhou com inveja para as botas mágicas. "Se as pilhasse, iria ver a rainha de Castela."
Logo que o moço se viu na estrada, parou e disse à bota. "Bota, bote-me em casa da minha terceira irmã", e a bota botou-o no portão dum terceiro palácio ainda mais belo que os outros. Era ali o reino do rei dos Pombos, onde tudo aconteceu como no reino do rei dos Peixes e no reino do rei dos Carneiros. Foi muito bem recebido e festejado, até que na hora da partida o rei do Pombos suspirou olhando para as botas, e disse: "Se eu pilhasse essas botas, iria ver a rainha de Castela." Em seguida deu ao moço uma pena, dizendo: "Quando estiver em apuros, pegue nesta pena e diga: "Valha-me, rei dos Pombos!"
Logo que o moço se viu na estrada, pôs-se a pensar na tal rainha de Castela que os três príncipes queriam visitar, e disse à bota mágica: "Bota, bote-me no reino da rainha de Castela!" e num instante a bota o botou lá.
Soube que era uma princesa solteira, tão linda que ninguém passava pela frente de seu palácio sem erguer os olhos, na esperança de vê-la à janela - mas a princesa tinha jurado só se casar com quem passasse pelo palácio sem erguer os olhos.
O moço então passou pela frente do palácio sem erguer os olhos e a princesa imediatamente casou com ele. Depois do casamento a princesa quis saber para que serviam aqueles objetos que ele sempre trazia consigo - e o que mais a interessou foi a chave de abrir todas as portas.
A razão disso era haver no palácio uma sala sempre fechada, onde o rei não permitia que ninguém entrasse. Nela morava o Manjaléu - um bicho feroz, que por mais que o matassem revivia sempre. A princesa andava ardendo de curiosidade de ver o bicho Manjaléu, e certa vez, em que o rei e o marido foram à caça, pegou a chave e abriu a porta da sala do mistério. Mas o bicho feroz pulou e agarrou-a, dizendo: "Era você mesma que eu queria!" E lá se foi para a floresta com a pobre moça ao ombro.
Quando o rei e o marido da princesa voltaram da caça e souberam do acontecido, ficaram desesperados. Mas o dono das botas mágicas prometeu consertar tudo. Agarrou-as e disse: "Bota, bote-me onde está minha esposa." E a bota botou-o.
O moço encontrou a princesa sozinha, pois que o Manjaléu andava pelo mato caçando.
__ Minha querida esposa - disse ele - precisamos dar cabo desse monstro feroz, mas para isso é necessário que eu saiba onde é que ele tem a vida. A vida do Manjaléu está tão bem oculta que todas as tentativas para matá-lo têm falhado. Trate de saber onde ele tem a vida.
A princesa prometeu que assim faria, e quando o Manjaléu voltou deu jeito da conversa recair naquele ponto. Manjaléu desconfiou.
__ Ahn! Quer saber onde eu tenho a vida para me matar, não é? Não conto, não.
Mas a princesa, teimosa, tanto insistiu durante dias que o bicho Manjaléu resolveu contar tudo. Antes disso ele amolou, bem amolado, um alfanje, dizendo: "Vou contar onde está minha vida mas se perceber que alguém quer dar cabo de mim corto sua cabeça com esse alfanje, está ouvindo?"
A princesa aceitou a proposta. Ele que contasse tudo que ela ficaria com pescoço às ordens do alfanje, no caso de alguém atentar contra a vida do monstro. E o bicho Manjaléu então contou: "Minha vida está no mar. Lá no fundo há um caixão; nesse caixão há uma pedra; dentro da pedra há uma pomba; dentro da pomba há um ovo; dentro do ovo há uma velinha, que é a minha vida. Quando essa vela se apagar, eu morrerei."
No dia seguinte, quando o bicho Manjaléu saiu novamente a caçar, o marido da princesa, que estivera escondido pela carapuça, apresentou-se. "E então?" - perguntou. A princesa contou-lhe direitinho tudo que ouvira ao monstro.
O moço dirigiu-se à praia do mar e pegou na escama, dizendo: "Valha-me, rei dos Peixes!" E imediatamente o mar se coalhou de peixes que indagavam do que ele queria.
__ Quero saber em que ponto do fundo do mar há um caixão assim e assim.
__ Eu sei - respondeu um enorme baiacu. - Ainda há pouquinho esbarrei nele. Esse caixão está em tal e tal parte.
__ Pois quero que me tragam aqui esse caixão.
Os peixes saíram na volada; logo depois apareceram empurrando um caixão para a praia. O príncipe abriu-o e encontrou a pedra. Como quebrá-la? Lembrou-se do fio de lã. Pegou no fio de lã e disse: "Valha-me, rei dos Carneiros!" Imediatamente apareceram inúmeros carneiros, que deram tantas marradas na pedra que a partiram.
Enquanto isso, lá longe, o Manjaléu, com a cabeça no colo da princesa e o alfanje na mão, ia sentindo coisas esquisitas.
__ Minha princesa - disse ele - estou me sentindo doente. Alguém está mexendo na minha vida.
E sua mão apertou o cabo do alfanje.
A princesa engambelou-o como pôde, para ganhar tempo. Ela saiba que seu marido, estava em procura da vida do monstro.
Assim que os carneiros quebraram a pedra, uma pombinha voou de dentro e lá se foi pelos ares. O moço lembrou-se da pena, pegou-a e disse: "Valha-me, rei dos Pombos!" Imediatamente o ar se encheu de pombos, que o moço mandou voarem em perseguição da pombinha. Os pombos foram atrás dela e a pegaram. O moço tomou-a, espremeu-a e fez sair um ovo.
Lá longe o Manjaléu se sentia cada vez mais pior. Começava a desfalecer; e como não tivesse dúvidas sobre o que era aquilo, foi levantando o alfanje para degolar a princesa. Mas não teve tempo. O moço havia quebrado o ovo e assoprado a velinha. A mão do Manjaléu moleou - e seus olhos fecharam-se para sempre.
Estava o reino de Castela livre daquele horrendo monstro. O moço levou a princesa para o palácio, onde o rei a recebeu com lágrimas nos olhos. E para comemorar o grande acontecimento decretou uma semana inteira de festas. E acabou-se a história.

Fontes:
MONTEIRO LOBATO, José Bento. Histórias de Tia Nastácia. São Paulo: Brasiliense, 1972. Obras Completas - vol. 4A. pp. 102-5.
Foto ilustrativa de paulosaracchini


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