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domingo, 7 de agosto de 2011

Rudyard Kipling-No Fim da Passagem-Conto Fantasmagórico

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                            NO FIM DA PASSAGEM

                                                                                   Por:   Rudyard Kipling

                               O céu é plúmbeo e nossas faces, vermelhas,
                               E os portais do Inferno estão abertos e violados,
                               E os ventos do Inferno estão soltos e impelidos,
                               E o pó fustiga a face dos Céus,
                               E as nuvens descem num sudário em chamas,
                               Pesado demais para subir e sólido demais para se espalhar.
                               E a alma do homem é tirada de sua carne,
                               Desprega-se das futilidades pelas quais lutou
                               O corpo doente e o coração opresso,
                               E sua alma alça vôo como o pó de um sudário
                               Desprega-se de sua carne, despede-se e vai embora,
                                                                                            1
                               Como os sons que se tiram das trompas da cólera.

                                                                                  Kipling, Himalaio

        Quatro homens, cada um deles com direito à “vida, liberdade e à busca
da   felicidade”,2     estavam   sentados   à   mesa,   jogando   uíste.3            O   termômetro

  1
    Collery-Horn, cholera horn (trompa da cólera). Longo instrumento de metal — trombeta de
corno  —  que   produz   um   som   horripilante   geralmente   usada   pelos   nativos   indus   em   funerais
(N.E.).
  2
    Life, liberty, and the pursuit of happiness . Referência à Declaração da Independência dos  E-
E.UU. (N.E.).
  3 Whist, jogo de cartas de raciocínio, muito popular na Inglaterra nos séculos XVIII e XIX; utili-

za um baralho comum de 52 cartas, e é jogado por quatro jogadores divididos em duas duplas. É
jogado ainda hoje na Inglaterra, e é considerado o ancestral do bridge. Em português, uíste (N.E.).

                                               

marcava —  para   eles —  cento  e  um   graus   de   calor   [38,3°C].   O  aposento
estava tão escuro que era possível distinguir apenas as figuras das cartas e as
faces muito brancas dos jogadores. Umpunkah  4  esfarrapado e podre de chi-

ta esbranquiçada poluía o ar quente e gemia lamurientamente a cada movi-
mento. Lá fora, pairavam as sombras nubladas de um dia londrino de no-
vembro.   Não   havia   nem   céu,   nem   sol,   nem   horizonte —  nada   senão   um
mormaço pardacento e violáceo. Era como se a Terra estivesse morrendo
de apoplexia.
      De   tempos   em   tempos,   nuvens   de   pó   fulvo   levantavam-se   do   chão
sem vento ou prenuncio, atiravam-se como toalhas por entre as copas das
árvores   ressecadas   e   depois   desciam   novamente.   Então,   um   redemoinho
corria através da campina por umas duas milhas, desfazia-se e caía, embora
nada houvesse para deter seu vôo exceto uma pilha longa e baixa de dor-
mentes de estrada de ferro esbranquiçados pela poeira, um amontoado de
barracas feitas de barro, trilhos descartados e lona, e um bangalô de quatro
cômodos abandonado, que pertencera ao engenheiro assistente responsável
por uma seção da linha Gaudhari State, então em construção.
       Os quatro, quase despidos, cobertos apenas de seus pijamas mais leves,
jogavam uíste rabugentamente, com altercações acerca das mãos e reconhe-
cimento de cartas. Não era o melhor tipo de uíste, mas eles tinham se esfor-
çado   para   jogá-lo.   Mottram,   da   Inspetoria   Indiana,   havia   cavalgado   trinta
milhas e viajado de trem por outras tantas cem de seu posto solitário no de-
serto desde a noite anterior; Lowndes, do Serviço Civil, em cargo especial
no departamento político, viera de longe para fugir por um instante às mes-
quinhas intrigas de um Estado nativo empobrecido, cujo rei alternadamente
bajulava e vociferava por mais dinheiro a ser retirado de impostos mingua-
dos, pagos por camponeses exauridos pelo trabalho e desalentados criadores
de camelos; Spurstow, o médico da linha, deixara um campo de trabalhado-
res devastado pelo cólera para cuidar de si durante quarenta e oito horas, no

  4
   Punkah. Um grande leque, consistindo numa armação recoberta de tecido que é posicionada
sob o teto e movimentada geralmente por um serviçal. Usado na Índia para a circulação de ar em
um aposento (N.E.).

                                         

 convívio   renovado   com   outros   homens   brancos.   Hummil,   o   engenheiro
 assistente, era o anfitrião. Ele era estacionário e recebia seus amigos, assim,
todo   domingo,   sempre   que   conseguiam   vir.  Quando   um   deles   deixava   de
 comparecer, ele mandava um telegrama para o seu último endereço, com a
 finalidade de saber se o ausente estava morto ou vivo. Existem muitas regi-
 ões no Leste em que não é bom nem gentil perder de vista os conhecidos,
nem mesmo por uma breve semana.
      Os jogadores não estavam conscientes de qualquer afeição mútua es-
pecial. Brigavam toda vez que se encontravam; mas desejavam ardentemen-
te se encontrarem, como homens sedentos desejam beber água. Eram pes-
 soas solitárias, que compreendiam o terrível significado da solidão. Tinham
todos cerca de trinta anos — cedo demais para que se possa saber disso.
      “Pilsener?”, disse Spurstow, após a primeira negra, enxugando a testa.
      “Sinto muito, mas a cerveja acabou, e há muito pouca água gasosa para
 esta noite”, disse Hummil.
      “Que porcaria de estabelecimento!”, rosnou Spurstow.
      “A culpa não é minha. Escrevi e telegrafei; mas os trens ainda não che-
gam regularmente. Na última semana o gelo acabou — como Lowndes sa-
be.”
      “Ainda bem que eu não vim. Mas eu poderia ter-lhe mandado algumas,
 se tivesse sabido. Ufa! Está quente   demais para continuar jogando  bumble-
puppy ”, disse, lançando um olhar feroz para Lowndes, que apenas sorriu. Ele
 era um agressor inveterado.
      Mottram levantou-se da mesa e olhou por uma fenda nas venezianas.
      “Bonito dia!”, disse ele.
      Os companheiros bocejaram, todos juntos, e lançaram-se a uma inves-
tigação inútil sobre todos os bens de Hummil — armas, romances despeda-
 çados, selaria, esporas e objetos semelhantes. Eles os haviam  contado inú-
meras vezes antes, mas não havia outra coisa a fazer.
      “Alguma notícia nova?”, disse Lowndes.
      “A Gazeta da Índia da última semana e um recorte de casa. Meu pai en-
viou-o. É bastante divertido.”

                                      

      “Um daqueles paroquianos que se denominam M.P.s 5  novamente, não

é?”, disse Spurstow, que lia seus jornais quando os conseguia.
      “Sim. Ouçam isto. Diz respeito ao seu campo, Lowndes. O homem es-
tava fazendo um discurso aos seus eleitores e passou dos limites. Eis uma
amostra, „ E afirmo peremptoriamente que o Serviço Civil da Índia é reserva
— reserva de estimação — da aristocracia da Inglaterra. O que a democracia
— o que as massas — recebem daquele país, que pouco a pouco fraudulen-
tamente anexamos? Respondo: absolutamente nada. É cultivada unicamente
com   vistas   a   seus   próprios   interesses   pelos   rebentos   da   aristocracia.   Eles
cuidam muito bem de manter seus rendimentos generosos, evitar ou abafar
quaisquer   investigações   sobre   a   natureza   e   conduta   de   sua   administração,
enquanto eles próprios forçam o infeliz camponês a pagar com o suor de
sua fronte todos os luxos com os quais se mimam‟.” Hummil abanou o re-
corte sobre sua cabeça. “Ouçam! Ouçam!”, disseram seus ouvintes.
      E então Lowndes, pensativamente,  “eu daria... daria o salário de três
meses para que esse cavalheiro passasse um mês comigo e visse como os
príncipes nativos livres e independentes lidam com as coisas. O velho Per-
na-de-pau” 6  —  era esse o irreverente título para um ilustre e condecorado

príncipe feudatário — “me esgotou a paciência a semana passada por causa
de dinheiro. Por Júpiter, sua última façanha foi enviar-me uma de suas mu-
lheres como suborno!”.
      “Que ótimo! Você aceitou?”, disse Mottram.
      “Não. Gostaria de tê-lo feito, agora. Ela era bem bonitinha e contou-
me uma história comprida sobre a horrível penúria entre as mulheres do rei.
As   queridinhas   não   conseguiram   nenhuma   roupa   nova   durante   quase   um
mês, e o velho quer comprar uma nova carruagem de Calcutá — grades de
prata maciça, lanternas de prata e quinquilharias desse tipo. Tentei fazê-lo
entender que ele esbanjou os últimos rendimentos dos últimos vinte anos e
precisa ir devagar. Ele não se convenceu.”

  5  M.P.s: Members of Parlament (Membros do Parlamento) (N.E.).
  6 No original: Timbersides, diz-se de uma construção de alvenaria, com uma das paredes de ma-

deira (N.E.).

                                        

       “Mas ele possui as caixas-fortes do tesouro ancestral com que contar.
Deve haver pelo menos três milhões em jóias e moedas sob seu palácio”,
disse Hummil.
      “Vá um rei nativo remexer no tesouro da família! Os sacerdotes o pro-
íbem, exceto como último recurso. O velho Perna-de-pau acrescentou algo
como um quarto de milhão ao depósito de seu reino.”
      “De que maldade vem tudo isso?”, disse Mottram.
      “Do   país.   A   situação   do   povo   é   de   deixar   qualquer   um   doente.   Eu
soube que os coletores de impostos se postam ao lado de uma camela leitei-
ra até que a cria nasça e então correm até a mãe em busca dos atrasados. E
o que posso fazer? Não consigo que os funcionários da corte me prestem
contas;    não   consigo    senão    um    sorriso  gordo    do  comandante-em-chefe
quando descubro que as tropas estão com três salários atrasados; e o velho
Perna-de-pau começa a chorar quando falo com ele. Encharca-se de King‟s
Peg, trocou o uísque por conhaque, e Heidsieck por água de soda.7  ”
      “Foi nisso que o Rao de Jubela 8  se afundou. Nem mesmo um nativo

consegue   agüentar   muito   tempo   assim”,   disse   Spurstow.  “Ele   vai   apagar.
Acho que então teremos um conselho de regência e um tutor para o jovem
príncipe, e de lhe devolver seu reino com as rendas acumuladas em dez a-
nos.”
      “E depois disso esse jovem príncipe, a quem se ensinaram todos os ví-
cios ingleses, brincará com o dinheiro e desfará o trabalho de dez anos em
dezoito meses. Já vi isso antes”, disse Spurstow. “Eu pegaria leve com o rei,
se fosse você, Lowndes. De qualquer modo eles vão odiá-lo.”
      “Perfeito. Quem está de espectador pode falar em pegar leve; mas vo-
cê não pode limpar um chiqueiro com uma pena molhada em água de rosas.
Conheço   meus   riscos;   mas   nada   aconteceu   ainda.   Meu   criado   é   um   velho
patane e cozinha para mim. É muito pouco provável que o subornem, e não

  7 King’s  Peg,  coquetel   preparado   com  brandy  e   champanhe; Heidsieck,   marca   de   champanhe

(N.E.).
  8 Rao. Título honorífico concedido a gentlemans, magistrados etc; Jubela. Designação não con-

firmada de um Estado ou região da Índia (N.E.).


aceito comida de meus fiéis amigos, como  eles se denominam. Mas é um
trabalho exaustivo! Eu preferiria ficar com você, Spurstow. Há caça perto
de seu acampamento.”
      “Você iria? Acho que não. Cerca de quinze mortes por dia não incitam
um homem a atirar em nada exceto em si mesmo. E o pior de tudo é que os
pobres diabos olham para você como se fosse salvá-los. Deus sabe que ten-
tei de tudo. Minha última tentativa foi empírica, mas tirou um velho de difi-
culdades. Ele chegou até mim evidentemente depois de ter perdido todas as
esperanças, e lhe dei gim e molho Worcester com pimenta de Caiena. Isso o
curou, mas não o recomendo.”
      “Como os casos acabam, de modo geral?”, disse Hummil.
       “Na verdade, de uma forma muito simples. Chlorodyne, pílula de ópio,
colapso, nitro,9  pesos para os pés, e então... as escadarias do rio. Esta última

parece ser a única coisa que põe fim ao problema. É o cólera negro, você
sabe. Pobres diabos! Mas, digo-lhes, o pequeno Bunsee Lal, meu farmacêu-
tico, trabalha como o diabo. Vou indicá-lo para promoção, se ele sobrevi-
ver.”
      “E quais são as suas chances, meu velho?”, disse Mottram.
      “Não sei; pouco me importa, mas enviei  uma carta. O que você tem
feito em geral?”
      “Sentar sob uma mesa na tenda e cuspir no sextante para mantê-lo fri-
o", disse o topógrafo. "Lavar meus olhos para evitar a oftalmia, que certa-
mente   pegarei,  e   tentar   fazer   o   ajudante   entender   que   um   erro  de   cinco
graus num ângulo não é tão pequeno quanto parece. Estou completamente
sozinho, você sabe, e assim vou estar até o fim da estação quente.”
      “Hummil é o sortudo”, disse Lowndes, atirando-se sobre um sofá. “E-
le tem um teto de verdade — de lona rasgada, mas ainda assim um teto —
sobre sua cabeça. Vê um trem todos os dias. Consegue deles cerveja, água
gasosa e gelo, quando Deus permite. Tem livros, quadros — eles foram re-

  9  Prescrição para os casos de cólera no final do sec. XIX. Chorodyne: uma mistura de clorofór-

mio e ópio. Nitre: nitrato de potássio em solução diluída (N.E.).

                                       

cortados do Graphic — e o convívio com o sub-empreiteiro Jevins, além do
prazer de nos receber semanalmente.”
       Hummil deu um sorriso feroz. “Sim, acho que sou um sujeito de sorte.
Jevins tem mais sorte ainda.”
       “Como? Não...”
       “Sim. Foi-se. Segunda-feira última.”
       “Por suas próprias mãos?”, disse Spurstow rapidamente, insinuando a
suspeita que estava na cabeça de todos. Não há cólera perto da região de
Hummil. Até mesmo a febre dá a um homem o período de uma semana, e a
morte súbita geralmente implicava suicídio.
       “Com esse tempo, não culpo ninguém”, disse Hummil. “Ele foi afeta-
do   pelo  sol,   imagino;   pois   uma   semana   atrás,   depois   que   vocês   partiram,
entrou na varanda e me disse que estava indo para casa ver sua mulher, na
rua Market, em Liverpool, naquela noite.”
       “Consegui que o farmacêutico viesse vê-lo e tentamos fazer com que
se deitasse, depois de uma ou duas horas, ele esfregou os olhos e disse que
achava ter tido um ataque, esperava não ter dito nenhuma palavra grosseira.
Jevins   tinha   grandes  esperanças   de   progredir   socialmente.   Usava   uma   lin-
guagem muito peculiar.10”

       “E?”
       “Então ele foi para o seu pequeno bangalô e começou a limpar um ri-
fle. Disse ao criado que pela manhã iria caçar. Provavelmente mexeu no ga-
tilho e deu um tiro na cabeça — acidentalmente. O farmacêutico enviou um
relatório ao meu chefe, e Jevins está enterrado em algum lugar lá. Eu teria
lhe telegrafado, Spurstow, se você tivesse podido fazer alguma coisa.”
       “Você é um sujeito esquisito”, disse Mottram. “Se você mesmo tivesse
matado o homem não poderia ter ficado mais quieto sobre o caso.”
       “Cruzes! O que importa?”, disse Hummil calmamente. “Tenho muito
trabalho de supervisão dele a fazer, além do meu próprio. Sou o único a so-

  10 No original  Chucks: significando um meio de vida, atributos, ações, crenças e estilo de um

homem. Chucks the Boatswain, uma espécie de escalador social, in: Peter Simple novela do Capi-
tão Frederick Marryat (1792-1848) (N.E.).

                                         

frer. Jevins está livre, por puro acidente, é claro, mas livre. O farmacêutico
ia   escrever   um   longo  discurso  sobre   suicídio.   Nada   como   um   babu11  para

escrever besteiras sempre que a chance aparece."
       “Por    que    você   não   deixou    que    isso  passasse    por   suicídio?”,    disse
Lowndes.
       “Nenhuma prova irrefutável. Um homem não tem muitos privilégios
neste país, mas pelo menos deveria ser-lhe permitido manejar mal seu pró-
prio rifle. Além disso, algum dia eu posso precisar que alguém abafe um aci-
dente comigo. Viva e deixe viver. Morra e deixe morrer.”
       “Tome   uma   pílula”,   disse   Spurstow,   que   estivera   observando   atenta-
mente   o  rosto  pálido  de  Hummil.  “Tome   uma   pílula   e   não   faça   besteira.
Esse tipo de conversa não tem sentido.12  De qualquer modo, suicídio é fugir

do trabalho. Se eu tivesse a paciência de dez Jós, estaria tão interessado no
que iria acontecer em seguida, que ficaria e observaria.”
       “Ah! Perdi essa curiosidade”, disse Hummil.
       “Fígado ruim?”, disse Lowndes compassivamente.
       “Não. Não consigo dormir. O que é pior.”
       “Por Júpiter que é!”, disse Mottram.  “Vez por outra eu também fico
assim, e o ataque tem que se esgotar por si mesmo. O que você toma?”
       “Nada. Para quê? Não preguei o olho desde a sexta-feira de manhã.”
       “Coitado!   Spurstow,   você   devia   dar   um   jeito   nisso”,   disse   Mottram.
“Agora que você falou, seus olhos estão bastante remelentos e inchados.”
       Spurstow, ainda observando Hummil, sorriu levemente. “Eu o conser-
tarei logo mais. Você acha que está muito quente para cavalgar?”
       “Para   onde?”,   disse   Lowndes,   cansado.  “Teremos   de   partir   às   oito   e
então haverá muito que cavalgar. Odeio um cavalo quando tenho de utilizá-
lo por necessidade. Céus! O que há para fazer?”

  11
    Babu: Funcionário bengali, fluente na língua inglesa. Bengali: habitante do Estado de Bengali,
Índia (N.E.).
  12 Skittles, no original: um dos pinos no jogo de nove pinos; no contexto, non sense (N.E.).


      “Começar o uíste novamente, por pontos de pintinho (um “pintinho”
vale oito xelins) e um mohur de ouro13  na falta”, disse Spurstow prontamente.

      “Pôquer.   O   pagamento   de   um   mês   pela   parada  —  sem   limites —  e
aumentos de cinqüenta rúpias. Alguém estará quebrado antes que nos levan-
temos”, disse Lowndes.
      “De minha parte, não me daria prazer algum quebrar alguém nesta me-
sa”, disse Mottram. “Não há nada de emocionante nisso e é tolice.” Ele di-
rigiu-se ao pequeno piano velho e quebrado do acampamento — destroços
de um ocupante casado que outrora havia ocupado o bangalô e abriu-o.
      “Está em cacos há muito tempo”, disse Hummil. “Os criados destruí-
ram-no.”
      O   piano   estava   de   fato   irremediavelmente   quebrado,   mas   Mottram
conseguiu pôr as notas rebeldes numa espécie de acordo e nasceu do tecla-
do dissonante algo que poderia outrora ter sido o fantasma de uma canção
popular do teatro de variedades. Os homens nas poltronas viraram-se com
visível interesse enquanto Mottram golpeava com violência cada vez maior.
      “Muito bem!”, disse Lowndes. “Por Júpiter! A última vez em que ouvi
essa canção foi em 79, ou por volta disso, um pouco antes de vir para cá.”
      “Ah!”,  disse  Spurstow  com  orgulho,  “eu   estava   em   casa   em   80.”  E 
mencionou uma canção popular em moda então.
      Mottram dedilhou-a toscamente. Lowndes criticou e se propôs a fazê-
lo corretamente. Mottram esboçou outra cançoneta, diferente das caracterís-
ticas do teatro de variedades, e fez um movimento como se fosse se levantar.
      “Sente-se”, disse Hummil, “eu não sabia que você compunha. Conti-
nue a tocar até que não consiga pensar em mais nada. Vou mandar afinar
esse piano antes que você venha novamente. Toque algo alegre.”
      Muito simples eram de fato as melodias que a arte de Mottram e as li-
mitações do piano poderiam produzir, mas os homens ouviram com prazer
e nas pausas falavam todos juntos do que haviam visto ou ouvido quando
estiveram pela última vez em casa. Uma densa tempestade de areia soprou lá

  13  Gold mohur: a moeda de maior valor utilizada na Índia na época (N.E.).


 fora e passou sibilando por sobre a casa, envolvendo-a nas sufocantes trevas
 da meia-noite, mas Mottram continuou, despreocupado, e o louco tilintar se
 elevava acima da vibração do pano de teto esfarrapado.
       No silêncio após a tempestade, ele passou gradativamente das canções
 escocesas de apelo mais íntimo, cantarolando-as por vezes enquanto as to-
 cava, para o Evening Hymn.
       “Domingo”, disse ele, fazendo um aceno com a cabeça.
       “Continue. Não se desculpe por isso”, disse Spurstow.
       Hummil riu, longa e ruidosamente.  “Isso mesmo, toque-a. Você está
 cheio de surpresas, hoje. Eu não sabia que você tinha esse dom consumado
 do sarcasmo. Como isso acontece?”
       Mottram recomeçou a música.
       “Está meio lenta. Você não pegou o tom de gratidão”, disse Hummil. 
 “Ela deveria passar para a „Grasshopper‟s Polka‟14  — assim.” E cantarolou,

pre stissimo,

              Glória a Ti, meu Deus, por esta noite,15

              Por todas as bênçãos de luz.

       Isso mostra que realmente nos sentimos abençoados. Como ela conti-
 nua? —

              Se à noite deito-me insone,
              Minha alma me enche de pensamentos sagrados:
                             Não perturbem meu descanso pensamentos maus —

  14  Grasshopper’s Polka, composição de Ernest Bucalossi (1859-1933) (N.E.).
  15  Glory to thee, my God, this night, / For all the blessings of the light. // If in the night I sleep-

 less lie,/ My soul with sacred thoughts supply; / May no ill dreams disturb my rest, /  Or powers of
 darkness me molest!. Hino All praise to Thee, my God, this night  (1674), letra do bispo Thomas
Ken sobre música de Thomas Tallis. Trechos citados erradamente por  Kipling, talvez intencio-
nalmente. O correto é: All praise to Thee, my God, this night, / For all the blessings of the light! //
 When in the night I sleepless lie, /  My soul with heavenly thoughts supply; /  Let no ill dreams
 disturb my rest, / No powers of darkness me molest (N.E.).

                                            

      Mais rápido, Mottram! —

              Ou me persigam potências do mal!

      “Bah! Que hipócrita você é!”
      “Não seja bobo”, disse Lowndes. “Você tem toda liberdade para fazer
o que quiser, mas não brinque com esse hino. Ele está associado em meu
espírito às mais sagradas recordações...”
      “Noites de verão no campo, janelas de vidro colorido, a luz esmaecen-
do,   e você  e   ela,   as   cabeças   coladas,  pendendo  sobre   um   livro   de hinos”,
disse Mottram.
      “Sim, e besouro velho e gordo atingindo seu olho quando vocês estão
indo para casa. Cheiro de feno e uma lua tão grande quanto uma chapeleira,
acima do topo de um monte de feno; morcegos, rosas, leite e mosquitos”,
disse Lowndes.
      “Mães também. Lembro-me exatamente de minha mãe cantando isso
para eu dormir quando era pequeno”, disse Spurstow.
      As trevas haviam caído sobre a sala. Eles podiam ouvir Hummil me-
xendo-se em sua cadeira.
      “Conseqüentemente”, disse ele irritado, “você o canta quando está no
sétimo círculo, bem fundo no Inferno! É um insulto à inteligência da Divin-
dade fingir que não somos uns rebeldes atormentados”.
      “Tome duas pílulas”, disse Spurstow: “isso é fígado maltratado”.
      “O geralmente plácido Hummil está num mau humor dos diabos. Te-
nho pena dos  coolies amanhã”, disse Lowndes, enquanto os criados traziam
os candeeiros e preparavam a mesa para o jantar.
      Enquanto   tomavam   seus   lugares   em   volta   das   sofríveis   costeletas   de
cabrito e do pudim de mandioca defumada, Spurstow aproveitou a ocasião
para sussurrar para Mottram, “muito bem, David!”
      “Procure Saul, então”, foi a resposta.
      “O que vocês estão cochichando?”, disse Hummil desconfiado.

                                       

      “Apenas que você é um anfitrião bem ruinzinho. Não se consegue cor-
tar esta carne”, respondeu Spurstow, com um sorriso gentil.  “Você chama
isso de jantar?”
      “Não posso fazer nada. Você não esperava um banquete, não é?”
      Durante toda aquela refeição Hummil se esforçou em insultar direta e
propositalmente todos os seus convidados, um após o outro, e a cada insul-
to Spurstow cutucava as pessoas agredidas sob a mesa; mas não ousou tro-
car um olhar de conivência com nenhum deles. O rosto de Hummil estava
branco e contraído, ao passo que seus olhos estavam anormalmente grandes.
Ninguém sonharia por um momento em ressentir-se de suas ofensas pesa-
das, mas assim que terminaram a refeição apressaram-se em partir.
      “Não     vão   embora.     Vocês    estavam    justamente    ficando    divertidos,
companheiros. Espero não ter dito nada que os aborrecesse. Vocês são tão
sensíveis...” E então, mudando o tom para uma súplica quase abjeta, Hum-
mil acrescentou, “Ora essa! Vocês não estão mesmo indo embora, não é?”
      “Na língua do abençoado Jorrocks,16  onde como, durmo”, disse Spurs-

tow. “Quero dar uma olhada em seus coolies amanhã, se você não se importa.
Será que poderia me arranjar um lugar para deitar?”
      Os outros alegaram urgência em seus muitos deveres no dia seguinte e,
montando,   partiram   juntos,   Hummil   lhes   pedia   que   viessem   no   domingo
seguinte. Enquanto partiam a trote, Lowndes abriu-se com Mottram:
      “... E eu nunca tive tanta vontade de chutar um homem na sua própria
mesa em toda a minha vida. Ele disse que eu roubei no uíste e me lembrou
que lhe devia dinheiro! Disse-lhe na sua cara que você era um mentiroso!
Você tem todo o direito de se sentir mais do que indignado.”
      “Eu não me sinto”, disse Mottram. “Pobre diabo! Você já viu alguma
vez o velho Hummy se portar desse jeito ou de forma remotamente seme-
lhante?”

  16 Jorrocks. Personagem de diversas novelas de Robert Smith Surtees (1803-1864), um dos au-

tores preferidos de Kipling (N.E.).

                                      

      “Não há desculpa para isso. Spurstow estava me chutando a perna o
tempo todo, e por isso me segurei. Do contrário, teria...”
      “Não, você não o faria. Você fez como Hummy com Jevins; não jul-
gue mal um homem tão indisposto. Por Júpiter! A fivela da minha rédea está
queimando minha mão! Trote um pouco e cuidado com os buracos de ra-
to.”
      Dez minutos de trote arrancaram de Lowndes uma observação bastan-
te solene quando ele se deteve, suando por todos os poros...
      “Ainda bem que Spurstow ficou com ele esta noite.”
      “Sim. Bom homem, o Spurstow. Nossas estradas se separam aqui. Ve-
jo você no próximo domingo, se o sol não me derrubar.”
      “Acho que sim, a menos que o secretário das finanças do velho Perna-
de-pau consiga temperar um pouco de minha comida. Boa noite, e... Deus
meu!”
      “O que foi agora?”
      “Nada,  não!”,   Lowndes   apanhou   seu   chicote   e,   batendo   de   leve   no
flanco da égua de Mottram, acrescentou: “Você não é um sujeitinho de todo
mau, só isso”. E a essas palavras a égua disparou assustada por meia milha
através da areia.
      No   bangalô   do   assistente   de   engenheiro,   Spurstow   e   Hummil   fuma-
vam cachimbo juntos, em silêncio, observando-se atentamente um ao outro.
O espaço da moradia de um solteirão é tão elástico quanto simples sua or-
ganização. Um criado desocupou a mesa de jantar, trouxe um par de toscas
armações   de   cama  feitas   de   tiras   fixadas   numa   estrutura   leve   de   madeira,
atirou um quadrado de esteira fresca de Calcutá sobre cada uma, colocou-as
uma ao lado da outra, prendeu com alfinetes duas toalhas àpunkah,  de mo-
do   que   suas franjas   pendessem   até  quase   o   nariz   e   a   boca   de   quem nelas
dormisse, e anunciou que os leitos estavam prontos.
      Os homens atiraram-se às camas, ordenando aos coolies do punkah  que,
com todas as forças infernais, abanassem. Todas as portas e janelas estavam
fechadas, pois a temperatura lá fora estava um forno. Dentro, a temperatura
era apenas 104° [40°C], como testemunhava o termômetro, e pesado com o

                                         ~

terrível cheiro dos candeeiros a querosene mal-ajustados; e esse fedor, com-
binado ao do tabaco nativo, tijolo queimado e terra seca, faz parar até o co-
ração   de   um   homem   forte,  pois   é   o   cheiro   do   Grande   Império   Indiano
quando ele se transforma, durante seis meses, em um lugar atroz. Spurstow
empilhou habilmente seus travesseiros, de modo que ficasse mais reclinado
do que deitado, com a cabeça em uma altura adequada acima de seus pés.
Não é bom dormir em travesseiro baixo quando está fazendo calor e se tem
pescoço grosso, pois pode-se passar, com roncos e gorgolejos vigorosos, do
sono natural para o sono pesado da apoplexia por calor.
      “Empilhe   seus   travesseiros”,   disse   o   doutor   secamente,   quando   viu
Hummil preparando-se para se estirar.
      A iluminação noturna estava bem distribuída: a sombra do punkah  on-
deava pela sala, o adejar da toalha-pu nkah e o suave ranger da corda através
do buraco da parede a seguiam. Então opunkah  esmoreceu, quase cessou. O
suor pingava da fronte de Spurstow. Deveria ele sair e repreender o  coolie?
Ela começou novamente a balançar com um solavanco forte e um alfinete
soltou-se  das   toalhas.   Quando   ele   foi   substituído,   um   tumtum   na   direção
dos coolies começou a soar com o pulsar firme de uma artéria inchada dentro
de um  crânio tomado de febre cerebral. Spurstow virou de lado e roncou
suavemente.  Não   havia   nenhum   movimento   da   parte   de   Hummil.   O   ho-
mem havia se ajeitado tão rigidamente quanto um cadáver, as mãos aperta-
das em seus flancos. A respiração estava demasiado rápida para indicar sono.
Spurstow   olhou   para  o   rosto   imóvel.   A   mandíbula   estava   cerrada   e   havia
uma ruga em torno das pálpebras palpitantes.
      “Ele está se segurando o mais que pode”, pensou Spurstow. “Que dia-
bos está acontecendo com ele? — Hummil!”
      “O quê?”, respondeu uma voz pesada e contida.
      “Você não consegue dormir?”
      “Não.”
      “Cabeça quente? Sentindo a garganta inchada? Ou o quê?”
      “Nenhuma das duas, obrigado. Não durmo muito, você sabe.”
      “Sentindo-se muito mal?”

                                       


      “Muito mal, obrigado. Há um tumtum lá fora, não? De início pensei
que  fosse   minha   cabeça...   Oh!,   Spurstow,   por   misericórdia,   me   dê   alguma
coisa para dormir, cair num sono profundo, ainda que por apenas seis ho-
ras!” Ele levantou-se num pulo, tremendo da cabeça aos pés. “Há dias não
tenho conseguido dormir bem, e não estou agüentando! Não estou agüen-
tando!”
      “Pobre amigo velho!”
      “Não adianta. Dê-me algo que me faça dormir. De verdade, estou qua-
se louco. Metade do tempo não sei o que digo. Durante três semanas tive de
pensar e soletrar cada palavra que me veio à boca antes que ousasse dizê-la.
Não é para deixar um homem louco? Não consigo ver as coisas claramente
agora, e perdi o sentido do tato. Minha pele dói — minha pele dói! Faça-me
dormir. Oh!, Spurstow, pelo amor de Deus, faça-me dormir um sono pro-
fundo. Não é suficiente deixar-me apenas sonhar. Faça-me dormir!”
      “Está bem, meu velho, está bem. Vá com calma; você não está tão mal
assim.”
      Uma vez abertas as comportas da represa, Hummil estava agarrando-se
a ele como uma criança amedrontada. “Você está machucando meu braço.”
      “Vou quebrar seu pescoço, se não me ajudar. Não, não quis dizer isso.
Não  fique   bravo,  meu   velho.” Ele   enxugou   o suor   enquanto   se  esforçava
por recompor-se. “Estou um pouco inquieto e inapetente, e talvez você pu-
desse me receitar alguma espécie de composto para dormir — brometo de

           17
potássio.  ”
      “Brometo uma ova! Por que não me disse isso antes? Solte meu braço,
e verei se há algo em minha cigarreira que resolva seu problema.” Spurstow
procurou entre suas roupas diárias, aumentou a luz da lamparina, abriu uma
pequena  cigarreira   de   prata   e   deu   uns   passos   em   direção   ao   expectante
Hummil com uma seringa extremamente fina e elegante.

  17 Bromide of potassium. Medicamento utilizado em distúrbios nervosos, como sedativo. O pe-

dido de Hummil provoca a experta exclamação de Spurstow, que lhe injeta morfina (N.E.).

                                         

      “O último recurso da civilização”, disse ele, “e algo que odeio usar. Es-
tenda seu braço. Bem, sua insônia não prejudicou seu músculo; e que couro
duro! Parece que estou dando uma subcutânea num búfalo. Agora, dentro
de poucos minutos a morfina começará a fazer efeito. Deite-se e espere”.
      Um sorriso de genuíno e beatífico prazer começou a insinuar-se pelo
rosto   de  Hummil.  “Acho”,   sussurrou   ele.  —  “Acho   que   estou   apagando
agora. Meu Deus! É decididamente celestial! Spurstow, você precisa me dar
essa caixa para eu guardar; você...” A voz cessou enquanto a cabeça pendeu
para trás.
      “Não por muito tempo”, disse Spurstow à forma inconsciente. “E a-
gora, meu amigo, já que insones do seu tipo tendem a relaxar a pressão mo-
ral em questiúnculas de vida e morte, tomarei a liberdade de travar suas ar-
mas.”
      Ele andou descalço a passos trôpegos até o quarto de selaria e tirou da
caixa um rifle calibre doze, uma espingarda automática e um revólver. Do
primeiro ele desatarraxou o bocal e os escondeu no fundo da caixa de selari-
a; da segunda tirou a alavanca, chutando-a para trás de um grande guarda-
roupas.  O terceiro ele apenas abriu, e emperrou o tambor com o salto de
uma bota de montar.
      “Feito”, disse ele, enquanto sacudia o suor de suas mãos. “Essas pe-
quenas precauções pelo menos lhe darão tempo para mudar de idéia. Você é
muito compassivo com acidentes com armas.”
      E, enquanto se levantava, a voz pastosa e abafada de Hummil excla-
mou na porta: “Seu tolo!”
      É esse o tom de voz que costumam usar aqueles que, nos intervalos de
lucidez em meio ao delírio, falam a seus amigos um pouco antes de morrer.
      Spurstow deu um pulo, deixando cair a pistola. Hummil estava na so-
leira, sacudindo-se numa gargalhada convulsiva.
      “Você foi muito gentil, sem dúvida”, disse ele, muito lentamente, bus-
cando  palavras.  “Não   pretendo   pôr   um   fim   em   mim   mesmo   por   minhas
próprias mãos, por enquanto. Ora essa, Spurstow, esse negócio não funcio-

                                    

na. O que vou fazer? O que vou fazer?” Pânico e terror transpareciam em
seus olhos.
      “Deite-se e dê um tempo. Deite-se imediatamente.”
      “Não   tenho   coragem.   Aquilo   vai   me   levar   novamente   e   não   poderei
fugir desta vez. Você sabe que isso era tudo que eu poderia fazer para me
safar neste instante? Geralmente sou rápido como um raio; mas você tinha
imobilizado meus pés. Quase fui pego.”
      “Ah, sim, entendo. Vá se deitar.”
      “Não, não é delírio; mas foi uma peça danada de baixa que você me
pregou. Você sabe que eu poderia ter morrido?”
      Assim   como   uma   esponja   apaga   completamente   uma   lousa,   também
algum poder ignorado por Spurstow apagara do rosto de Hummil todo tra-
ço   humano,  e  ele  postava-se   à porta   como   a   manifestação   de sua   perdida
inocência. Dormindo, ele recuara à infância aterrorizada.
      “Será que ele vai morrer aqui mesmo?”, pensou Spurstow. E então em
voz  alta: “Está bem, meu filho. Volte para a cama e me conte tudo. Você
não conseguiu dormir; mas como foi o resto da bobagem?”
      “Um lugar, um lugar lá”, disse Hummil, com uma sinceridade genuína.
A  droga estava agindo sobre ele em ondas, e ele passara do medo de um
homem forte para o terror de uma criança quando seus nervos assumiram o
controle ou foram embotados.
      “Deus do Céu! Há meses venho sentindo medo daquilo, Spurstow. Ele
transformou todas as noites em um inferno para mim; e, no entanto, não
tenho consciência de haver feito nada de errado.”
      “Fique quieto e lhe darei outra dose. Vamos cessar seus pesadelos, seu
grandissíssimo idiota!”
      “Sim, mas você precisa me dar bastante, para que eu não possa ir em-
bora.  Você   precisa   me   fazer   dormir   profundamente,   e   não   só   um   pouco
sonolento. É muito difícil correr depois.”
      “Eu sei, eu sei. Eu também já senti isso. Os sintomas são exatamente
como você descreve.”

                                      

      “Ah!, não ria de mim, seu maldito! Antes que essa terrível insônia me
acontecesse, eu tentava apoiar-me no cotovelo e colocar uma espora na ca-
ma para me picar quando caía. Veja!”
      “Por Júpiter! O homem tem sido esporeado como um cavalo! Caval-
gado turbulentamente pelo pesadelo! E todos nós o julgávamos muito sen-
sato. Vá lá entender! Você gosta de falar, não é?”
      “Sim, às vezes. Não quando estou amedrontado. Nessa hora desejo cor-
rer. Você não?”
      “Sempre. Antes de eu lhe dar sua segunda dose, tente dizer-me exata-
mente qual é o seu problema.”
      Hummil falou num sussurro entrecortado por quase dez minutos, en-
quanto Spurstow examinava as pupilas de seus olhos e passava a mão diante
deles uma ou duas vezes.
      No fim da narrativa, pegou a cigarreira de prata, e as últimas palavras
ditas por Hummil enquanto caía para trás pela segunda vez foram: “Faça-
me dormir um sono profundo; pois se eu for pego, morro, morro!”
      “Sim, sim, como todos nós, cedo ou tarde, graças aos Céus, que põem
um fim a todas as nossas desgraças”, disse Spurstow, arrumando as almofa-
das sob a cabeça. “Ocorre-me que, a menos que beba algo, morro antes da
hora. Parei de suar e — eu uso um colarinho cinqüenta.” Fez um chá escal-
dante, que é um excelente remédio contra a apoplexia por calor, quando se
toma   três   ou   quatro  xícaras   de   uma   só   vez.   Então   observou   aquele   que
dormia.
      “Um rosto apático que grita e não pode enxugar seus olhos, um rosto
apático  que   o   persegue   pelos   corredores!   Hum!   Decididamente,   Hummil
deveria   pedir uma   licença   assim   que   possível;   e,   são  ou   não,   ele   indubita-
velmente esporeou-se da maneira mais atroz. Bem, vá lá entender!”
      Ao meio-dia Hummil levantou-se, com um gosto ruim na boca, mas
com os olhos desanuviados e espírito alegre.
      “Eu passei bem mal na noite passada, não é?”, disse ele.

                                      

      “Já vi homens mais saudáveis. Você deve ter tido insolação. Olhe: se
eu escrever um atestado médico a seu favor, você pedirá licença imediata-
mente?”
      “Não.”
      “Por quê? Você precisa disso.”
      “Sim, mas posso agüentar até que o tempo fique um pouco mais fres-
co.”
      “E por quê, se pode conseguir um alívio imediato?”
      “Burkett é o único que poderia ser enviado; e ele é um rematado tolo.”
      “Oh!, não se preocupe com a linha. Você não é tão importante assim.
Telegrafe pedindo licença, se necessário.”
      Hummil parecia muito constrangido.
      “Posso agüentar até a estação das chuvas”, disse evasivamente.
      “Você não pode. Telegrafe ao centro de operações pedindo Burkett.”
      “Não. Se você quer saber por quê, exatamente, Burkett é casado e sua
mulher acabou de ter um filho e está em Simla, lugar mais fresco, e Burkett
tem um ótimo posto que lhe permite ir até Simla de sábado a segunda. A
mulherzinha não está muito bem. Se Burkett fosse transferido, ela teria de
segui-lo. Se ela deixasse o bebê para trás, ficaria mortalmente aflita. Se ela
viesse —  e Burkett é um daqueles animaizinhos egoístas que estão sempre
falando do lugar de sua mulher com seu marido — ela morreria. E assassi-
nato trazer uma mulher para cá justamente agora. Burkett tem o físico de
um rato. Se vier para cá, morre; e sei que ela não tem dinheiro algum e te-
nho certeza de que morrerá também. De certa forma estou imunizado, não
sou casado. Espere até a estação das chuvas, e então Burkett pode emagre-
cer aqui embaixo. Isso lhe fará um bem danado.”
      “Você quer dizer que pretende enfrentar... o que você enfrentou, até a
chegada das chuvas?”
      “Ora, não será tão ruim, agora que você me mostrou a saída. Sempre
posso  telegrafar-lhe. Além disso, agora que encontrei o caminho do sono,
vai ficar tudo bem. De qualquer modo, não vou pedir licença. E ponto fi-
nal.”

                                   

      “Meu excelente Scott! Eu julgava que tudo isso já eram águas passa-
das.”
      “Pfuh! Você faria o mesmo. Sinto-me um novo homem, graças àquela
cigarreira. Você vai para o acampamento agora, não é?”
      “Sim; mas virei vê-lo de vez em quando, se puder.”
      “Não   estou   tão   ruim   assim.   Não   quero   incomodá-lo.   Dê   gim   e   ket-
chup aos coolies.”
      “Então você está se sentindo bem?”
      “Pronto para sobreviver, mas não para ficar ao sol conversando com
você. Vá embora, meu velho, e Deus o acompanhe.”
      Hummil girou em seus calcanhares para enfrentar a solidão permanen-
te de seu bangalô, e a primeira coisa que viu na varanda foi a imagem de si
mesmo.      Ele  deparara-se     com    uma   aparição    semelhante     uma    vez  antes,
quando estava sofrendo de excesso de trabalho e da pressão do calor.
      “Isso é muito mau”, disse ele, esfregando os olhos. “Se a coisa deslizar
para longe de mim de uma  só vez, como um fantasma, saberei se se trata
apenas de um desarranjo dos olhos e do estômago. Se ela caminhar... minha
cabeça está indo.”
      Ele se aproximou da figura, que tinha a característica de manter distân-
cia dele, como costumam fazer todos os espectros que nascem do excesso
de   trabalho.  Ela   deslizou   pela   casa   e   dissolveu-se   nas   manchas   dentro  do
globo ocular assim que atingiu a luz ofuscante do jardim. Hummil cuidou de
seus afazeres até o entardecer. Quando entrou para jantar, ele viu a si pró-
prio sentado à mesa. A visão levantou-se e saiu apressadamente. Salvo pelo
fato de não lançar sombra, ela era, sob todos os aspectos, real.
      Nenhum        homem      vivo  sabe   o   que   aquela   semana    preparava     para
Hummil. Um aumento da epidemia reteve Spurstow no acampamento, en-
tre os coolies, e tudo que pudera fazer fora telegrafar para Mottram, instando-
o para que fosse para o bangalô e dormisse lá. Mas Mottram estava a qua-
renta milhas de distância do telégrafo mais próximo e de nada sabia, exceto
das   necessidades   da   inspeção,  até   que   encontrou,   na   manhã   de   domingo,
Lowndes e Spurstow a caminho da casa de Hummil para a reunião semanal.

                                         

      “Espero que o pobre sujeito esteja num humor melhor”, disse o pri-
meiro, pendendo seu corpo para apear-se à porta. “Acho que ele ainda não
se levantou.”
      “Vou dar uma olhada nele”, disse o doutor. “Se ele estiver dormindo,
não há necessidade de acordá-lo.”
      E um instante mais tarde, pelo tom da voz de Spurstow pedindo-lhes
que entrassem, os homens souberam o que acontecera. Não havia necessi-
dade de acordá-lo.
      O punkah  ainda estava sendo movido, mas Hummil deixara a vida ha-
via pelo menos três horas.
      O   corpo   jazia   de   costas,   as   mãos   rígidas   ao   lado   do   corpo,   como
Spurstow as vira sete noites antes. Nos olhos estatelados estava escrito um
terror fora do alcance de qualquer pena.
      Mottram, que entrara atrás de Lowndes, inclinou-se sobre o morto e
tocou levemente a testa com os lábios. “Oh, sujeito de sorte, diabo de sor-
te!”, sussurrou.
      Mas Lowndes vira os olhos e recuou tremendo para o outro lado da
sala.
      “Pobre rapaz! Pobre rapaz! E na última vez em que o vi eu estava bra-
vo. Spurstow, deveríamos ter cuidado dele. Ele...?”
      Habilmente,   Spurstow   continuou   em   suas   investigações,   terminando
em uma busca pela sala.
      “Não, ele não”, disse ríspida e rapidamente. “Não há vestígios de nada.
Chame os criados.”
      Eles vieram, oito ou dez deles, cochichando e espiando por sobre os
ombros dos outros.
      “Quando seu Sahib foi para a cama?”, disse Spurstow.
      “Achamos que às onze ou dez”, disse o criado pessoal de Hummil.
      “Ele estava bem então? Mas como vocês sabem?”
      “Ele   não   estava   doente,   tanto   quanto   pudemos   entender.   Mas   havia
dormido  muito   pouco   durante   três   noites.   Isso   eu   sei,   porque   o   vi   cami-
nhando muito e especialmente no meio da noite.”


      Quando Spurstow estava arranjando o lençol, uma grande espora reta
de caça caiu no chão. O doutor suspirou. O criado pessoal olhou de relance
para o corpo.
      “O que você acha, Chuma?”, disse Spurstow, percebendo o olhar na
face escura.
      “O  Nascido-do-Céu,18  na   minha   pobre   opinião,   este   que   era   o  meu

amo desceu até as Trevas e lá foi pego porque não conseguiu escapar rápido
o bastante. Temos a espora como prova de que ele lutou com o Medo. Te-
nho visto homens da minha raça fazerem assim com espinhos quando um
encanto lhes foi lançado para arrastá-los nas horas de sono e eles não ousa-
vam dormir.”
      “Chuma, você é um cabeça tonta. Vá e faça os preparativos para selar
os pertences de Sahib.”
      “Deus criou o Nascido-do-Céu. Deus me criou. Quem somos nós, pa-
ra indagar os desígnios de Deus? Pedirei aos outros criados para manter dis-
tância enquanto o senhor estiver relacionando os bens de Sahib. São todos
ladrões e roubariam.”
      “Na minha avaliação, ele morreu de... ora, de qualquer coisa; de parada
cardíaca, apoplexia pelo calor, ou alguma outra provação”, disse Spurstow a
seus companheiros. “Precisamos fazer um inventário de seus bens e coisas
assim.”
      “Ele estava morto de medo”, insistiu Lowndes. “Veja esses olhos! Pelo
amor de Deus, não deixem que seja enterrado com eles abertos!”
      “Fosse o que fosse, ele está livre de todos os problemas agora”, disse
Mottram     suavemente.
      Spurstow estava examinando os olhos abertos.
      “Venha cá”, disse ele. “Consegue ver algo aí?”

  18 Heaven-born. Título aplicado aos membros do Indian Civil Service como forma de elogio e

respeito.  Inspirado em twice-born  [nascido-duas-vezes] como eram nomeados os Brâmanes, sa-
cerdotes hindus da mais alta casta e cultura superior (N.E.).


      “Não consigo olhar para ele!”, disse Lowndes com uma voz lamurienta.
“Cubra o rosto! Haverá no mundo um medo que possa imprimir num ho-
mem essa aparência? É horrível. Oh, Spurstow, cubra isso!”
      “Nenhum   medo...   no   mundo”,   disse   Spurstow.   Mottram   inclinou-se
sobre seu ombro e olhou atentamente.
      “Não   vejo   nada,   exceto   algumas   manchas   cinzentas   na   pupila.   Não
pode haver nada, você sabe.”
      “Mesmo   assim.   Bem,   pensemos.   Levará   metade   do   dia   para   montar
qualquer tipo de caixão; e ele deve ter morrido à meia-noite. Lowndes, meu
velho, vá e diga aos coolies para começar a abrir uma cova ao lado do túmulo
de Jevins. Mottram, dê uma volta pela casa com Chuma e veja se puseram
selos nas coisas. Mande-me uns dois homens e porei ordem nisso.”
      Os   criados   de   braços   fortes,   quando   retornaram   aos   seus,   contaram
uma estranha história do doutor Sahib inutilmente tentando chamar de volta
à vida o seu amo, por rituais mágicos — segurando uma pequena caixa ver-
de que tinia em cada um dos olhos do homem morto, e de um murmúrio
confuso  da   parte   do   doutor   Sahib,   que   levou   embora   consigo   a   pequena
caixa verde.
      O ecoar das batidas de martelo em um caixão não é um som agradável,
mas os que passaram pela experiência sustentam que muito mais terrível é o
suave   farfalhar   dos   lençóis   de   linho,   o   ranger   das   tiras   de   lona   de   cama,
quando aquele que caiu à beira da estrada é preparado para o enterro, o gra-
dual   afundar  à   medida   que   as   tiras   amarradas   são   soltas,   até   que   a   forma
amortalhada toca o chão e não se ouve nenhuma queixa contra a indignida-
de da remoção apressada dos restos mortais.
      No último momento, Lowndes foi tomado de escrúpulos. “Há neces-
sidade de vocês seguirem o ritual inteiro?”, disse a Spurstow.
      “É o que pretendo. Como civil, você é o mais velho. Pode fazê-lo você
mesmo, se preferir.”
      “Não   quis   dizer   exatamente   isso.   Apenas   pensei   que,   se pudéssemos
conseguir um capelão em algum lugar, eu me ofereceria para ir procurado e
dar ao pobre Hummil uma chance melhor. Só isso.”

                                         

      “Pfuh!”, disse Spurstow, pondo nos lábios as terríveis palavras que são
ditas no início das exéquias.
      Depois do desjejum, fumaram cachimbo em silêncio, em memória do
morto. Então disse Spurstow distraidamente:
      “Não é coisa para a medicina.”
      “O quê?”
      “Coisas no olho de um morto.”
      “Pelo amor de Deus, deixa para lá aquele horror!”, disse Lowndes. “Já
vi um nativo morrer de puro medo quando um tigre o acossara. Sei o que
matou Hummil.”
      “Uma ova, que você sabe! Vou  tentar saber.”  E o doutor foi para o
banheiro com uma câmera Kodak. Após alguns minutos, ouviu-se o som de
algo sendo quebrado em pedaços com um maneio, e ele surgiu, muito, mui-
to branco.
      “Você tirou uma fotografia?”, disse Mottram. “Como é a criatura?”
      “Foi impossível, é claro. Você não precisa olhar, Mottram. Destruí os
filmes. Não havia nada lá. Foi impossível.”
      “Isso”, disse Lowndes, escandindo as palavras, observando a mão que
tremia, tentando acender o cachimbo, “uma mentira deslavada.”
      Mottram  riu  inquieto.  “Spurstow   está   certo”,  disse.  “Estamos   todos
em   tal  estado   agora   que   acreditaríamos   em   qualquer   coisa.   Pelo   amor   de
Deus, vamos tentar ser racionais.”
      Nada mais se disse por um longo tempo. O vento quente soprou lá fo-
ra, e as árvores secas soluçaram. Então, o trem diário, relampejando metal,
aço polido e jorrando vapor, parou ofegante na intensa luz cegante. “Deve-
mos embarcar”, disse Spurstow. “Voltar ao trabalho. Já escrevi meu atesta-
do. Não podemos ajudar em mais nada aqui, e o trabalho manterá nossos
juízos em ordem. Vamos.”
      Ninguém   se   moveu.   Não   é   agradável   enfrentar   viagens   de   trem   no
meio do dia em junho. Spurstow pegou seu chapéu e seu chicote e, voltan-
do-se na soleira da porta, disse:


       “Pode existir Céu — pode existir Inferno. Por enquanto, existe a nossa
vida aqui.19  E então?”

       Nem Mottram nem Lowndes encontraram resposta para a pergunta.

 19  Citação do final do poema de Robert Browning, “Time’s Revenger”: There may be heaven;

there must be hell; / Meantime, there is our earth here — well! (N.E.).

sábado, 6 de agosto de 2011

Rudyard Kipling-Fantasma Indiano na Inglaterra-Conto Fantasmgórico

Fantasma Indiano na Inglaterra
 Por: Rudyard Kipling
A História que se segue é apropriada ao momento, em primeiro lugar pela terra natal do fantasma, já que o episódio narrado ocorreu pouco antes da última Eleição Geral; em segundo lugar porque o Natal se aproxima, e é quando os fantasmas, como as ostras, eclodem.

Um cavaleiro solitário – que melhor ou mais corriqueira abertura pode haver para uma história de sangue e horror? Mas neste caso a solidão do cavaleiro era tão inegável como era também desconfortável para ele – portanto, um cavaleiro solitário seguia o seu melhor caminho – e entre o melhor e o pior pouca diferença havia: tudo era excepcionalmente ruim – para ir de Chester a Tarporley. Quem conhece esta parte da Inglaterra há de concordar sem discussão que para uma jornada longa em uma tarde enevoada e úmida de fevereiro se deve escolher o melhor roteiro: e o nosso cavaleiro solitário, chegado há pouco da Índia, não estava nada satisfeito. Depois de chapinhar quilômetros e quilômetros por estradas retas sem cercas, por trechos de capim encharcado e pinheiros lúgubres, por poças e brejos, caniços e espinheiros sem encontrar viv’alma desde que deixara a paisagem mirrada e sem verde da zona do sal-gema – onde as ovelhas são pretas como tinta e o capim que comem é áspero da fuligem das minas -, quando finalmente a estrada bifurcou e um lado da tabuleta indicava “Tarporley 6 milhas” e o outro “Budworth ½ milha”, ele naturalmente olhos suspiroso para a estrada de Budworth. Ao crepúsculo que baixava ele via a cintilação das luzes nas janelas da aldeia, ouvia a algazarra de meninos brincando, e -= melhor que tudo – via o clarão vermelho de um fogo no que, sem dúvida, era a estalagem. Isso o inspirou, e ele virou o cavalo para “O George”. Um jantar, uma lareira, uma garrafa de vinho; depois, em estilo bem moderno, eis o nosso cavaleiro solitário sozinho com os seus pensamentos. Talvez o frio da viagem o tenha deixado melancólico; talvez ele lamentasse não ter levado adiante a intenção de jantar em Tarporley. Seja como for, estava inquieto, e várias vezes se levantou para olhar na janela.

Na noite fria a neblina úmida de chuva cobria de branco marcos e glebas. Um vento de força crescente enche a velha casa de ruídos incômodos e joga a chuva em golfadas contra a vidraça.

A criada da estalagem dá uma olhada antes de ir dormir, “só para saber se o senhor precisa de alguma coisa”. Como ele não precisa, ela lhe deseja boa noite e caminha hesitante para a porta; depois se volta: “Eu não ficaria acordada esta noite, patrão. Não é bom ficar acordado à noite neste tempo. Dormindo a gente não escuta.” “Não escuta o quê?”, ele pergunta. “É só o que posso dizer; e o senhor pode achar que é o vento.” A porta se fecha abruptamente e a criada desaparece.

“Que raio de coisa será que ela pensa que existe para se ouvir?”, reflete o nosso cavaleiro. Ele se sente novamente atraído pela janela, e depois de dar uma ou duas voltas pelo quarto, pára e olha para a escuridão.

A chuva tinha cessado, e alguma coisa parecida com o luar se mostrava fracamente por entre as nuvens em disparada. O vento gemia triste na aldeia silenciosa, balançando a tabuleta da estalagem até ela cair no cemitério da igreja com um suspiro de alma de morto. Adiante, o vulto quadrado do moinho ergue-se negro mas impreciso acima da longa extensão de campo com sua linha de colmos. Batidos pelo vento, os amieiros perto do moinho tremem juntos. Era como se se inclinassem para cochichar uns com os outros e com os salgueiros mais baixos, cujos galhos chorões agitam braços fantasmagóricos para a água negra da margem. As longas rugas do pântano se desmancham no barranco, e há um farfalhar entre as canas, elas também parecendo se inclinar para cochichar. “Está chegando, escute!” Longe na água escura o lúcio gigante surge de repente na superfície; e o pio fantasmático de alguma grande ave aquática a distância como fugindo do lugar assombrado com asas de vento. Depois o vento também parece abaixar para ouvir de respiração contida – e bem acima do vapor do pântano, onde fica aquela quinta em ruínas, mera mancha à beira da extensão de água de água fumegante, ergue-se intermitente na neblina um eco comprido, baixo, melancólico. Não de todo desconhecido, ele soa em certos ouvidos e leva certamente, por associação de idéias, de volta a noites solitárias na jângal da Índia.

Ele abre a janela e olha para fora. O eco cresce e morre na distância depois do pântano onde a estrada se entorta para entrar na aldeia. “Está chegando!” O vento estremece e salta e dispara pelo capinzal coberto de névoa até alcançar a charneca, os pinhos, qualquer coisa longe da quinta em ruínas à beira do pântano, longe do cemitério com o teixo estiolado à entrada.

Uma vez (assim contou a dona da estalagem a nosso viajante quando ele apeou à porta) aquele teixo foi uma árvore esplêndida, que agitava os robustos galhos verdes ao vento como outras árvores; mas há anos uma praga caiu nela, dizem. Ela foi murchando e secando; quando os galhos não tinham mais folhas, apareceu pendurada do galho maior uma corda preta, esticada como se sustentasse um corpo. “O crime será descoberto” dizia o povo. Um velhinho disse que quando criança ele tinha instalado um balanço lá, e que a corda devia ser a do balanço, mas ninguém acreditou. Alguns diziam que o velho Cowp, que morava na quinta perto do pântano, agora em ruínas, e maltratava muito a filha, poderia dizer mais sobre a corda e a finalidade dela. Mas o velho Cowp e a filha já tinham sumido há muito tempo, ninguém sabe por que nem para onde; desapareceram de repente, e ninguém quis ficar com a quinta. Quando o teixo secou e a corda apareceu, a aldeia inteira se convenceu de que Cowp tinha praticado a tal coisa horrível, e a quinta dele ficou com má fama e virou tapera. Ninguém vai lá, nem de dia; de noite o vento se diverte nela. Segundo dizem, faz anos o vento não balança graveto nem corda, e de noite as crianças que passam lá passam correndo. De um mês ou pouco mais para cá, o “Cão do Diabo” tem uivado na aldeia toda noite; os uivos vêm da quinta do velho Cowp, circulam a árvore e entram no cemitério, onde ficam querendo abrir uma cova. Por isso todos estão convencidos de que o velho Cowp morreu e que o espírito mau dele voltou para assombrar o lugar onde faz a sua maldade e tentar abrir uma cova para os ossos de sua vítima no cemitério.

Tudo isso o nosso viajante relembra agora enquanto ouve o eco lamentoso se aproximando; e olha apreensivo para a noite escura. Um silêncio de morte baixou sobre água e terra, como um manto opressivo, sufocante. O lamento fantasmal fica mais alto e mais perto. As famílias se encolhem em suas camas e murmuram: “É o Cão do Diabo! Está chegando!” O uivo agora é claro e repentinamente perto, e justo quando a porta se abre de sopetão e a estalajadeira, aterrorizada, diz, “senhor, é ele!”, nosso viajante reconhece o inconfundível arranhar de um chacal indiano. “Não é fantasma, minha senhora, é cachorro selvagem ou raposa. Se eu estivesse na Índia diria que é um chacal comum. “Jack All, o senhor diz? Oh, Tom, você aqui!” Era o estalajadeiro parado na porta, mais apavorado do que a mulher. “Tom, qual é o nome que davam àquele lobo estrangeiro que fugiu do circo em Tarporley em agosto passado e nunca mais foi visto?” “Tratavam ele de Jack All, mulher.”

O nosso viajante foi logo para a cama. Numa investigação feita na quinta do velho Cowp, no dia seguinte, descobriu-se não só o esconderijo confortável do bom Jack, mas também pedaços de uma carta antiga mandada a Cowp por um irmão, convidando-o a ir viver em sua quinta em outro distrito; onde cartas mandadas por vizinhos curiosos o encontraram vivendo confortavelmente, mas não muito tranquilamente com a filha; que além de não ter sido assassinada, tinha adquirido toda a megerice da mãe e estava dando ao velho – segundo os vizinhos- um tratamento nada ameno.

Fontes: Traduzido pelo Arquivo do Barreto

Rudyard Kipling-Eles-Conto Fantasmagórico


Eles 

Por:Rudyard Kipling

Um panorama me levou a outro; um pico a seu companheiro, até a metade do distrito, e, como eu não podia me ocupar de mais nada senão de uma alavanca, deixei que a região deslizasse sob minhas rodas. As planícies salpicadas de orquídeas da região leste deram lugar ao tomilho, ao azevinho e à grama acinzentada das colinas; e estas novamente às ricas plantações de trigo e de figueiras da costa mais baixa, onde se é acompanhado pela pulsação da maré à esquerda durante quinze milhas planas; e quando finalmente voltei para o interior em meio a um amontoado de colinas redondas e florestas, já me livrara completamente de meus conhecidos sintomas. Além daquela mesma vila madrinha da capital dos Estados Unidos, encontrei aldeias ocultas onde abelhas, as únicas coisas despertas, zumbiam em tílias de oitenta pés que pendem sobre cinzentas igrejas normandas; riachos prodigiosos a mergulhar sobre pontes de pedra construídas para um tráfego mais pesado que jamais as atormentaria novamente; celeiros de dízimos maiores do que suas igrejas e uma velha ferraria que declarava em altos brados ter sido outrora sede dos Cavaleiros Templários. Encontrei ciganos em um terreno comunitário onde o tojo, a samambaia e a urze juntos disputavam-no por uma milha de estrada romana; e, um pouco mais adiante, perturbei uma raposa vermelha bamboleando como um cão em plena luz do dia.
Quando as colinas arborizadas fecharam à minha volta, levantei-me no carro para avaliar a posição daquela grande colina, cuja cabeça em anel constitui uma baliza ao longo de cinqüenta milhas através das regiões baixas. Julguei que a direção do campo me levaria até alguma estrada para o norte que corresse de seu sopé, mas... mas não levei em conta o efeito desorientador dos bosques. Uma virada súbita mergulhou-me de início numa clareira envolta em pura luz do sol e, em seguida, num túnel sombrio onde as folhas mortas dos anos anteriores sussurravam e brigavam com meus pneus. Os fortes galhos das aveleiras, que se juntavam acima, não eram cortados pelo menos há umas duas gerações, nem o machado auxiliado o carvalho corroído pelo musgo e a faia a crescer acima deles. Ali a estrada se transformou abruptamente num caminho atapetado, em cujo veludo castanho maços de prímulas brilhavam como jade, e uns poucos jacintos brancos de pedúnculo e murchos acenavam juntos. Como a inclinação era favorável, desliguei o motor e deslizei sobre as folhas rodopiantes, esperando a cada momento encontrar um caseiro; mas ouvi apenas um gaio, ao longe, discutindo com o silêncio sob a penumbra das árvores.
A trilha ainda descia. Eu estava prestes a virar e retornar em segunda marcha, antes que acabasse em algum brejo, quando vi a luz do sol através do emaranhado acima e puxei o freio.
Imediatamente recomeçou a descida. À medida que a luz batia em meu rosto, meus pneus dianteiros arrancavam a turfa de um vasto gramado rente, do qual saltavam cavaleiros de dez pés de altura com lanças em riste, pavões monstruosos e damas-de-honra lisas e de cabeças redondas — azuis, negras e resplandecentes —, todos de teixo aparado. Para além do gramado — as árvores, dispostas para o combate, sitiavam-na por três lados — ficava uma casa antiga de pedra gasta pelo tempo e coberta de líquen, com janelas altas e cobertura de telha vermelho rosado. Cercavam-na muros em meia-lua, também vermelho rosado, que fechavam o gramado no quarto lado, e a seus pés uma sebe quadrada da altura de um homem. Havia pombas no teto, em volta das chaminés estreitas de tijolos, e vi de relance um redil na forma de octógono, atrás da blindagem do muro.
Ali, então, parei — a espada verde de um cavaleiro apontada para meu peito — tomado pela estonteante beleza daquela jóia em tal cenário.
“Se não sou despachado como um intruso, ou se este cavaleiro não me fizer bater em retirada”, pensei, “Shakespeare e a rainha Elizabeth, pelo menos, devem sair daquele portão de jardim meio aberto e me convidar para o chá.”
Uma criança surgiu numa janela do andar superior, e pareceu-me que a pequenina acenava amigavelmente. Mas era para chamar um companheiro, pois então surgiu uma outra cabeça reluzente. Em seguida, ouvi uma risada entre os pavões de teixo e, virando-me para me certificar (até então eu estivera observando apenas a casa), vi as águas prateadas de uma fonte atrás da sebe, iluminada pela luz do sol. As pombas do teto arrulhavam à água murmurante; mas entre as duas notas captei os risinhos de felicidades de uma criança absorvida em alguma pequena traquinagem.
O portão do jardim — carvalho pesado cravado na espessura da parede — abriu-se ainda mais: uma mulher, com um amplo chapéu de jardim pôs lentamente o pé no degrau corroído pelo tempo e, ainda devagar, caminhou através da turfa. Eu estava formulando um pedido de desculpas quando ela levantou a cabeça e percebi que era cega.
“Eu o ouvi”, disse ela. “Não é um automóvel?”
“Acho que me perdi na estrada. Eu deveria ter virado logo acima... jamais sonhei...”, comecei eu.
“Mas fico feliz. Imagine um automóvel entrando no jardim! Será uma ameaça tão grande...” Ela virou-se, como que olhando a sua volta. “Você... você não viu ninguém, não é... talvez?”
“Ninguém com quem pudesse falar, mas as crianças pareciam interessadas, à distância.”
“Quais?”
“Vi umas duas na janela lá em cima, agora há pouco, e acho que ouvi um pequenino no gramado.”
“Ah!, você tem sorte!”, exclamou ela, e seu rosto brilhou. “Eu os ouço, é claro, mas é tudo. Você os viu e ouviu?”
“Sim”, respondi. “E se conheço crianças, uma delas está se divertindo à beça ao lado da fonte, ali adiante. Ela fugiu, imagino.”
“Você gosta de crianças?”
Dei-lhe uma ou duas razões pela quais não as odiava inteiramente.
“Certamente, certamente”, disse ela. “Então você compreende. Então você não me julgará tola se eu lhe pedir para entrar no jardim com seu carro, uma vez ou duas — bem devagar. Tenho certeza de que elas gostarão de vê-lo. Elas têm tão pouco para olhar, coitadas. Tenta-se lhes agradar, mas...”, ela estendeu as mãos para os bosques. “Estamos tão longe do mundo, aqui.”
“Será ótimo”, disse eu. “Mas não posso estragar sua grama.”
Ela voltou-se para a direita. “Espere um pouco”, disse. “Estamos no portão sul, não é? Atrás daqueles pavões há um caminho pavimentado. Nós o chamamos de Passeio do Pavão. Não se pode vê-lo daqui, segundo me dizem, mas se você abrir caminho pela borda do bosque poderá virar no primeiro pavão e chegar ao pavimento.”
Era sacrilégio despertar a frente daquela casa de sonhos com o ranger de uma máquina, mas sacudi o carro para tirar a turfa, ladeei a borda do bosque e cheguei ao amplo caminho de pedra, onde a base da fonte jazia como uma safira.
“Posso entrar também?”, gritou ela. “Não, por favor, não me ajude. Elas gostarão mais se me virem.”
Ela tateou seu caminho rapidamente até a frente do carro e com um pé no estribo, chamou: “Crianças, olhem! Olhem e vejam o que vai acontecer!”
A voz teria despertado as almas perdidas do Inferno, pela piedade que subjazia a sua doçura, e não fiquei surpreso ao ouvir um grito de resposta atrás dos teixos. Devia ser a criança ao lado da fonte, mas ela fugiu quando nos aproximamos, deixando um pequeno barco de brinquedo na água. Vi o brilho de sua camisa azul entre os cavaleiros imóveis.
Com muita animação, desfilamos ao longo do pavimento e, a seu pedido, voltamos novamente. Desta vez a criança superara seu terror, mas ficou à distância e hesitante.
“O pequenino está nos observando”, disse eu. “Será que ele quer dar uma volta?”
“Eles ainda estão muito assustados. Muito assustados. Ah!, mas que sorte você tem por poder vê-los! Vamos ouvir.”
Desliguei o motor imediatamente, e o silêncio úmido, com um cheiro forte de madeira, envolvia-nos intensamente. Podíamos ouvir o ruído de tosquia de onde o jardineiro estava trabalhando; um murmúrio de abelhas e sons entrecortados de vozes que poderiam provir das pombas.
“Ah!, malcriado!”, disse ela, aborrecida.
“Talvez eles estejam apenas com medo do motor. A pequenina à janela parece muitíssimo interessada.”
“É mesmo?”, ela levantou a cabeça. “Eu não devia ter dito isso. Elas realmente gostam de mim. É a única coisa por que vale a pena viver — quando elas gostam de você, não é? Nem ouso pensar como seria este lugar sem eles. A propósito, ele é bonito?”
“Acho que é o lugar mais bonito que já vi.”
“Assim disseram-me. Posso senti-lo, é claro, mas não é a mesma coisa.”
“Então você nunca...”, comecei, mas detive-me, embaraçado.
“Não desde que posso me lembrar. Aconteceu quando eu tinha apenas alguns meses, segundo me dizem. E, contudo, devo lembrar-me de algo, do contrário como poderia sonhar com cores? Vejo luz em meus sonhos, e cores, mas nunca as vejo. Apenas ouço-os, exatamente como quando estou desperta.”
“É difícil ver rostos em sonhos. Algumas pessoas conseguem, mas a maioria de nós não tem esse dom”, continuei, levantando os olhos para a janela, onde a criança permanecia oculta.
“Também ouvir dizer isso”, disse ela. “E dizem-me que nunca se vê em sonho o rosto de alguém que morreu. É verdade?”
“Acho que sim... agora que você mencionou.”
“Mas como é com você — você?”, Os olhos cegos voltaram-se para mim.
“Nunca vi os rostos de meus mortos em sonho algum”, respondi.
“Então deve ser tão ruim quanto ser cego.”
O sol mergulhara atrás das árvores, e as longas sombras estavam envolvendo os insolentes cavaleiros, um a um. Vi a luz morrer no alto de uma lança de folhas brilhantes, e todo o maravilhoso gramado escuro mudar para um negro suave. A casa, aceitando um outro findar do dia, assim como aceitara outras centenas, parecia acomodar-se mais profundamente para seu descanso nas sombras.
“Você alguma vez quis?”, disse ela, após o silêncio.
“Muito, às vezes”, respondi. A criança deixara a janela quando as sombras se fecharam sobre ela.
“Ah!, eu também! Mas acho que não é permitido... Onde você mora?”
“Bem distante, do outro lado da região — sessenta milhas ou mais, e preciso voltar. Vim sem meu lampião grande.”
“Mas ainda não está escuro. Posso senti-lo.”
“Acho que já é hora de ir para casa. Você poderia me emprestar um para iluminar o início de minha estrada? Estou completamente perdido.”
“Vou pedir que Madden o acompanhe até a encruzilhada. Estamos tão distantes do mundo, não admira que você tenha se perdido! Eu o guiarei até a frente da casa; mas vá devagar, por favor, até sair do gramado. Você não acha que seja uma tolice, não é?”
“Prometo que sim”, disse eu e deixei que o carro começasse a descer a trilha pavimentada.
Ladeamos a ala esquerda da casa, cujas calhas de chumbo fundido e trabalhado valia bem a viagem de um dia; passamos sob o grande portão coberto de rosas e também à volta da alta fachada da casa, que excedia em beleza e magnificência ao lado posterior, assim como a tudo mais que eu vira.
“Ela é tão bonita assim?”, disse ela ansiosamente, quando ouviu minhas exclamações. “E você também gosta dos desenhos de chumbo? Atrás há o velho jardim de azáleas. Dizem que este lugar deve ter sido feito para crianças. Pode me ajudar, por favor? Eu gostaria de acompanhá-lo até a encruzilhada, mas não devo deixá-las. E você, Madden? Quero que você mostre a este cavalheiro o caminho até a encruzilhada. Ele perdeu-se, mas... ele as viu.”
Um mordomo surgiu silenciosamente no admirável portão de carvalho antigo que devia ser chamado de porta principal e inclinou-se para o lado, para pôr o chapéu. Ela ficou olhando para mim, com os olhos azuis abertos, que nada viam, e vi, pela primeira vez, que era linda.
“Lembre-se”, disse ela calmamente, “se você gosta dela, você voltará”, e desapareceu dentro da casa.
O mordomo nada disse no carro, até nos aproximarmos do portão da propriedade, onde, ao ver de relance um blusão azul numa moita, desviei-me subitamente para que o diabinho que põe os menininhos a brincar não me fizesse cometer o infanticídio.
“Perdão”, disse ele subitamente, “mas por que o senhor fez aquilo, senhor?”
“A criança ali.’
“Nosso jovem cavalheiro vestido de azul?”
“É claro.”
“Ele corre um bocado. O senhor o viu ao lado da fonte?”
“Ah!, sim, várias vezes. Viramos aqui?”
“Sim, senhor. E por acaso o senhor os viu lá em cima também?”
“Um pouco antes disso. Por que você quer saber?”
Ele ficou em silêncio por um momento. “Apenas para me certificar de que... de que eles haviam visto o carro, senhor, porque com crianças correndo por todo lado, embora eu tenha certeza de que o senhor está dirigindo com muito cuidado, poderia haver um acidente. Só por isso, senhor. Aqui está a encruzilhada. O senhor não pode errar o caminho daqui para frente. Obrigado, senhor, mas não é nosso hábito, não com...”
“Peço desculpas”, disse a ele, e abandonei os rodeios.
“Ah!, não há problemas com todos os outros, normalmente. Adeus, senhor.”
Ele recolheu-se a sua fortaleza e afastou-se. Evidentemente um mor-domo cioso da honra de sua casa e encarregado, provavelmente junto a uma criada, de cuidar das crianças.
Uma vez passados os postes sinalizadores, olhei para trás, mas as colinas enrugadas entrelaçavam-se tão ciumentamente que eu não conseguia ver onde estivera a casa. Quando perguntei seu nome em um chalé ao lado da estrada, a mulher gorda que vendia doces lá deu-me a entender que pessoas com automóveis não tinham muito direito de viver — e muito menos de “ficar falando por aí como gente de carroça.” Essa não era uma comunidade de maneiras muito agradáveis.
Quando retracei meu caminho no mapa naquela noite compreendi um pouco mais. Antiga Fazenda de Hawkins parecia ser o nome de levantamento do lugar, e o velho Guia do Condado, geralmente tão completo, não a mencionava. A casa principal daquelas paragens era Hodnington Hall, georgiana com melhoramentos do início da era vitoriana, como uma horrível gravação de aço atestava. Levei meu problema a um vizinho — uma árvore profundamente enraizada naquele solo —, e ele me deu o nome de uma família que nada tinha a ver.
Mais ou menos um mês depois, fui novamente, ou meu carro pode ter tomado o caminho por vontade própria. Ele transpôs os campos estéreis, percorreu rapidamente todas as voltas do labirinto de alamedas ao sopé das colinas, atravessou os bosques semelhantes a muros altos, de folhagens exuberantes e impenetráveis, chegou à encruzilhada onde o mordomo me deixara e, um pouco mais adiante, apresentou um problema interno que me forçou a desviá-lo para um atalho gramado irregular, que dava para um bosque de aveleiras silencioso e quente. Tanto quanto pude ter certeza, pelo sol e um mapa pequeno de estado-maior, essa deveria ser a estrada que flanqueava aquele bosque que eu divisara inicialmente de cima dos morros. Preparei-me para dar conta de uma avaria séria, com um sortimento reluzente de ferramentas, chaves de parafuso, bomba de ar e coisas assim, que dispus em ordem sobre um tapete. Era uma armadilha para atrair a criançada, pois, num dia como esse, pensei, as crianças não estariam longe. Quando fiz uma pausa em meu trabalho, prestei atenção, mas o bosque estava tão cheio de ruídos do verão (embora os pássaros já tivessem acasalado) que de início não consegui distingui-los dos passos de pezinhos cautelosos a se esgueirarem pelas folhas mortas. Toquei minha buzina delicadamente, mas os pés fugiram, e me arrependi, pois, para uma criança um ruído súbito é realmente aterrorizante. Eu devia estar trabalhando há uma meia hora quando ouvi na floresta a voz da mulher cega exclamando: “Crianças, ah, crianças, onde estão vocês?” e o silêncio demorou a fechar-se sobre a beleza daquele chamado. Ela veio em minha direção, tateando seu caminho com dificuldade por entre os troncos de árvores, e embora uma criança, parecia, se agarrasse a sua saia, ela se desviava entre a folhagem como um coelho à medida que se aproximava.
“É você?”, disse ela, “do outro lado do condado?”
“Sim, sou eu, do outro lado do condado.”
“Então por que não veio pelas florestas acima? Elas estavam lá agora há pouco.”
“Elas estavam aqui há poucos minutos. Acho que souberam que meu carro quebrou lá embaixo e vieram para ver a brincadeira.”
“Espero que não seja nada sério. Como os carros quebram?”
“De cinqüenta modos diferentes. Somente o meu escolheu o qüinqua-gésimo-primeiro.”
Ela riu da pilhéria, um riso grave e delicioso, e empurrou o chapéu para trás.
“Deixe-me ouvir”, disse ela.
“Espere um pouco”, gritei, “e lhe consigo uma almofada.”
Ele colocou o pé no tapete todo coberto de peças de reserva e parou sobre ele, impaciente. “Que coisas divertidas!” As mãos pelas quais ela via olharam, à luz quadriculada do sol. “Uma caixa aqui — outra caixa! Ora veja, você as dispôs como numa loja de brinquedos!”
“Confesso agora que as coloquei assim para atraí-las. Na verdade não preciso de metade delas.”
“Que gentil! Ouvi sua campainha na floresta acima. Você diz que elas estavam aqui antes disso?”
“Tenho certeza. Por que elas são tão tímidas? Aquele rapazinho de azul que estava com você há pouco deve ter vencido seu medo. Ele esteve me observando como um pele vermelha.”
“Deve ter sido sua buzina”, disse ela. “Ouvi uma delas passar por mim assustada quando eu estava descendo. Eles são tímidos — muito tímidos, até mesmo comigo.” Ela virou o rosto por cima do ombro e gritou novamente: “Crianças! Ah!, crianças, venham ver!’
“Elas devem ter se reunido para suas ocupações”, aventei, pois havia um murmúrio atrás de nós, de vozes baixas e entrecortadas pelas risadinhas súbitas de crianças. Voltei aos meus consertos e ela inclinou-se para frente, o queixo na mão, ouvindo atentamente.
“Quantas são?”, disse eu por fim. O trabalho estava terminado, mas eu não via motivo para ir.
Sua testa franziu um pouco, pensativa. “Não sei exatamente”, disse ela candidamente. “Às vezes mais — outras menos. Elas vêm e ficam comigo porque eu as amo, sabe?”
“Isso deve ser muito agradável”, disse eu, recolocando uma gaveta, e, enquanto falava, ouvi a futilidade de minha resposta.
“Você... você não está rindo de mim”, exclamou ela. “Eu... eu não tenho nenhuma. Nunca me casei. As pessoas riem de mim às vezes por causa delas, porque... porque...”
“Porque são bárbaros”, completei. “Não há nada com que se aborrecer. Esses tipos riem de tudo que não faz parte de suas vidas gordas.”
“Não sei. Como poderia? Eu só não gosto de que riam de mim por causa delas. Isso dói; e quando não se pode ver... não quero parecer tola”, seu queixo tremeu como o de uma criança enquanto ela falava; “mas nós, ceguinhos, somos muito sensíveis, acho eu. Tudo que vem do exterior atinge nossas almas. É diferente com vocês. Seus olhos são uma boa defesa — olhar — antes que alguém possa realmente feri-los intimamente. As pessoas se esquecem disso quanto a nós.”
Fiquei em silêncio, a repassar aquela questão inesgotável — a brutalidade mais do que herdada (uma vez que também isso é cuidadosamente ensinado) das pessoas cristãs, ao lado da qual o paganismo simples dos negros da costa oeste é inocente e contido. Isso me levou a um retraimento pensativo.
“Não faça isso!”, disse ela subitamente, pondo as mãos diante dos olhos.
“O quê?”
Ela fez um gesto com a mão.
“Isso! É... violeta e negro. Não faça! Essa cor dói.”
“Mas como é possível que você conheça cores?”, exclamei, pois aí estava uma verdadeira revelação.
“As cores como cores?”, perguntou ela.
“Não. Essas cores que você viu agora há poucos instantes.”
“Você sabe tão bem quanto eu”, riu ela, “do contrário, não teria feito essa pergunta. Elas não pertencem ao mundo. Elas estão em você — quando você fica muito bravo.”
“Você quer dizer uma mancha violeta baça, como vinho do porto misturado de tinta?”, disse eu.
“Nunca vi tinta ou vinho do porto, mas as cores não são misturadas. Elas são separadas — todas separadas.”
“Você quer dizer listas pretas e denteadas sobre o violeta?”
Ela fez que sim, com a cabeça. “Sim... se elas são assim”, e fez um ziguezague com o dedo novamente. “Mas é mais vermelha do que violeta — essa cor ruim.”
“E quais são as cores no topo do... do que quer que você veja?”
Lentamente ela inclinou-se para frente e traçou no tapete a figura do próprio Ovo.
“Eu os vejo assim”, disse ela, apontando para uma haste de relva, “branco, verde, amarelo, vermelha, roxo, e quando as pessoas estão bravas ou mal, negro sobre o vermelho — como você estava agora há pouco”.
“Quem lhe falou tudo sobre isso — no começo?”, indaguei.
“Sobre as cores? Ninguém. Eu costumava perguntar de que cores eram, quando era pequena — nas toalhas de mesa, cortinas e tapetes, sabe? Porque algumas cores me ferem e outras me alegram. As pessoas me disseram; e quando fiquei mais velha foi assim que vi as pessoas.” Novamente ela traçou o contorno do Ovo, que há muito poucos é dado ver.
“Tudo sozinha?”, repeti.
“Sozinha. Não havia ninguém mais. Somente depois descobri que as outras pessoas não viam as cores.
Ela se encostou ao tronco de árvore dobrando e desdobrando talos de relva arrancados ao acaso. As crianças na floresta haviam se aproximado. Eu conseguia vê-las com rabo do olho, traquinando como esquilos.
“Agora tenho certeza de que você nunca rirá de mim”, continuou ela, após um longo silêncio. “Nem delas.”
“Meu Deus, não!”, exclamei, despertado do fio de meus pensamentos. “Um homem que ri de uma criança — a menos que a criança também esteja rindo — é um pagão!”
“Eu não quis dizer isso, é claro. Você nunca riria de crianças, mas julguei — eu julgava — que talvez você poderia rir por causa delas. Portanto, agora lhe peço desculpas... Do que você vai rir?”
Eu não fizera nenhum som, mas ela sabia.
“Da idéia de você me pedir desculpas. Se você tivesse cumprido seu dever como um pilar da sociedade e como uma proprietária fundiária, deveria ter me chamado às falas por invasão quando entrei sem pedir licença em suas florestas no outro dia. Foi vergonhoso de minha parte — indesculpável.”
Ela olhou para mim, a cabeça contra o tronco de árvore — longa e fixamente essa mulher que podia ver dentro da alma.
“Que estranho”, sussurrou ela. “Muito estranho.”
“Por quê? O que fiz?”
“Você não compreende... e contudo entendeu as cores. Não entende?”
Ela falava com um sentimento que nada justificara, e eu a encarei perplexo, enquanto ela se levantava. As crianças haviam se reunido num círculo, atrás de um arbusto de amoreira-preta. Uma cabeça macia inclinou-se sobre algo menor, e os pequenos ombros em conjunto contaram-me que os dedos estavam sobre os lábios. Também elas tinham algum grande segredo infantil. Somente eu me encontrava perdido lá, em plena luz do sol.
“Não”, disse eu e balancei a cabeça, como se os olhos mortos pudessem notar. “Seja o que for, ainda não compreendo. Talvez mais tarde — se você me permitir retornar.”
“Você voltará”, respondeu ela. “Com certeza voltará e andará pela floresta.”
“Talvez as crianças venham a me conhecer bem o suficiente, então, para me deixarem brincar com elas — como um favor. Você sabe como são as crianças.”
“Não é uma questão de favor, mas de direito”, respondeu ela, e enquanto eu me perguntava o que ela queria dizer, uma mulher em desalinho surgiu na curva da estrada, de cabelos soltos, roxa, quase mugindo de agonia, enquanto corria. Era a minha mal-educada, gorda amiga da loja de doces. A mulher cega ouviu e recuou. “O que foi, sra. Madehurst?”, perguntou.
A mulher atirou seu avental sobre a cabeça e literalmente rastejou na poeira, gritando que seu neto estava mortalmente doente, que o médico local estava fora, pescando, que Jenny, a mãe, estava fora de si e assim por diante, com repetições e berros.
“Onde está o médico mais próximo?”, perguntei entre os paroxismos.
“Madden lhe dirá. Vá até a casa e leve-o com você. Eu cuido disso. Rápido!”
Ela mal tolerava a mulher gorda, na sombra. Em dois minutos eu estava soprando todas as cometas de Jericó à porta da Linda Casa, e Madden, na despensa, correspondeu à conjuntura como um mordomo e um homem.
Quinze minutos de velocidades acima do permitido conseguiram-nos um médico a cinco milhas. Em meia hora nós o despejamos, muito interessado em motores, à porta da loja de doces e estacionamos à beira da estrada para aguardar o veredicto.
“Muito úteis, os carros”, disse Madden, na qualidade de homem, não de mordomo. “Se eu tivesse um quando a minha ficou doente, ela não teria morrido.”
“Como foi isso?”, perguntei.
“Crupe. A sra. Madden estava fora. Ninguém sabia o que fazer. Viajei oito milhas em uma carroça alugada, em busca do doutor. Ela havia se asfixiado quando voltamos. Este carro a teria salvo. Ela teria agora quase dez anos.”
“Lamento”, disse eu. “Pensei que você gostava muito de crianças, pelo que você me disse a caminho da encruzilhada, outro dia.”
“O senhor as viu novamente — esta manhã?”
“Sim, mas elas são muito reticentes quanto a carros. Não consegui que nenhuma delas se aproximasse menos de vinte jardas dele.”
Ele olhou-me cautelosamente como um escoteiro examina um estranho — não como um doméstico levantaria os olhos para seu superior designado pela divindade.
“Gostaria de saber por quê”, disse ele, com um longo suspiro.
Nós aguardamos. Um vento leve do mar soprava pelas longas linhas das florestas, e o capim da trilha, já quase brancos da poeira do verão, levantava e pendia em acenos abatidos.
Uma mulher, enxugando a espuma das mãos, saiu do chalé ao lado da doceria.
“Eu estava ouvindo no quintal”, disse ela animadamente. “Ele diz que o Arthur está muito mal. Vocês o ouviram gritar agora há pouco? Muito mal mesmo. Acho que será a vez de Jenny caminhar pela floresta na próxima semana, sr. Madden.”
“Perdão, senhor, mas seu cobertor está escorregando”, disse Madden, solícito. A mulher sobressaltou-se, fez um cumprimento e afastou-se depressa.
“O que ela quer dizer com ‘caminhar pela floresta’?”, perguntei.
“Deve ser alguma expressão que eles usam por aqui. Eu sou de Norfolk”, disse Madden. “Neste condado, as pessoas têm um jeito todo seu. Ela o tomou por um motorista, senhor.”
Vi o doutor sair do chalé, seguido por uma meretriz com vestes sujas que se agarrava ao seu braço como se ele pudesse negociar com a Morte por ela. ‘Eles”, gemia ela — “eles valem tanto para nós quanto se fosse legítimo. Valem tanto quanto — tanto quanto! E Deus pode ficar tão agradecido quanto se o senhor salvasse um deles, doutor. Não o tire de mim. A dona Florence vai lhe dizer o mesmo. Não deixe ele, doutor!”
“Eu sei, eu sei”, disse o homem, “mas ele ficará calmo por algum tempo, agora. Conseguiremos a enfermeira e o remédio tão rápido quanto pudermos.”
Ele me fez um sinal para avançar com o carro, e eu procurei não me intrometer no que se seguiu; mas vi o rosto da moça, manchado e gelado de tristeza, e senti a mão sem anel apertar meus joelhos quando me afastei.
O doutor era um homem de certo senso de humor, pois me lembro de ele ter requisitado meu carro sob o juramento de Esculápio e fez uso dele e de mim sempiedade. Primeiramente escoltamos a sra. Madehurst e a cega para junto do leito do doente até que chegasse a enfermeira. Em seguida, invadimos uma asseada cidade do condado em busca de medicamentos (o doutor disse que o problema era meningite cérebro-espinal), e quando no Instituto do Condado, cercado e flanqueado por assustado gado de corte, declararam que por enquanto não havia enfermeiras, nos despachamos literalmente a esmo pelo condado. Conferenciamos com os proprietários de casas grandes — magnatas — nos extremos de alamedas em arco, cujas mulheres se afastaram a largos passos de suas mesas de chá para ouvir ao despótico doutor. Por fim, uma senhora de cabelos brancos, sentada sob um cedro do Líbano e cercada por uma corte de galgos — todos hostis a motores —, deu ao doutor, que as recebeu como de uma princesa, ordens escritas, que portamos por muitas milhas em velocidade máxima, através de um parque, a um convento francês, onde recebemos em troca uma freira pálida e trêmula. Ela ajoelhou-se ao fundo da parte traseira do carro, rezando seu terço sem cessar até que, por atalhos providenciados pelo doutor, chegamos com ela a doceria, mais uma vez. Foi uma longa tarde, recheada de episódios loucos, que surgiram e se dissolveram como o pó das rodas; representantes de vidas remotas e incompreensíveis, entre os quais corríamos em ângulos retos; e fui para casa ao entardecer, exausto, para sonhar com os chifres em colisão do gado; freiras de olhos redondos a caminhar num jardim de cemitério; reuniões agradáveis de chá à sombra de árvores; os corredores pintados de cinza e recendendo a ácido fênico; os passos de crianças tímidas na floresta, e as mãos que apertavam meus joelhos enquanto o motor começava a funcionar.

* * *

Eu pretendia voltar em um ou dois dias, mas quis o destino que ficasse retido naquele lado do condado, sob muitos pretextos, até que florescesse a rosa mais velha e rebelde. Chegou por fim um dia brilhante, límpido a sudoeste e que mostrava as colinas ao alcance da mão — um dia de ventos instáveis e de nuvens altas e diáfanas. Sem nada a impedir, eu estava livre e pus o carro naquela estrada conhecida. Quando alcancei o topo das colinas, senti o ar suave mudar, vi-o brilhar sob o sol; e, olhando o mar abaixo, num instante divisei o azul do canal transformar-se em prata polida, e aço embaçado, em peltre desbotado. Um navio carvoeiro carregado que ladeava a costa dirigia-se ao largo em busca de águas mais profundas e, através da neblina acobreada, vi as velas erguerem-se uma a uma acima da frota de pesqueiros ancorada. Numa duna profunda atrás de mim, um redemoinho de vento subitamente ressoou através de carvalhos protegidos e levantou a primeira amostra de seca de folhas de outono. Quando alcancei a estrada costeira, o nevoeiro do mar elevava-se acima das olarias, e a maré avisava a todas as arestas do temporal além de Ushant. Em menos de uma hora, a Inglaterra estival desaparecera num cinzento gelado. Estávamos novamente na ilha fechada do norte, com todos os navios do mundo a vociferar em nossos portões em perigo; e entre seus clamores ouvia-se o lamento das gaivotas perplexas. Meu carro pingava umidade, as dobras do tapete represava-a em poças ou escorria-a em riachos, e a geada salgada grudava em meus lábios.
Na região interior, o perfume de outono enchia o nevoeiro adensado entre as árvores, e o orvalho se transformou em uma garoa contínua. Contudo, as flores tardias — malva de beira de estrada, escabiosa do campo e dália do jardim — mostravam-se alegres na névoa e, para além do sopro do mar pouco indício havia de decadência na folha. Todavia, nas aldeias, as portas das casas estavam todas abertas, e crianças de pernas e cabeças nuas estavam à vontade, sentadas nas soleiras úmidas para gritar “pihhh” para o forasteiro.
Tomei a liberdade de ir até a doceria, onde a sra. Madehurst veio ao meu encontro com as lágrimas hospitaleiras de uma mulher gorda. O filho de Jenny, disse ela, morrera dois dias depois da chegada da freira. Fora melhor assim, achava ela, ainda que companhias de seguro, por razões que ela não pretendia compreender, não quisessem assegurar vidas tão incertas. “Não que Jenny não tenha cuidado de Arthur como se ele tivesse vindo ao mundo da maneira certa — como a própria Jenny.” Graças à senhorita Florence, a criança fora enterrada com uma pompa que, na opinião da sra. Madehurst, compensava em muito a pequena irregularidade de seu nascimento. Ela descreveu o caixão, por dentro e por fora, o carro funerário com vidros e o revestimento de sempre-vivas no túmulo.
“Mas como está a mãe?”, perguntei.
“Jenny? Ah!, ela vai se recuperar. Senti o mesmo com um ou dois dos meus. Ela vai se recuperar. Ela está passeando na floresta agora.”
“Neste clima?”
A sra. Madehurst olhou-me com olhos apertados por trás da máquina registradora.
“Não sei, mas é como se abrisse o coração. Sim, abre o coração. É o que torna igual perder e dar à luz, no fim das contas, como dizemos.”
Agora, a sabedoria das parteiras é maior do que a de todos os antepassados, e aquele último oráculo me pôs a pensar durante tanto tempo enquanto eu subia pela estrada, que quase atropelei uma mulher e uma criança na curva arborizada ao lado dos portões da Bela Casa.
“Tempo horrível!”, gritei eu, enquanto diminuía quase totalmente a velocidade, para fazer a curva.
“Nem tanto”, respondeu ela placidamente, por entre a névoa. “O meu está acostumado. Você encontrará o seu lá dentro, eu acho.”
Lá dentro, Madden recebeu-me com cortesia profissional e perguntas gentis sobre a saúde do motor, que ele queria cobrir.
Esperei num saguão castanho e silencioso, agradavelmente adornado de flores tardias e aquecido pelo delicioso fogo de lenha acesa — um lugar de bons eflúvios e grande paz. (Homens e mulheres podem por vezes, após um grande esforço, fazer com que se acredite numa mentira; mas a casa, que é seu templo, nada pode dizer exceto a verdade daqueles que nela viveram.) Um carrinho de brinquedo e uma boneca jaziam sobre o chão preto e branco, de onde um tapete fora afastado. Senti que as crianças haviam acabado de fugir — para esconder-se, provavelmente — para um dos muitos lances da grande escadaria entalhada à mão que subia, imponente, do saguão, ou para se agacharem e olhar por entre os leões e das rosas do balcão entalhado acima. Ouvi então sua voz acima de mim, cantando como fazem os cegos: do fundo da alma.

Nos aprazíveis pomares.
E todos os meus primeiros verões responderam ao chamado.

Nos aprazíveis pomares,
Deus abençoe todas as nossas riquezas, dizemos...
Mas que Deus abençoe todas as nossas perdas,
Que melhor convém à nossa condição.

Ela omitiu o quinto verso e repetiu:

Que melhor convém à nossa condição!

Ela parou.
Eu a vi inclinar-se sobre o balcão, as mãos brancas como pérolas entrelaçadas contra o carvalho.
“É você... do outro lado do condado?”, chamou ela.
“Sim, eu, do outro lado do condado”, respondi rindo.
“Quanto tempo, desde que você veio aqui pela última vez.” Ela desceu correndo as escadas, uma mão a tocar levemente o largo balaústre. “São dois meses e quatro dias. O verão acabou!”
“Minha intenção era vir antes, mas o destino não quis.”
“Eu sabia. Por favor, faça algo com aquele fogo. Eles não me deixam mexer com ele, mas posso sentir que ele está se comportando mal. Bata nele!”
Olhei para ambos os lados da lareira funda e encontrei apenas um atiçador meio carbonizado, com o qual cutuquei uma tora negra para acendê-la.
“Ele nunca se apaga, noite ou dia”, disse ela, como que explicando. “Caso venha alguém com dedos frios, você sabe.”
“O interior é mais encantador ainda do que o exterior”, murmurei. A luz vermelha difundia-se desde as guarnições escuras polidas pelo tempo até as rosas e leões Tudor do balcão, que adquiriam cor e movimento. Um antigo espelho convexo, encimado por uma águia, reunia o quadro em seu centro misterioso, distorcendo novamente as sombras distorcidas e dando às linhas curvas do balcão a curvatura de um navio. O dia estava se fechando numa quase tempestade, enquanto o nevoeiro transformava-se num chuvisco viscoso. Através das esquadrias nuas da ampla janela, eu podia ver os valentes cavaleiros do gramado recuar e recobrar-se contra o vento que os castigava com legiões de folhas mortas.
“Sim, deve ser lindo”, disse ela. “Você gostaria de vê-la? Ainda há luz suficiente lá em cima.”
Segui-a pela escadaria firme, ampla, até o balcão, que dava para portas elizabetanas, de canas estreitas.
“Sinta como eles punham as maçanetas bem baixo, por causa das crianças.” Ele moveu uma porta para dentro.
“A propósito, onde estão elas?”, perguntei. “Não as ouvi hoje.”
Ela não respondeu imediatamente. Então, “Eu só consigo ouvi-las”, respondeu suavemente. “Este é um de seus quartos — está tudo pronto, como você vê.”
Ela apontou para um quarto todo revestido de madeira. Havia mesinhas baixas e cadeiras para crianças. Uma casa de bonecas, com a parte dianteira curva meio aberta, estava diante de um grande cavalo de balanço malhado, de cuja sela almofadada de um pulo uma criança poderia subir até o amplo banco embutido da janela que dava para o gramado. Uma arma de brinquedo jazia num canto, ao lado de um canhão de madeira pintada de dourado.
“Com certeza elas acabaram de sair”, sussurrei. Na luz fraca, uma porta rangeu cautelosamente. Ouvi o farfalhar de um avental e o ruído de passos — passos ligeiros através de um quarto mais adiante.
“Ouvi isso”, gritou ela triunfantemente. “É você? Crianças, ah, crianças, onde estão?”
A voz encheu as paredes, que a sustentaram amorosamente até a última nota perfeita, mas não houve um grito em resposta, como eu ouvira no jardim. Percorremos um a um os quartos de soalho de carvalho; um degrau acima aqui, três degraus abaixo acolá; por entre um labirinto de corredores; sempre enganados por nossa caça. Menos difícil seria procurar uma agulha no palheiro. Havia inúmeras saídas de fuga — reentrâncias em paredes, vãos de janelas estreitas e fundas, agora escurecidas, de onde eles poderiam escapar pelas nossas costas; e lareiras de alvenaria abandonadas, de seis pés de profundidade, assim como o entrançado de portas comunicantes. Sobretudo, em nosso jogo, eles tinham a penumbra a seu favor. Eu captara uma ou duas risadinhas de subterfúgio, e uma ou duas vezes vira a silhueta do avental de uma criança contra uma janela na penumbra no fim de um corredor; mas retornamos ao balcão de mãos vazias, exatamente quando uma mulher de meia-idade estava colocando um candeeiro em seu lugar.
“Não, não a vi nem nesta tarde, srta. Florence”, ouvi-a dizer, “mas aquele Turpin disse que quer falar sobre a choupana dele.”
“Ah!, o sr. Turpin precisa muito falar comigo. Diga-lhe que venha ao saguão, sra. Madden.”
Olhei para o saguão abaixo, iluminado apenas pelo fogo fraco, e imersas na sombra vi-as finalmente. Elas deviam ter se esgueirado para baixo enquanto estávamos nos corredores, e agora se julgavam completamente escondidas atrás de um antigo biombo de couro dourado. Pelas leis infantis, minha caçada infrutífera servia como uma apresentação, mas, já que eu tivera tanto trabalho, decidi forçá-las a se mostrarem mais tarde mediante o truque simples, que as crianças detestam, de fingir não notá-las. Elas se agruparam, num grupinho amontoado, não mais do que sombras, exceto quando uma rápida chama traía um contorno.
“E agora beberemos um chá”, disse ela. “Creio que eu deveria tê-lo oferecido a você de início, mas não se adquirem modos, de certa forma, quando se vive sozinho e é considerado — hum... — especial.” Então, com um delicioso desdém, “Você gostaria de um candeeiro para ver o que come?”
“O fogo da lareira é muito mais agradável, acho.” Descemos para aquela deliciosa penumbra, e Madden trouxe chá.
Levei minha cadeira para perto do biombo, pronto para surpreender ou ser surpreendido na continuação do jogo e, com a permissão dela, uma vez que uma lareira é sempre sagrada, inclinei-me para frente para brincar com o fogo.
“Onde você conseguiu essas lindas varas curtas?”, perguntei ao acaso. “Ora essa, são talhas!”
“É claro”, disse ela. “Como não posso ler ou escrever, voltei à antiga talha inglesa para fazer minhas contas. Dê-me uma e lhe direi o que ela significa.”
Passei-lhe uma talha de aveleira não queimada, de cerca de um pé de comprimento, e ela correu seu polegar pelos cortes.
“Este é o registro do leite para a fazenda, para o mês de abril do ano passado, em galões”, disse ela. “Não sei o que teria feito sem as talhas. Um dos meus velhos guardas-florestais ensinou-me o sistema. Está fora de moda agora, e ninguém mais o usa; mas meus inquilinos o respeitam. Um deles está vindo agora para me ver. Ah!, não importa. Ele não devia vir aqui fora do horário de trabalho. É um homem ganancioso, ignorante... muito ganancioso ou... não viria aqui depois do anoitecer.”
“Você possui muitas terras, então?”
“Apenas uns duzentos acres, graças a Deus. Os outros seiscentos estão quase todos arrendados para pessoas que conheciam os meus antes de mim, mas esse Turpin é bastante novo — e um ladrão de estrada.”
“Mas você tem certeza de que eu não...?”
“Claro que não. Você tem direito. Ele não tem filhos.”
“Ah!, as crianças!”, disse eu e deslizei minha cadeira para trás até que ela quase tocasse o biombo que as escondia. “Será que elas virão me procurar?”
Ouviram-se vozes — a de Madden e uma outra mais grave — à porta lateral baixa, e um gigante de cabeça ruiva, de galochas de lona, o inconfundível tipo de fazendeiro inquilino tropeçou ou foi empurrado para dentro.
“Venha até o fogo, sr. Turpin”, disse ela.
“Com licença... com licença, senhorita, eu... eu prefiro ficar ao lado da porta.”
Ele agarrou-se ao trinco enquanto falava, como uma criança amedrontada. Subitamente percebi que ele estava tomado de um enorme pavor.
“Sim?”
“Sobre aquela nova choupana para os pequeninos... só isso. Essas primeiras tempestades de outono estão chegando... mas volto depois, senhorita.” Seus dentes não batiam muito mais do que o trinco da porta.
“Acho que não”, respondeu ela no mesmo tom. “A nova choupana... humm. O que meu administrador lhe escreveu no dia 15?”
“Eu... achei que talvez, se eu viesse vê-la... co... como de homem para homem, senhorita... mas...”
Seus olhos percorriam todos os cantos da sala, arregalados de pavor. Ele entreabriu a porta pela qual entrara, mas notei que ela se fechara nova-mente — do lado de fora e com força.
“Ele escreveu o que eu lhe ordenei”, continuou ela. “Você já está abar-rotado de estoque. A Fazenda Dunnett nunca teve mais do que cinqüenta bois — mesmo no tempo do sr. Wright. E ele usava ração. Você tem sessenta e sete e não forra. Nisso você rompeu o contrato. Você está esgotando a fazenda.”
“Eu... eu estou trazendo alguns minerais... superfosfatos... na próxima semana. Eu também já mandei uma carroça cheia. Vou até a estação amanhã para pegar. Depois eu posso vir e falar com a senhorita de homem para homem, à luz do dia... Esse senhor não está indo embora, está?” Ele estava quase gritando.
Eu havia apenas deslizado a cadeira um pouco mais para trás e estendera o braço atrás de mim para bater no couro do biombo, mas ele pulou como um rato.
“Não. Por favor, preste atenção a mim, sr. Turpin.” Ela virou sua cadeira e encarou-o; ele permaneceu de costas para a porta. Era um estratagemazinho velho e sórdido o que ela empregava. “Seu pedido de um novo estábulo à custa da proprietária, para que ele pudesse com o estéreo coberto pagar o aluguel do ano seguinte com o lucro, após (como ela deixou claro) ter exaurido as ricas pastagens.”
Eu não poderia deixar de admirar o grau de sua ganância, quando o vi enfrentando, por ela, o pavor que lhe escorria da fronte, fosse qual fosse o motivo.
Parei de bater no biombo — na verdade, eu estava calculando o custo do estábulo — quando senti minha mão solta ser tomada suavemente entre macias mãos infantis. Eu ganhara, finalmente. Dentro de instantes, eu me viraria e conheceria aqueles caminhantes de pés ligeiros...
O beijinho roçou o centro de minha palma — como um presente, em torno do qual os dedos deveriam se fechar: como todos os sinais sinceros e de quase censura de uma criança que não está acostumada a ser ignorada, nem mesmo quando os adultos estão mais ocupados — um fragmento do código mudo inventado há muito, muito tempo.
Então eu soube. E era como se eu houvesse sabido desde o primeiro dia, quando olhei do gramado para a janela alta.
Ouvi a porta fechar-se. A mulher virou para mim em silêncio, e senti que ela sabia.
Quanto tempo se passou depois disso, não sei. Fui despertado pela queda de uma tora e mecanicamente levantei-me para colocá-la de volta. Então retornei ao meu lugar na cadeira, bem perto do biombo.
“Agora você compreende”, sussurrou ela, em meio às densas sombras.
“Sim, eu compreendo... agora. Obrigado.”
“Eu... eu apenas as ouço.” Ela pendeu a cabeça sobre as mãos. “Não tenho o direito, você sabe... nenhum outro direito. Nem dei à luz, nem perdi... nem dei à luz, nem perdi!”
“Fique feliz, então”, disse eu, pois minha alma toda se abriu dentro de mim.
“Perdoe-me!”
Ela ficou imóvel, e eu voltei para minha tristeza e minha alegria.
“Foi porque eu as amava tanto”, disse ela por fim, a voz entrecortada. “Foi por isso, até mesmo da primeira... até mesmo antes que eu soubesse o que elas... elas eram tudo que eu jamais teria. E eu as amava tanto!”
Ela estendeu os braços para as sombras e as sombras dentro da sombra.
“Elas vieram porque eu as amava... porque eu precisava delas. Eu... eu devo tê-las feito vir. Foi errado, você não acha?”
“Não... não.”
“Eu... eu lhe garanto que os brinquedos e... e tudo aquilo era loucura, mas... mas eu odiava tanto quartos vazios, quando era pequena!” Ela apontou para o balcão. “E os corredores todos vazios... E como jamais poderia eu suportar a porta do jardim fechada? Imagine...”
“Não! Por piedade, não!”, exclamei. O crepúsculo trouxera uma chuva fria com rajadas de ventos de tempestade que batiam nas calhas de chumbo.
“E a mesma coisa com o fogo a noite inteira. Eu não acho que isso seja muito tolo. E você?”
Eu olhei para a larga lareira de alvenaria, vi, através das lágrimas, creio, que não existia um ferro intransponível sobre ela ou perto dela e acenei com a cabeça.
“Fiz isso e muitas outras coisas — só para fingir. Então elas vieram. Ouvia-as, mas não sabia que não eram minhas por direito, até que a sra. Madden me contou...”
“A mulher do mordomo? O quê?”
“Uma delas... eu ouvi... ela viu... e descobriu. A dela! Não para mim. Eu não sabia, de início. Talvez eu tivesse ciúmes. Depois eu comecei a compreender que era somente porque eu as amava, não porque... Ah!, você precisa dar à luz ou perder”, disse ela piedosamente. “Não há outra maneira — e todavia elas me amam. Com certeza! Não é?”
Não havia nenhum som na sala exceto o do crepitar do fogo, mas ambos ouvíamos atentamente, e ela por fim consolou-se com o que ouvia. Ela recobrou-se e endireitou-se. Fiquei sentado, imóvel em minha cadeira ao lado do biombo.
“Não pense que sou uma coitada por assim lamentar-me, mas... mas estou em completa escuridão, você sabe, e você pode ver.”
Era verdade, eu podia ver, e minha visão confirmava minha resolução, embora esta fosse como o dilaceramento do espírito e da carne. E, contudo, eu permaneceria um pouco mais, uma vez que era a última vez.
“Você acha que é errado, então?”, exclamou ela, num tom agudo, embora eu nada dissera.
“Não de sua parte. Mil vezes, não. Para você está certo... sou grato a vocês, mais do que palavras poderiam expressar. Para mim seria errado. Para mim, somente...”
“Por quê?”, disse ela, mas passou a mão diante do rosto como fizera em nosso segundo encontro no bosque. “Ah!, entendo”, continuou, desafetadamente como uma criança. “Para você seria errado.” Então, com uma risada interior, “E, você se lembra, eu o chamei de afortunado — uma vez — no início. Você não deve retornar aqui, jamais!”
Ela me deixou sentar por mais algum tempo ao lado do biombo, e ouvi o som de seus passos morrerem no balcão acima.


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