Amigos da Toca

Visitem meu outro blog!


Se alguma das imagens estiver muito grande clique em cima da imagem para poder vê-la por inteiro

Se alguma das imagens estiver muito grande clique em cima da imagem para poder vê-la por inteiro

Navegue na Toca ouvindo os sons da Natureza!

Mostrando postagens com marcador Contos de Fadas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos de Fadas. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de maio de 2012

A Colina dos Elfos-Hans Christian Andersen





(Esse conto é lindo e mágico)

A colina dos elfos 

Por:Hans Christian Andersen


Umas ágeis lagartixas correram pelas fendas do tronco de uma velha árvore. Entendiam-se muito bem, pois todas falavam a língua de lagartixa.
- Que barulheira tem havido lá na velha Colina dos Elfos! - disse uma delas - já lá vão duas noite que não prego olho, por causa do alarido lá em cima. Eu podia estar na cama com dor de dente, que dava na mesma: em tal situação também não consigo dormir.
- Há qualquer coisa lá dentro - disse outra lagartixa - ficam na Colina, onde se erguem os quatro pilares vermelhos, até a hora do galo cantar. Estão limpando tudo, e as jovens elfas aprenderam novos bailados. Preparam alguma coisa, na certa.
- Falei com uma minhoca de minhas relações - informou uma terceira lagartixa - ela vinha directamente da colina, onde cavara a terra noite e dia. Ouvira muita coisa, pois ela apenas ouve: não vê, não enxerga, a coitada. Só se vale mesmo do tacto, para ajudar a audição. Esperam visitantes na Colina, visitantes ilustres. Quem são, a minhoca não quis dizer. Ou simplesmente não sabia. Todos os fogos-fátuos foram convocados, para realizarem uma marcha de archores. Ouro e prata, que não faltam lá na colina, estão sendo polidos e postos a enxugar sob a luz da Lua.
- Quem poderão ser esses visitantes? - perguntaram todas as lagartixas - o que irá haver por lá? ouçam: que zoada! Que burburinho!
Naquele momento abriu-se a Colina dos Elfos e saiu uma velha elfa solteirona, sem costas (segundo a mitologia escandinava, os elfos, embora muito graciosos e bonitos de frente, não têm costas: são ocos por trás), mas muito bem vestida, andando num passinho miúdo e rápido. Era a velha governanta do Rei dos Elfos. Tinha certo parentesco, embora remoto, com a família real, e trazia, como insígnia, um coração de âmbar na frente. Como andava depressa! Em seu passinho curto, as perninhas não paravam. Ela foi direto ao pântano, onde morava o Engole-Vento.
- O sr. está convidado a ir à Colina dos Elfos esta noite - disse ela - mas peço-lhe a gentileza de fazer-nos primeiro um grande serviço. Peço-lhe que se encarregue de distribuir os convites. Já que o sr. mesmo não tem casa, pode fazer-nos esse favor. Vamos receber visitas, gente muito nobre e ilustre, duendes de alta linhagem, e o velho Rei dos Elfos quer apresentar a todos eles o que há de melhor.
- Quem será convidado? - perguntou o Engole-Ventos.
- Para o grande baile pode vir todo o mundo, até seres humanos, contanto que saibam falar dormindo ou conheçam um pouco de outras artes nossas. Mas, para a festa inicial, haverá rigorosa selecção: só queremos a fina flor da sociedade, o que há de mais aristocrático. Já discuti com o Rei, pois, a meu ver, nem mesmo os fantasmas devemos convidar. O Tritão e suas filhas devem ser convidados em primeiro lugar; não gostam de ficar no seco, mas poderão receber, cada um, uma pedra molhada para sentar, ou coisa ainda melhor. Espero que assim não se recusem a vir dessa vez. A seguir, devem ser convidados todos os velhos duendes de primeira categoria, os de cauda, o Homem do Ribeirão e os anões. Penso também que não podemos deixar de convidar o Porco do Sepulcro, o Cavalo da Morte e o Gnomo da Igreja (segundo a superstição popular, na Dinamarca, em baixo de cada igreja que é construída, deve ser sepultado um cavalo vivo; o fantasma deste cavalo é o Cavalo da Morte, que anda à noite, mancando, pois tem só três pernas, e vai às casas onde alguém está para morrer. Em algumas igrejas era enterrado um porco vivo, e o fantasma desse porco era chamado o Porco do Sepulcro). Eles pertencem ao clero, não são, na verdade, gente nossa, mas, enfim, têm o seu cargo. Além disso, sempre nos visitam. Logo, creio que devem ser lembrados.
- Croááá... - disse o Engole-Vento, que antes tinha os apelidos Noitibó e Curiango.
E saiu voando, para convidar o pessoal.
As moças elfas já dançavam na Colina. Bailavam com um xale longo, tecido de névoa e luar, o que é lindo para os olhos que apreciam coisa assim. No centro da Colina dos Elfos, o grande salão estava muito bem arrumado e enfeitado. O chão fora lavado com luar e as paredes polidas com unguento de feiticeira, o que as deixara brilhantes como pétalas de tulipa diante da luz. A cozinha estava abarrotada de iguarias finas - como rãs no espeto, peles de cobra-d'água, dedinhos de criança pequena, saladas de semente de chapéu-de-cobra, focinhos de camundongo molhados em cicuta, cerveja fabricada pela Bruxa do Charco, vinho cintilante de salitre das câmaras mortuárias subterrâneas, enfim: todos os manjares mais substanciais e deliciosos. Pregos enferrujados e cacos de vidraça de igreja figuravam entre as sobremesas.
O velho Rei dos Elfos mandou polir sua coroa de ouro com lápis de lousa. Era o lápis de um primeiro aluno da classe, coisa muito difícil de obter para o Rei dos Elfos. No dormitório penduravam cortinas e as prendiam com saliva de cobra-d'água. Havia, de fato, grade azafama, um interminável burburinho.
- Agora é defumar tudo com crina e cerdas de porco queimadas, e creio que fiz minha parte - disse a velha elfa solteirona.
- Paizinho! - suplicou a mais nova das elfas - irei afinal saber quem são os nobres visitantes?
- Está bem - disse o pai - não tenho outro remédio senão revelá-lo. Duas de minhas filhas têm de estar prontas para o casamento. Duas vão certamente nos deixar, para casar. Virá aqui, com os seus dois filhos, que devem escolher mulher, o Duende-Ancião lá de cima, da Noruega, residente na velha montanha de Dovre e senhor de muitos castelos, situados nas rochas, e de uma mina de ouro que vale mais do que se pensa. Ele é o verdadeiro tipo do velho norueguês, honrado, alegre e simples. Conheço-o dos velhos tempos, quando bebíamos juntos e fizemos camaradagem. Ele tinha vindo cá, buscar sua esposa, que já é morta. Era a filha do Rei das Penedias de Moen. Tenho muita saudade do velho duende norueguês. Os filhos, dizem, são uns rapazes malcriados e fanfarrões. Mas, quem sabe? Talvez não seja verdade. Além disso, eles podem mudar com o tempo. Vamos ver se minhas filhas os põem no bom caminho.
- E quando vêm eles? - perguntou uma das filhas.
- Depende dos ventos e do tempo - disse o Rei do Elfos - eles fazem uma viagem económica. Vêm de navio. Eu queria que viessem pela Suécia, mas o velho não gosta daqueles lados. Ele não acompanha a evolução do tempo, e isso, a meu ver, é o seu único defeito.
Naquele momento vieram pulando dois fogos-fátuos, um mais depressa que o outro, por isso chegou primeiro.
- Eles vêm vindo! Eles vêm vindo! - avisou.
- Dai-me minha coroa e deixai-me ficar no lugar! - disse o Rei.
As filhas ergueram os longos xales e inclinaram-se até o chão.
Lá estava o Duende-Anão de Dovre, com sua coroa de pontas de gelo endurecidas e cones de pinheiros polidos. Trajava uma pele de urso, e calçava botas de inverno; os filhos, porém, vinham de pescoço descoberto e sem suspensórios, pois eram homens fortes.
- Isso é Colina? - perguntou o mais novo dos rapazes, apontando a Colina dos Elfos - na Noruega chamamos a isso um buraco!
- Meninos! - disse o velho - buracos vão para dentro, colinas vão para cima! Não tendes olhos para ver?
Só de uma coisa se admiravam: entenderam, sem dificuldade, a língua do lugar.
- Não nos façais de tolos! - disse o velho - devia-se crer que ainda cheirais a cueiros!
Entraram assim na Colina dos Elfos, onde se achava reunida a seleta e festiva companhia. Mas parecia reunida às pressas, como amontoada pelo vento. No entanto, tinham cuidado do conforto individual de cada um. A gente do mar estava à mesa, sentada em grandes vasilhas de água, e diziam que se sentiam como em casa. Todos observavam a etiqueta, com exceção dos dois jovens duendes noruegueses, que punham os pés sobre a mesa, convencidos de que para eles tudo ficava bem.
- Tirem as patas de cima da mesa! - disse o velho duende, e os rapazes obedeceram, embora com relutância.
Com os cones de pinheiros que traziam nos bolsos, faziam cócegas nas damas, suas vizinhas de mesa. Em seguida, tiraram as botinas, para ficarem mais à vontade, e deram-nas a uma das damas, para segurar. O pai, o velho Duende de Dovre, sim, era diferente. Sabia contar coisas bonitas das altas montanhas norueguesas, de cachoeiras que despencavam, brancas de espuma, com um fragor que parecia trovão e música de órgão misturados. Falou do salmão, que salta contra a água da correnteza, quando o génio das águas dedilha sua harpa de ouro; falou das brilhantes noites hibernais, quando soam as campainhas dos trenós e os rapazes correm, com archotes acesos, sobre os lisos campos de gelo - gelo tão transparente que as pessoas vêem, a seus pés, os peixes fugirem espavoridos. Sabia narrar com tanta vivacidade que se via e ouvia o que ele contava. Era como se escutassem as serrarias em movimento, os rapazes e moças cantando e dançando. De repente, arrebatado, o velho duende beijou a velha elfa solteirona - mas foi como um beijo de tio, embora nem fossem parentes.
Chegou a vez de as moças dançarem - não só simples bailados como sapateados. Seguiram-se bailados artísticos, individuais, e como sabiam elas usar as penas! No auge da dança, não se sabia mais o que era um lado e o que era outro, o que eram braços e o que eram pernas. Giravam com tal rapidez que o Cavalo-da-Morte até se sentiu mal e teve de sair da mesa.
- Prrrr! - disse o velho Duende - que festa de pernas!
Mas o que sabem elas, além de dançar, levantar as pernas e fazer remoinhos?
- Já o saberás! disse o Rei dos Elfos.
E chamou a mais jovem de suas filhas, fina e clara como o luar, a mais delicada dentre as irmãs. Ela tomou na boca uma varinha branca, e praticamente desapareceu. Era esta a sua arte.
O Duende-Ancião, porém, disse que não apreciava aquele tipo de arte em uma esposa, e que, segundo acreditava, também seus filhos não haveriam de apreciá-la.
A outra moça conseguia andar ao lado de si própria, como se projectasse uma sombra, coisa que os duendes não têm.
A terceira era completamente diferente: trabalhava na cervejaria da Feiticeira do Charco e sabia lardear nós de amieiro com pirilampos.
- Esta dará uma boa dona de casa - disse o Ancião, piscando os olhos.
Seguiu-se a quarta moça. Trazia consigo uma grande harpa de ouro, e, quando feriu a primeira corda, todos ergueram a perna esquerda, pois os duendes são canhotos; quando feriu a segunda corda, todos tiveram de fazer o que ela queria.
- Mulher perigosa! - opinou o Duende-Ancião.
Seus dois filhos saíram da Colina entediados com tudo aquilo.
- E o que sabe fazer a filha seguinte? - perguntou o velho.
- Aprendi a gostar de tudo quanto é norueguês - disse ela - e só me casarei com a condição de poder ir a Noruega!
- É só porque ela ouviu dizer, numa canção norueguesa, que quando o mundo se acabar, os picos noruegueses ficarão, como monumentos do passado - cochicou ao Duende-Ancião a irmã mais nova - por isso ela quer ir lá para cima, pois vive com medo do fim do mundo.
- Ah! - disse o Duende-Ancião - então é por isso? Mas o que sabe fazer a sétima e última das moças?
- Antes da sétima vem a sexta! - rectificou o Rei dos Elfos, que sabia calcular.
Mas a sexta não tinha grande vontade de aparecer.
- Só sei dizer a verdade a todos - disse ela, afinal - ninguém se importa comigo e tenho meu tempo ocupado em costurar minha própria mortalha.
Veio a sétima e última. Que sabia ela? Sabia contar fábulas, tantas quantas quisesse.
- Aqui estão todos os meus cinco dedos - disse o Duende-Ancião - conta-me uma história a respeito de cada um deles.
A moça tomou-lhe a mão, e ele riu-se a valer. Quando ela chegou ao Seu-Vizinho, que tinha anel de ouro na cintura, como se soubesse que ia haver noivado, disse o Duende-Ancião:
- Segura o que tens! A mão é tua! A ti eu mesmo quero por esposa.
A moça objectou que restava contar ainda a história de Seu-Vizinho e de Minguinho.
- Estas ouviremos no inverno - disse o Duende-Ancião - e ainda a história do pinheiro, a da bétula e a dos dotes das fadas e do frio cortante. Tu terás muitas histórias a contar, pois é coisa que ninguém sabe direito lá em cima. E nós ficaremos na casa de pedra, iluminada pela luz do archote, e tomaremos nosso vinho caseiro nos cornos de ouro dos antigos reis noruegueses. O génio da água presenteou-me com alguns. Lá nos virá visitar o Duente do Gar, que te contará todas as cantigas das pastoras. Será muito alegre! O salmão saltará na cachoeira, baterá na parede de pedra, mas não conseguirá entrar. Sim, podes crer, tudo é muito belo na querida e velha Noruega! Mas onde estão os rapazes?
Sim, onde estão os rapazes? Andavam correndo pelo campo e sopravam os fogos-fátuos, apagando-os, coitados, a eles que tinham vindo para realizar a marcha dos archotes.
- Isso é coisa que se faça? - censurou o Duende-Ancião - acabo de tomar uma mão para vós. Podeis tomar agora uma das tias.
Os rapazes, porém, disseram que preferiam fazer um discurso e beber, celebrando o acontecimento. Não tinham vontade de casar. Fizeram, pois, seus discursos, beberam e celebraram. Em seguida tiraram os casacos e deitaram-se na mesa, para dormir, sem a menor cerimónia. O ancião, no entanto, ficou andando em volta da sala, dançando com sua jovem noiva, e trocou de botina com ela, o que lhe parecia mais elegante que trocar de anéis.
- O galo está cantando! - anunciou a velha solteirona, dona da casa - temos de fechar as janelas, para que o Sol não brilhe aqui dentro.
E a Colina dos Elfos fechou-se.
Lá foram as lagartixas corriam para baixo e para cima, na árvore oca.
- Como gostei do Duende-Ancião norueguês! - disse a lagartixa à companheira.
- Pois eu gostei mais dos rapazes - revelou a minhoca.
A pobrezinha, porém, não enxergava: era um bicho insignificante.





domingo, 18 de março de 2012

O Elfo da Luz-Conto Nórdico

O elfo da luz
Conto Nórdico

Na estranha ilha da Islândia, cuspida para a superfície pelo fogo das profundezas do mar, vivia um rapaz que cultuava o deus Odin (1), e que aprendeu isso depois de ler dois livros absurdos chamado “Os Eddas”(2). Ele queria lutar e morrer em um campo de batalha, de modo que sua alma pudesse atravessar a ponte do arco-íris, e habitar nos belíssimos salões de Valhalla. Pois era assim que os heróis eram escolhidos, segundo o livro dos Eddas dizem que são os heróis escolhidos, e eles passam o dia inteiro lutando lá no paraíso e de noite, festejam até o raiar do dia.
Assim, ao invés de uma Bíblia, o jovem Thule jovens ficara estudando esses contos de fadas, e como um incentivo ao seu treinamento pagã, até que ele tinha alguns traços nobres, que um bom rapaz cristão poderia imitar.
Ele morava com a mãe viúva na beira de uma floresta. A neve empilhada-se aos montes, e o vento uivava entre as árvores, e se arrastave-sepelas janelas, pois a casa era muito velha, e poderia muito bem ser confundida com uma pilha de madeira velha. Mas Thule era muito feliz como se a cabana fosse um palácio. Ele amava a beleza invernal do rosto de sua mãe, e o seu cebelo prateado quase todo escondido pelo seu capuz preto. Todo a fogueira que eles faziam era feita de galhos secos que eles recolhiam na floresta, e mais da mais de metade do dinheiro que eles ganhavam era com o esforço de sua próprias mãos.
Nos meses gelados do ano, quando o tempo estava mais afiado do que um dente de serpente, Thule chegava de um duro dia de trabalho, e, quanto mais frio ficava, mais ele mantinha seu coração valente. Olhando para o horizonte à sua frente, ele viu o brilho frio que chamamos de aurora boreal, mas que ele sabia ser o elmos, escudos e lanças cintilando.
“As donzelas guerreiras (3)saíram esta noite”, pensou o rapaz: “eles estão indo para campos de batalha para decidir quem é digno de ser morto. Como gosto de ver o céu iluminando-se com o brilho de suas armaduras! Odin, permita que um dia eu possa ser um herói, e possa caminhar sobre a ponte do arco-íris! “
Depois Thule voltou para o seu caminho novamente, mas, assim que ele adentrou na floresta onde as sombras se tornam perigosamente profundas, ele ouviu um gemido, que soou como uma voz humana, ou poderia ter sido uma rajada de vento repentina em uma árvore oca.
“Possivelmente é alguma pobre criatura com mais frio do que eu”, pensou o rapaz: “Tomara que não seja um troll!”
Correndo para o local de onde vinha o som, ele encontrou um anão feio e de nariz comprido no chão, quase morrendo de frio. Estava ficando tarde, e o próprio garoto estava ficando com o corpo entorpecido, mas ele foi rápido, esfregando as mãos e pés do desconhecido, até mesmo tirando sua jaqueta azul para envolvê-lo no pescoço do anão.
O anão estava morrendo de frio e Thule o ajudou. Grato ele presenteou o rapaz com um amieiro. Mal sabia Thule que ele ia passar por muitas aventurar ainda...
Pobre boa alma, você não morrerá de frio”, depois ele alegremente disse, ajudando-o a levantar-se: “Iremos para a casa da minha mãe e vamos comer um belo mingau de aveia, bolos e arenques, e nosso fogo de ramos secos irá lhe fazer bem, “
O nobre rapaz sabia que mal havia ceia suficiente para dois, mas não se importava de ir para a cama com fome para ser caridoso. No fundo de seu coração, ele ouviu as palavras de sua mãe:
“Nunca se preocupe com a fome, meu filho, mas compartilhe de boa vontade o seu último pão com os necessitados.”
Eles caminharam pela floresta, o velho homem apoiado fortemente no ombro do jovem.
“Por que você deve ajudar um pobre coitado que não pode pagar?” Choramingou o anão com uma voz rouca que assustou Thule, era como o eco devolvido por uma montanha ou uma pedra.
“Eu não peço ou quero ser recompensado”, foi a resposta. “Você não sabe o que diz o provérbio” Faça o bem, e jogue-o no mar, se os peixes não souberem disso, Odin vai! ‘? “
“Sim: Odin deve saber, não tenhas medo”, respondeu o anão”, mas, como já sei que sua mesa de chá não é suficiente para três, acho que vou recusar o convite para jantar. Realmente, meu rapaz “, continuou ele,” seria do meu agrado fazer-lhe um pequeno favor, pois, embora eu seja apenas um pobre anão, eu sei como ser grato. A propósito, você já viu por aqui uma coisa assim como uma árvore verde de amieiro?”
“A um amieiro verde em tempo de inverno”, gritou Thule.
“Uma coisa curiosa, na verdade,” disse o anão “, mas por acaso eu vi uma outro dia em minhas andanças Ah, olha, aqui está bem diante dos seus olhos!”.
Todas as outras árvores da floresta estavam duros e secas, os seus corações congelados dentro deles, mas esta árvore estava viva, escondida atrás de uma moita de abetos. Quando Thule começaram a cavar em suas raízes, parecia que a árvore saía do chão de sua livre vontade, e se acomodou em seus ombros como se estivessem o acariciando.
“Leve para casa a pequena árvore, e a plante diante de sua porta, meu rapaz”’
O jovem virou-se para agradecer o estranho, mas ele havia desaparecido. Em seguida, Thule correu para casa com toda a velocidade para contar à mãe sobre o pequeno anão que havia desaparecido de sua vista como uma nuvem de fumaça.
“Agora me pergunto o que é que você já viu”, disse a boa mulher, levantando as mãos em surpresa. “Ele era marrom, meu filho, com um nariz comprido?
“Marrom como uma noz, mãe, sem a ponta do nariz.”
“Era como eu supunha, meu filho! Esse anão é uma criatura maravilhosa, uma dos elfos da noite, uma raça dotada de grande sabedoria. Sabe, meu filho, que ele entalhou runas nas pedras, e ele sem dúvida ajudou a fazer o martelo de Thor, esse terrível instrumento que pode esmagar o crânio de um gigante. “
“Uma coisa que observei”, disse o rapaz: “Ele piscou quando céu brilhou, o céu que as pessoas chamam de Luzes do Norte, ele tinha de proteger seus olhos com sua pequenas mãos. “
“Ele fez isso? Pobre elfo, a luz é dolorosa a sua raça e eu tenho ouvido dizer que um raio de sol é capaz de transformá-los em pedras. Estou quase com medo dessa pequena árvore, acrescentou a boa mãe pensativo. “Você sabe o que lemos nos santos Eddas: Ambos os amieiros e os freixos devem ser considerado sagrado, pois Odin formou o homem da cinza, e mulher do amieiro. No entanto, o elfo da noite não poderia ter feito uma travessura. Vamos plantar a árvore como ele instruiu “.
“O quê?, no solo congelado, sob a neve?”
Mas agora, pela primeira vez, parecia que havia um pedaço de terra perto da janela ao sul da casa, que deveria ter estado à espera da árvore, pois era tão macia e quente, como se o sol estava brilhando naquele lugar o ano todo. Aqui eles plantaram o amieiro, e Thule trouxe a água, e molhou as raízes.
Na manhã seguinte, a árvore parecia ter crescido, e à luz do dia mostrou as suas folhas prateadas.
“Possa Odin progetegê-la”, disse Thule, “nem deixe que o gelo a congelar, nem os ventos matar seus brotos verdes!”
Thule entrou na floresta de novo, e enquanto ele estava no seu caminho, ele olhou para baixo, e ali, no chão, aos seus pés, estava uma bolsa, revestida de ouro. Ele contou as moedas: cinquenta, todas brilhantes e novas.
“Eu vou para a cidade”, pensou o menino, balançando a cabeça e suspirando (pois era muito tentador), “Eu vou para a cidade e perguntar quem perdeu uma bolsa com cinquenta peças de ouro precioso. Ora eu! Eu gostaria de ficar com ela! “Então poderíamos ter arenques e óleo, e quem sabe, mas, pela primeira vez na minha vida, eu poderia até saborear carne de veado? “
Mas no momento em que sua ganância quase impediu sua missão, ele pensou: “Não importa quão lindamente brilhe o ouro! Não é meu ouro! E é muito pesado para eu carregar. O dinheiro roubado é pior que uma pedra de moinho amarrado no pescoço, assim que minha mamãe diz. “
Mantenha-se no caminho, menino “, disse uma voz doce ao seu lado. Ele se virou e viu uma criança linda, radiante como um raio de sol, e vestida em roupas de textura delicada e transparente.
“Eu vou ser sua amiga, rapazinho. Essa bolsa foi perdida por uma dama que veste um casaco de peles e longo véu. Se ela perguntar pelo seu tesouro, eu posso dizer que caiu em um buraco no chão. Todo mundo vai acreditar em mim:… Não tenha medo!”
medo! “
“Pobre anjo confuso!”, disse o rapaz, maravilhado com sua beleza maravilhosa e não menos pela sua aparente falta de caráter. “Isto é, de fato, uma tentação adorável, mas eu tenho uma querida mãe em casa, e eu a amo mais que um milhão de peças de ouro. Devo ir à cidade, e buscar essa dama que você menciona, que veste um casaco de peles e longo véu. “
“Ah não! Você não seriatão estúpido”, disse a criança reluzente, “mas mesmo assim vou com você, e te mostrar o caminho.”
Então, deslizando graciosamente diante do desnorteado jovem, ela o levou para fora da floresta, na parte mais frequentada da cidade, até a porta de uma casa magnífica, mas, quando Thule virou a cabeça apenas um instante, ela se foi, e nenhum traço dela foi visto: ela parecia ter derretido com o sol.
A dona da casa recebeu a bolsa com os agradecimentos, e ficaria feliz em ter dado uma moeda de ouro a Thule, mas, mesmo o rapaz ansiando por ela, ele a colocou de lado, dizendo: “Não, senhora: a minha mãe me diz que devo ser honesto, sem esperança de recompensa. Ela não gostaria que ganhasse um salário por não ser um ladrão! “
Na manhã seguinte, o árvore de amieiro cresceu mais um pouco, e Thule e sua mãe observavam as folhas em crescimento, e as tocaram com os dedos reverentes. Eles eram certamente de um verde tenro, com linhas brilhantes cor de prata.
“Possa Odin deixar belo meu amieiro”, disse Thule, “não deixe que o gelo afetá-lo e nem os ventos matar seus brotos verdes!”
Então Thule beijou sua mãe, e marchou para fora da floresta, como de costume. Mas ele parecia condenado a aventuras, pois desta vez ele se encontrou com três homens armados, que estavam vagando pelo país, como se procurassem alguma coisa.
“Belo rapaz”, disseum dos homens, “você pode nos dizer o que aconteceu com um jovem amieiro cujas folhas verdes tem linhas de prata?”
“Eu desenterrei um amieiro-mato, bondosos senhores”, respondeu o rapaz, tremendo, e lembrando que sua mãe tinha dito que ela estava quase com medo da pequena árvore.
“Há muitos amieiros selvagens, disse outro dos homens rispidamente,” mas apenas essa verde nesta época do ano, e tem folhas prateadas. Ela foi colocada aqui por ordem do gigante Loki, e ninguém deveria tocá-la, sob pena de morte, porque, quando o jardim de Loki na montanha florisse na primavera, a árvore deveria ser arrancadas, e plantada lá “
Thule ficou duro e branco como se um gigante de gelo de repente soprasse sobre ele. Ele sabia que Loki era um deus impiedoso, temido por todos, e amado por ninguém, um deus que tinha um rancor especial contra toda a raça humana.
“Vou manter a minha calma”, pensou Thule.
“Eu nunca vou confessar que a árvore que levei tinha folhas prateadas. Eu vou correr para casa, arrancá-la e queimá-la… Então quem é o mais esperto? “
Mas Thule, apesar de estar tremendo, não podia esquecer o conselho de sua boa mãe:
“Suas palavras, meu rapaz, devem ser verdade, e nada mais que a verdade, embora uma espada esteja balançando sobre sua cabeça.”
Então, logo que a voz dele voltou, ele confessou que a árvore que ele tinha arrancada era tal como os homens haviam descrito, e implorou por misericórdia, porque, como ele disse, ele tinha cometido o pecado por ignorância, não sabendo a ordem do terrível gigante.
Mas os homens Thule mandarm levá-los a casa de sua mãe, e mostrar o seu tesouro roubado, declarando que eles poderiam mostrar-lhe misericórdia, pois quando Loki baixava um decreto, nenhum homem deve alterá-lo por um jota ou um til.
“Oh!”, pensou o menino rapaz, torcendo as mãos, e tremendo dos pés a cabeça, “ah, se o cruel elfo da noite, que me levou a este mal, aparecesse na minha frente agora, e me ajudasse com isso! “Mas, infelizmente, não há sentido em invocá-lo, pois é agora plena luz do dia e o sol pode transformá-lo em uma imagem de pedra num piscar de olhos “.
Quando Thule, seguidos pelos mensageiros de Loki, tinha chegado à porta de sua cabana, ele encontrou a mãe de cabelos grisalhos aguando as raízes do belo amieiro, e acariciando suas folhas com prazer inocente. À vista dos homens armados, ela começou a se assustar.
“É de fato a árvore do gigante”, disseram os homens a Thule. “Arranque-a, e siga-nos com ela para o castelo de Loki na montanha.”
“Para o castelo de Loki!” gritou a mãe infeliz. “Então, ele deve passar por um deserto terrível, ser atacado por gigantes de gelo, e, sobrar fôlego nele, Loki vai matá-lo num piscar de olhos! Tenha piedade de uma pobre mãe pobre, bons soldados!”
O menino infeliz tocou na árvore, e ela saiu da terra de sua livre e espontânea vontade, e, num instante, estava em seus pés, se livrando dos galhos em seus ombros, num momento já não era uma árvore, mas uma criança, com uma beleza tão deslumbrante quanto a da luz solar.
“Infelizes homens!”, disse ela, em uma voz cujos tons zangados era mais doce do que a música de uma harpa, “infelizes são vocês por serem servos de Loki! Vão, e digam ao seu mestre cruel que os encantamentos que ele jogou em mim e os meus falharam: Meu encantamento foi quebrado por todo o sempre, maravilhoso rapaz “, disse ela, apontando para o pequeno Thule, “você me salvou, eu fui e ainda permanecem, um elfo de luz, tão brincalhona e inofensiva como a luz solar. O impiedoso Loki, irritado com o amor que eu carrego pelos filhos dos homens, transformou-me em árvore de emieiro, que é o emblema da juventude. Mas ele não tinha poder para me manter nessa forma para sempre. Ele foi obrigado a dar uma condição, e ele fez a mais difícil que a sua mente astuta poderia inventar: Como você ama os mortais tanto, ele disse, ninguém, a não ser um mortal deve livrá-lo de sua prisão. Você deve continuar a ser uma árvore até um bom filho toque em você, uma criança que é generoso o suficiente para compartilhar seu último pão com um estranho, honesto o suficiente para devolver um recompensa apenas por sua honestidade, corajoso o suficiente para falar a verdade mesmo quando uma mentiria puder salvar sua vida. Quanto tempo esperei po você.”
“Como Loki ficará espantado quando ele descobrir que este menino foi tentando de todas as maneiras, mas foi fiel. Meus pobres soldados, vocês podem retornar de onde vocês vieram, pois aquele amieiro jamais irá balançar sua folhas de prata no jardim da montanha de Loki “.
Em seguida, os homens desapareceram, aborrecidos que o bom menino escapou seu horrível destino.
Thule olhando para a bela elfa que recentemente foi uma árvore, não poderia confiar em seus próprios olhos, e imagino que muitos garotos, até mesmo no presente dia, teria ficado um pouco perplexo com as circunstâncias.
“Reluzente criança!” disse ele: “você se parece muito como o maravilhoso pequeno ser que me conduziu para fora da floresta à noite.”
“Isso pode muito bem ser”, respondeu a elfo da luz;. “pois ela é minha irmã. O anão marrom que indicou o amieiro é também um excelente amigo meu, no entanto, por estranho que pareça, nunca o vi. Nós amamos a ajudar uns aos outros em todas as formas possíveis, mas nunca poderemos nos conhecer, pois a luz nos meus olhos iria matá-lo. Ele tinha ouvido falar de Thule, o pequeno lenhador que era conhecido por ser corajoso, generoso e verdadeiro. Ele tentou você, você viu, e assim fez a minha irmã brincalhona, que ficou louca de felicidade por descobrir que você não poderia ser tentado a roubar! “
A mãe de Thule tinha ficado o tempo todo próximo, intimidada e muda. Agora, ela se aproximou, e disse:
“Estou mais orgulhosa hoje do que ficaria se meu filho tivesse matado dez homens no campo de batalha!”
A bela elfa da luz, cheia de gratidão e admiração, permaneceu amiga de Thule enquanto ele viveu. Ela deu ao menino e sua mãe uma excelente casa, e os fez felizes todos os dias de suas vidas.

------------------------------------------------------------------------------------

Fontes:

Fairy Book. Sophie May. Boston, Lee and Shepard, 1866.
(tradução brasileira)
 http://contosencantar.blogspot.com.br/2011/02/o-elfo-da-luz.html

domingo, 11 de setembro de 2011

Branca de Neve e os Sete Anões-Conto dos Irmãos Grimm(Versão Original)

Branca de Neve e os Sete Anões
Conto dos Irmãos Grimm
Era uma vez uma rainha que estava esperando o nascimento de seu primeiro filho. Certo dia, no mais frio do inverno, quando parecia que o mundo todo se tornara branco pela neve, ela estava sentada perto de uma janela que tinha uma moldura de ébano a costurar. Enquanto costurava espetou o dedo com a agulha e três gotinhas de sangue caíram sobre a neve alvíssima. O vermelho era tão bonito sobre o branco que a rainha exclamou: “Gostaria de ter uma filhinha branquinha como a neve, com a boca vermelha como o sangue e com os cabelos tão negros como a moldura de ébano da minha janela”. Pouco tempo depois deu a luz uma menininha que era branca como a neve, tinha os lábios rubros como o sangue e os cabelo negros como o ébano. Por isso recebeu o nome de Branca de Neve. A rainha morreu logo após o nascimento da criança.

Poucos anos depois o rei, cansado de viver sozinho, casou-se novamente. Era uma dama belíssima, mas, seu coração era duro, era orgulhosa, vaidosa e arrogante e não tolerava a idéia que alguém pudesse ser mais bonita do que ela. Possuía um espelho mágico e, sempre que ficava diante dele para se admirar, dizia:

__Espelho, espelho meu, existe outra mulher mais bela do que eu?

E o espelho sempre respondia:

__Não, minha rainha, sois de todas a mais bela.”

Então ela sorria feliz, pois sabia que o espelho não podia mentir.

Branca de Neve estava crescendo e, a cada dia que passava ficava mais e mais formosa. Assim que se tornou uma jovenzinha ficou tão bela quanto o dia e mais bonita que a própria rainha. certo dia a rainha voltou a perguntar ao espelho:

__Espelho, espelho meu, existe outra mulher mais bela do que eu?

O espelho respondeu:

 __Ó minha rainha, sois muito bela ainda, mas Branca de Neve é a mais bela dentre as mulheres.

Ao ouvir estas palavras a rainha começou a tremer, parecia que ia explodir, e seu rosto ficou verde de inveja. A partir daquele momento passou a odiar Branca de Neve. Sempre que seus olhos pousavam nela sentia seu coração ficar frio como uma pedra. A inveja e o orgulho floresceram como pragas em seu coração. Dia ou noite, ela não tinha mais um momento de paz, vivia para odiar.

Um dia chamou um caçador e disse:

__Leve a menina para a floresta. Nunca mais quero vê-la de volta! Mate-a e me traga seu coração nessa caixa como prova de que a matou.

O caçador ficou apavorado com esta ordem, conhecia a princesinha desde o nascimento e, com um grande tormento interior levou a menina para a mata com a desculpa que iriam passear. Em dado momento Branca de Neve virou-se de repente e se deparou com o caçador com uma faca na mão pronto para desferir-lhe um golpe mortal. Inocente ela começou a chorar e a suplicar:

__Misericórdia caçador, não me mate!

O caçador soltou a faca, trêmulo, e disse:

__Não posso fazer isso. Fuja Branca de Neve, a rainha mandou lhe matar, se voltar ao castelo morrerá na certa! Fuja e nunca mais volte para o castelo!

Branca de Neve saiu correndo para dentro da densa floresta. Naquele instante passou por ali um filhote de javali. O caçador não perdeu tempo, matou-o as estocadas retirando em seguida seu coração para levá-los à rainha. Retornando ao castelo entregou a caixa à perversa que ficou exultante de satisfação

 Enquanto isso a pobre menina vagava sozinha na vasta floresta. Estava muito assustada, começava a escurecer e cada árvore, cada galho parecia tomar formas fantasmagóricas. Desesperada pôs-se a correr cada vez mais adentro, embrenhando-se na mata, passando sobre pedras pontudas e entre espinheiros. De vez em quando feras passavam por ela, mas não lhe faziam mal. Ela corria tão apavorada que mal sentia as pernas.

Ao cair da noite viu ao longe uma luzinha e dirigiu-se a ela. Era uma pequena cabana e a princesinha entrou para se abrigar. Nessa casa todas as coisas eram minúsculas, mas estava tudo tão limpo e bem organizado que era de espantar. Havia uma mesinha com sete pratinhos sobre uma toalha muito branca. Sobre cada pratinho havia uma colher, e ao lado sete garfinhos e sete faquinhas, sem esquecer de sete canequinhas. Do outro lado estavam sete caminhas lado a lado, todas impecavelmente arrumadas com lençóis brancos como a neve. Sedenta e com fome Branca de Neve comeu um pouquinho de cada pratinho e tomou um gole de vinho de cada canequinha.         Extenuada por tantas emoções juntou as caminhas, deitou e dormiu profundamente.

Já era noite fechada quando os proprietários da pequena cabana chegaram. Eram sete anões garimpeiros que passavam o dia nas montanhas escavando a terra em busca de minérios. Entraram na casa, cada um segurando sua lanterninha, e pararam assustados ao verem que as coisas não estavam do jeito que haviam deixado.

O primeiro anão perguntou:

__Quem se sentou na minha cadeirinha?

O segundo perguntou:

__Quem usou o meu garfinho?

O terceiro perguntou:

__Quem comeu o meu bolinho?

O quarto perguntou:

__Quem comeu as minhas verdurinhas?

O quinto perguntou:

__Quem comeu do meu pratinho?

O sexto perguntou:

__Quem cortou com a minha faquinha?

O sétimo enfim perguntou:

__Quem bebeu da minha canequinha?

Os anõezinhos começaram a olhar em volta, fazendo exclamações a toda hora cada vez que se deparavam com suas coisas fora do lugar, até que os olhos do sétimo anão caíram sobre as sete caminhas e viram Branca de Neve deitada nelas, dormindo a sono solto. Começou a gritar chamando os outros, que prontamente acudiram e ficaram tão assombrados que todos ergueram suas sete lanterninhas para ver melhor Branca de Neve.

__Meu Deus, que bela moça! – exclamavam boquiabertos, __É a mais linda menina que já vimos!

Os anões ficaram tão encantados com a princesinha que resolveram não acordá-la. Pegaram almofadas e se arrumaram no tapete como puderam para dormir.

Logo de manhã Branca de Neve acordou. Quando viu os anõezinhos a volta de sua cama observando-a, ficou bem assustada, mas eles foram muito amáveis e perguntaram:

__Qual é o seu nome?

__Meu nome é Branca de Neve! – ela respondeu.

__Como você veio parar aqui? – perguntaram.

Branca de Neve contou tudo que lhe acontecera, de como a madrasta mandou matá-la, e como o caçador poupara sua vida. Contou que saiu correndo pela floresta por várias horas até chegar à cabana deles.

Os anões lhe disseram:

__Princesinha, se quiser ficar conosco e ajudar nas tarefas da casa, mantendo tudo limpo e arrumadinho, pode ficar, e nada lhe faltara.

__Sim, quero muito ficar. Obrigada, senhores! Obrigada – exclamou emocionada.

Desde então Branca de Neve passou a cuidar da casa para os anões. De manhã bem cedo eles saiam para trabalhar no alto das montanhas, em busca de ouro e prata. Ao cair da noite voltavam e encontravam um gostoso jantar prontinho à sua espera. Como a princesinha passava os dias sozinha, os anões recomendavam seriamente:

__Não abra a porta para ninguém e não se afaste da cabana. Sua madrasta é uma perversa bruxa e pode descobrir que não morreu e vir até aqui, atrás de você!

A rainha porém, em seu castelo, acreditando que o coração que tinha me sua caixinha era o de Branca de Neve, estava certa que era agora a mulher mais linda do mundo. Foi até o espelho e perguntou:

__Espelho, espelho meu, existe outra mulher mais bela do que eu?

O espelho que jamais mentia respondeu:

__És sempre bela minha rainha, mas na colina distante, por sete anões cercada, Branca de Neve ainda vive e floresce, e sua beleza jamais foi superada.

Ao ouvir essas palavras a rainha sentiu fel correr pelas veias, pois sabia que o espelho era encantado e por isso não podia mentir. Depois quase explodiu de tanto ódio ao compreender que o caçador a enganara e que Branca de Neve continuava viva. Cheia de inveja e vaidade, desceu aos porões do castelo, onde costumava praticar feitiçaria, e utilizando seus conhecimentos de bruxa ficou irreconhecível, tornando-se semelhante a uma velha. Desta forma disfarçada viajou para além das sete colinas até a casa dos sete anões. Lá chegando fingiu ser uma vendedora e anunciou:

__Belas mercadorias, preço excelente!

Ouvindo isso Branca de Neve olhou pela janela e, vendo a velhinha disse:

__Bom dia, minha senhora. O que tem aí para vender?

__Muitas coisas novas e bonitas – a bruxa respondeu – Os mais finos cordões para o corpete. – e puxou um cadarço de seda tecido em muitas cores.

__É só uma inofensiva velhinha, disse para si mesma, acho que não há mal em deixá-la entrar, e correndo o ferrolho da porta comprou o bonito cadarço.

A bruxa, muito ladina, disse para Branca de Neve:

__Oh, minha filha, você é tão bonita, mas está tão desarrumada. Sente-se aqui perto de mim e deixe que eu arrume o cadarço pra você.

Branca de Neve, completamente inocente sobre as verdadeiras intenções da velha, colocou-se diante dela e deixou que arrumasse seu cadarço de seda em seu corpete. A perversa apertou o cadarço tanto e tão depressa que Branca de Neve ficou sem fôlego e caiu desmaiada como se estivesse morta.

Já era de tardinha, não demorou a anoitecer e não demorou muito os anõezinhos voltaram pra casa. Quando entraram deram com sua amada Branca de Neve estendida no chão e ficaram horrorizados. Ela não se mexia, nem um pouquinho sequer, e eles acreditavam que estivesse morta. Ergueram-na para colocá-la sobre a cama e aí perceberam o cadarço do corpete, fortemente amarrado, e o cortaram com a tesoura. A princesinha finalmente voltou a respirar, e pouco a pouco voltou à vida. Quando os anões souberam o que tinha acontecido disseram:

__A velha vendedora era a rainha má disfarçada. Tome mais cuidado e não deixe ninguém entrar, a menos que estejamos em casa.

Assim que chegou no castelo a primeira coisa que a rainha fez foi dirigir-se ao espelho mágico e perguntar:

__Espelho, espelho meu, existe outra mulher mais bela do que eu?

O espelho respondeu como sempre fazia:

__És sempre bela, minha rainha, mas na colina distante, por sete anões cercada,

Branca de Neve ainda vive e floresce, e sua beleza jamais foi superada.

A rainha sentiu uma sombra em seu coração, tremia e vociferava:

 __Branca de Neve tem que morrer, mesmo que isso custe minha própria vida!

Dirigiu-se ao calabouço do castelo começou a preparar uma maçã envenenada. Enquanto o fazia, seu semblante expunha toda maldade de seu perverso coração. A aparência da fruta encantada era maravilhosa – branca com as faces vermelhas – num mórbido paralelismo com sua vítima. Qualquer um desejaria comer essa maçã, mas, bastaria uma só mordida para ser levado à morte.

Assim que terminou de confeccionar a maçã enfeitiçada, usando de artimanhas transmutou-se desta vez na forma de uma velha camponesa e partiu para além das sete colinas até a casa das sete anões.

A bruxa bateu à porta e Branca de Neve olhou pela janela e disse:

__Fale o que a senhora deseja aí fora, pois estou proibida de deixar entrar estranhos.

__Não faz mal, respondeu a camponesa, Posso lhe mostrar a minha mercadoria daqui mesmo. Prove essa linda maçã, presente meu.

__Não, respondeu Branca de Neve, estou proibida de aceitar seja o que for de estranhos.

__Não tenha medo, não está envenenada, disse a velha, vou provar pra você. Vou partir a maçã ao meio, você come uma metade e eu como a outra, esta bem assim?

O veneno da maçã estava todinho concentrado na sua casca, não atingia a parte interna. Branca de Neve estava com a boca aguada de tanto desejo de comer a maçã e, quando viu a camponesa morder seu pedaço não resistiu mais. Estendeu a mão e pegou a outra metade. Assim que mordeu, caiu morta no chão. A rainha triunfante olhou-a caída no chão, explodiu numa sonora gargalhada e falou ironizando a falecida rainha, mãe da princesinha:

__Branca como neve, boca vermelha como o sangue, cabelos negros como o ébano, eu venci! Desta vez aqueles horríveis anões não conseguirão trazê-la de volta à vida!

Chegando ao castelo dirigiu-se de imediato ao espelho mágico e perguntou:

__Espelho, espelho meu, existe outra mulher mais bela do que eu?

E desta vez o espelho respondeu:

__Sois vós, minha rainha, do reino a mais bela.

E a invejosa rainha mal podia se conter de tanta felicidade.

Ao cair da noite os anões voltaram pra casa e encontraram Branca de Neve caída no chão. Não tinha respiração e nenhum movimento. Ergueram-na e procuraram algo em volta que pudesse ser venenoso. Procuraram em seus cabelos, seu bolso, mas nada. Ficaram completamente desalentados, a princesinha estava morta e nada mais poderia ser feito para trazê-la de volta. Construíram um caixão de vidro, com inscrições em ouro com seu nome e os dizeres de que ali estava a filha de um rei, e colocaram nele Branca de Neve. Depois os sete se sentaram em torno dela e a velaram. Por três dias assim ficaram, chorando na mais profunda tristeza. Levaram o caixão até o topo de uma alta montanha e mantinham sempre um deles montando guarda. Os animais também foram chorar por Branca de Neve, desde as aves até as feras.

Branca de Neve permaneceu no caixão e muito tempo se passou, entretanto seu corpo não se decompunha, e dava a impressão de estar dormindo. Suas feições continuavam as mesmas, branca como a neve, boca vermelha como o sangue e cabelos negros como o ébano.

Certo dia um belo e valente príncipe, filho de um poderoso rei atravessava a floresta quando chegou à casa dos sete anões.Queria pedir hospedagem por uma noite. Quando subiu no alto da montanha, atrás dos donos da cabana, se deparou com o caixão com a linda Branca de Neve deitada dentro dele rodeada pelos anões. Leu os dizeres em ouro e viu tratar-se de uma princesa. Ficou de tão forma encantado com a beleza da princesinha que disse aos anões:

__Deixai-me levar esse caixão. Eu pagarei o que pedirem.

Os anões responderam:

__Não o venderíamos nem por todo ouro do mundo!

O príncipe então respondeu:

__Dêem-me então como presente, pois depois que a vi não posso mais viver sem ela. Vou honrá-la e tratá-la como se fosse minha amada.

Os anões, comovidos com o profundo sentimento do príncipe, se apiedaram dele e lhe entregaram o caixão. O príncipe mandou vir seus criados a quem ordenou que pusessem o ataúde sobre os ombros e o transportassem. Mas aconteceu que o peso era grande e eles tropeçaram, dando um tranco no caixão. Com o solavanco o pedaço de maçã envenenada que estava preso na garganta de Branca de Neve se soltou, e ela prontamente voltou à vida e exclamou assustada:

__O que aconteceu, onde estou?

O príncipe com radiante alegria diante do que acontecera, disse:

__Você vai ficar comigo!, e contou-lhe o que acontecera.

__Eu te amo mais que tudo no mundo, ele disse, Venha comigo para o castelo do meu pai, seja minha noiva, case comigo!

Branca de Neve sentiu um grande amor pelo príncipe, segundo suas palavras “maior que o mundo”, e partiu com ele. Em breve as núpcias foram celebradas com enorme esplendor e com a presença dos queridos anõezinhos.

A perversa madrasta também foi convidada para a festa de casamento da princesa, sem saber que era a sua enteada. Vestiu suas mais belas roupas, pois o que mais gostava era expor sua beleza, postou-se diante do espelho e disse:

__Espelho, espelho meu, existe outra mulher mais bela do que eu?

O espelho respondeu:

__Ó minha rainha, sois muito bela ainda, mas a jovem princesa é mil vezes mais linda.

A malvada mulher ficou de tal forma possessa que jogou tudo que encontrou pela frente sobre o espelho, que se espatifou em mil pedaços, libertando o gênio escravo do espelho, que partiu aliviado por não precisar mais servir a uma rainha tão pérfida.

Foi à festa de casamento com as piores intenções em seu negro coração. Quando entrou no castelo, Branca de Neve a reconheceu no mesmo instante. A bruxa, ao ver que se tratava da princesinha ficou tão aterrorizada que saiu correndo pela porta, com medo de ser punida pelos seus terríveis atos. Porém, antes que desse muitos passos um raio saiu do céu a fulminou, deixando-a completamente esturricada e morta no chão.

O rei, pai de Branca de Neve, que há muitos anos vivia preso imóvel à uma cama, vítima das feitiçarias da rainha, se libertou recobrando a consciência e a saúde. Ele e o castelo inteiro festejaram o fim da rainha, que a todos perseguia, e foi ao encontro de sua amada filha. Agora, todos em plena alegria festejaram por sete dias a chegada de uma era de paz e Branca de Neve e seu príncipe viveram felizes para sempre.

Cinderela-Conto de Charles Perrault-Versão Original

Cinderela
Por: Charles Perrault


Era uma vez um nobre que se casou pela segunda vez com uma mulher que tinha um temperamento terrível, era orgulhosa, vaidosa e arrogante. Tinha duas filhas tão orgulhosas e de mau gênio quanto a mãe. O nobre, por sua vez tinha uma linda filha que era a própria doçura e bondade. Cinderela era seu nome, ela herdara a beleza deslumbrante e o temperamento gentil de sua mãe.

Logo após o casamento a madrasta pôs a mostra o seu mau gênio. Detestava as qualidades da enteada, que faziam suas filhas parecerem ainda mais detestáveis. Incumbiu-lhe dos serviços mais pesados e grosseiros da casa. Era ela ainda menina que lavava toda louça e a roupa da casa, e as escadarias, e ainda limpava e arrumava os quartos. Seu quarto, na casa em que outrora era toda sua, agora era o sótão, enquanto sua madrasta e irmãs dormiam em quartos luxuosos, atapetados, ricamente decorados e com amplos espelhos, onde passavam horas se olhando, alimentando a sua vaidade.

Cinderela suportava tudo com paciência. Não se queixava com o pai que mais parecia estar enfeitiçado pela nova esposa. Todos os dias após terminar seu trabalho ela se sentava junto à lareira, no meio às cinzas, por isso todos a chamavam de Gata borralheira. Entretanto, apesar das roupas luxuosas das filhas da madrasta, Cinderela que usava quase trapos era evidentemente muito mais bonita do que elas.
Certo dia o filho do rei, o príncipe resolveu dar um baile e convidar todas as pessoas importantes do reino, e a família da Gata Borralheira por ser da nobreza estava incluída. As irmãs ficaram eufóricas, ocupadíssimas, passavam todas as suas horas a escolher roupas, sapatos, jóias e penteados com que iriam ao baile. O que significava mais e mais trabalho para Cinderela que além de seu trabalho habitual tinha que lavar e passar toneladas de vestidos saias cheios de babados.

“Acho que vou usar meu vestido de veludo azul com gola de renda inglesa”, dizia a mais velha.

“Vou usar minha saia bordô com meu mantô de flores douradas e meu broche de diamantes”, dizia a segunda.

 Fizeram vir o melhor cabeleireiro da região para que ficasse totalmente a disposição delas, fazendo os penteados mais rebuscados, mas quanto mais tentavam ser elegantes mais sua feiúra era ressaltada. A toda hora chamavam Cinderela para dar opinião, pois sabiam que era educada e tinha bom gosto. Cinderela, de boa vontade deu os melhores sugestões, e elas lhe perguntaram: “Cinderela, você gostaria de ir conosco ao baile?”



“Pobre de mim! Nem tenho o que vestir. Vocês estão é zombando de mim”.

“Tem razão, todos dariam boas risadas se vissem uma Gata Borralheira entrando no baile!”.

Cinderela, entretanto era muito bondosa, e não se ofendia, ajudando no que podia para que elas ficassem com o melhor aspecto possível. As irmãs, que estavam bem gordas, ficaram quase dois dias sem comer tentando emagrecer um pouquinho. Arrebentaram mais de uma dúzia de corpetes de tanto apertá-los na tentativa de afinar a cintura, e passavam os dias em frente ao espelho.

Finalmente chegou o grande dia. Elas começaram a se arrumar desde as primeiras horas da manhã e quando chegou a hora, partiram. Cinderela ficou vendo-as se afastar e começou a chorar.

Sua madrinha chegou, viu-a nesse estado e perguntou por que chorava:

“Eu gostaria tanto e ir ao baile” e caiu novamente em prantos. O que Cinderela não sabia é que sua madrinha era uma fada, e a madrinha disse: “Você gostaria muito de ir ao baile, não é minha filha?”.

“Eu adoraria”, disse Cinderela, suspirando profundamente.

“Está bem, eu farei com que você vá a esse baile, e como a moça mais bonita do reino”.
A fada madrinha foi com Cinderela até o quarto dela e lhe disse: “Desça ao jardim e traga-me uma abóbora”.



 Cinderela procurou a abóbora maior e mais bonita que pode encontrar e a levou para a madrinha. Não podia imaginar como aquela abóbora poderia ajudá-la a ir ao baile. A madrinha escavou a abóbora deixando só a casca. Depois tocou nela com sua varinha de condão e no mesmo instante a abóbora se transformou em uma linda carruagem toda dourada. Depois se dirigiu às ratoeiras da casa apanhando seis gordinhos camundongos. Tocou cada um deles com sua varinha transformando-os em belos cavalos de raça, assim formaram-se três belas parelhas de graciosos cavalos. Agora era preciso achar um cocheiro. Cinderela disse: “Vou buscar Tom, o cachorro da casa”, trazendo-o logo em seguida. A madrinha tocou-lhe com a varinha e ele se transformou em um cocheiro corpulento e com longos cabelos castanhos.

Em seguida ordenou à Cinderela: “Vá ao jardim e lá encontrará seis lagartos atrás da torneira. Traga-os para mim”.

Assim que ela os trouxe a madrinha os transformou em seis lacaios, que rapidamente se puseram atrás da carruagem com suas librês, ficando empoleirados como se tivessem passado a vida toda fazendo isso.

A fada se virou para Cinderela e disse: “Pronto, agora você já pode ir ao baile. Está feliz?”.

“Estou, mas não posso chegar ao baile assim, maltrapilha!”

“É mesmo”, disse a madrinha assustada, “deixe que eu dê um jeito nisso!” E tocou com sua varinha nas vestes pobres de Cinderela que imediatamente estas foram transformadas em um lindo vestido rosa claro todo bordado em ouro; seus cabelos ficaram penteados, belas jóias adornaram seu pescoço e em seus pés surgiu o mais belo par de sapatinhos de cristal.

“Sapatinhos de Cristal! Para mim bastariam sapatinhos de pele de algum animal”, disse Cinderela.

“De jeito nenhum. Não acredite no que os outros dizem – para você, sapatinhos de cristal é que são o correto. Acredite na sua madrinha!”, disse a fada.
Deslumbrante, Cinderela montou na carruagem. Sua madrinha lhe recomendou que acima de tudo, não passasse da meia noite, pois nesse instante toda magia irá desaparecer, sua carruagem voltará a ser abóbora, os animaizinhos voltarão a sua forma original e ela tornará a estar vestida de andrajos. Cinderela prometeu estar atenta e que sairia do baile antes do bater da meia noite.

Então partiu para o baile, não cabendo em si de tanta alegria.

Enquanto isso, no baile, o príncipe estava desanimado, cercado de moças evidentemente interesseiras, frívolas e vazias, e saiu ao ar livre para tomar um pouco de ar e tomar fôlego, e nessa hora Cinderela chegou ao baile. Ao ver aquela lindíssima moça na carruagem ele ficou encantado e correu para recebê-la. Deu-lhe a mão ajudando-a a descer da carruagem e a conduziu ao salão onde estavam todos os convidados. Cinderela estava igualmente encantada por ele. O rei, percebendo o interesse do filho pela moça não cabia em si de felicidade, pois estava louco para ver o filho casado e com herdeiros. Quando Cinderela entrou fêz-se um grande silêncio; todos pararam de dançar e os violinos emudeceram tal era a atenção com que contemplavam a grande beleza da desconhecida. Todos achavam se tratar de uma princesa e só se ouvia murmúrios: “Ah, como é bela!”. O rei e a rainha a acharam encantadora. Todos os olhos eram para ela, as damas não cansavam de examiná-la, suas roupas e penteado, ansiosas para fazer igual.

O príncipe conduziu Cinderela ao lugar de honra e depois a tirou para dançar, e ela dançava com tanta graça que a todos encantava. Comeu uma ceia maravilhosa, ficou frente a frente com suas irmãs que em nem um momento a reconheceram e estavam encantadas com ela, pensando que se tratasse de uma princesa estrangeira. Mas o príncipe logo que pode voltou a dançar com ela, e dançaram por horas. Cinderela estava tão envolta com o príncipe que não percebeu o tempo passar, foi quando então ouviu soar um quarto para a meia-noite. Sem pestanejar fez uma reverência e saiu correndo tão inesperada e rapidamente que o príncipe ficou sem ação.

Só foi o tempo de chegar em casa e o encanto se desfez, voltando tudo a ser como era. Cinderela foi falar com a sua madrinha, contou como foi o baile, agradeceu-lhe muito e disse que gostaria muito de ir novamente ao baile do dia seguinte, pois o príncipe a convidara.

Enquanto conversava com a madrinha as irmãs e a madrasta chegaram e bateram à porta. Cinderela foi abrir.

- “Como demoraram a chegar!”, disse, bocejando, esfregando os olhos e se espreguiçando como se tivesse acabado de acordar. As irmãs queriam espezinhá-la e não paravam de contar coisas magníficas sobre o baile: “Se você tivesse ido ao baile teria visto a mais bela princesa que já apareceu neste reino, ela ficou nossa amiga, não parava de conversar conosco!”.

Cinderela ficou radiante ao ouvir essas palavras, e também achou muito engraçado. Perguntou o nome da princesa, mas as irmãs responderam que ninguém a conhecia e que até o príncipe estava pasmo. Ele daria qualquer coisa para saber quem era ela. Cinderela sorriu e lhes disse: “Ela era bonita mesmo”? Que sorte vocês tiveram! Ah, se eu pudesse vê-la também! “Que pena!” E as irmãs começaram a rir e a debochar: “Você, a Gata Borralheira, chegar perto de uma fina dama da corte, não nos faça rir!”.
No dia seguinte, ou melhor, na noite seguinte as duas irmãs e a madrasta foram no segundo baile, mas o que elas não podiam imaginar é que Cinderela também foi e ainda mais magnificamente trajada que da primeira vez.

Usava um vestido verde, da cor de seus olhos, e que trazia todos os peixinhos do mar. Como na primeira noite o príncipe ficou todo o tempo junto dela e não parou de lhe sussurrar palavras doces. A jovem estava se divertindo tanto dançando com seu amado que esqueceu o conselho da sua madrinha, e foi com um grande susto que escutou soar a primeira badalada da meia-noite. Libertou-se dos braços do príncipe e fugiu célere como uma corsa. O príncipe a seguiu, mas não conseguiu alcançá-la. Ela deixou cair um dos seus sapatinhos de cristal, que o príncipe pegou e guardou com todo cuidado.

Cinderela chegou em casa sem fôlego, sua carruagem virou uma abóbora que ficou aos pedaços pelo caminho, os lacaios voltaram a ser os bichinhos de antes e suas roupas os mesmos trapos de sempre; não lhe restara nada de todo esplendor de a pouco, apenas um pé dos sapatinhos, o par do que deixara cair.

O rei deu ordens a guarda para procurá-la em todos os cantos, e assim foi feito, mas não se encontrou nem sombra dela.

Quando as irmãs e a madrasta voltaram do baile Cinderela perguntou como foi, se tinham se divertido e se a bela dama lá estivera. Responderam que sim, mas que fugira ao toque da décima segunda badalada, e tão depressa que deixara cair um de seus sapatinhos de cristal, o mais lindo do mundo. Contaram que o filho do rei o pegara e que junto aos seus soldados saíra em busca da sua linda princesa. Tinham certeza que ele estava completamente apaixonado pela linda moça, a dona do sapatinho.

E estavam certas, porque, poucos dias depois o príncipe mandou anunciar ao som de trompas que se casaria com aquela cujo pé coubesse no sapatinho. Mandou enviados por todo o reino para experimentá-lo nas princesas, depois nas duquesas, e na corte inteira, mas em vão. Levaram-no às duas irmãs, que não mediram esforços para enfiarem seus pés nele, mas sem sucesso. Cinderela, que discretamente as observava, reconheceu seu sapatinho e disse, sorrindo: “Deixem-me ver se serve em mim”. As irmãs começaram a rir e a caçoar dela, porém o fidalgo que fazia a prova do sapato olhou com seu olhar experiente atentamente para Cinderela e, reconhecendo sob àquelas pobres roupas a classe de uma princesa e achando-a belíssima, disse que o pedido era justo e que ele tinha ordens de experimentá-lo em todas as moças.
Pediu a Cinderela que se sentasse. Levou o sapato até seu pezinho e viu que cabia perfeitamente, como um molde de cera. O espanto da madrasta e das irmãs foi grande, mas maior ainda quando Cinderela tirou do bolso o outro sapatinho e o calçou. Neste instante a madrinha entrou pela sala e tocando-a com sua varinha os trapos de Cinderela, transformou-os de novo em seu esplêndido vestido.

As duas irmãs pasmas perceberam que Cinderela era a linda princesa que tinham visto no baile. Jogaram-se aos seus pés para lhe pedir perdão por todos os maus tratos que a tinham feito sofrer. Cinderela perdoou tudo, abraçando-as.

Levaram Cinderela até o príncipe, suntuosamente vestida como estava. Ela lhe pareceu mais bela que nunca e poucos dias depois estavam casados. Cinderela, que era tão boa quanto bela, casou as duas irmãs com dois grandes senhores da corte, mas preferiu nunca mais vê-las, por uma questão de segurança.

Rumpelstilstkin- Conto dos Irmãos Grimm

Rumpelstilstkin
Conto dos Irmãos Grimm



Era uma vez um moleiro pobre que tinha uma filha muito bela. Um dia aconteceu de ter que ir falar com o rei e, para parecer mais importante, disse:

— Tenho uma filha que pode fiar a palha e convertê-la em ouro.

— Essa é uma habilidade que me impressiona – disse o rei ao moleiro – se tua filha é tão hábil como dizes, traga-a amanhã ao meu palácio e vamos ver isso.

Quando trouxeram a garota, o rei a levou para uma quarto cheio de palha, deu-lhe uma roca e uma bobina e disse:

— Trabalha e, se amanhã pela manhã não tiveres convertido toda essa palha em ouro, durante a noite, morrerás.

Então ele mesmo fechou a porta a chave e a deixou só. A filha do moleiro se sentou sem poder fazer nada para salvar sua vida. Não tinha a menor idéia de

com fiar a palha e convertê-la em ouro, e se assustava cada vez mais, até que por fim começou a chorar.

Porém, de repente a porta se abriu e entrou um homenzinho:

— Boa tarde, senhorita moleira, por que estás chorando tanto?

— Ai de mim – disse a garota – tenho que fiar essa palha e convertê-la em ouro porém não sei como fazê-lo.

— O que me dás – disse o homenzinho – se fizer isso por ti?

— Meu colar, disse ela.

O homenzinho pegou o colar, sentou-se à roca e whirr, whirr, whirr três voltas e a bobina estava cheia.

Pôs outra e whirr, whirr, whirr três voltas e a segunda estava cheia também. E seguiu assim até o amanhecer, quando toda palha estava fiada e todas as bobinas cheias de ouro.

Ao despertar o dia o rei já estava ali, e quando viu o ouro ficou atônito e encantado, porém seu coração se tornou mais avarento. Levou a filha do moleiro a outra sala, muito maior e cheia de palha e lhe ordenou que fiasse a noite inteira, se apreciava a vida.

A garota que não sabia o que fazer, estava chorando quando a porta se abriu de novo. O homenzinho apareceu e disse:

— Que me darás se eu converter essa palha em ouro? – perguntou ele.

— O anel que levo em meu dedo – disse ela.

O homenzinho apanhou o anel e começou outra vez a girar a roca, e pela manhã havia fiado toda a palha e convertido em brilhante ouro. O rei ficou felicíssimo quando viu aquilo. Porém como não tinha ouro suficiente, levou a filha do moleiro a outra sala cheia de palha, muito maior que a anterior, e disse:

— Tens que fiar isso durante esta noite, se conseguires, serás minha esposa. – “Apesar de ser a filha de um moleiro, ” pensou, ” não poderei encontrar esposa mais rica no mundo.”

Quando a garota ficou só, o homenzinho apareceu pela terceira vez, e disse:

— Que me darás se fiar a palha desta vez?

— Não tenho mais nada para te dar – respondeu a garota.

— Então me prometa, que se te tornares rainha, me darás teu primeiro filho. -” Quem sabe se isso ocorrerá alguma vez. ” pensou a filha do moleiro. E não sabendo como sair daquela situação, prometeu ao homenzinho o que ele queria e uma vez mais a palha foi convertida em ouro.

Quando o rei chegou pela manhã, e encontrou todo o ouro que havia desejado, casou-se com ela e a preciosa filha do moleiro tornou-se rainha.

UM ano depois, trouxe ao mundo um belo menino, e em nenhum momento se lembrou do homenzinho. Porém, de repente, veio ao seu quarto e lhe disse:

— Dá-me o que prometeste.

A rainha estava horrorizada e lhe ofereceu todas as riquezas do reino para deixar seu filho. Porém o homenzinho disse:

— Não, algo vivo vale para mim mais que todos os tesouros do mundo.

A rainha começou a se lamentar e chorar tanto que o homenzinho se compadeceu dela:

— Te darei três dias – disse – se descobrires meu nome, então ficarás com teu filho.

Então a rainha passou toda a noite pensando em todos os nomes que tinha ouvido, e mandou um mensageiro a todos os cantos do reino para perguntar por todos os nomes que havia. Quando o homenzinho chegou no dia seguinte, ela começou: Gaspar, Melquior, Baltazar… Disse um atrás do outro, todos os nomes que sabia, porém a cada um o homenzinho dizia:

— Esse não é meu nome.

No segundo dia havia perguntado aos vizinhos seus nomes, e ela repetiu os mais curiosos e pouco comuns:

— Seria teu nome Pata de Cordeiro ou Laço Largo?

Porém ele disse:

— Esse não é meu nome.

Ao terceiro dia o mensageiro voltou e disse:

— Não encontrei nenhum nome. Porém, quando subia uma grande montanha ao final de um bosque, onde a raposa e a lebre se desejam boas noites, ali vi um homenzinho muito ridículo saltando.. Deu um cabriola e gritou:

“Hoje trago o pão, amanhã trarei cerveja, no outro terei o filho da jovem rainha.

Já estou contente de que nada aconteça que Rumpelstiltskin me chamo.”

Podeis imaginar o contentamento da rainha quando escutou o nome. E quando logo em seguida o chegou o homenzinho e perguntou:

­— Bem, jovem rainha, qual é meu nome?

A rainha primeiro disse:

— Te chamas Conrado?

— Não.

—Te chamas Harry?

— Não.

— Quem sabe teu nome é… Rumpelstiltskin?

— Te contou o demônio! Te contou o demônio! Gritou o homenzinho e, na sua raiva, bateu o pé direito na terra tão forte que entrou toda a perna e quando a tirou com raiva do chão com as duas mãos, se partiu em dois.

Conto de Joseph Jacobs-Catarina Quebra Nozes-Conto de Fadas

Catarina Quebra-Nozes- 
(Versão Original)
Por:Joseph Jacobs
Era uma vez um rei e uma rainha, como os que reinavam em muitas nações. O rei tinha uma filha chamada Ana, e a rainha tinha outra chamada Catarina. Ana era muito mais bonita que a filha da rainha, mas gostavam uma da outra como verdadeiras irmãs. Sentindo inveja da filha do rei por ser mais bonita que a sua Catarina, a rainha procurou um meio de estragar a beleza dela. Assim, foi se aconselhar com a dona Galinha, que lhe disse para mandar a mocinha ir vê-la na manhã seguinte, de jejum.
Na manhã seguinte, bem cedo, a rainha disse a Ana:

“Vá, minha querida, até a dona Galinha, na ravina, e peça- lhe alguns ovos.” Lá se foi Ana, mas, vendo um pedaço de pão ao passar pela cozinha, pegou-o e foi mastigando pelo caminho afora.

Ao chegar à dona Galinha, pediu os ovos, como lhe haviam mandado fazer. A dona Galinha lhe disse: “Levante a tampa daquela panela ali e veja.” A mocinha obedeceu, mas não aconteceu nada. “Volte para sua mãe e diga-lhe para manter sua despensa bem trancada”, disse a dona Galinha. Assim ela voltou para casa e contou à rainha o que a galinha dissera. Com isso, a rainha soube que a mocinha tinha comido alguma coisa. Na manhã seguinte ficou muito atenta e despachou a princesa de jejum. Mas ela viu uns camponeses colhendo ervilhas à beira do caminho e, sendo muito gentil, falou com eles e pegou um punhado de ervilhas, que foi comendo pelo caminho.


Quando chegou à dona Galinha, esta disse: “Levante tampa da panela e verá”Ana levantou a tampa do recipiente, mas nada aconteceu. Dona Galinha ficou terrivelmente zangada e disse a Ana: “Diga para sua mãe que a panela não vai ferver se o fogo estiver apagado.”Ana voltou para casa e contou isso à rainha. No terceiro dia a rainha foi pessoalmente com a menina até a dona Galinha. Ora, dessa vez, quando Ana levantou a tampa da panela, sua linda cabeça despencou e uma cabeça de ovelha pulou no seu pescoço.

Muito satisfeita, a rainha voltou para casa. Sua própria filha, Catarina, no entanto, pegou um fino pano de linho, envolveu com ele a cabeça da irmã e tomou-a pela mão. Assim partiram, em busca da sorte. Andaram, andaram e andaram até que chegaram a um castelo. Catarina bateu à porta e pediu pousada por uma noite para ela e uma irmã doente. Ao entrar, descobriram que era o castelo de um rei. Esse rei tinha dois filhos e um deles estava muito doente, à beira da morte, e ninguém conseguia descobrir qual era o seu mal. O curioso era que toda pessoa que o velava durante a noite desaparecia para nunca mais. Por isso o rei oferecera uma burra de prata a quem se dispusesse a ficar com ele. Ora, Catarina era uma menina muito corajosa, e se ofereceu para cuidar do principe.

Até a meia-noite, tudo correu bem. Quando as doze badaladas soaram, porém, o príncipe doente levantou-se, vestiu-se e se esgueirou escada abaixo. Catarina seguiu-o, mas ele não pareceu notar. O príncipe foi até o estábulo, selou seu cavalo, chamou seu cão de caça, pulou na sela e Catarina pulou lepidamente atrás. E lá se foram o príncipe e Catarina pela floresta. Catarina ia arrancando nozes das árvores e enchendo com elas seu avental. Cavalgaram e cavalgaram até chegar a um monte verdejante. Ali o príncipe refreou o cavalo e disse: “Abra, abra, monte verdejante, e deixe entrar o jovem príncipe com seu cavalo e seu cão.” E Catarina acrescentou: “E sua dama atrás de si’.

Imediatamente o monte verdejante se abriu e eles entraram. O príncipe penetrou num salão magnífico, feericamente iluminado, e muitas lindas fadas o cercaram e o chamaram para dançar. Enquanto isso, sem ser notada, Catarina escondeu-se atrás da porta. Dali viu o principe dançando, e dançando, até que não pôde dançar mais e desabou sobre um divã. As fadas se puseram então a abaná-lo, até que ele conseguiu se levantar e continuar dançando. Finalmente o galo cantou e o príncipe tratou de montar de novo seu cavalo a toda pressa; Catarina pulou atrás e rumaram para casa. Quando o sol da manhã se levantava, foram ao quarto do príncipe e encontraram Catarina sentada junto ao fogo, quebrando suas nozes. Contou que o príncipe tivera uma boa noite, mas que não velaria por ele mais uma noite a menos que ganhasse uma burra de ouro. A segunda noite transcorreu como a primeira, O príncipe se levantou à meia-noite e cavalgou até o monte verdejante e o baile das fadas, e Catarina foi com ele, colhendo nozes enquanto avançavam pela floresta. Dessa vez não espiou o príncipe, pois sabia que ia dançar, dançar e dançar. Mas viu urna fadinha-bebê brincando com uma varinha de condão e, sem ser notada, ouviu uma fada dizer a outra: “Três batidas corn essa varinha de condão tornariam a irmã de Catarina tão linda como sempre foi.”

Assim, Catarina começou a rolar nozes para a fada-bebê, e mais, e mais, até que a criança saiu cambaleando atrás dos frutos e deixou cair a varinha, que Catarina guardou no avental. E ao cantar do galo cavalgaram para casa como antes e, mais que depressa, ao entrar em seu quarto no palácio, Catarina tocou Ana três vezes com a varinha de condão.A repelente cara de ovelha caiu e ela voltou a ser linda como sempre.



Na terceira noite, Catarina só consentiu em velar o príncipe doente se pudesse se casar com ele. Tudo se passou como nas duas primeiras noites. Dessa vez a fadinha-bebê estava brincando corn um passarinho. Catarina ouviu urna das fadas dizer:”Três bocados deste passarinho devolveriam ao príncipe doente mais saúde do que ele jamais teve.” Catarina rolou todas as nozes que tinha para a fadinha-bebê, até o passarinho cair; guardou-o então no seu avental.

Ao cantar do galo partiram de novo, mas, ern vez de quebrar suas nozes como costumava fazer, nesse dia Catarina depenou o passarinho e cozinhou-o. “Oh!” disse o príncipe doente. “Gostaria de um bocado desse passarinho:’ Assim Catarina deu-lhe um pedacinho da ave e ele se ergueu sobre os cotovelos. Dá um pouco exclamou de novo: “Oh, se eu pudesse comer mais um bocado daquele passarinho!” Catarina deu-lhe mais um pedaço e ele se sentou na cama. Depois ele disse de novo:”Ah, se pudesse comer um terceiro bocado daquele passarinho!” Catarina deu-lhe um terceiro bocado e ele se levantou, forte e lampeiro, vestiu-se e foi se sentar junto ao fogo.

Quando o pessoal chegou na manhã seguinte, encontrou Catarina e o jovem pnncipe quebrando nozes juntos. Nesse meio tempo, o irmão do príncipe vira Ana e caíra de amores por ela, como faziam todos que viam seu lindo rosto. Assim o filho doentio casou-se com a irmã sadia e o irmão sadio casou-se com a irmã doentia, e todos viveram felizes e morreram felizes e nunca beberam de um copo vazio.

Conto de Hans Christian Andersen -As Princesas Dançarinas

As Princesas dançarinas
Por: Hans Christian Andersen

Era uma vez um rei que tinha doze filhas muito lindas. Elas dormiam em doze camas, todas no mesmo quarto; e quando iam para a cama, as portas do quarto eram trancadas a chave por fora. Pela manhã, porém, os seus sapatos apresentavam as solas gastas, como se tivessem dançado com eles toda a noite. Ninguém conseguia descobrir como acontecia aquilo, já que o quarto era sempre trancado. Então, o rei anunciou por todo o país que se alguém pudesse descobrir o segredo de suas filhas, do que faziam a noite para que seus sapatos ficassem tão gastos, casaria com aquela de quem mais gostasse e seria o seu herdeiro do trono. Mas aquele que se propusesse a descobrir o segredo e não o fizesse ao fim de três dias e três noites, seria morto.

Apresentou-se logo o filho de um rei. Foi muito bem recebido e à noite levaram-no para o quarto ao lado daquele onde as princesas dormiam. Ele tinha que ficar sentado para ver onde elas iam dançar e, para que nada acontecesse sem que ele ouvisse, deixaram-lhe aberta a porta do quarto. Mas o rapaz daí a pouco adormeceu; e, quando acordou de manhã, percebeu as solas dos sapatos das princesas cheias de buracos. O mesmo aconteceu nas duas noites seguintes e por isso o rei ordenou que lhe cortassem a cabeça. Depois dele vieram vários outros. Nenhum teve sorte, e perderam a vida da mesma maneira.

Certo dia um ex-soldado, que ferido em combate e já não era mais capaz de guerrear, chegou ao país. Um dia, ao atravessar uma floresta, encontrou uma velha, que lhe perguntou aonde ia.

 - Quero descobrir onde é que as princesas dançam, e assim, mais tarde, vir a ser rei.

- Bem, disse a velha, – isso não custa muito. Basta que tenhas cuidado e não bebas do vinho que uma das princesas te trouxer à noite. Logo que ela se afastar, deves fingir estar dormindo profundamente. E, dando-lhe uma capa, acrescentou:

- Logo que puseres esta capa tornar-te-ás invisível e poderás seguir as princesas para onde quer que elas queiram ir. Quando o soldado ouviu estes conselhos, foi falar com o rei, que ordenou lhe fossem dados ricos trajes. Quando veio a noite, conduziram-no até o quarto de fora. Quando ia deitar-se, a mais velha das princesas trouxe-lhe uma taça de vinho, mas o soldado entornou-a toda nas plantas do umbral da janela sem que ela percebesse. Em seguida estendeu-se na cama, e pôs-se a ressonar como se estivesse dormindo.

As doze princesas puseram-se a rir, levantaram-se, abriram as malas, e, vestindo-se esplendidamente, começaram a saltitar de contentes, como se já se preparassem para dançar. A mais nova de todas, porém, subitamente preocupada, disse:

- Não me sinto bem. Tenho certeza de que nos vai suceder alguma desgraça.
- Tola! – replicou a mais velha. Já não te lembras de quantos filhos de rei nos têm vindo espiar sem resultado? E, quanto ao soldado, tive o cuidado de lhe dar a bebida que o fará dormir, assim como fiz com todos os outros

Quando todas estavam prontas, foram espiar o soldado, que continuava a ressonar e estava imóvel. Julgaram-se seguras. A mais velha foi até a sua cama e bateu palmas: a cama enfiou-se logo pelo chão abaixo, abrindo-se ali um alçapão. O soldado viu-as descer pelo alçapão, uma atrás das outra. Levantou-se, pôs a capa que a velha lhe tinha dado, e seguiu-as. No meio da escada, desastrado, pisou na cauda do vestido da princesa mais nova, que gritou às irmãs:

- Alguém me puxou pelo vestido!

-Que tola! – disse a mais velha. Deve ter sido um prego da parede.

Lá foram todas descendo e, quando chegaram ao fim, encontraram-se num bosque de lindas árvores. As folhas eram todas de prata e tinham um brilho maravilhoso. O soldado quis levar uma lembrança dali, e partiu um raminho de uma das árvores.

 Em seguida foram a outro bosque, onde as folhas das árvores eram de ouro; e depois a um terceiro, onde as folhas eram de diamantes. E o soldado partiu um raminho em cada um dos bosques. Chegaram finalmente a um grande lago onde, à margem, estavam encostados doze barcos pequeninos, dentro dos quais doze príncipes muito belos esperavam pelas princesas.

Cada uma delas entrou em um barco, e o soldado saltou para onde ia a mais moça. Quando iam atravessando o lago, o príncipe que remava o barco da princesa mais nova disse:

 -Não sei por que, mas apesar de estar remando com toda a minha força, parece-me que vamos mais devagar do que de costume. O barco parece estar hoje muito pesado.

-Deve ser do calor do tempo, disse a jovem princesa.

Do outro lado do lago ficava um grande castelo, de onde vinha um som de clarins e trompas. Desembarcaram todos e entraram no castelo, e cada príncipe dançou com a sua princesa. O soldado invisível dançou entre eles, também, e quando punham uma taça de vinho junto a qualquer das princesas, o soldado bebia-a toda, de modo que a princesa, quando a levava à boca, achava-a vazia. A mais moça assustava-se muito, porém a mais velha fazia-a calar. Dançaram até as três horas da madrugada, e então já os seus sapatos estavam gastos e tiveram que parar. Os príncipes levaram-nas outra vez para o outro lado do lago – mas desta vez o soldado veio no barco da princesa mais velha – e na margem oposta despediram-se de seus doze companheiros, prometendo voltar na noite seguinte.

Quando chegaram ao pé da escada, o soldado adiantou-se às princesas e subiu primeiro, indo logo deitar-se. As princesas, subindo devagar, porque estavam muito cansadas, ouviam-no sempre ressonando, e disseram:

-Está tudo bem. Ele ainda dorme!

Depois despiram-se, guardaram outra vez os seus ricos trajes, tiraram os sapatos e deitaram-se. De manhã o soldado não disse nada do que tinha visto, mas desejando tornar a ver a estranha aventura, foi ainda com as princesas nas duas noites seguintes. Na terceira noite, porém, o soldado levou consigo uma das taças de ouro como prova de onde tinha estado.

Chegada a ocasião de revelar o segredo, foi levado à presença do rei com os três ramos e a taça de ouro. As doze princesas puseram-se a escutar atrás da porta para ouvir o que ele diria.

O rei perguntou, imponente:

-Onde é que as minhas doze filhas gastam seus sapatos todas as noites?

Ele respondeu muito seguro de si:

-Dançando com doze príncipes num castelo debaixo da terra.

Depois contou ao rei tudo o que tinha sucedido, e mostrou-lhe os três ramos e a taça de ouro que trouxera consigo.

O rei chamou as princesas e perguntou-lhes se era verdade o que o soldado tinha dito. Vendo que seu segredo havia sido descoberto, elas confessaram tudo.

O rei perguntou ao soldado com qual delas ele gostaria de casar.

-Gostaria de me casar com a mais velha, que é uma bela mulher e muito inteligente!
Casaram-se dias depois e o soldado tornou-se herdeiro do trono.

Quanto às outras princesas e seus bailes no castelo encantado, pelos buracos nas solas dos sapatos, elas continuam dançando até hoje.


Fontes:http://linamarin.wordpress.com/2008/06/29/princesas_dancarinas/

As Flores da Pequena Ida-Um Lindo Conto de Fadas de Hans Christian Andersen

As Flores da Pequena Ida-(Versão Original)
Por: Hans Christian Andersen
Minhas pobres flores estão todas mortas – disse a pequenina Ida. – Estavam tão bonitas à noite pas­sada, e agora todas as flores pendem, murchas. Por que será? – perguntou ao estudante de quem gostava muito e estava sentado com ela no sofá.

Ele contava-lhe as mais belas histórias, e sabia re­cortar figuras muito engraçadas – corações com mu­lheres dançando dentro deles diversos tipos de flores, e grandes castelos, cujas portas se podiam abrir. Em suma, era um estudante alegre.

-   Por que estarão as flores tão tristes hoje? – tor­nou  a perguntar Ida, e mostrou-lhe  todo um buquê inteiramente murcho.

-   Sabes o que há? – disse o estudante.  – As flores estiveram no baile esta noite, e por isso estão com as cabeças pendendo de cansadas.

-   Mas as flores não sabem dançar! – disse a pe­quena Ida.

Sabem, sim – contestou o estudante. – Quan­do é noite, e todos nós vamos dormir, elas pulam, ale­gres. Quase todas as noites elas vão ao baile!

Crianças podem ir a esse baile?

Podem – esclareceu o estudante. – Mas só as pequeninas margaridas e os lírios do vale.

Onde dançam as flores mais bonitas? – pergun­tou Ida.

Já não estiveste várias vezes fora dos portõesda cidade, em frente ao grande palácio onde o rei re­side no verão e onde há um maravilhoso jardim com muitas flores? Já não viste os cisnes que ali nadam ao teu encontro, quando lhes dás migalhas de pão? Pois é. Lá fora há o baile, podes crer!

Ontem mesmo estive lá fora, no jardim, com a minha mãe – disse Ida. – Mas todas as folhas ti­nham caído das árvores e nelas não havia flores. Onde estarão elas? Vi tantas, no último verão!

Estão no castelo – explicou o estudante.  – Deves saber que, mal o rei e os cortesãos vêm cá para a cidade, as flores deixam o jardim e correm muito ale­gres a instalar-se no castelo.  Devias vê-las! As duas rosas mais bonitas sentam-se no trono, e fazem as ve­zes de rei e de rainha. Todas as cristas-de-galo verme­lhas se perfilam, reverentes, são os camareiros. As mais graciosas flores vão chegando, e há então o grande bai­le. Os jacintos são pequenos cadetes navais, e dançam com as violetas, a quem chamam senhoritas. As tulipas e os grandes lírios amarelos são damas idosas – zelam pela correção e decência do baile.

Mas – perguntou a pequena Ida – ninguém faz nada às flores por dançarem no palácio do rei?

Ninguém o sabe ao certo – disse o estudante.- Às vezes, à noite, aparece, com seu grande molho de chave, o velho administrador. Assim que ouvem o tilintar das chaves, as flores ficam  bem quietinhas, escondidas atrás das cortinas, e põem apenas a cabeça de fora.  “Estou sentindo cheiro de flores cá dentro”, diz o velho administrador do castelo. Mas não consegue vê-las.

- Claro!  – respondeu o estudante.  – Quando querem, até voar sabem. Não já viste as belas borbole­tas vermelhas, amarelas e brancas, que quase parecem flores? Pois de fato já o foram um dia. Saltaram das hastes para o espaço, bateram as pétalas como se fos­sem azinhas, e saíram voando.  Por se terem compor­tado direitinho, foi-lhes permitido voar também duran­te o dia e não regressaram para ficar de novo imóveis nas hastes. Assim, as pétalas acabaram por transfor­mar-se em verdadeiras asas. Tu mesma o viste. Entre­tanto, é possível que as flores do Jardim Botânico nunca tenham estado no palácio do rei e nem saibam que ali é tão alegre à noite. Por isso vou dizer-te uma coisa que deixará perplexo o professor de botânica que mora aí, ao lado, tu o conheces, não é? Quando entrares no seu jardim, deves contar a uma das flores que há um grande salão de baile no castelo; ela o contará as ou­tras, e todas sairão voando. O professor virá ao jardim, e lá não encontrará mais uma única flor, sem que ele possa, entretanto, compreender para onde  foram.


- E o professor entende os sinais delas? – per­guntou Ida.

-    Decerto que entende! Desceu ao jardim outro dia, e viu uma grande urtiga fazendo sinais, com as folhas, para um cravo vermelho, dizendo: “És tão belo, e gosto tanto de ti!” Mas o professor, como não tolera coisas assim, logo bateu nas folhas da urtiga, que são os dedos da planta.  Mas machucou-se nelas, e desde então não mais se atreveu a tocar nas urtigas.

-    Que engraçado! – disse a pequena Ida, rindo.

-    Como é possível meterem semelhantes bobagens na cabeça de uma criança!  – observou o conselheiro da chancelaria, que viera fazer uma visita e também estava sentado no sofá.

Não gostava do estudante,, e resmungava sempre que o via recortando as suas figurinhas, ora a de um homem pendurado na forca, com um coração na mão, a indicar um ladrão de corações, ora a de uma velha bruxa montada numa vassoura, levando o marido no nariz. Disso o conselheiro não gostava.

-  Então isso são coisas que se metem na cabeça de uma criança? – protestava. – Que fantasias tolas!

Mas a pequena Ida achava muito engraçado o que o estudante contava das flores, e pensava atentamente no que ouvira. As flores deixavam pender a cabeça por estarem cansadas de dançar toda a noite; com certeza estavam até doentes! Levou-as para junto dos seus brin­quedos, arrumados numa linda mesinha com a gaveta cheia de coisas bonitas. Numa caminha, estava deitada a sua boneca Sofia, dormindo, mas a pequenina Ida lhe disse:

-  Tens de levantar, Sofia, e contentar-te com pas­sar esta noite na gaveta. As pobres flores estão doen­tes, precisam deitar na tua cama, onde talvez fiquem boas.

Assim dizendo, retirou a boneca, que fez cara feia, mas não disse uma só palavra, zangada por não poder ficar em sua caminha.

Ida deitou as flores na cama da boneca, cobriu-as bem com o cobertorzinho, mandou-as ficar bem quietinhas e lhes disse que ia fazer chá para elas, para que sarassem e se levantassem na manhã seguinte. Puxou bem o cortinado em redor da caminha, para que o sol não lhes doesse nos olhos.





Durante toda a noite não pôde deixar de pensar no que o estudante lhe contara, e, quando chegou a hora de ir ela própria para a cama, foi primeiro es­piar atrás das cortinas das janelas, onde estavam as belas flores de sua mamãe, uns jacintos e tulipas.

- Sei que vão ao baile esta noite! – murmurou ela baixinho.

As flores fingiram nada entender, não moveram uma folha, mas a pequena Ida sabia de tudo.

Na cama, ficou ainda muito tempo pensando co­mo devia ser bonito ver dançar as graciosas flores lá fora, no castelo do rei. “Será que minhas flores já estiveram lá?”, pensou. Mas acabou adormecendo. Mais tarde, tornou a acordar. Sonhara com as flores e com o estudante, que o conselheiro repreendia, di­zendo que ele punha tolices na cabeça dela. No quar­to tudo estava quieto. Na mesa ardia a lamparina, e o pai e a mãe dormiam.

- Será que minhas flores estão deitadas na cama de Sofia? – disse de si para si a pequena Ida. – Quanto eu gostaria de sabê-lo!

Ergueu-se um pouco e olhou para a porta entrea-berta. Lá dentro estavam as flores e todos os seus brinquedos. Pôs-se a escutar, e pareceu-lhe ouvir que tocavam piano na sala, mas baixinho, tão de leve como nunca antes ouvira.

-  Agora, decerto, todas as flores estão dançando lá dentro! – disse ela. – ó, meu Deus, como eu gostaria de vê-las!

Mas não ousou levantar-se, para não acordar o pai e a mãe.
-  Tomara que entrem aqui…

As flores, porém, não entraram, e a música conti­nuou a soar, doce e suave. Ida não pôde mais resistir àquele mágico encanto. Saiu de sua caminha e foi, pé ante pé, até a porta, e espiou. Ah! Como era engraçado o que viu na sala! Apesar de não haver lamparina lá dentro, havia claridade bastante, pois a Lua iluminava a sala através da janela aberta. Os jacintos e as tuli­pas formavam duas longas filas – na janela não havia mais nenhuma flor, só os vasos vazios. Pelo soalho, todas as flores dançavam, graciosas, fazendo roda, dan­do umas às outras as longas folhas verdes. Junto ao piano estava sentado um grande lírio amarelo, certa­mente o mesmo que ela vira no verão, pois se lembrava bem do que dissera o estudante: “Como esta flor se parece com a senhorita Lina!” Então, todos tinham zombado dele. Agora, porém, também Ida achava se­melhança entre a longa flor amarela e a senhorita Lina. A flor também se portava da mesma maneira que da Lina ao tocar piano, inclinava ora para um lado, ora para outro o longo rosto amarelo, meneava a cabeça ao compasso da música. Ninguém reparou na pequena Ida. De repente, ela viu uma grande flor de açafrão azul pular bem no meio da mesa, onde estavam os brin­quedos, e ir direitinho à cama da boneca e puxar as cortinas para o lado. Ali estavam as flores doentes, que, no entanto, logo se ergueram e acenaram para as outras, avisando que também queriam dançar. O ve­lho boneco, limpador de chaminés, cujo lábio inferior se partira, pôs-se de pé, fez reverências às flores, que já não tinham aspecto doentio e pulavam entre as ou­tras, muito alegres.

Alguma coisa pareceu cair da mesa, e Ida para lá voltou os olhos. Viu a vara de bétula pular para baixo. Sem dúvida, a vara achava que também fazia parte das flores. Era, de fato, muito airosa e trazia no alto um pequeno boneco de cera, que tinha na cabeça um lar­go chapéu, exatamente como aquele usado pelo conse­lheiro da chancelaria. A vara pulava no meio das flo­res com as suas três pernas de pau vermelhas, dança­va a mazurca sapateando, o que as outras flores não podiam fazer, por serem leves demais para sapatear.

O boneco de cera, no topo da vara da bétula, tor­nou-se subitamente comprido, girou por sobre as flo­res de papel e gritou em voz alta: “Então, isso são coi­sas que se metam na cabeça de uma criança! Que fan­tasias tolas!”

O boneco de cera era direitinho o conselheiro, com o largo chapéu e tudo, até mesmo a cara amarela e azeda. Mas as flores de papel batiam-lhe em torno das pernas finas, até obrigá-lo a encolher-se de novo e tor­nar-se o minúsculo bonequinho de cera que fdra antes. Tudo aquilo era muito divertido, e a pequena Ida não pôde deixar de rir. A vara continuou a dançar e o con­selheiro tinha de dançar também, não havia como fur­tar-se, quer fosse ele comprido, quer continuasse a ser o pequeno boneco de cera amarela, com o grande cha­péu preto. Foi quando as outras flores intercederam, principalmente aquelas que tinham estado deitadas na cama da boneca, e a vara de bétula parou. No mesmo instante, ouviram-se fortes batidas no interior da gaveta, onde, ao lado de muitos brinquedos, estava guardada a boneca Sofia. O limpador de chaminés correu ao can­to da mesa, deitou-se de barriga para baixo, em todo o comprimento, e conseguiu abrir um pouquinho a ga­veta. Sofia surgiu admirada, e olhou ao redor.

-    “Parece que aqui há baile!” – disse ela.  – “Por que ninguém me avisou?”

-    “Queres  dançar comigo?” – perguntou-lhe o limpador de chaminés.
-    “Logo com quem!” – retrucou a boneca, dando-lhe as costas.

Sentou-se na gaveta, pensando que certamente vi­ria urna flor tirá-la para dançar. Mas nenhuma veio. Ela tossiu, para chamar a atenção sobre si, mas nem uma só flor notou-a. O limpador de chaminés dançou sozinho, o que era melhor do que nada.

Nenhuma das flores parecia ver a boneca, e So­fia deixou-se cair da gaveta ao soalho, fazendo baru­lho. Todas as flores vieram então correndo, e pergun­taram se ela não se machucara. Mostravam-se muito amáveis com ela, principalmente as que tinham dor­mido em sua caminha. Mas ela não se machucara, e as flores de Ida agradeceram-lhe a boa cama, disse­ram que gostavam muito dela. Levaram-na depois ao meio da sala, onde chegava a luz da Lua, e dançaram com ela, enquanto as outras flores formavam roda, com a boneca no meio. Sofia mostrou-se contente, e disse que podiam ficar com a cama quanto tempo sessem, pois ela não se incomodava de dormir na ga­veta.

Mas as flores disseram:

-    “Muito te agradecemos, mas não vivemos tan­to como imaginas.  Amanhã estaremos todas mortas.Dize à pequena Ida que nos enterre no jardim, onde
está enterrado o canário. No verão nasceremos de no­vo, e seremos muito mais belas.”

-    “Não!”   -   protestou   Sofia.   -   “Não   deveismorrer!”



Beijou-as, e abriu-se então a porta da sala e entrou dançando uma infinidade de outras flores. Ida não pôde compreender de onde teriam vindo. Eram com certeza as flores do palácio real. Na frente, vinham duas magní­ficas rosas, com pequenas coroas de ouro na cabeça: eram o rei e a rainha. Vinham em seguida os mais gra­ciosos goivos e cravos, saudando para todos os lados as outras flores. Surgiu em seguida a banda de música. Grandes papoulas e peônias sopravam em vagens de er­vilha, com toda a força, a ponto de ficarem vermelhas. As campânulas azuis e os pequenos e alvos galantes ti­niam, como se carregassem campainhas. Era uma músi­ca divertida. Vieram muitas outras flores, todas dan­çando, violetas azuis, boninas vermelhas, margaridinhas e convalárias. Todas as flores se beijavam: eram cenas encantadoras.

Por último, as flores deram boa-noite umas às ou­tras, e também a pequena Ida esgueirou-se para a cama, onde dormiu e sonhou com tudo quanto vira.

Ao levantar-se, na manhã seguinte, dirigiu-se logo à mesinha, a ver se as flores ainda lá estavam. Puxou para um lado as cortinas, e viu-as todas, mas estavam murchas, muito mais do que no dia anterior. Sofia es­tava deitada na gaveta, onde Ida a deixara, mas tinha cara de sono.

- Lembras-te do recado que tens para me dar? – perguntou Ida.

Mas Sofia tinha uma expressão absolutamente parva, e não dizia uma só palavra.

-  Não és boa amiga – disse Ida. – Esqueces que todas elas dançaram contigo.

Tomou uma caixinha de papelão, forrada de papel com pássaros pintados, abriu-a, e nela depositou as flo­res mortas.

-  Este será o vosso caixão funerário – disse ela às flores. – E quando os meus primos chegarem, esta­rão presentes ao sepultamento, no jardim, onde no ve­rão podereis nascer de novo e ser muito mais belas!

Os primos de Ida eram dois guapos rapazes cha­mados Jonas e Adolfo. O pai presenteara-lhes com dois lindos arcos, que trouxeram do norte para mostrar a Ida. Ela contou-lhes tudo a respeito das pobres flores que tinham morrido, e foi-lhes permitido enterrá-las. Os dois meninos iam na frente, com os arcos ao ombro, e a pequena Ida ia atrás, com as flores dentro da cai­xa. Cavaram no jardim uma pequena sepultura. Pri­meiro, Ida beijou as flores, depois enterrou a caixa com elas dentro. E Adolfo e Jonas lançaram flechas sobre o túmulo, com os seus pequenos arcos, pois não tinham espingardas nem canhão para a cerimônia.


Músicas da Toca


MusicPlaylistView Profile
Create a playlist at MixPod.com
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...