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domingo, 6 de maio de 2012

A Colina dos Elfos-Hans Christian Andersen





(Esse conto é lindo e mágico)

A colina dos elfos 

Por:Hans Christian Andersen


Umas ágeis lagartixas correram pelas fendas do tronco de uma velha árvore. Entendiam-se muito bem, pois todas falavam a língua de lagartixa.
- Que barulheira tem havido lá na velha Colina dos Elfos! - disse uma delas - já lá vão duas noite que não prego olho, por causa do alarido lá em cima. Eu podia estar na cama com dor de dente, que dava na mesma: em tal situação também não consigo dormir.
- Há qualquer coisa lá dentro - disse outra lagartixa - ficam na Colina, onde se erguem os quatro pilares vermelhos, até a hora do galo cantar. Estão limpando tudo, e as jovens elfas aprenderam novos bailados. Preparam alguma coisa, na certa.
- Falei com uma minhoca de minhas relações - informou uma terceira lagartixa - ela vinha directamente da colina, onde cavara a terra noite e dia. Ouvira muita coisa, pois ela apenas ouve: não vê, não enxerga, a coitada. Só se vale mesmo do tacto, para ajudar a audição. Esperam visitantes na Colina, visitantes ilustres. Quem são, a minhoca não quis dizer. Ou simplesmente não sabia. Todos os fogos-fátuos foram convocados, para realizarem uma marcha de archores. Ouro e prata, que não faltam lá na colina, estão sendo polidos e postos a enxugar sob a luz da Lua.
- Quem poderão ser esses visitantes? - perguntaram todas as lagartixas - o que irá haver por lá? ouçam: que zoada! Que burburinho!
Naquele momento abriu-se a Colina dos Elfos e saiu uma velha elfa solteirona, sem costas (segundo a mitologia escandinava, os elfos, embora muito graciosos e bonitos de frente, não têm costas: são ocos por trás), mas muito bem vestida, andando num passinho miúdo e rápido. Era a velha governanta do Rei dos Elfos. Tinha certo parentesco, embora remoto, com a família real, e trazia, como insígnia, um coração de âmbar na frente. Como andava depressa! Em seu passinho curto, as perninhas não paravam. Ela foi direto ao pântano, onde morava o Engole-Vento.
- O sr. está convidado a ir à Colina dos Elfos esta noite - disse ela - mas peço-lhe a gentileza de fazer-nos primeiro um grande serviço. Peço-lhe que se encarregue de distribuir os convites. Já que o sr. mesmo não tem casa, pode fazer-nos esse favor. Vamos receber visitas, gente muito nobre e ilustre, duendes de alta linhagem, e o velho Rei dos Elfos quer apresentar a todos eles o que há de melhor.
- Quem será convidado? - perguntou o Engole-Ventos.
- Para o grande baile pode vir todo o mundo, até seres humanos, contanto que saibam falar dormindo ou conheçam um pouco de outras artes nossas. Mas, para a festa inicial, haverá rigorosa selecção: só queremos a fina flor da sociedade, o que há de mais aristocrático. Já discuti com o Rei, pois, a meu ver, nem mesmo os fantasmas devemos convidar. O Tritão e suas filhas devem ser convidados em primeiro lugar; não gostam de ficar no seco, mas poderão receber, cada um, uma pedra molhada para sentar, ou coisa ainda melhor. Espero que assim não se recusem a vir dessa vez. A seguir, devem ser convidados todos os velhos duendes de primeira categoria, os de cauda, o Homem do Ribeirão e os anões. Penso também que não podemos deixar de convidar o Porco do Sepulcro, o Cavalo da Morte e o Gnomo da Igreja (segundo a superstição popular, na Dinamarca, em baixo de cada igreja que é construída, deve ser sepultado um cavalo vivo; o fantasma deste cavalo é o Cavalo da Morte, que anda à noite, mancando, pois tem só três pernas, e vai às casas onde alguém está para morrer. Em algumas igrejas era enterrado um porco vivo, e o fantasma desse porco era chamado o Porco do Sepulcro). Eles pertencem ao clero, não são, na verdade, gente nossa, mas, enfim, têm o seu cargo. Além disso, sempre nos visitam. Logo, creio que devem ser lembrados.
- Croááá... - disse o Engole-Vento, que antes tinha os apelidos Noitibó e Curiango.
E saiu voando, para convidar o pessoal.
As moças elfas já dançavam na Colina. Bailavam com um xale longo, tecido de névoa e luar, o que é lindo para os olhos que apreciam coisa assim. No centro da Colina dos Elfos, o grande salão estava muito bem arrumado e enfeitado. O chão fora lavado com luar e as paredes polidas com unguento de feiticeira, o que as deixara brilhantes como pétalas de tulipa diante da luz. A cozinha estava abarrotada de iguarias finas - como rãs no espeto, peles de cobra-d'água, dedinhos de criança pequena, saladas de semente de chapéu-de-cobra, focinhos de camundongo molhados em cicuta, cerveja fabricada pela Bruxa do Charco, vinho cintilante de salitre das câmaras mortuárias subterrâneas, enfim: todos os manjares mais substanciais e deliciosos. Pregos enferrujados e cacos de vidraça de igreja figuravam entre as sobremesas.
O velho Rei dos Elfos mandou polir sua coroa de ouro com lápis de lousa. Era o lápis de um primeiro aluno da classe, coisa muito difícil de obter para o Rei dos Elfos. No dormitório penduravam cortinas e as prendiam com saliva de cobra-d'água. Havia, de fato, grade azafama, um interminável burburinho.
- Agora é defumar tudo com crina e cerdas de porco queimadas, e creio que fiz minha parte - disse a velha elfa solteirona.
- Paizinho! - suplicou a mais nova das elfas - irei afinal saber quem são os nobres visitantes?
- Está bem - disse o pai - não tenho outro remédio senão revelá-lo. Duas de minhas filhas têm de estar prontas para o casamento. Duas vão certamente nos deixar, para casar. Virá aqui, com os seus dois filhos, que devem escolher mulher, o Duende-Ancião lá de cima, da Noruega, residente na velha montanha de Dovre e senhor de muitos castelos, situados nas rochas, e de uma mina de ouro que vale mais do que se pensa. Ele é o verdadeiro tipo do velho norueguês, honrado, alegre e simples. Conheço-o dos velhos tempos, quando bebíamos juntos e fizemos camaradagem. Ele tinha vindo cá, buscar sua esposa, que já é morta. Era a filha do Rei das Penedias de Moen. Tenho muita saudade do velho duende norueguês. Os filhos, dizem, são uns rapazes malcriados e fanfarrões. Mas, quem sabe? Talvez não seja verdade. Além disso, eles podem mudar com o tempo. Vamos ver se minhas filhas os põem no bom caminho.
- E quando vêm eles? - perguntou uma das filhas.
- Depende dos ventos e do tempo - disse o Rei do Elfos - eles fazem uma viagem económica. Vêm de navio. Eu queria que viessem pela Suécia, mas o velho não gosta daqueles lados. Ele não acompanha a evolução do tempo, e isso, a meu ver, é o seu único defeito.
Naquele momento vieram pulando dois fogos-fátuos, um mais depressa que o outro, por isso chegou primeiro.
- Eles vêm vindo! Eles vêm vindo! - avisou.
- Dai-me minha coroa e deixai-me ficar no lugar! - disse o Rei.
As filhas ergueram os longos xales e inclinaram-se até o chão.
Lá estava o Duende-Anão de Dovre, com sua coroa de pontas de gelo endurecidas e cones de pinheiros polidos. Trajava uma pele de urso, e calçava botas de inverno; os filhos, porém, vinham de pescoço descoberto e sem suspensórios, pois eram homens fortes.
- Isso é Colina? - perguntou o mais novo dos rapazes, apontando a Colina dos Elfos - na Noruega chamamos a isso um buraco!
- Meninos! - disse o velho - buracos vão para dentro, colinas vão para cima! Não tendes olhos para ver?
Só de uma coisa se admiravam: entenderam, sem dificuldade, a língua do lugar.
- Não nos façais de tolos! - disse o velho - devia-se crer que ainda cheirais a cueiros!
Entraram assim na Colina dos Elfos, onde se achava reunida a seleta e festiva companhia. Mas parecia reunida às pressas, como amontoada pelo vento. No entanto, tinham cuidado do conforto individual de cada um. A gente do mar estava à mesa, sentada em grandes vasilhas de água, e diziam que se sentiam como em casa. Todos observavam a etiqueta, com exceção dos dois jovens duendes noruegueses, que punham os pés sobre a mesa, convencidos de que para eles tudo ficava bem.
- Tirem as patas de cima da mesa! - disse o velho duende, e os rapazes obedeceram, embora com relutância.
Com os cones de pinheiros que traziam nos bolsos, faziam cócegas nas damas, suas vizinhas de mesa. Em seguida, tiraram as botinas, para ficarem mais à vontade, e deram-nas a uma das damas, para segurar. O pai, o velho Duende de Dovre, sim, era diferente. Sabia contar coisas bonitas das altas montanhas norueguesas, de cachoeiras que despencavam, brancas de espuma, com um fragor que parecia trovão e música de órgão misturados. Falou do salmão, que salta contra a água da correnteza, quando o génio das águas dedilha sua harpa de ouro; falou das brilhantes noites hibernais, quando soam as campainhas dos trenós e os rapazes correm, com archotes acesos, sobre os lisos campos de gelo - gelo tão transparente que as pessoas vêem, a seus pés, os peixes fugirem espavoridos. Sabia narrar com tanta vivacidade que se via e ouvia o que ele contava. Era como se escutassem as serrarias em movimento, os rapazes e moças cantando e dançando. De repente, arrebatado, o velho duende beijou a velha elfa solteirona - mas foi como um beijo de tio, embora nem fossem parentes.
Chegou a vez de as moças dançarem - não só simples bailados como sapateados. Seguiram-se bailados artísticos, individuais, e como sabiam elas usar as penas! No auge da dança, não se sabia mais o que era um lado e o que era outro, o que eram braços e o que eram pernas. Giravam com tal rapidez que o Cavalo-da-Morte até se sentiu mal e teve de sair da mesa.
- Prrrr! - disse o velho Duende - que festa de pernas!
Mas o que sabem elas, além de dançar, levantar as pernas e fazer remoinhos?
- Já o saberás! disse o Rei dos Elfos.
E chamou a mais jovem de suas filhas, fina e clara como o luar, a mais delicada dentre as irmãs. Ela tomou na boca uma varinha branca, e praticamente desapareceu. Era esta a sua arte.
O Duende-Ancião, porém, disse que não apreciava aquele tipo de arte em uma esposa, e que, segundo acreditava, também seus filhos não haveriam de apreciá-la.
A outra moça conseguia andar ao lado de si própria, como se projectasse uma sombra, coisa que os duendes não têm.
A terceira era completamente diferente: trabalhava na cervejaria da Feiticeira do Charco e sabia lardear nós de amieiro com pirilampos.
- Esta dará uma boa dona de casa - disse o Ancião, piscando os olhos.
Seguiu-se a quarta moça. Trazia consigo uma grande harpa de ouro, e, quando feriu a primeira corda, todos ergueram a perna esquerda, pois os duendes são canhotos; quando feriu a segunda corda, todos tiveram de fazer o que ela queria.
- Mulher perigosa! - opinou o Duende-Ancião.
Seus dois filhos saíram da Colina entediados com tudo aquilo.
- E o que sabe fazer a filha seguinte? - perguntou o velho.
- Aprendi a gostar de tudo quanto é norueguês - disse ela - e só me casarei com a condição de poder ir a Noruega!
- É só porque ela ouviu dizer, numa canção norueguesa, que quando o mundo se acabar, os picos noruegueses ficarão, como monumentos do passado - cochicou ao Duende-Ancião a irmã mais nova - por isso ela quer ir lá para cima, pois vive com medo do fim do mundo.
- Ah! - disse o Duende-Ancião - então é por isso? Mas o que sabe fazer a sétima e última das moças?
- Antes da sétima vem a sexta! - rectificou o Rei dos Elfos, que sabia calcular.
Mas a sexta não tinha grande vontade de aparecer.
- Só sei dizer a verdade a todos - disse ela, afinal - ninguém se importa comigo e tenho meu tempo ocupado em costurar minha própria mortalha.
Veio a sétima e última. Que sabia ela? Sabia contar fábulas, tantas quantas quisesse.
- Aqui estão todos os meus cinco dedos - disse o Duende-Ancião - conta-me uma história a respeito de cada um deles.
A moça tomou-lhe a mão, e ele riu-se a valer. Quando ela chegou ao Seu-Vizinho, que tinha anel de ouro na cintura, como se soubesse que ia haver noivado, disse o Duende-Ancião:
- Segura o que tens! A mão é tua! A ti eu mesmo quero por esposa.
A moça objectou que restava contar ainda a história de Seu-Vizinho e de Minguinho.
- Estas ouviremos no inverno - disse o Duende-Ancião - e ainda a história do pinheiro, a da bétula e a dos dotes das fadas e do frio cortante. Tu terás muitas histórias a contar, pois é coisa que ninguém sabe direito lá em cima. E nós ficaremos na casa de pedra, iluminada pela luz do archote, e tomaremos nosso vinho caseiro nos cornos de ouro dos antigos reis noruegueses. O génio da água presenteou-me com alguns. Lá nos virá visitar o Duente do Gar, que te contará todas as cantigas das pastoras. Será muito alegre! O salmão saltará na cachoeira, baterá na parede de pedra, mas não conseguirá entrar. Sim, podes crer, tudo é muito belo na querida e velha Noruega! Mas onde estão os rapazes?
Sim, onde estão os rapazes? Andavam correndo pelo campo e sopravam os fogos-fátuos, apagando-os, coitados, a eles que tinham vindo para realizar a marcha dos archotes.
- Isso é coisa que se faça? - censurou o Duende-Ancião - acabo de tomar uma mão para vós. Podeis tomar agora uma das tias.
Os rapazes, porém, disseram que preferiam fazer um discurso e beber, celebrando o acontecimento. Não tinham vontade de casar. Fizeram, pois, seus discursos, beberam e celebraram. Em seguida tiraram os casacos e deitaram-se na mesa, para dormir, sem a menor cerimónia. O ancião, no entanto, ficou andando em volta da sala, dançando com sua jovem noiva, e trocou de botina com ela, o que lhe parecia mais elegante que trocar de anéis.
- O galo está cantando! - anunciou a velha solteirona, dona da casa - temos de fechar as janelas, para que o Sol não brilhe aqui dentro.
E a Colina dos Elfos fechou-se.
Lá foram as lagartixas corriam para baixo e para cima, na árvore oca.
- Como gostei do Duende-Ancião norueguês! - disse a lagartixa à companheira.
- Pois eu gostei mais dos rapazes - revelou a minhoca.
A pobrezinha, porém, não enxergava: era um bicho insignificante.





domingo, 11 de setembro de 2011

Conto de Hans Christian Andersen -As Princesas Dançarinas

As Princesas dançarinas
Por: Hans Christian Andersen

Era uma vez um rei que tinha doze filhas muito lindas. Elas dormiam em doze camas, todas no mesmo quarto; e quando iam para a cama, as portas do quarto eram trancadas a chave por fora. Pela manhã, porém, os seus sapatos apresentavam as solas gastas, como se tivessem dançado com eles toda a noite. Ninguém conseguia descobrir como acontecia aquilo, já que o quarto era sempre trancado. Então, o rei anunciou por todo o país que se alguém pudesse descobrir o segredo de suas filhas, do que faziam a noite para que seus sapatos ficassem tão gastos, casaria com aquela de quem mais gostasse e seria o seu herdeiro do trono. Mas aquele que se propusesse a descobrir o segredo e não o fizesse ao fim de três dias e três noites, seria morto.

Apresentou-se logo o filho de um rei. Foi muito bem recebido e à noite levaram-no para o quarto ao lado daquele onde as princesas dormiam. Ele tinha que ficar sentado para ver onde elas iam dançar e, para que nada acontecesse sem que ele ouvisse, deixaram-lhe aberta a porta do quarto. Mas o rapaz daí a pouco adormeceu; e, quando acordou de manhã, percebeu as solas dos sapatos das princesas cheias de buracos. O mesmo aconteceu nas duas noites seguintes e por isso o rei ordenou que lhe cortassem a cabeça. Depois dele vieram vários outros. Nenhum teve sorte, e perderam a vida da mesma maneira.

Certo dia um ex-soldado, que ferido em combate e já não era mais capaz de guerrear, chegou ao país. Um dia, ao atravessar uma floresta, encontrou uma velha, que lhe perguntou aonde ia.

 - Quero descobrir onde é que as princesas dançam, e assim, mais tarde, vir a ser rei.

- Bem, disse a velha, – isso não custa muito. Basta que tenhas cuidado e não bebas do vinho que uma das princesas te trouxer à noite. Logo que ela se afastar, deves fingir estar dormindo profundamente. E, dando-lhe uma capa, acrescentou:

- Logo que puseres esta capa tornar-te-ás invisível e poderás seguir as princesas para onde quer que elas queiram ir. Quando o soldado ouviu estes conselhos, foi falar com o rei, que ordenou lhe fossem dados ricos trajes. Quando veio a noite, conduziram-no até o quarto de fora. Quando ia deitar-se, a mais velha das princesas trouxe-lhe uma taça de vinho, mas o soldado entornou-a toda nas plantas do umbral da janela sem que ela percebesse. Em seguida estendeu-se na cama, e pôs-se a ressonar como se estivesse dormindo.

As doze princesas puseram-se a rir, levantaram-se, abriram as malas, e, vestindo-se esplendidamente, começaram a saltitar de contentes, como se já se preparassem para dançar. A mais nova de todas, porém, subitamente preocupada, disse:

- Não me sinto bem. Tenho certeza de que nos vai suceder alguma desgraça.
- Tola! – replicou a mais velha. Já não te lembras de quantos filhos de rei nos têm vindo espiar sem resultado? E, quanto ao soldado, tive o cuidado de lhe dar a bebida que o fará dormir, assim como fiz com todos os outros

Quando todas estavam prontas, foram espiar o soldado, que continuava a ressonar e estava imóvel. Julgaram-se seguras. A mais velha foi até a sua cama e bateu palmas: a cama enfiou-se logo pelo chão abaixo, abrindo-se ali um alçapão. O soldado viu-as descer pelo alçapão, uma atrás das outra. Levantou-se, pôs a capa que a velha lhe tinha dado, e seguiu-as. No meio da escada, desastrado, pisou na cauda do vestido da princesa mais nova, que gritou às irmãs:

- Alguém me puxou pelo vestido!

-Que tola! – disse a mais velha. Deve ter sido um prego da parede.

Lá foram todas descendo e, quando chegaram ao fim, encontraram-se num bosque de lindas árvores. As folhas eram todas de prata e tinham um brilho maravilhoso. O soldado quis levar uma lembrança dali, e partiu um raminho de uma das árvores.

 Em seguida foram a outro bosque, onde as folhas das árvores eram de ouro; e depois a um terceiro, onde as folhas eram de diamantes. E o soldado partiu um raminho em cada um dos bosques. Chegaram finalmente a um grande lago onde, à margem, estavam encostados doze barcos pequeninos, dentro dos quais doze príncipes muito belos esperavam pelas princesas.

Cada uma delas entrou em um barco, e o soldado saltou para onde ia a mais moça. Quando iam atravessando o lago, o príncipe que remava o barco da princesa mais nova disse:

 -Não sei por que, mas apesar de estar remando com toda a minha força, parece-me que vamos mais devagar do que de costume. O barco parece estar hoje muito pesado.

-Deve ser do calor do tempo, disse a jovem princesa.

Do outro lado do lago ficava um grande castelo, de onde vinha um som de clarins e trompas. Desembarcaram todos e entraram no castelo, e cada príncipe dançou com a sua princesa. O soldado invisível dançou entre eles, também, e quando punham uma taça de vinho junto a qualquer das princesas, o soldado bebia-a toda, de modo que a princesa, quando a levava à boca, achava-a vazia. A mais moça assustava-se muito, porém a mais velha fazia-a calar. Dançaram até as três horas da madrugada, e então já os seus sapatos estavam gastos e tiveram que parar. Os príncipes levaram-nas outra vez para o outro lado do lago – mas desta vez o soldado veio no barco da princesa mais velha – e na margem oposta despediram-se de seus doze companheiros, prometendo voltar na noite seguinte.

Quando chegaram ao pé da escada, o soldado adiantou-se às princesas e subiu primeiro, indo logo deitar-se. As princesas, subindo devagar, porque estavam muito cansadas, ouviam-no sempre ressonando, e disseram:

-Está tudo bem. Ele ainda dorme!

Depois despiram-se, guardaram outra vez os seus ricos trajes, tiraram os sapatos e deitaram-se. De manhã o soldado não disse nada do que tinha visto, mas desejando tornar a ver a estranha aventura, foi ainda com as princesas nas duas noites seguintes. Na terceira noite, porém, o soldado levou consigo uma das taças de ouro como prova de onde tinha estado.

Chegada a ocasião de revelar o segredo, foi levado à presença do rei com os três ramos e a taça de ouro. As doze princesas puseram-se a escutar atrás da porta para ouvir o que ele diria.

O rei perguntou, imponente:

-Onde é que as minhas doze filhas gastam seus sapatos todas as noites?

Ele respondeu muito seguro de si:

-Dançando com doze príncipes num castelo debaixo da terra.

Depois contou ao rei tudo o que tinha sucedido, e mostrou-lhe os três ramos e a taça de ouro que trouxera consigo.

O rei chamou as princesas e perguntou-lhes se era verdade o que o soldado tinha dito. Vendo que seu segredo havia sido descoberto, elas confessaram tudo.

O rei perguntou ao soldado com qual delas ele gostaria de casar.

-Gostaria de me casar com a mais velha, que é uma bela mulher e muito inteligente!
Casaram-se dias depois e o soldado tornou-se herdeiro do trono.

Quanto às outras princesas e seus bailes no castelo encantado, pelos buracos nas solas dos sapatos, elas continuam dançando até hoje.


Fontes:http://linamarin.wordpress.com/2008/06/29/princesas_dancarinas/

As Flores da Pequena Ida-Um Lindo Conto de Fadas de Hans Christian Andersen

As Flores da Pequena Ida-(Versão Original)
Por: Hans Christian Andersen
Minhas pobres flores estão todas mortas – disse a pequenina Ida. – Estavam tão bonitas à noite pas­sada, e agora todas as flores pendem, murchas. Por que será? – perguntou ao estudante de quem gostava muito e estava sentado com ela no sofá.

Ele contava-lhe as mais belas histórias, e sabia re­cortar figuras muito engraçadas – corações com mu­lheres dançando dentro deles diversos tipos de flores, e grandes castelos, cujas portas se podiam abrir. Em suma, era um estudante alegre.

-   Por que estarão as flores tão tristes hoje? – tor­nou  a perguntar Ida, e mostrou-lhe  todo um buquê inteiramente murcho.

-   Sabes o que há? – disse o estudante.  – As flores estiveram no baile esta noite, e por isso estão com as cabeças pendendo de cansadas.

-   Mas as flores não sabem dançar! – disse a pe­quena Ida.

Sabem, sim – contestou o estudante. – Quan­do é noite, e todos nós vamos dormir, elas pulam, ale­gres. Quase todas as noites elas vão ao baile!

Crianças podem ir a esse baile?

Podem – esclareceu o estudante. – Mas só as pequeninas margaridas e os lírios do vale.

Onde dançam as flores mais bonitas? – pergun­tou Ida.

Já não estiveste várias vezes fora dos portõesda cidade, em frente ao grande palácio onde o rei re­side no verão e onde há um maravilhoso jardim com muitas flores? Já não viste os cisnes que ali nadam ao teu encontro, quando lhes dás migalhas de pão? Pois é. Lá fora há o baile, podes crer!

Ontem mesmo estive lá fora, no jardim, com a minha mãe – disse Ida. – Mas todas as folhas ti­nham caído das árvores e nelas não havia flores. Onde estarão elas? Vi tantas, no último verão!

Estão no castelo – explicou o estudante.  – Deves saber que, mal o rei e os cortesãos vêm cá para a cidade, as flores deixam o jardim e correm muito ale­gres a instalar-se no castelo.  Devias vê-las! As duas rosas mais bonitas sentam-se no trono, e fazem as ve­zes de rei e de rainha. Todas as cristas-de-galo verme­lhas se perfilam, reverentes, são os camareiros. As mais graciosas flores vão chegando, e há então o grande bai­le. Os jacintos são pequenos cadetes navais, e dançam com as violetas, a quem chamam senhoritas. As tulipas e os grandes lírios amarelos são damas idosas – zelam pela correção e decência do baile.

Mas – perguntou a pequena Ida – ninguém faz nada às flores por dançarem no palácio do rei?

Ninguém o sabe ao certo – disse o estudante.- Às vezes, à noite, aparece, com seu grande molho de chave, o velho administrador. Assim que ouvem o tilintar das chaves, as flores ficam  bem quietinhas, escondidas atrás das cortinas, e põem apenas a cabeça de fora.  “Estou sentindo cheiro de flores cá dentro”, diz o velho administrador do castelo. Mas não consegue vê-las.

- Claro!  – respondeu o estudante.  – Quando querem, até voar sabem. Não já viste as belas borbole­tas vermelhas, amarelas e brancas, que quase parecem flores? Pois de fato já o foram um dia. Saltaram das hastes para o espaço, bateram as pétalas como se fos­sem azinhas, e saíram voando.  Por se terem compor­tado direitinho, foi-lhes permitido voar também duran­te o dia e não regressaram para ficar de novo imóveis nas hastes. Assim, as pétalas acabaram por transfor­mar-se em verdadeiras asas. Tu mesma o viste. Entre­tanto, é possível que as flores do Jardim Botânico nunca tenham estado no palácio do rei e nem saibam que ali é tão alegre à noite. Por isso vou dizer-te uma coisa que deixará perplexo o professor de botânica que mora aí, ao lado, tu o conheces, não é? Quando entrares no seu jardim, deves contar a uma das flores que há um grande salão de baile no castelo; ela o contará as ou­tras, e todas sairão voando. O professor virá ao jardim, e lá não encontrará mais uma única flor, sem que ele possa, entretanto, compreender para onde  foram.


- E o professor entende os sinais delas? – per­guntou Ida.

-    Decerto que entende! Desceu ao jardim outro dia, e viu uma grande urtiga fazendo sinais, com as folhas, para um cravo vermelho, dizendo: “És tão belo, e gosto tanto de ti!” Mas o professor, como não tolera coisas assim, logo bateu nas folhas da urtiga, que são os dedos da planta.  Mas machucou-se nelas, e desde então não mais se atreveu a tocar nas urtigas.

-    Que engraçado! – disse a pequena Ida, rindo.

-    Como é possível meterem semelhantes bobagens na cabeça de uma criança!  – observou o conselheiro da chancelaria, que viera fazer uma visita e também estava sentado no sofá.

Não gostava do estudante,, e resmungava sempre que o via recortando as suas figurinhas, ora a de um homem pendurado na forca, com um coração na mão, a indicar um ladrão de corações, ora a de uma velha bruxa montada numa vassoura, levando o marido no nariz. Disso o conselheiro não gostava.

-  Então isso são coisas que se metem na cabeça de uma criança? – protestava. – Que fantasias tolas!

Mas a pequena Ida achava muito engraçado o que o estudante contava das flores, e pensava atentamente no que ouvira. As flores deixavam pender a cabeça por estarem cansadas de dançar toda a noite; com certeza estavam até doentes! Levou-as para junto dos seus brin­quedos, arrumados numa linda mesinha com a gaveta cheia de coisas bonitas. Numa caminha, estava deitada a sua boneca Sofia, dormindo, mas a pequenina Ida lhe disse:

-  Tens de levantar, Sofia, e contentar-te com pas­sar esta noite na gaveta. As pobres flores estão doen­tes, precisam deitar na tua cama, onde talvez fiquem boas.

Assim dizendo, retirou a boneca, que fez cara feia, mas não disse uma só palavra, zangada por não poder ficar em sua caminha.

Ida deitou as flores na cama da boneca, cobriu-as bem com o cobertorzinho, mandou-as ficar bem quietinhas e lhes disse que ia fazer chá para elas, para que sarassem e se levantassem na manhã seguinte. Puxou bem o cortinado em redor da caminha, para que o sol não lhes doesse nos olhos.





Durante toda a noite não pôde deixar de pensar no que o estudante lhe contara, e, quando chegou a hora de ir ela própria para a cama, foi primeiro es­piar atrás das cortinas das janelas, onde estavam as belas flores de sua mamãe, uns jacintos e tulipas.

- Sei que vão ao baile esta noite! – murmurou ela baixinho.

As flores fingiram nada entender, não moveram uma folha, mas a pequena Ida sabia de tudo.

Na cama, ficou ainda muito tempo pensando co­mo devia ser bonito ver dançar as graciosas flores lá fora, no castelo do rei. “Será que minhas flores já estiveram lá?”, pensou. Mas acabou adormecendo. Mais tarde, tornou a acordar. Sonhara com as flores e com o estudante, que o conselheiro repreendia, di­zendo que ele punha tolices na cabeça dela. No quar­to tudo estava quieto. Na mesa ardia a lamparina, e o pai e a mãe dormiam.

- Será que minhas flores estão deitadas na cama de Sofia? – disse de si para si a pequena Ida. – Quanto eu gostaria de sabê-lo!

Ergueu-se um pouco e olhou para a porta entrea-berta. Lá dentro estavam as flores e todos os seus brinquedos. Pôs-se a escutar, e pareceu-lhe ouvir que tocavam piano na sala, mas baixinho, tão de leve como nunca antes ouvira.

-  Agora, decerto, todas as flores estão dançando lá dentro! – disse ela. – ó, meu Deus, como eu gostaria de vê-las!

Mas não ousou levantar-se, para não acordar o pai e a mãe.
-  Tomara que entrem aqui…

As flores, porém, não entraram, e a música conti­nuou a soar, doce e suave. Ida não pôde mais resistir àquele mágico encanto. Saiu de sua caminha e foi, pé ante pé, até a porta, e espiou. Ah! Como era engraçado o que viu na sala! Apesar de não haver lamparina lá dentro, havia claridade bastante, pois a Lua iluminava a sala através da janela aberta. Os jacintos e as tuli­pas formavam duas longas filas – na janela não havia mais nenhuma flor, só os vasos vazios. Pelo soalho, todas as flores dançavam, graciosas, fazendo roda, dan­do umas às outras as longas folhas verdes. Junto ao piano estava sentado um grande lírio amarelo, certa­mente o mesmo que ela vira no verão, pois se lembrava bem do que dissera o estudante: “Como esta flor se parece com a senhorita Lina!” Então, todos tinham zombado dele. Agora, porém, também Ida achava se­melhança entre a longa flor amarela e a senhorita Lina. A flor também se portava da mesma maneira que da Lina ao tocar piano, inclinava ora para um lado, ora para outro o longo rosto amarelo, meneava a cabeça ao compasso da música. Ninguém reparou na pequena Ida. De repente, ela viu uma grande flor de açafrão azul pular bem no meio da mesa, onde estavam os brin­quedos, e ir direitinho à cama da boneca e puxar as cortinas para o lado. Ali estavam as flores doentes, que, no entanto, logo se ergueram e acenaram para as outras, avisando que também queriam dançar. O ve­lho boneco, limpador de chaminés, cujo lábio inferior se partira, pôs-se de pé, fez reverências às flores, que já não tinham aspecto doentio e pulavam entre as ou­tras, muito alegres.

Alguma coisa pareceu cair da mesa, e Ida para lá voltou os olhos. Viu a vara de bétula pular para baixo. Sem dúvida, a vara achava que também fazia parte das flores. Era, de fato, muito airosa e trazia no alto um pequeno boneco de cera, que tinha na cabeça um lar­go chapéu, exatamente como aquele usado pelo conse­lheiro da chancelaria. A vara pulava no meio das flo­res com as suas três pernas de pau vermelhas, dança­va a mazurca sapateando, o que as outras flores não podiam fazer, por serem leves demais para sapatear.

O boneco de cera, no topo da vara da bétula, tor­nou-se subitamente comprido, girou por sobre as flo­res de papel e gritou em voz alta: “Então, isso são coi­sas que se metam na cabeça de uma criança! Que fan­tasias tolas!”

O boneco de cera era direitinho o conselheiro, com o largo chapéu e tudo, até mesmo a cara amarela e azeda. Mas as flores de papel batiam-lhe em torno das pernas finas, até obrigá-lo a encolher-se de novo e tor­nar-se o minúsculo bonequinho de cera que fdra antes. Tudo aquilo era muito divertido, e a pequena Ida não pôde deixar de rir. A vara continuou a dançar e o con­selheiro tinha de dançar também, não havia como fur­tar-se, quer fosse ele comprido, quer continuasse a ser o pequeno boneco de cera amarela, com o grande cha­péu preto. Foi quando as outras flores intercederam, principalmente aquelas que tinham estado deitadas na cama da boneca, e a vara de bétula parou. No mesmo instante, ouviram-se fortes batidas no interior da gaveta, onde, ao lado de muitos brinquedos, estava guardada a boneca Sofia. O limpador de chaminés correu ao can­to da mesa, deitou-se de barriga para baixo, em todo o comprimento, e conseguiu abrir um pouquinho a ga­veta. Sofia surgiu admirada, e olhou ao redor.

-    “Parece que aqui há baile!” – disse ela.  – “Por que ninguém me avisou?”

-    “Queres  dançar comigo?” – perguntou-lhe o limpador de chaminés.
-    “Logo com quem!” – retrucou a boneca, dando-lhe as costas.

Sentou-se na gaveta, pensando que certamente vi­ria urna flor tirá-la para dançar. Mas nenhuma veio. Ela tossiu, para chamar a atenção sobre si, mas nem uma só flor notou-a. O limpador de chaminés dançou sozinho, o que era melhor do que nada.

Nenhuma das flores parecia ver a boneca, e So­fia deixou-se cair da gaveta ao soalho, fazendo baru­lho. Todas as flores vieram então correndo, e pergun­taram se ela não se machucara. Mostravam-se muito amáveis com ela, principalmente as que tinham dor­mido em sua caminha. Mas ela não se machucara, e as flores de Ida agradeceram-lhe a boa cama, disse­ram que gostavam muito dela. Levaram-na depois ao meio da sala, onde chegava a luz da Lua, e dançaram com ela, enquanto as outras flores formavam roda, com a boneca no meio. Sofia mostrou-se contente, e disse que podiam ficar com a cama quanto tempo sessem, pois ela não se incomodava de dormir na ga­veta.

Mas as flores disseram:

-    “Muito te agradecemos, mas não vivemos tan­to como imaginas.  Amanhã estaremos todas mortas.Dize à pequena Ida que nos enterre no jardim, onde
está enterrado o canário. No verão nasceremos de no­vo, e seremos muito mais belas.”

-    “Não!”   -   protestou   Sofia.   -   “Não   deveismorrer!”



Beijou-as, e abriu-se então a porta da sala e entrou dançando uma infinidade de outras flores. Ida não pôde compreender de onde teriam vindo. Eram com certeza as flores do palácio real. Na frente, vinham duas magní­ficas rosas, com pequenas coroas de ouro na cabeça: eram o rei e a rainha. Vinham em seguida os mais gra­ciosos goivos e cravos, saudando para todos os lados as outras flores. Surgiu em seguida a banda de música. Grandes papoulas e peônias sopravam em vagens de er­vilha, com toda a força, a ponto de ficarem vermelhas. As campânulas azuis e os pequenos e alvos galantes ti­niam, como se carregassem campainhas. Era uma músi­ca divertida. Vieram muitas outras flores, todas dan­çando, violetas azuis, boninas vermelhas, margaridinhas e convalárias. Todas as flores se beijavam: eram cenas encantadoras.

Por último, as flores deram boa-noite umas às ou­tras, e também a pequena Ida esgueirou-se para a cama, onde dormiu e sonhou com tudo quanto vira.

Ao levantar-se, na manhã seguinte, dirigiu-se logo à mesinha, a ver se as flores ainda lá estavam. Puxou para um lado as cortinas, e viu-as todas, mas estavam murchas, muito mais do que no dia anterior. Sofia es­tava deitada na gaveta, onde Ida a deixara, mas tinha cara de sono.

- Lembras-te do recado que tens para me dar? – perguntou Ida.

Mas Sofia tinha uma expressão absolutamente parva, e não dizia uma só palavra.

-  Não és boa amiga – disse Ida. – Esqueces que todas elas dançaram contigo.

Tomou uma caixinha de papelão, forrada de papel com pássaros pintados, abriu-a, e nela depositou as flo­res mortas.

-  Este será o vosso caixão funerário – disse ela às flores. – E quando os meus primos chegarem, esta­rão presentes ao sepultamento, no jardim, onde no ve­rão podereis nascer de novo e ser muito mais belas!

Os primos de Ida eram dois guapos rapazes cha­mados Jonas e Adolfo. O pai presenteara-lhes com dois lindos arcos, que trouxeram do norte para mostrar a Ida. Ela contou-lhes tudo a respeito das pobres flores que tinham morrido, e foi-lhes permitido enterrá-las. Os dois meninos iam na frente, com os arcos ao ombro, e a pequena Ida ia atrás, com as flores dentro da cai­xa. Cavaram no jardim uma pequena sepultura. Pri­meiro, Ida beijou as flores, depois enterrou a caixa com elas dentro. E Adolfo e Jonas lançaram flechas sobre o túmulo, com os seus pequenos arcos, pois não tinham espingardas nem canhão para a cerimônia.

Conto de Hans Christian Andersen-O Isqueiro Mágico

O Isqueiro Mágico
Por: Hans Christian Andersen
Um soldado vinha marchando pela estrada: um, dois! Um, dois! Trazia a mochila às costas e a espada no cinto, pois estivera na guerra e voltava para casa. Encontrou no caminho uma velha bruxa, horrivelmen­te feia, com o lábio inferior pendendo-lhe até o peito.

-   Boa tarde, soldado! – disse ela. – Que bela espada e que grande mochila tens aí! És um verdadeiro soldado.   Terás, já, quanto- dinheiro  quiseres.

-   Muito obrigado, velha – respondeu o soldado.

-   Vês esta grande árvore? – perguntou a bruxa, apontando a árvore ao lado dele.  – É inteiramente oca. Podes subir até a copa. Verás, então, um buraco pelo qual descerás até chegar bem embaixo. Eu te amar­ro uma corda na cintura, para poder içar-te de novo, quando me chamares.

-   E que farei lá embaixo, na árvore? – quis saber o soldado.

Vais buscar dinheiro! – disse a bruxa. – Quando chegares ao fundo, encontrarás um vasto salão muito bem iluminado, pois nele ardem centenas de lâmpadas. Verás então três portas, que podes abrir.  As chaves estão nas fechaduras. Entrando no primeiro quarto, verás, no soalho, uma grande arca, em cuja tampa está sentado um cão. Os olhos dele são do tamanho de xí­caras de chá. Mas não te incomodes com isso. Dou-te meu avental azul enxadrezado; estende-o no chão, e em seguida vai bem depressa, pega o cão e coloca-o no meu avental. Podes então abrir a arca e tirar quantos vinténs quiseres; são todos de cobre. Mas, se preferires prata, é só entrares no quarto seguinte; ali está senta­do um cão com olhos do tamanho de rodas de moinho. Não te incomodes, porém. Coloca-o no meu avental, e serve-te do dinheiro! Entretanto, se quiseres ouro, tam­bém o terás – tanto quanto puderes carregar! Basta entrares no terceiro quarto.  Ali, o cão da arca tem olhos do tamanho da cúpula de um edifício. Esse, sim, é um cão extraordinário, verás! Mas não te incomodes. Coloca-o no meu avental e ele nada te fará. Podes então tirar da arca quanto ouro quiseres.

-   Não me parece nada mau – disse o soldado – Mas que te darei eu em troca, minha velha? Sim, imagino que hás de querer alguma paga por tudo isso.

-   Não – respondeu a bruxa. – Não quero um único vintém. Só tens de me trazer um velho isqueiro que minha avó esqueceu quando, pela última vez, este­ve lá embaixo.

-   Combinado! – concordou o soldado. – Podes já me amarrar a corda à cintura.

-   Pronto! – disse a bruxa, quando terminou de amarrar a corda. – E aqui está o meu avental azul e branco.

O soldado subiu a árvore, deixou-se escorregar pelo oco da árvore abaixo, e pouco depois estava num gran­de salão iluminado, exatamente como dissera a bruxa. Ardiam nele centenas de lâmpadas!

Abriu a primeira porta. E lá estava, a encará-lo, o cão com olhos do tamanho de xícaras de chá.

- És um lindo animal!  – disse o soldado.

E colocou-o no avental da bruxa, recolhendo tan­tas moedas de cobre quantas lhe cabiam no bolso. Tor­nou a fechar a arca, nela colocou de novo o cão, e en­trou no segundo quarto. Ali estava o cão com olhos do tamanho de rodas de moinho!

-  Não devias fitar-me tanto, pois acabarás com os olhos doendo!

Depois de dizer isso, pôs o cão no avental da bru­xa. Ao ver, porém, tanto dinheiro de prata na arca, dei­tou fora todo o dinheiro de cobre que trazia e encheu os bolsos e a mochila com as novas moedas. Entrou de­pois no terceiro quarto. Inacreditável! Lá estava o cão de olhos tão grandes como a cúpula de um edifício, a girar-lhe feito rodas!

-  Boa noite, meu prodigioso animal!  – disse o soldado, levando respeitosamente a mão ao quepe, pois nunca antes vira um cão extraordinário assim.

Após contemplá-lo por algum tempo, comentou con­sigo próprio: “Agora, chega!” Pôs o cão no soalho e abriu a arca. Quanto ouro, santo Deus! Daria para comprar a Copenhague, os porquinhos de açúcar das doceiras, todos os soldadinhos de chumbo, chicotes e cavalinhos de pau que existiam no mundo! Ali, sim, ha­via dinheiro! O soldado botou fora todas as moedas de prata com que enchera os bolsos e a mochila, substi­tuindo-as pelas de ouro. Abarrotou com elas os bolsos, a mochila, o quepe e as botas, a ponto de quase não po­der mais andar. Agora, sim, tinha dinheiro! Colocou o cão na arca, fechou a porta e gritou para cima, atra­vés do oco da árvore:

-   Já podes içar-me, minha velha!

-   Trazes o isqueiro? – perguntou ela.

-   Que coisa! – exclamou o soldado. – Não é que tinha me esquecido dele!

Pegou então o isqueiro, e a bruxa puxou-o para cima. Pouco depois estava o soldado de novo na es­trada, com os bolsos, as botas, a mochila e o quepe cheios de moedas de ouro!

-  Que vais fazer com o isqueiro? – perguntou ele.

-   Não é da tua conta – disse a bruxa. — Levas bom dinheiro. Dá-me o isqueiro, e pronto!

-   Nada disso! – retrucou o soldado. – Dize-me primeiro o que vais fazer com o isqueiro, ou eu puxo minha espada e te corto a cabeça!

-   Não direi nunca! – protestou a bruxa. – Não tenho que te dizer nada!

O soldado cortou-lhe então a cabeça, e deixou a ve­lha estendida na estrada. Depois atou todo o dinheiro no avental dela, fez uma trouxa, que pôs às costas, meteu o isqueiro no bolso e tomou o rumo da cidade.

Ali chegando, entrou numa grande hospedaria, on­de pediu o que havia de melhor – em aposentos e igua­rias. Pediu tudo aquilo de que mais gostava, pois tinha muito dinheiro e podia pagar.

O criado, porém, ao limpar-lhe as botas, estranhou que um cavalheiro tão rico usasse botas tão velhas. O soldado explicou que ainda não tivera tempo de com­prar outras. No dia seguinte, porém, ostentava ele lin­das botas novas e as roupas mais bonitas. Tornara-se um nobre, e todos lhe falavam do esplendor da cidade, do rei e da sua encantadora filha.

-   Onde poderei ver a princesa? – perguntou o soldado.

-   Ela não pode ser vista! – informaram. – Mora num grande palácio de cobre, todo cercado de muros e torres. Ninguém, a não ser o rei, pode vê-la, porque vaticinaram que ela haverá de casar-se com um soldado raso.

“Como eu gostaria de vê-la!”, pensou o soldado. Mas naturalmente compreendeu que era impossível con­seguir isso.

E foi vivendo a sua vida folgazão, indo ao teatro, passeando de carruagem nos jardins. Dava, porém, muito dinheiro aos pobres, pois sabia quanto era duro não ter vintém. Trajava roupas vistosas, e começou a ter muitos amigos, que lhe gabavam as qualidades de autên­tico cavalheiro, o que muito agradava ao soldado. Gas­tando, porém, dinheiro todos os dias e não ganhando nenhum, não tardou a ver-se, um belo dia, com apenas

dois vinténs no bolso. Teve de mudar-se dos seus ricos aposentos para uma água-furtada, e de escovar ele pró­prio suas botas e, mais tarde, remendá-las com uma ve­lha agulha de sapateiro. Seus amigos deixaram de vi­sitá-lo, alegando que não podiam subir tantas escadas.

Certa noite, era grande a escuridão e ele nem uma vela podia comprar! Lembrou-se então que havia um coto no isqueiro da bruxa. Foi buscá-lo, tateando, mas no momento em que acionou o isqueiro, saltaram faís­cas por toda a parte. Abriu-se a porta e apareceu-lhe o cão de olhos tão grandes como xícaras de chá, que lhe perguntou:

-  Que ordena, meu senhor?

O soldado ficou estupefacto.

Que estranho isqueiro era aquele? Podia pedir en­tão o que quisesse?

-  Arranja-me algum dinheiro – disse ao cão.

E zás! O cão sumiu, e logo reapareceu com um saco de moedas de cobre na boca.

O soldado ficou conhecendo os poderes mágicos do isqueiro. Se batia uma vez, aparecia o cão da arca de moedas de cobre. Se batia duas vezes, aparecia o da arca de moedas de prata. Se batia três vezes, aparecia o da arca de moedas de ouro. O soldado tornou a mu­dar-se para os aposentos de luxo, voltou a usar as rou­pas bonitas dos primeiros dias, e imediatamente todos os seus amigos passaram a procurá-lo de novo e de novo passaram a gostar dele e admirá-lo.

Certa vez ele pensou: “É bem estranho, afinal de contas, que ninguém possa ver a princesa. Todos dizem que ela é maravilhosa! Mas de que adianta isso, se a coitadinha tem de ficar o tempo todo oculta no palácio de cobre, cercada de muros e torres? Será que realmen­te não a poderei ver? E o meu isqueiro?

Bateu uma vez na mola, e imediatamente apare­ceu o cão com os olhos do tamanho de xícaras de chá.

-        É verdade que estamos na escuridão da noite – ponderou o soldado. – Mas eu gostaria tanto de ver a princesa, nem que fosse por um instantinho só!

O cão desapareceu, e antes que o soldado pudesse refletir, eis que tornou a vê-lo, trazendo a princesa! Ela dormia, e era tão encantadora que qualquer um podia ver que se tratava de uma verdadeira princesa. O soldado não pôde resistir. E beijou-a. Mas logo o cão desapareceu com ela. E quando, na manhã seguin­te, o rei e a rainha tomavam chá, a princesa contou-lhes que tivera um sonho muito estranho naquela noite. Sonhara com um cão e um soldado. Ela montara no cão e o soldado a beijara.

-  Com efeito, é uma história bem estranha!   – disse a rainha.

Foi deliberado que uma das camareiras velaria jun­to à cama da princesa na noite seguinte, para ver se era mesmo um sonho – ou o que podia ser.

O soldado de novo desejou ver a princesa. O cão foi ao palácio, tomou-a sobre o dorso e correu o quanto podia, mas a camareira saiu-lhe no encalço, correndo tão depressa quanto ele. Vendo-o desaparecer na hos­pedaria, murmurou: “Agora sei onde é.”

Com um pedaço de giz, traçou uma grande cruz na porta do prédio. Isso feito, voltou ao palácio, e o cão não tardou a surgir com a princesa. Vendo, porém, uma cruz de giz na porta da hospedaria onde morava o soldado, tomou por sua vez de um pedaço de giz, e desenhou cruzes em todas as portas da cidade. Foi uma sábia medida, pois com tantas cruzes a camareira não podia mais identificar a porta da hospedaria.

Pela manhã, bem cedo, o rei, a rainha, a camareira e todos os oficiais saíram para ver onde a princesa ti­nha estado à noite.

-   Foi ali! – disse o rei, ao ver a primeira porta marcada com a cruz.

-   Talvez tenha sido ali! – exclamou a rainha, ao ver outra porta assinalada.

-   Ali há uma, e acolá outra! – disseram todos.
E para onde olhavam, viam cruzes nas portas. Com­preenderam que não valeria a pena continuar a busca.

A rainha, porém, mulher muito sagaz, que não sa­bia apenas passear de carruagem, tomou da sua grande tesoura de ouro, recortou uma peça de seda, e costurou uma bolsinha. Encheu-a com grãozinhos de sorgo, amarrou-a às costas da princesa, e, em seguida, abriu com a tesoura um buraquinho, através do qual, por onde a princesa passasse, os grãozinhos pudessem ir caindo.

À noite, o cão tornou a ir ao palácio, pôs a princesa nas costas e levou-a para perto do soldado, que gostava cada vez mais dela, a ponto de desejar ser um príncipe para fazê-la sua esposa.

O cão nem reparou que os grãos iam caindo, desde o palácio até a janela do soldado, por onde ele entrou com a princesa. Pela manhã, o rei e a rainha descobri­ram onde a filha tinha estado. E mandaram meter o soldado no cárcere.

Ficou ele preso na escura masmorra.

-  Amanhã serás enforcado! – disseram-lhe.

Não era agradável ouvir aquilo. O pior, porém, é que ele esquecera o isqueiro na hospedaria. Pela ma­nhã, através das grades de ferro, viu o povo saindo às pressas da cidade, para o local do enforcamento. Ou­viu rufar os tambores, enquanto guardas marchavam. O povo continuava a passar. Um aprendiz de sapatei­ro, com um avental de couro, passou correndo tão rá­pido que uma das suas chinelas saiu voando em dire­ção ao muro onde o soldado espiava através das grades de ferro.

-  ó rapaz, não tenhas tanta pressa! – disse o soldado. – A função não começa antes de eu chegar lá. Queres dar um pulo até onde eu morei, e apanhar o meu isqueiro? Ganharás quatro moedas, por isso. Mas vai correndo!

O aprendiz de sapateiro, que bem queria ganhar quatro vinténs, saiu em disparada, apanhou o isqueiro e deu-o ao soldado.

E o resto veremos já!

Fora da cidade erguia-se uma grande forca. Ro­deavam-na os guardas e centenas de rriilhares de pes­soas. O rei e a rainha ocupavam o trono armado em frente ao local onde se reuniam os juizes e o conselho. O soldado já estava no alto do estrado, mas, quando o verdugo ia colocar-lhe a corda ao pescoço, ele ponde­rou que era da tradição permitirem ao réu formular o último desejo. O dele era muito simples: queria dar a derradeira cachimbada de sua vida.

O rei não se opôs. O soldado pegou o isqueiro, acionou a mola uma, duas, três vezes, e surgiram en­tão os três cães: o dos olhos do tamanho de xícaras de chá, o dos olhos iguais a rodas de moinho, e o que ti­nha olhos tão grandes como a cúpula de um edifício.

-  Ajudai-me, para que eu não seja enforcado! -
clamou o soldado.

Os cães atiraram-se rápidos nos juizes e aos mem­bros do conselho, pegaram uns pelas pernas e outros pelo nariz, e jogaram todos eles a muitos metros de altura, de maneira que caíam e se faziam em pedaços.

-  Poupai-me! – pedia o rei.

Mas o maior dos cães, agarrando-o com a rainha atirou os dois para o ar, como aos outros. Os guardas fugiam assustados e todo o povo gritava:

-  Soldadinho, de ora em diante serás nosso rei e terás como esposa a encantadora princesa!

Lievaram o soldado na carruagem do rei e os três cães saíram dançando na frente. Os meninos assobia­vam, com os dedos na boca, e a tropa reuniu-se para apresentar armas. A princesa saiu do palácio e tornou-se rainha, que era o seu sonho. As bodas duraram oito dias. E os três cães, de olhos arregalados, tiveram as­sento à grande mesa festiva.

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Conto de Hans Christian ndersen-Os Cisnes Selvagens

 Os Cisnes Selvagens
Conto Original Hans Christian Anderson(com adapção reescrita por Theobaldo Miranda Santos aonde ele muda o nome da personagem  de Eliza para Lúcia, e torna na minha opinião o conto bem melhor)



Numa terra muito distante, havia um rei bondoso e sábio, que tinha uma linda filha, chamada Lúcia e onze filhos, todos belos e inteligentes. O soberano, que já estava velho e cansado, amava ternamente sua esposa e seus filhos.Infelizmente, a rainha morreu, e o rei, sentindo-se triste e solitário, resolveu casar-se com a viúva de seu primo, que tinha sido o soberano de um país vizinho.A felicidade, que até então reinava no palácio, desapareceu. A nova rainha, que era uma feiticeira perversa, conseguiu dominar o velho rei. A primeira coisa que ela fêz foi afastar Lúcia do palácio, mandando-a para a casa de uns lenhadores, que moravam numa floresta longínqua.Quanto aos onze príncipes, tantas mentiras a bruxa pregou a seu respeito, que o rei acabou não os querendo mais ver. Então, a feiticeira resolveu encantar os meninos. Depois de fazer uma porção de gestos mágicos, disse para os príncipes:
Voai, ligeiros, longe de nós, Jazei-vos aves, aves sem voz!
Os meninos transformaram-se em cisnes brancos e saíram voando pelo céu afora. Eles deviam seguir para um lugar determinado pela bruxa. Durante a viagem, procuraram passar sobre a casinha da floresta, onde estava a irmãzinha. Mas já anoitecia. Por isso, embora tivessem batido as asas com força, não conseguiram acordá-la.Quando Lúcia completou quinze anos, teve permissão pa a ir ao palácio. Assim que a rainha a viu, ficou louca de inveja e de raiva. A menina era de uma beleza deslumbrante. A bruxa quis transformá-la logo em cisne, e só não o fêz porque o rei desejava vê-la. Resolveu esperar uma ocasião mais oportuna para lhe fazer mal.Lúcia costumava nadar no lago que havia junto ao palácio. Um dia, antes de chegar a moça ao lago, para lá se dirigiu a rainha, levando consigo três sapos horríveis.À margem do lago, atirou o primeiro sapo na água, dizendo:Quando Lúcia estiver nadando, salta na sua cabeça, para fazê-la tão estúpida como tu! Quando atirou o segundo, berrou:Salta no rosto de Lúcia, para fazê-la tão feia como tu!E, quando atirou o terceiro, rosnou:— Fica perto do coração de Lúcia, para que se torne perversa e má!Os sapos fizeram tudo o que a rainha ordenou. Quando a moça saiu do lago, mais parecia um bicho que um ser humano. Ao vê-la, o rei ficou horrorizado. E mandou que ela voltasse para a floresta.É bom lembrar que Lúcia ficou muito feia, mas não se tornou má. O sapo não conseguiu modificar seu coraçãobondoso. Tendo sido desprezada por seu pai, a jovem resolveu sair à procura dos seus queridos irmãos.Viajou dias e dias, atravessando montes, vales e cidades. Durante a viagem, encontrou, numa floresta, uma velha faminta que lhe pediu um pedaço de pão. Lúcia deu-lhe, com prazer, e ainda foi apanhar, no riacho, um pouco dágua para matar a sede da velhinha.Esta, que era Nossa Senhora disfarçada, mandou que Lúcia comesse uma frutinha silvestre que crescia à beira do riacho. A moça obedeceu e, no mesmo instante, desencantou-se, voltando à sua beleza natural.Lúcia continuou a viagem. No meio do caminho, encontrou um velhinho a quem deu o seu último pedaço de pão. Perguntou-lhe, então, se tinha visto onze príncipes tão belos como o sol. O velho respondeu:— Que coincidência! Não vi os onze príncipes. Mas vi onze cisnes belíssimos, cada qual com uma coroa na cabeça!E mostrou o lugar onde vira as lindas aves. A princesa seguiu para lá, sentou-se e ficou esperando o dia inteiro. Quando o sol começou a desaparecer no horizonte, a moça ouviu um rufiar de asas. Olhou para o céu e viu surgir onze cisnes voando apressadamente. Pousaram na terra e esconderam-se sob uma moita. Lúcia aproximou-se e ficou vigiando.Quando os últimos raios do sol desapareceram, as penas dos onze cisnes caíram por terra e eles se transformaram em belos príncipes. Lúcia correu para eles, radiante de alegria. Reconheceram logo a irmã e cobriram-na de beijos e abraços. Que contentamento! Que felicidade!A moça contou-lhes a sua triste história e eles narraram como tinham sido encantados pela cruel feiticeira. E o príncipe mais velho explicou:— Durante o dia, temos a forma de cisnes. Mas, logo que o sol desaparece, voltamos a ser homens. E por isso que temos sempre o cuidado de chegar à terra firme antes que anoiteça, pois, se estivéssemos voando nos ares, cairíamos de repente e morreríamos.— Onde moram vocês? perguntou Lúcia.— Num lugar muito distante daqui, além dos mares. A viagem para lá é muito longa. Voamos dois dias sobre o oceano. No meio do caminho, só existe um rochedo isolado entre as ondas. E tão pequeno que nele só há espaço para ficarmos de pé, apertados uns contra outros. Quando o mar está agitado, cobre-nos de espuma da cabeça aos pés. Contudo, damos graças a Deus por termos aquele pequeno rochedo.— Quantas vezes, por ano, podem vir até aqui ? indagou a princesa.— Somente uma vez. E só podemos nos demorar onze dias. Chegamos há dez dias. Assim só temos um dia para ficar com você.A princesa e os irmãos ficaram conversando durante muito tempo. Depois, vencida pelo cansaço, a moça adormeceu. Quando acordou, ouviu um forte bater de asas. Eram os irmãos que tinham voltado à forma de cisnes e que deviam passar o dia voando.Quando a tarde caiu, os cisnes voltaram e, assim que o sol desapareceu, retomaram a forma humana. Então, o mais velho dos irmãos disse para Lúcia:— Já que a encontramos, não queremos perdê-la. Vamos passar a noite fazendo uma rede para podermos levá-la conosco.E começaram logo a trabalhar. Apanharam uma poi ção de ramos e folhas para construir uma rede resistente c macia. Pouco antes de romper o dia, o trabalho estava terminado.Lúcia sentou-se na rede que foi elevada no ar pelo bico dos onze cisnes. Durante todo o dia, os pássaros voaram sem parar. Já estavam exaustos de carregar a rede, mas não desanimavam. A moça tremia só em pensar que poderia anoitecer, sem que chegassem ao rochedo perdido no meio do oceano. Mas, finalmente, quando os raios do sol começa ram a desaparecer, a pequenina rocha surgiu no horizonte.Quando a noite chegou com seu manto de estrelas, a moça e os onze cisnes pousaram no rochedo. Os príncipe retomaram a forma humana. Tiveram de ficar estreitamente unidos para não caírem no mar. Assim que o sol nasceu os rapazes viraram, novamente, cisnes e bateram as asas, levando pelos ares a jovem princesa.Após viajarem o dia inteiro, chegaram, finalmente, ao seu destino. Os irmãos viviam num penhasco, em frente ao mar, onde havia uma caverna, que era a sua morada. Dentro da caverna, que era muito limpa, viam-se camas de musgo bem arrumadas. Lúcia ficou ali com os irmãos que, nesse momento, acabavam de voltar à forma humana.Depois de conversar longas horas com os príncipes, Lúcia resolveu descansar. Mas, antes de dormir, rezou, pedindo a Nossa Senhora que lhe ensinasse, em sonho, uma maneira de quebrar o encanto de seus irmãos.Quando adormeceu, Nossa Senhora apareceu-lhe em sonho e lhe disse:— Poderás quebrar o encanto de teus irmãos. Mas, para isso, é preciso muita fé e perseverança. Existe pertodeste penhasco, bem como nos cemitérios, uma urtiga que tem propriedades maravilhosas. Quando a apanhares, ficarás com as mãos inchadas e empoladas. Deves colher grande quantidade dessa planta e, com ela, tecerás onze túnicas. Quando estiverem prontas, atira-as sobre teus irmãos e, então, seu encanto ficará quebrado. Voltarão, para sempre, à forma humana. Mas, para que tenhas êxito, é necessário que, enquanto estiveres tecendo as túnicas, não digas uma só palavra. Durante esse tempo, qualquer som que saia de tua boca ferirá como se fossem onze punhais cravados no coração de teus irmãos.Quando Lúcia acordou, caiu de joelhos, agradecendo a Nossa Senhora o conselho que lhe dera. Depois, saiu da caverna e deu início ao seu trabalho. Começou a arrancar as folhas de urtiga que nasciam perto do penhasco. Quando o sol se pôs, voltaram os seus irmãos e perguntaram-lhe o que estava fazendo. Nem uma palavra de resposta. Os príncipes ficaram muito tristes, acreditando que a mudez da irmã era mais uma feitiçaria da madrasta. Mas, quando viram as mãos feridas e o trabalho que ela executava, sem parar, perceberam que fazia aquilo para quebrar o seu encanto. O príncipe mais moço pôs-se a chorar, beijando as mãos da irmã. E onde caíam suas lágrimas, desapareciam as empolas e as feridas.De repente, ouviu-se o som de uma trompa de caça. Era o soberano daquele reino que caçava nas proximidades da caverna. Ao ver Lúcia, ficou deslumbrado por sua beleza. E resolveu levá-la para o palácio real.Lá chegando, a princesa retirou-se para o rico aposento que lhe haviam oferecido. Havia trazido consigo o molho de urtigas e, por isso, continuou a trabalhar, febrilmente, durante a noite. Havia de libertar seus irmãos!Alguns dias depois, o rei não pôde resistir à paixão que o dominava e pediu a moça em casamento. Lúcia que estava enamorada do jovem soberano aceitou o pedido, mas não pôde dizer uma palavra. Sabia que, se o fizesse, causaria a morte dos seus onze irmãos.Realizou-se o casamento com grande pompa. O rei supunha que a sua linda esposa fosse muda e por isso redobrava em seus carinhos para com a moça. Tinha pena da sua triste situação. E Lúcia cada vez amava mais o rei e lamentava não lhe poder contar a sua triste história.A moça já tinha tecido várias túnicas, quando lhe faltou urtiga. Sabia que só podia encontrá-la no cemitério e, numa noite de luar, para lá se dirigiu.Mas houve alguém que a viu sair do palácio e a seguiu. Era um fidalgo que odiava a rainha, pois pretendia ver a filha no trono. Por isso, quando viu a rainha entrar no cemitério, foi avisar ao rei, dizendo-lhe que a rainha talvez fosse uma feiticeira. O soberano ficou muito triste e resolveu vigiai a esposa.Dias depois, tendo faltado, de n!vo, a urtiga, Lúcia tornou a ir ao cemitério. Mas desta vez, foi seguida pelo rei e outras pessoas. Viram-na aproximar-se de um túmulo, onde algumas harpias estavam devorando um cadáver. O rei não quis ver mais, julgando que a sua esposa era também uma bruxa repugnante.Como não podia falar, Lúcia não pôde defender-se e, por isso, foi condenada a morrer na fogueira. Quando os onze príncipes souberam disso, já era véspera da morte da irmã. Correram ao palácio para falar ao rei. Os guardas disseram que não podiam acordar Sua Majestade. Os rapazes insistiram, suplicaram, ameaçaram e já se dispunham a lutar com a guarda real, quando romperam os primeiros raios de sol. Os príncipes desapareceram, e viu-se um bando de cisnes esvoaçando, desesperadamente, por cima das torres do palácio.

Dias depois, tendo faltado, de novo, a urtiga, Lúcia tornou a ir ao cemitério.Chegou a hora da execução de Lúcia. A multidão enchia a praça principal da cidade. Daí a pouco, surgiu a moça numa velha carroça. Estava pálida e abatida, mas seus dedos trabalhavam sem cessar. Já tinha, ao seu lado, dez túnicas prontas. Só faltava uma!
O carrasco quis jogar fora as túnicas, mas a moça olhou para êle com um ar tão suplicante que o homem não pôde recusar-lhe o último favor. A multidão, porém, cobriu-a de injúrias e avançou para despedaçar as túnicas.Nesse momento, surgiram, fazendo grande bulha, onze cisnes lindíssimos, que começaram a dar bicadas terríveis nas pessoas que queriam atacar a carroça. Enquanto isso, a moça não parava de trabalhar. Finalmente, ficou pronta a última túnica.Na ocasião em que o carrasco ia atirar Lúcia na fogueira, os onze cisnes se aproximaram para se despedir da irmã. Ela jogou, então, sobre eles as túnicas de urtiga. No mesmo instante, se transformaram em onze príncipes de uma beleza deslumbrante. Estava quebrado e encanto!— Agora já posso falar. Estou inocente! exclamou a moça. E contou ao rei, que estava presente, a sua história.A pena de morte foi logo revogada. O rei ficou louco de alegria e cobriu a esposa de beijos e abraços. Houve muitas festas no reino. E a todas assistiram os onze príncipes, que passaram a morar no palácio, junto de sua querida irmã.
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Fontes:

http://vouemboraparaparsagada.blogspot.com/2010_10_01_archive.html

Hans Christian Andersen-A Pastora e o Limpa-Chaminés-Versão Original

A Pastora e o Limpa-chaminés
Por: Hans Christian Andersen

Alguma vez viram um armário muito velho, enegrecido pela idade, todo esculpido com caules e folhas de trepadeiras?

Havia numa sala de estar um armário deste género que tinha pertencido à trisavó da família. Estava coberto, de cima a baixo, com rosas e túlipas esculpidas na madeira, rodeadas por grinaldas arredondadas; e, por entre tudo isso, apareciam umas cabecinhas de veados com as suas hastes.

Mas, no meio, havia uma figura de um homem — de um tipo bem estranho. Era bastante cómico, porque tinha pernas de bode, pequenos cornos na testa, uma barba comprida e um esgar peculiar, que mal podia chamar-se sorriso. As crianças da casa chamavam-lhe Brigadeiro-General-de-Brigada-Capitão-Sargento-Cabo-Pernas-de-Bode. O nome ficava-lhe bem, achavam elas, por ser difícil de dizer. Além disso, quem mais, vivo ou esculpido, teria alguma vez merecido tal título?

Seja como for, lá estava ele, com os olhos sempre voltados para a mesa por baixo do espelho, porque em cima da mesa estava uma linda pastorinha de loiça. Tinha uns sapatos dourados e um vestido enfeitado com uma rosa de loiça; tinha ainda um chapéu dourado e segurava um cajado de pastora. Oh, era realmente linda!

Mesmo a seu lado, estava um pequeno limpa-chaminés, também de loiça. Era todo preto, excepto a cara, que era cor-de-rosa e branca como a de uma rapariga; na verdade, estava tão limpo e bem arranjado como outra pessoa qualquer, porque era apenas um limpa-chaminés a fingir. O artista também podia ter feito dele um príncipe. E lá estava ele, com o seu escadote e o seu belo rosto, que não tinha uma única partícula de fuligem. E como o limpa-chaminés e a pastora tinham estado sempre junto um do outro, em cima da mesa, tinham ficado noivos, o que era a coisa mais natural do mundo. Estavam realmente muito bem um para o outro. Ambos eram jovens, ambos eram feitos do mesmo material, e cada um era tão frágil como o outro.

Não longe dali havia uma figura muito diferente, cerca de três vezes maior do que eles. Era um velho chinês, um mandarim, que abanava a cabeça. Também era de loiça, e dizia sempre que era avô da pastora. Não podia prová-lo, mas insistia em que era o seu protector, de maneira que o Brigadeiro-General-de-Brigada-Capitão-Sargento-Cabo-Pernas-de-Bode lhe pediu a mão dela em casamento, e ele consentiu, acenando.

— Aí está um belo marido para ti — disse ele à pastora. — É de mogno, tenho quase a certeza, e vais ser a Senhora Brigadeira-Generala-de-Brigada-Capitoa-Sargenta-Caba-Pernas-de-Bode. Ele é dono de um armário cheio de pratas e de outras coisas que lá tem escondidas.

— Não quero viver naquele armário escuro — disse a pastorinha. — Ouvi dizer que ele já lá tem onze mulheres de loiça.

— E tu serás a décima segunda! — retorquiu o mandarim — Esta noite, assim que o armário começar a estalar, vocês vão casar, tão certo como eu ser chinês!

E, com isto, acenou com a cabeça e adormeceu.

Mas a pastorinha começou a chorar e olhou para o seu bem-amado limpa-chaminés.

— Acho que tenho de te pedir que partas à aventura comigo — disse ela —, porque não podemos ficar aqui.

— Faço o que tu quiseres — respondeu o pequeno limpa-chaminés. — Vamos já; tenho a certeza de ser capaz de ganhar o suficiente para te manter com a minha profissão.

— Ai, se ao menos pudéssemos descer da mesa!… — exclamou ela. — Só serei feliz quando partir à aventura!

Então ele confortou-a e mostrou-lhe como devia colocar os pezinhos nos entalhes da perna da mesa. Levou o escadote para a ajudar e, por fim, encontraram-se no chão. Mas, quando olharam para o velho armário escuro, que agitação! Todos os veados esculpidos deitavam as cabeças ainda mais de fora, espetando os galhos e voltando os pescoços de um lado para o outro. E o Brigadeiro-General-de-Brigada-Capitão-Sargento-Cabo-Pernas-de-Bode estava aos pulos e a gritar, todo zangado, para o chinês:

— Estão a fugir! Estão a fugir!

Aquilo assustou os namorados, que se esconderam rapidamente na gaveta do banco da janela. Encontraram três ou quatro baralhos de cartas — nenhum deles completo — e um pequeno teatro de brincar. Estava em cena uma peça, e todas as rainhas das cartas — ouro, copas, paus e espadas — ocupavam a primeira fila, a abanar-se com as suas túlipas. Por detrás delas estavam todos os valetes com as suas cabeças, uma em cima e outra em baixo (todas as cartas de jogar são assim). A peça que estavam a ver era sobre um par de namorados a quem não deixavam casar. E a pastora começou outra vez a chorar, porque era tal e qual a história dela.

— Não suporto isto — dizia ela. — Tenho de sair desta gaveta.

Mas, quando chegaram ao chão e olharam para cima da mesa, o velho chinês tinha acordado e estava a abanar o corpo para trás e para a frente; tinha de andar assim, porque, à excepção da cabeça, era todo feito de uma só peça.

— Vem aí o velho chinês! — gritou a pastorinha.

E estava tão aterrorizada que caiu nos seus joelhos de loiça.

— Tenho uma ideia — disse o limpa-chaminés. — Vamos meter-nos ali dentro da grande jarra do canto; podemos esconder-nos entre as rosas e a alfazema e atirar-lhe sal aos olhos se ele se aproximar.

— Isso não ajuda nada — respondeu ela. — Além disso, sei que o velho chinês e a jarra já estiveram noivos; e fica sempre algum sentimento quando as pessoas foram íntimas. Não, a única coisa a fazer é partir à aventura.

— Tens realmente coragem para isso? — perguntou o limpa-chaminés. — Fazes ideia de como é o Mundo? E já pensaste que não podemos voltar para aqui?

— Sim, já pensei nisso — respondeu ela.

O limpa-chaminés deitou-lhe um olhar sério e penetrante e depois disse:

— O único caminho que conheço é pela chaminé. Tens a certeza que possuis a coragem suficiente para ires atrás de mim pelo fogão e pelo túnel escuro? É por aí que se vai para a chaminé, e depois já sei o que fazer. Trepamos tão alto que ninguém nos apanha; e, lá mesmo no cimo, há uma abertura por onde podemos sair para a nossa aventura.

E conduziu-a pela porta do fogão.

— Está muito escuro — exclamou ela.

Mas, apesar disso, foi com ele, através dos tijolos refractários e do cano da chaminé, onde estava escuro como a noite.

— Já chegámos à chaminé — exclamou ele. — Olha! Que linda estrela ali por cima de nós!



Realmente havia uma verdadeira estrela no céu por cima deles, a iluminá-los com o seu brilho, como se quisesse indicar-lhes o caminho. Lá continuaram a trepar e a rastejar, para cima, cada vez mais para cima; foi uma viagem horrível. Mas o pequeno limpa-chaminés ajudava-a sempre, mostrando-lhe os melhores sítios para ela colocar os seus pezinhos de loiça, até que por fim chegaram ao cimo da chaminé, onde se sentaram, porque estavam cansados, o que não admira.

Lá no alto estava o céu cheio de estrelas; em baixo, ficava a cidade com todos os seus telhados. Eles podiam ver até bem longe à sua volta, por esse mundo fora. A pobre pastora nunca tinha imaginado nada como aquilo; deitou a sua cabecinha no ombro do limpa-chaminés e chorou tão amargamente que o ouro da faixa da cintura desbotou.

— Isto é de mais — chorava ela. — Não aguento. O Mundo é demasiado grande. Oh, quem me dera estar outra vez na mesa debaixo do espelho! Só serei feliz outra vez quando voltar para lá. Vim contigo, mas, se realmente gostas de mim, leva-me para casa.

O limpa-chaminés falou calmamente com ela; recordou-lhe o chinês e o Brigadeiro-General-de-Brigada-Capitão-Sargento-Cabo-Pernas-de-Bode, mas ela continuava a chorar, desesperada, e beijava-o e agarrava-se a ele, até que este acabou por ceder, apesar de ser uma patetice.



Então, tornaram a rastejar pela chaminé, desta vez para baixo — uma tarefa dura e perigosa; esgueiraram-se pelo cano (uma das piores partes da viagem) e, por fim, chegaram à caverna escura do fogão. Ficaram encostados à porta durante um bocadinho, para ouvirem o que se passava na sala. Tudo parecia bastante calmo, de maneira que espreitaram — mas, oh!, mesmo no meio do chão estava o chinês! Ao tentar correr atrás deles, tinha caído da mesa, e agora estava feito em três pedaços — a parte de trás, a parte da frente e a cabeça, que tinha rebolado para um canto. O Brigadeiro-General-de-Brigada-Capitão-Sargento-Cabo-Pernas-de-Bode estava no seu lugar de sempre, absorto em pensamentos.

— Que horror! — exclamou a pastorinha. — O meu pobre avô está todo partido e a culpa é nossa. Nunca hei-de esquecer isto!

E torcia as mãozinhas.

— Pode muito bem ser consertado — afirmou o limpa-chaminés. — É fácil. Vá, não fiques tão preocupada. Depois de ser colado e de lhe porem um gato no pescoço, fica como novo, e ainda vai dizer-te muitas coisas aborrecidas.

— Achas que sim? — perguntou ela.

E treparam para a mesa onde sempre tinham estado.

— Bem, fartámo-nos de andar — suspirou o limpa-chaminés —, e cá estamos de novo no mesmo sítio. Podíamos ter poupado a viagem.

— Ai, quem me dera que o meu avô já estivesse consertado! — disse a pastora. — Achas que vai ser muito caro?

O chinês foi consertado. A família mandou colar os pedaços e pôr um gato no pescoço; ficou como novo, mas já não abanava a cabeça.

— Estás muito importante desde que te partiste! — disse-lhe o Brigadeiro-General-de-BrigadaCapitão-Sargento-Cabo-Pernas-de-Bode. — Mas por que é que estás tão orgulhoso? Responde-me! Posso ou não ficar com a pastora?

O limpa-chaminés e a pastora olharam ansiosamente para o velho chinês, com medo que ele acenasse com a cabeça. Mas ele não conseguia e também não queria admitir que lhe tinham posto um gato no pescoço. E assim os namoradinhos de loiça ficaram juntos e continuaram a amar-se, na maior felicidade, até se partirem.
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Hans Christian Andersen
Extraído do site Guida Querido

sábado, 10 de setembro de 2011

Conto de Hans Christian Andersen-O Fato Novo do Imperador

O Fato Novo do Imperador
Por: Hans Christian Andersen

Era uma vez um imperador que viveu há muitos anos. Gostava tanto de roupas novas e bonitas que gastava todo o seu tempo e dinheiro a vestir-se. Não ligava importância ao exército, não ia ao teatro, não andava de carruagem por entre o povo a não ser quando queria exibir uma fatiota nova. Tinha um casaco diferente para cada hora do dia; e, tal como se ouve dizer de outros soberanos: “Está em Conselho!”, no seu caso a resposta seria: “O imperador está no quarto de vestir!”

A vida era bastante alegre na cidade em que ele vivia. Estavam sempre a chegar forasteiros, e um dia apareceram dois indivíduos com um ar suspeito que diziam ser tecelões. Mas, segundo eles, o tecido que fabricavam não só era extraordinariamente belo como tinha ainda propriedades mágicas: mesmo quando transformado em peças de vestuário, era invisível para todas as pessoas que não desempenhassem bem as suas tarefas ou que fossem particularmente estúpidas. — Excelente! — pensou o imperador. “Que bela oportunidade para descobrir quais os homens do meu reino que não devem estar nos lugares que ocupam e quais são os espertos e os estúpidos! Pois é, aquele material tem de ser tecido e transformado em roupa imediatamente!”

E deu aos dois malandros uma grande quantia de dinheiro para começarem a trabalhar.



Assim, os dois patifes montaram dois teares e agiram como se estivessem a trabalhar afanosamente, mas a verdade é que não havia nada nos teares. Pouco depois, estavam a pedir o melhor fio de seda e de ouro, que meteram nos seus próprios bolsos, continuando a mover os braços diante dos teares vazios pela noite dentro.

Ao fim de algum tempo, o imperador pensou: “Gostava realmente de saber como vai aquilo!”

Mas, quando se lembrou de que o tecido não podia ser visto pelas pessoas estúpidas ou incompetentes no seu trabalho, sentiu-se um tanto embaraçado em ir ele próprio. Não que tivesse quaisquer dúvidas quanto às suas capacidades, é claro, mas achou que talvez fosse melhor mandar alguém primeiro, Afinal de contas, toda a gente na cidade sabia dos poderes especiais do tecido; toda a gente estava ansiosa por descobrir até que ponto o vizinho era estúpido ou incompetente.

— Já sei! Vou lá mandar o meu velho e honesto ministro! — decidiu. — É o homem indicado, o mais sensato possível, e ninguém pode queixar-se da maneira como desempenha as suas funções.

Então, o bom velho ministro foi à sala onde os dois malandros estavam a fingir que trabalhavam nos teares.

—”Que Deus me ajude!” pensou ele, abrindo os olhos cada vez mais. “Não consigo ver nada.”

Mas guardou o pensamento só para si.

Os dois vigaristas pediram-lhe que se aproximasse; não achava ele que os padrões eram lindos e as cores deliciosas? E gesticulavam diante dos teares vazios. Mas, embora o pobre velho ministro espreitasse e olhasse fixamente, continuava a não ver nada, pela simples razão de que não havia lá nada para ver.

“Céus!”, pensou. “Serei mesmo estúpido? Nunca pensei que fosse, e o melhor é que ninguém o pense! Serei mesmo incompetente a desempenhar as minhas funções? Não, não posso dizer que não vejo o tecido.”

— Então, não o acha admirável? — perguntou um dos falsos tecelões, continuando a mexer as mãos. — Ainda não disse nada!

— Oh, é encantador, perfeitamente maravilhoso — disse o pobre velho ministro, olhando atentamente através dos óculos. — O padrão, as cores… sim, tenho de dizer ao imperador que os acho notáveis.

— Bem, isso é muito animador — disseram os dois tecelões, apontando-lhe os pormenores do padrão e as diferentes cores utilizadas.

O velho ministro ouviu atentamente, de modo a poder repetir tudo ao imperador. E foi o que fez.

Os dois impostores então pediram mais dinheiro e mais fio de sede e de ouro; disseram que precisavam disso para acabarem o tecido. Mas tudo que lhes deram foi direitinho para os seus bolsos e nem um ponto apareceu nos teares. Apesar disso, continuaram a agitar afanosamente os braços diante das máquinas vazias.

Mais tarde, o imperador mandou outro honesto funcionário para ver o andamento do trabalho e saber se o tecido estaria pronto em breve. Aconteceu-lhe a mesma coisa que ao ministro; olhou e tornou a olhar, mas, como não havia nada para ver senão os teares vazios, nada foi tudo o que ele viu.

— Não é um belo tecido? — perguntaram os aldrabões.

E ergueram o tecido imaginário diante dele, apontando para o padrão que não existia.

“Eu acho que não sou estúpido”, pensou o funcionário. “Se calhar não sou a pessoa indicada para o cargo que desempenho. Bem, nunca pensaria tal coisa! E o melhor é que ninguém o pense!”

Por isso, emitiu ruídos de apreciação sobre o tecido que não conseguia ver e disse aos homens que gostava muito das cores e do desenho.

— Sim — afirmou ao imperador —, é magnífico.

As notícias sobre aquele tecido fantástico depressa se espalharam pela cidade. E então o imperador decidiu ir vê-lo ainda nos teares. Assim, com alguns servidores cuidadosamente escolhidos — entre os quais os dois honestos funcionários que já lá tinham estado —, foi à sala de tecelagem, onde os malandros faziam as suas palhaçadas, tão activos como sempre.

— Que tecido esplêndido! — exclamou o velho ministro.

— Veja o padrão, majestade! Observe as cores! — disse o outro funcionário.

E apontavam para os teares vazios, porque estavam certos de que as outras pessoas viam o tecido.

“Isto é terrível!”, pensou o imperador. “Não vejo nada! Serei estúpido? Serei incompetente como imperador? É assustador pensar uma coisa dessas.” Então, disse em voz alta:

— Oh, é encantador, encantador! Tem toda a nossa aprovação!

Acenou com ar satisfeito para os teares vazios; nunca iria admitir que não via lá absolutamente nada.

E os cortesãos que o acompanhavam também olhavam fixamente, todos eles secretamente alarmados por não serem capazes de ver um único fio. Mas, em voz alta, fizeram eco com o imperador:

— Encantador, encantador!

E aconselharam-no a utilizar o esplêndido tecido para o novo fato real que teria de vestir num grande cortejo a realizar dentro em pouco.

— É magnífico e tão fora do vulgar… — era o que se ouvia de todos os lados.

E o imperador condecorou os dois impostores com uma roseta para porem nas botoeiras dos casacos e o título de Funcionário Imperial do Tear.



Durante toda a noite anterior ao dia do cortejo, os dois aldrabões fingiram trabalhar, com dezasseis velas à sua volta. Toda a gente podia ver como eles estavam atarefados, tentando acabar a tempo o fato novo do imperador. Fingiam tirar o tecido dos teares, cortavam o ar com grandes tesouras de alfaiate, cosiam e tornavam a coser com agulhas sem linha. Por fim, anunciaram:

— A roupa está pronta!

O imperador foi vê-la com os seus cortesãos mais nobres, e os dois aldrabões ergueram os braços como se estivessem a levantar alguma coisa.

— Aqui estão as calças — disseram eles. — Aqui está o casaco e aqui está a cauda… — e por aí fora. — São leves como espuma; pelo toque, dir-se-ia que não se tem nada vestido, mas a beleza está precisamente aí.

— Sim, claro… — disseram os acompanhantes do imperador, embora continuassem sem ver nada, porque não havia nada para ver.

— Se Vossa Majestade Imperial quiser fazer o favor de tirar a roupa que tem vestida, teremos a honra de o ajudar a vestir esta diante do espelho grande.

O imperador despiu-se e os dois aldrabões fingiram entregar-lhe as roupas novas, uma peça de cada vez. Depois, com os braços à volta da sua cintura, fingiram ajustar a cauda, num toque final.

O imperador virou-se e deu uma volta em frente do espelho.

— Que elegante! Que bem que assenta! — murmuravam os cortesãos. — Que tecido tão rico! Que cores magníficas! Já alguma vez tinham visto uma coisa tão magnífica?

— Majestade — disse o mestre-de-cerimónias —, o dossel já está lá fora.

O dossel cobriria o imperador durante o cortejo.

— Bem — exclamou o imperador —, estou pronto. Assenta realmente muito bem, não acham?

E tornou a dar umas voltas em frente do espelho, como quem se admira pela última vez. Os cortesãos que tinham de pegar na ponta da cauda baixaram-se, como se erguessem alguma coisa do chão, e levantaram as mãos diante de si. Não iam deixar o povo pensar que eles não viam nada.

E assim o imperador foi caminhando no imponente cortejo, sob o esplêndido dossel, e toda a gente nas ruas ou nas janelas exclamava:

— Que ar magnífico tem o imperador! E as roupas novas… não são maravilhosas? Olhem só para a cauda! Que elegante!

O facto é que ninguém queria admitir que não via roupas nenhumas, porque isso significaria que eram estúpidos ou então incompetentes no seu trabalho. Nenhum dos belos fatos do imperador tinha sido tão admirado até então.

Foi quando se ouviu claramente uma voz espantada de criança:

— O imperador não leva nada vestido!

— Estes inocentes! As coisas ridículas que dizem! — exclamou o pai da criança.

Mas um murmúrio começou a crescer no meio da multidão:

— Aquela criança diz que o imperador não leva nada vestido… o imperador não leva nada vestido! E daí a pouco toda a gente repetia: — O imperador não leva nada vestido!

Por fim, até o próprio imperador achou que eles deviam ter razão, mas pensou para si próprio:

“Não posso parar, senão estrago o cortejo.”

E lá foi andando com um ar cada vez mais orgulhoso, enquanto os cortesãos continuavam a segurar uma cauda que não existia.
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Publicado em 1837 este divertido conto de Hans Christian Andersen critica a vaidade e a negação colectiva de uma realidade imposta por uma figura de poder, que no final, acaba por ser desmascarada através do olhar inocente de uma criança.




Hans Christian Andersen
Fontes: site Guida Querido

Conto de Hans Christian Andersen-A Polegarzinha

A Polegarzinha
Por:Hans Christian Andersen






Era uma vez uma mulher que queria ter um filho muito pequenino, mas não sabia como havia de fazer para encontrar um. Então, foi ter com uma velha bruxa e disse-lhe:

— Gostava tanto de ter um filho pequenino! Não sabes dizer-me onde posso arranjar um?

— Oh, isso não é difícil — disse a bruxa. — Aqui tens um grão de cevada, e olha que não é da que cresce nos campos dos lavradores nem daquela que as galinhas comem. Planta este grão num vaso e verás o que acontece!

— Oh, obrigada! — disse a mulher, dando uma moeda de prata à bruxa.

Depois foi para casa e semeou o grão. Não foi preciso esperar muito tempo para que nascesse uma bela flor; parecia uma túlipa, mas as pétalas estavam muito fechadas como se fosse ainda um botão.

— Que linda flor! — disse a mulher, dando um beijo nas pétalas vermelhas e amarelas.

Nesse preciso momento, a flor abriu-se com um forte estalido. Era realmente uma túlipa — agora via-se bem —, mas mesmo no centro da flor, no centro verde, estava sentada uma menina minúscula, graciosa e delicada como uma fada. Não era maior que metade de um polegar, e por isso ficou a chamar-se Polegarzinha.

A cama em que dormia era uma casca de noz muito bem polida; tinha um colchão de pétalas de violeta azuis-escuras e o seu cobertor era uma pétala de rosa. Dormia ali à noite, mas durante o dia brincava em cima da mesa, onde a mulher tinha posto um prato de sopa cheio de água com um círculo de flores à volta, com os caules virados para o meio. Dentro do prato, a flutuar, estava uma grande pétala de túlipa em que a Polegarzinha se podia sentar e remar de um lado para o outro usando dois pêlos brancos de cavalo como remos. Era lindo de se ver! Ela também sabia cantar, e tinha a vozinha mais frágil e mais doce que jamais se ouviu.



Uma noite, quando estava deitada na sua linda cama, um sapo entrou no quarto através de um vidro partido da janela. O sapo parecia muito grande e estava molhado quando saltou para cima da mesa onde a Polegarzinha dormia profundamente debaixo da sua pétala de rosa.

— Ora aqui está uma bela esposa para o meu filho! — disse o sapo.

E pegou na cama de casca de noz em que a Polegarzinha estava a dormir e saltou com ela através da janela para o jardim. No fim do jardim corria um largo regato, de margens pantanosas e lamacentas; era aí que o sapo vivia com o seu filho.

Este não era nada bonito; na realidade, era igualzinho ao pai.

— Croc! Croc! Brec-rec-rec! — foi tudo quanto disse quando viu a linda menina na casca de noz.

— Não fales tão alto, se não ela acorda — disse-lhe o pai. — Olha que pode fugir, porque é leve como uma pena de cisne. Já sei, vamos pô-la no meio do rio, em cima de uma daquelas grandes folhas de nenúfar! Assim, ela vai pensar que está numa ilha, porque é uma criaturinha minúscula. Entretanto, nós podemos começar a preparar o melhor quarto debaixo da lama, para vocês os dois lá viverem.

No regato, havia muitos nenúfares com grandes folhas verdes que pareciam flutuar soltas na água. A folha que estava mais longe era também a maior de todas, e foi nela que o velho sapo poisou a casca de noz com a Polegarzinha. A pobre menina acordou muito cedo e, quando viu onde estava, começou a chorar amargamente, porque havia água a toda a volta da grande folha e era impossível voltar para terra.

Entretanto, o velho sapo andava metido na lama, decorando atarefadamente o quarto com juncos e flores aquáticas amarelas, para ficar bonito e alegre para a sua futura nora. Depois, acompanhado pelo filho, nadou até à folha onde estava a Polegarzinha. Iam buscar a linda cama de casca de noz para a colocarem no quarto antes de a noivazinha ir para lá. O velho sapo, ainda dentro de água, fez uma profunda vénia e disse à Polegarzinha:

— Este é o meu filho. Vai ser o teu marido, e vocês os dois vão viver muito felizes numa bela casa debaixo da lama.

— Croc! Croc! Brec-rec-rec! — foi tudo o que o filho disse.

Então, pegaram na bonita caminha e lá foram a nadar com ela, enquanto a Polegarzinha ficava sozinha na folha verde, a chorar, porque não lhe apetecia nada viver com o velho sapo nem casar com o filho dele. Ora os peixinhos que nadavam ali por baixo tinham visto o sapo e ouvido o que ele dissera, de maneira que deitaram as cabeças de fora para verem a menina. Mas, assim que o fizeram, viram como era bonita e ficaram cheios de pena por ela ter de ir viver na lama com o sapo. Não, isso não podia acontecer! Juntaram-se em redor do pé verde da folha em que ela estava e puseram-se a roê-lo sem parar.

Lá foi a folha, flutuando pelo regato, levando a Polegarzinha para longe, cada vez para mais longe, para onde o sapo não podia ir.

Quando ela passava, os passarinhos nas árvores cantavam “Que linda criaturinha!” assim que a viam. E a folha lá ia a deslizar, cada vez para mais longe – e foi assim que a Polegarzinha chegou a outro país.

Uma linda borboleta branca esvoaçava por cima dela e acabou por poisar na folha, porque tinha começado a gostar da menina. Como ela estava feliz agora! O sapo já não podia apanhá-la e era tudo maravilhoso à sua volta, para onde quer que olhasse. A água, onde o sol brilhava, parecia ouro a cintilar. A Polegarzinha tirou o seu cinto e deu uma ponta à borboleta amiga e atou a outra à folha. Agora é que ia mesmo depressa!

Nesse momento, um grande escaravelho apareceu a voar por cima dela. Assim que viu a menininha, agarrou-a num ápice pela cintura e voou com ela para o cimo de uma árvore. A folha verde continuou a flutuar rio abaixo com a borboleta.

Meu Deus!, como a Polegarzinha ficou assustada quando o escaravelho a levou para cima da árvore! E como teve pena da sua amiga, a borboleta branca! Mas o escaravelho não queria saber disso. Poisou na maior folha verde da árvore e largou-a aí. Deu-lhe pólen para comer e disse-lhe que ela era muito bonita, embora não tanto como um escaravelho.

Em breve, todos os outros escaravelhos que viviam na árvore foram visitá-la. Olhavam para ela, e as jovens escaravelhas encolhiam as antenas, dizendo: “Mas só tem duas pernas, este insecto miserável! Não tem antenas! Tem uma cintura tão fina! Parece mesmo humana! Que feia que é!”, e por aí fora, apesar de a Polegarzinha ser realmente uma criatura linda.

O escaravelho que a tinha levado também era desta opinião, mas quando todas as escaravelhas disseram que ela era horrível, ele começou a pensar o mesmo e acabou por não querer saber dela; podia ir para onde quisesse. Várias escaravelhas pegaram nela e voaram até ao solo, deixando-a em cima de uma margarida. Lá ficou ela a chorar, por ser tão feia que os escaravelhos não a queriam — e, no entanto, era a criaturinha mais bonita que se podia imaginar, mais bela que a mais perfeita pétala de rosa.

Durante todo o Verão, a pobre Polegarzinha viveu completamente sozinha na grande floresta. Teceu uma cama com ervas e pendurou-a como se fosse uma rede por baixo de uma grande folha de azeda, para ficar abrigada da chuva. Para comer apanhava mel e pólen das flores e bebia as gotas de orvalho que encontrava todas as manhãs nas folhas. E assim passou o Verão e o Outono, mas depois chegou o Inverno, o longo e frio Inverno. Os passarinhos, que tão docemente tinham cantado, voavam agora para longe, as árvores perdiam as folhas, as flores murchavam. Depois, a grande folha de azeda que lhe fazia de telhado começou a enrolar-se e murchou, até que ficou apenas uma haste seca e amarela. A Polegarzinha tinha imenso frio, porque o seu vestido estava todo roto e ela era muito frágil e pequenina. Em breve morreria de frio. A neve começou a cair, e cada floco que caía sobre ela era tão pesado como uma pazada atirada a um de nós. Afinal, ela só tinha dois centímetros e meio de altura. Embrulhou-se numa folha murcha, mas não conseguiu aquecer-se, e tremia cada vez mais.



Por essa altura, já tinha alcançado a orla da floresta. Mesmo ao lado havia um grande campo de trigo, mas este tinha sido ceifado há muito tempo e só se via o restolho seco na terra gelada. Para ela, aquilo era o mesmo que uma floresta para atravessar e oh!, como ela tremia de frio! Finalmente, chegou à porta de um rato do campo, que vivia numa casinha por baixo do restolho. Era aconchegada e confortável, com um armazém cheio de trigo, uma cozinha quente e uma sala de jantar. A pobre Polegarzinha parou à porta da casa do rato como se fosse uma mendiga e pediu se ele lhe dava um bocadinho de um grão, porque já há dois dias que não comia nada.

— Pobrezinha! — disse o rato do campo, que tinha muito bom coração. — Vem para a cozinha, que está quente, e comes comigo.

Gostou tanto da companhia da Polegarzinha que acabou por lhe dizer:

— Podes ficar comigo durante o Inverno, mas tens de limpar e arrumar a casa e contar-me histórias. Gosto muito de histórias.

A Polegarzinha fez o que o velho rato do campo lhe disse; e o tempo foi passando agradavelmente.

— Em breve teremos uma visita — disse o rato do campo. — O meu vizinho vem visitar-me todas as semanas. A casa dele ainda é melhor do que a minha, com grandes e belos quartos, e ele usa um lindo casaco de veludo preto! Se conseguisses que ele casasse contigo, nunca mais te faltaria nada. Mas ele é quase cego, de maneira que tens de te preparar para lhe contar as melhores histórias que souberes.

A Polegarzinha não gostou muito da ideia. Não lhe apetecia nada casar com o vizinho rico; era um toupeiro, e veio fazer a sua visita com o casaco de veludo preto. O rato do campo lembrou à Polegarzinha como ele era rico e culto; disse-lhe que a casa dele era vinte vezes maior do que a sua.

Que ele sabia muitas, muitas coisas, embora não gostasse do sol e das lindas flores, porque nunca os tinha visto. A Polegarzinha teve de cantar para ele, e cantou Tive uma nogueirazinha e Joaninha voa, voa. O toupeiro apaixonou-se pela sua linda voz, mas não disse nada, porque era muito cauteloso.

Ele tinha escavado recentemente uma passagem muito longa, que ia da sua casa à do vizinho, e disse ao rato do campo e à Polegarzinha que podiam ir visitá-lo quando quisessem. Mas pediu-lhes que não tivessem medo da ave morta que estava na passagem. Contou-lhes que a ave não tinha qualquer marca nem ferida, não lhe faltavam penas, e o bico estava intacto; devia ter morrido há muito pouco tempo, com a chegada do Inverno, e, de alguma maneira, tinha caído na sua passagem subterrânea.

Então, o toupeiro agarrou num pedaço de madeira podre com a boca (porque a madeira podre brilha como fogo no escuro) e foi à frente para iluminar a longa passagem para os seus convidados. Depressa chegaram ao sítio onde estava a ave, e o toupeiro empurrou o tecto com o focinho largo, levantando a terra para fazer um buraco que deixou entrar a luz do dia. E lá estava uma andorinha, com as lindas asas encostadas ao corpo, as pernitas e a cabeça escondidas nas penas; a pobre ave de certeza que tinha morrido de frio. A Polegarzinha teve muita pena dela, porque amava todas as avezinhas, que tinham cantado e chilreado para ela de uma maneira tão encantadora durante todo o Verão. Mas o toupeiro empurrou a andorinha para o lado com as suas pernitas curtas e disse:

— Esta já não assobia mais! Que pouca sorte nascer ave! Felizmente que nenhum dos meus filhos será como elas. Uma ave não sabe fazer nada a não ser dizer tuit-tuit e depois morrer de fome no Inverno!

— Sim, lá nisso tens razão — disse o rato do campo. — Com todo o seu tuit-tuit, que é que elas fazem quando chega o Inverno? Morrem de fome e de frio. E, no entanto, toda a gente as acha muito importantes.

A Polegarzinha não disse uma palavra, mas, quando os outros recomeçaram a andar, baixou-se, afastou meigamente as penas da cabeça da andorinha e beijou-lhe os olhos fechados.

— Talvez esta seja a que cantou tão suavemente para mim durante o Verão — pensou. — Que felicidade me deu esta pobre avezinha da floresta!

Então, o toupeiro tapou o buraco que tinha feito para deixar entrar a luz do dia e acompanhou as visitas a casa. Mas nessa noite a Polegarzinha não conseguia dormir, de maneira que levantou-se e teceu uma cobertazinha de feno. Quando acabou, foi pô-la em cima da ave. Ao lado, deixou um pouco de lanugem de cardo que tinha encontrado na sala de estar do rato do campo, para que a ave pudesse repousar quentinha sobre a terra fria.

— Adeus, linda andorinha! — disse ela. — Adeus e obrigada pelas tuas belas canções no Verão, quando as árvores estavam verdes e o Sol brilhava tão alegremente sobre nós todos!

Depois encostou a cabeça ao coração da andorinha — mas ficou logo muito espantada, porque parecia que alguma coisa batia lá dentro. Era o coração da andorinha a bater. Não estava morta, apenas entorpecida pelo frio, e, como tinha sido aquecida, começava a voltar a si.

No Outono, as andorinhas voam todas para terras mais quentes, mas, se uma delas se atrasa, o frio pode fazê-la gelar; então cai no chão e depressa fica coberta de neve.

A Polegarzinha tremia, assustada; a ave era muito maior do que ela, que só tinha dois centímetros e meio de altura. Mas encheu-se de coragem e aconchegou a lanugem de cardo ao corpo da pobre andorinha. Depois, foi a correr buscar a sua coberta, uma folha de hortelã, para lhe tapar a cabeça.

Na noite seguinte, esgueirou-se outra vez para visitar a andorinha — ela estava realmente viva, mas tão fraca que mal pôde abrir os olhos para olhar para a Polegarzinha. Ali estava ela, com um pedacinho de madeira podre na mão, porque não tinha outra lanterna.

— Obrigada, obrigada, linda menina — disse a andorinha doente. — Aqueceste-me tão bem que depressa estarei suficientemente forte para voar ao sol brilhante.

— Oh! — exclamou a Polegarzinha —, ainda está muito frio lá fora! Há neve e gelo por todo o lado. Fica aí na tua caminha quente que eu trato de ti.

Depois levou-lhe água numa folha, e a andorinha bebeu e contou-lhe como tinha magoado uma asa numas silvas e, por isso, não tinha conseguido voar tão depressa como as outras andorinhas quando partiram para terras mais quentes. Por fim, acabara por cair, e não se lembrava de mais nada. Não fazia a menor ideia de como tinha ido parar ali.

Durante todo o Inverno, a andorinha ficou na passagem subterrânea. A Polegarzinha tratou dela e tornou-se muito sua amiga. Mas não disse nada ao toupeiro nem ao rato do campo, porque eles não gostavam de avezinhas. Por fim, chegou a Primavera e os raios de Sol começaram a atravessar a terra. A andorinha disse adeus à Polegarzinha e reabriu o buraco que o toupeiro tinha feito no tecto da passagem. A luz do Sol encheu ambas de alegria, e a andorinha pediu à Polegarzinha que fosse com ela; podia subir para as suas costas e voariam para a floresta cheia de verdura. Mas a Polegarzinha sabia que o velho rato do campo ficaria triste se ela se fosse embora assim sem mais nem menos.

— Não, não posso ir — disse ela.

— Então adeus, adeus, linda menina bondosa! — respondeu a andorinha, voando em direcção ao Sol.

A Polegarzinha viu-a subir no céu, e os seus olhos encheram-se de lágrimas, porque se tinha tornado muito amiga da pobre andorinha.

— Tuit, tuit! — cantou a avezinha, voando em direcção à floresta verde.



A Polegarzinha estava agora muito triste. Não a deixavam sair para a claridade do Sol, e, nos campos onde vivia, o trigo era tão alto que, para ela, era como uma floresta que se erguia muito acima da sua cabeça.

— Tens de ter o teu enxoval pronto este Verão — disse o rato do campo, porque, entretanto, o vizinho toupeiro do casaco de veludo tinha proposto casamento à Polegarzinha. — Precisas de roupas de linho e lã e de muitos cobertores e lençóis quando fores casada com o toupeiro.

A Polegarzinha teve de trabalhar arduamente com a roca, e o toupeiro contratou quatro aranhas para tecerem para ela de dia e de noite. Todas as tardes lhe fazia uma vista e dizia sempre que, quando o Verão acabasse e o Sol não estivesse tão terrivelmente quente e deixasse de queimar a terra até a deixar dura com uma pedra, então casariam. Mas a Polegarzinha não estava nada satisfeita, porque não gostava daquele velho toupeiro tão pomposo. Todas as manhãs, quando o Sol se erguia, e todas as noites, quando se punha, ela esgueirava-se lá para fora; quando o vento fazia ondular as espigas de trigo, conseguia ver o céu azul e pensava sempre como era bom e belo viver ao ar livre. Desejava imenso ver de novo a sua amiga andorinha, mas ela não voltou a aparecer; tinha voado para o bosque verde coberto de folhas.

Quando o Outono chegou, o enxoval da Polegarzinha estava pronto.

— Casas daqui a quatro semanas — disse o rato do campo.

Mas a Polegarzinha começou a chorar e disse que não queria casar com o toupeiro.

— Que disparate! — respondeu o rato do campo. — Não te ponhas com problemas. Arranjaste um marido esplêndido, pois nem a rainha tem um casaco de veludo preto tão bom como o dele! E pensa naquela cozinha e cave tão bem fornecidas! Deves agradecer a tua boa sorte.



E, assim, chegou o dia do casamento. O toupeiro já tinha ido buscar a Polegarzinha, pois ela ia viver com ele bem debaixo do solo; nunca mais poderia apanhar a luz radiante do Sol, porque o toupeiro não a suportava. Cheia de tristeza, foi dizer o último adeus ao Sol brilhante; enquanto vivera com o rato do campo, sempre a tinham deixado ir pelo menos até à porta.

— Adeus, Sol brilhante! — disse ela, erguendo os braços em direcção a ele e dando alguns passos no campo imenso, pois o trigo tinha sido ceifado e só ficara o restolho. — Adeus, adeus — disse ela outra vez, abraçando uma florzinha vermelha que crescia por entre os caules. — Se alguma vez tornares a ver a andorinha, diz-lhe que lhe mando saudades!

Nesse preciso momento ouviu um som — tuit, tuit — mesmo por cima de si. Era a andorinha.

Como estava, contente por ver a sua amiga Polegarzinha! Então esta contou-lhe que tinha de casar nesse mesmo dia com o toupeiro e ir viver com ele debaixo da terra, onde o Sol nunca brilhava. E as lágrimas saltaram-lhe dos olhos só de pensar nisso.

— Vem aí o frio Inverno — disse a andorinha. — Vou voar para longe, para os países quentes. Por que não vens comigo? Podes subir para as minhas costas e atares-te a mim com o teu cinto. Deixamos o toupeiro e a sua casa escura e voamos para muito, muito longe, por cima das montanhas, para um país onde o Sol brilha ainda mais do que aqui, onde é sempre Verão e onde as matas e as florestas estão cobertas das mais belas flores. Ah, vem comigo, querida Polegarzinha, tu que me salvaste a vida quando eu estava gelada na escura passagem debaixo da terra!

— Sim, vou contigo — acabou por dizer a Polegarzinha.

Sentou-se nas costas da ave e atou o cinto a uma das suas penas mais fortes. Então, a andorinha ergueu-se muito alto no céu e voou por cima de florestas, lagos e montanhas onde há sempre neve. O ar gelado fazia a Polegarzinha tremer, mas ela enfiava-se debaixo das penas quentes da ave e só espreitava para olhar, assombrada, para as belas coisas lá em baixo.



Por fim, chegaram aos países quentes. Aí, o Sol brilhava com muito mais intensidade do que a Polegarzinha supunha ser possível; o céu parecia duas vezes mais alto. Ao longo das estradas, havia deliciosas uvas brancas e roxas; limões e laranjas pendiam das árvores; o ar estava perfumado de mirto e de muitas outras plantas aromáticas; e, pelos caminhos, corriam muitas crianças lindas, a brincar por entre coloridas borboletas. Mas a andorinha voou ainda para mais longe, para onde a paisagem era também ainda mais bonita. E então, à sombra de enormes árvores verdes, na margem de um lago azul-safira, viram um palácio muito antigo construído em mármore branco, com videiras enroladas nas suas altas colunas. Mesmo no cimo das colunas havia muitos ninhos de andorinhas, e num deles vivia a amiga da Polegarzinha.

— A minha casa é esta — disse ela. — Mas, se quiseres escolher uma daquelas lindas flores ali em baixo, eu ponho-te lá, e podes viver feliz à tua vontade.

— Ah, como vou gostar! — gritou a Polegarzinha, batendo as mãozinhas.

Uma grande coluna branca estava caída por terra, partida em três bocados, e entre eles cresciam altas e belas flores brancas. A andorinha voou até lá abaixo com a Polegarzinha e poisou-a numa pétala. Então, a Polegarzinha teve uma grande surpresa. Ali, no centro da flor, estava um principezinho, tão belo e delicado que parecia feito de vidro. Tinha na cabeça a coroa de ouro mais bonita que pode imaginar-se e nos ombros um par de asas coloridas e brilhantes, e não era maior do que a própria Polegarzinha. Era o espírito que guardava a flor. Em cada flor havia uma criaturinha igual, mas ele era o rei de todas.

— Que bonito que ele é! — sussurrou a Polegarzinha à andorinha.

O principezinho ao princípio ficou muito assustado com a ave, que lhe parecia gigantesca, mas quando viu a Polegarzinha ficou cheio de alegria. Achou que ela era a mais bela de todas as criaturas que jamais tinha visto, mesmo entre as fadas das flores. Tirou a coroa de ouro da sua cabeça e colocou-a na dela e perguntou-lhe como se chamava e se queria ser sua mulher e rainha de todas as flores.

Bem, este marido podia ela amar de verdade — era muito diferente do filho do sapo ou do velho toupeiro com o seu casaco de veludo. E por isso disse que sim ao belo príncipe. Então, ergueu-se de cada flor uma criaturinha, rapaz ou rapariga, homem ou mulher, tão pequeninas e tão bonitas que era emocionante vê-las. Todas deram uma prenda à Polegarzinha, mas a melhor de todas foi um lindo par de asas. Prenderam-nas aos ombros da Polegarzinha, e agora também ela podia voar de flor em flor. Toda a gente estava cheia de alegria: era como uma maravilhosa festa de Verão. A andorinha, lá em cima no seu ninho, cantou-lhes a canção mais bonita que sabia, mas no fundo estava triste, porque gostava tanto da Polegarzinha que não queria separar-se dela.

— Nunca mais te chamarás Polegarzinha — declarou o príncipe das flores. — Não é um nome suficientemente bonito para uma criatura tão bela como tu. A partir de agora, vamos chamar-te Maia!

— Adeus, adeus — disse a andorinha, quando chegou a altura de voar de novo dos países quentes para a Dinamarca.

Aí, ela tinha um pequeno ninho ao lado da janela do homem que escreve contos de fadas.

— Ouve, ouve — trinou a andorinha para o escritor de contos de fadas…

E foi assim que soubemos esta história.

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Fontes http://guida.querido.net


Músicas da Toca


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