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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Gênio da Garrafa-Conto dos Irmãos Grimm




O gênio da garrafa
 Por: Irmãos Grimm


Tradução:

Tatiana Belinky

Era uma vez um pobre lenhador que trabalhava desde a manhã até a noitefechada. Quando finalmente ele conseguiu juntar um pouco de dinheiro, disseao seu menino:
- Você é meu filho único e quero aplicar o meu dinheiro, que ganhei com osuor do meu rosto, na sua instrução. Se você aprender alguma coisa que preste,poderá me sustentar na minha velhice, quando os meus membros estiveremendurecidos e eu tiver de ficar sentado em casa.Então o menino foi para uma boa escola e estudou com afinco, de modoque seus mestres o elogiavam, e ficou algum tempo por ali. Ele terminou umpar de cursos, mas ainda não tinha se formado em tudo, quando aconteceu queo pouco dinheiro que o pai economizara se acabou e ele teve de voltar paracasa.- Aí, - disse o pai, tristonho - não posso dar-lhe mais nada e com estacarestia não consigo tampouco ganhar nem um vintém a mais que para o pão de cada dia.- Querido pai, - respondeu o filho - não se preocupe com isso! Se Deus quiser, tudo terá sido para melhor; eu vou me arranjar.Quando o pai ia sair para a floresta, para ganhar alguma coisa com a lenhapreparada, o filho disse
:- Eu quero ir com você e ajudá-lo.- Sim, meu filho - disse o pai. - Mas isto lhe será muito difícil; você não estáacostumado ao trabalho duro e não vai agüentar. Além disso eu não tenhomachado sobrando, e nem dinheiro para poder comprar um novo.
- Vá procurar o vizinho - respondeu o filho. - Ele lhe emprestará o seumachado até que eu possa ganhar o bastante para comprar um para mim.Então o pai tomou um machado emprestado do vizinho e no dia seguinte,de manhã cedinho, os dois saíram juntos para a floresta. O filho ajudou o pai,com esforço e animado, sem se cansar.E quando o sol estava a pique sobre eles, o pai falou
:- Vamos descansar e almoçar; depois o trabalho rende o dobro.O filho pegou o seu pedaço de pão e disse:


- Descanse, pai, Eu não estou fatigado; quero passear um pouco pela floresta e procurar ninhos de passarinho.- Ó rapazinho tolo! - disse o pai. -
- Para que quer ficar correndo de umlado para outro, só para ficar cansado e depois não poder erguer o braço?
- Fique aqui sentado ao meu lado!
Mas o filho se embrenhou na floresta, comeu o seu pão, muito contente, eespiou por entre os galhos a ver se encontrava algum ninho. Assim ele andou de um lado para outro, até que chegou a um grande carvalho, que devia ter muitos séculos de idade, e cujo tronco cinco homens não poderiam abraçar. Ele parou, olhou para a árvore e disse:
- Aqui muitos pássaros devem ter construído seus ninhos.Mas aí pareceu-lhe de repente ouvir uma voz. Prestou atenção e ouviugritar em tom bastante abafado: “Deixe-me sair! Deixe-me sair!”Olhou em volta e não conseguiu ver nada, mas pareceu-lhe que a voz saía de dentro da terra. Então gritou:
- Onde está você?A voz respondeu:- Estou encalhado aqui embaixo, junto das raízes. Deixe-me sair, deixe-mesair!O estudante começou a cavocar debaixo da árvore e a procurar entre asraízes, até que por fim encontrou, num pequeno desvão, uma garrafa de vidro.Levantou-a e segurou-a contra a luz, e então viu lá dentro uma coisa queparecia um sapo, pulando para cima e para baixo
.- Deixe-me sair, deixe-me sair! - ouviu de novo. E o garoto, que nãodesconfiava de nada de mau, tirou a rolha da garrafa. Imediatamente escapoudela um gênio, que começou a crescer, e cresceu tão depressa que em poucos instantes uma figura terrificante, do tamanho da metade da árvore
.- Sabe - urrou a aparição com voz aparovante - qual é o seu prêmio porter-me libertado?
- Não - respondeu o estudante, sem se assustar
.- Como posso saber disso?
- Então eu lhe direi - gritou o gênio.
 - A recompensa merecida, esta você vai ganhar - gritou o gênio.
 - Oupensa que foi por benevolência que me deixaram trancado dentro da garrafapor tanto tempo? Não, foi por castigo. Eu sou o poderoso Mercúrius; quem mesoltar terá o pescoço quebrado.

- Mais devagar! - respondeu o estudante.
- As coisas não vão assim tão depressinha! Primeiro eu preciso ter certeza de que você, com este tamanhotodo, estava de fato dentro dessa pequena garrafa, e de que você é o gênioverdadeiro; se você puder entrar e caber lá dentro de novo, então vou acreditar e poderá fazer comigo o que quiser.O gênio falou, cheio de arrogância:
- Isto não é problema! - e começou a se encolher e ficou tão fino e pequeno como estivera antes, de modo que se enfiou, pela mesma abertura no gargalo,para dentro da garrafa.Mas nem bem ele estava lá dentro, o estudante tampou depressa a garrafacom a mesma rolha, pôs a garrafa de volta no antigo lugar, e o gênio foilogrado.Agora o estudante queria voltar para junto do pai, mas o gênio gritou,muito lamentoso:
- Deixe-me sair! Ó, deixe-me sair!
- Não, - respondeu o estudante - você iria me enganar como da primeira vez.
- Você está pondo a perder a sua própria felicidade - disse o gênio.
- Eu não lhe farei mal, mas vou recompensá-lo ricamente.O estudante pensou: “Vou tentar; quem sabe ele mantém a palavra; eu não deixarei que ele me faça mal”.Então tirou a rolha, e o gênio saiu como da primeira vez, espreguiçou-se eficou do tamanho de um gigante.
- Agora você terá a sua recompensa - disse ele, entregando ao estudanteum pequeno pano, que parecia um emplastro, e continuou:
 - Se você esfrega rum ferimento com uma ponta dele, a ferida se fechará; e se esfregar ferro ou aço com a outra ponta, o metal se transformará em prata.
.- Preciso experimentar isso - disse o estudante.Pegou o seu machado, feriu a casca de uma árvore com ele, e esfregou o corte com uma ponta do emplastro; imediatamente o corte se fechou e a casca sarou.
- Muito bem, a coisa funciona - disse ele ao gênio.
 - Agora podemos nos separar.O gênio agradeceu-lhe pela sua libertação e o estudante agradeceu ao gênio pelo presente e voltou para junto do pai.
- Por onde você andou passeando? - perguntou o pai.
- Por que esqueceu o trabalho? Bem que eu disse logo que você não seria capaz de fazer coisa alguma.
- Não se zangue, pai; eu vou alcança-lo.


- Sim, alcançar, alcançar; - disse o pai, irritado - isto não é tão fácil.
- Pois preste atenção, pai: vou já derrubar esta árvore aqui tão bem que elavai tombar com um estrondo.Então ele pegou o seu machado, esfregou-o com o emplastro e desferiuuma possante machadada na árvore. Mas como o ferro tinha virado prata, a lâmina perdeu todo o corte.
- Ei, pai, veja que machado ruim você me deu. Ele entortou todo com oprimeiro golpe. O pai assustou-se e disse:
- Ai, o que foi que você fez! Agora terei de pagar pelo machado e não seicomo nem com quê. É esta a vantagem que me traz o seu trabalho..
.- Não se zangue, pai! - respondeu o filho. - Eu vou pagar pelo machado.
- Ó seu bobalhão, - exclamou o pai - com o que você vai pagá-lo, se não tem nada além do que lhe dou? Tolices de estudante, é só o que tem na cabeça,mas de cortar lenha você não entende nada.Dali a pouco, o estudante disse:
- Pai, agora que eu não posso trabalhar mais mesmo, é melhor que encerremos a jornada e vamos para casa.
- Qual o quê! - respondeu o pai.
- Você pensa que eu quero cruzar os braços no colo como você? Eu ainda preciso trabalhar, mas você pode sem andar para casa.
- Pai, é a primeira vez que eu estou aqui no meio da floresta, não sei acharo caminho de volta para casa sozinho, venha comigo!Como a sua cólera já se acalmara, o pai deixou-se persuadir e voltou com o filho para casa. Então lhe disse:
Vá e venda o machado estragado e veja o que pode conseguir por ele. Vou tratar de ganhar a diferença com o meu trabalho, para pagar ao vizinho.No dia seguinte, o filho pegou o machado e levou-o à cidade, a um ourives. Este fez a prova, colocou o machado na balança e disse:
- Ele vale quatrocentos talers; eu não tenho tanto dinheiro para pagar àvista.O estudante falou:
- Dê-me o quanto tiver em dinheiro; eu espero pelo restante, em confiança.O ourives pagou-lhe trezentos talers e ficou devendo cem. Com isso oestudante voltou para casa e disse:
- Pai, eu tenho dinheiro. Vá e pergunte o que o vizinho quer pelo seu machado.- Isto eu já sei - disse o pai. - Um taler e seis décimos.- Então dê-lhe dois talers e doze décimos, isto é, o dobro, e é suficiente.Está vendo, pai, eu tenho dinheiro de sobra!

E com isso ele entregou ao pai cem talers e disse:- Nunca mais vai lhe faltar nada, pai. Viva agora em conforto.
- Meu Deus! - disse o velho.
 - Como foi que lhe veio essa riqueza?
Então o filho contou-lhe como tudo acontecera, e como ele, confiante na sorte, fizera tão rico achado. Mas com o dinheiro que sobrou, o rapaz voltou para a escola superior e continuou a estudar. E, como podia curar todos os ferimentos com o seu emplastro, ele tornou-se o médico mais famoso do mundo inteiro.

domingo, 11 de setembro de 2011

Branca de Neve e os Sete Anões-Conto dos Irmãos Grimm(Versão Original)

Branca de Neve e os Sete Anões
Conto dos Irmãos Grimm
Era uma vez uma rainha que estava esperando o nascimento de seu primeiro filho. Certo dia, no mais frio do inverno, quando parecia que o mundo todo se tornara branco pela neve, ela estava sentada perto de uma janela que tinha uma moldura de ébano a costurar. Enquanto costurava espetou o dedo com a agulha e três gotinhas de sangue caíram sobre a neve alvíssima. O vermelho era tão bonito sobre o branco que a rainha exclamou: “Gostaria de ter uma filhinha branquinha como a neve, com a boca vermelha como o sangue e com os cabelos tão negros como a moldura de ébano da minha janela”. Pouco tempo depois deu a luz uma menininha que era branca como a neve, tinha os lábios rubros como o sangue e os cabelo negros como o ébano. Por isso recebeu o nome de Branca de Neve. A rainha morreu logo após o nascimento da criança.

Poucos anos depois o rei, cansado de viver sozinho, casou-se novamente. Era uma dama belíssima, mas, seu coração era duro, era orgulhosa, vaidosa e arrogante e não tolerava a idéia que alguém pudesse ser mais bonita do que ela. Possuía um espelho mágico e, sempre que ficava diante dele para se admirar, dizia:

__Espelho, espelho meu, existe outra mulher mais bela do que eu?

E o espelho sempre respondia:

__Não, minha rainha, sois de todas a mais bela.”

Então ela sorria feliz, pois sabia que o espelho não podia mentir.

Branca de Neve estava crescendo e, a cada dia que passava ficava mais e mais formosa. Assim que se tornou uma jovenzinha ficou tão bela quanto o dia e mais bonita que a própria rainha. certo dia a rainha voltou a perguntar ao espelho:

__Espelho, espelho meu, existe outra mulher mais bela do que eu?

O espelho respondeu:

 __Ó minha rainha, sois muito bela ainda, mas Branca de Neve é a mais bela dentre as mulheres.

Ao ouvir estas palavras a rainha começou a tremer, parecia que ia explodir, e seu rosto ficou verde de inveja. A partir daquele momento passou a odiar Branca de Neve. Sempre que seus olhos pousavam nela sentia seu coração ficar frio como uma pedra. A inveja e o orgulho floresceram como pragas em seu coração. Dia ou noite, ela não tinha mais um momento de paz, vivia para odiar.

Um dia chamou um caçador e disse:

__Leve a menina para a floresta. Nunca mais quero vê-la de volta! Mate-a e me traga seu coração nessa caixa como prova de que a matou.

O caçador ficou apavorado com esta ordem, conhecia a princesinha desde o nascimento e, com um grande tormento interior levou a menina para a mata com a desculpa que iriam passear. Em dado momento Branca de Neve virou-se de repente e se deparou com o caçador com uma faca na mão pronto para desferir-lhe um golpe mortal. Inocente ela começou a chorar e a suplicar:

__Misericórdia caçador, não me mate!

O caçador soltou a faca, trêmulo, e disse:

__Não posso fazer isso. Fuja Branca de Neve, a rainha mandou lhe matar, se voltar ao castelo morrerá na certa! Fuja e nunca mais volte para o castelo!

Branca de Neve saiu correndo para dentro da densa floresta. Naquele instante passou por ali um filhote de javali. O caçador não perdeu tempo, matou-o as estocadas retirando em seguida seu coração para levá-los à rainha. Retornando ao castelo entregou a caixa à perversa que ficou exultante de satisfação

 Enquanto isso a pobre menina vagava sozinha na vasta floresta. Estava muito assustada, começava a escurecer e cada árvore, cada galho parecia tomar formas fantasmagóricas. Desesperada pôs-se a correr cada vez mais adentro, embrenhando-se na mata, passando sobre pedras pontudas e entre espinheiros. De vez em quando feras passavam por ela, mas não lhe faziam mal. Ela corria tão apavorada que mal sentia as pernas.

Ao cair da noite viu ao longe uma luzinha e dirigiu-se a ela. Era uma pequena cabana e a princesinha entrou para se abrigar. Nessa casa todas as coisas eram minúsculas, mas estava tudo tão limpo e bem organizado que era de espantar. Havia uma mesinha com sete pratinhos sobre uma toalha muito branca. Sobre cada pratinho havia uma colher, e ao lado sete garfinhos e sete faquinhas, sem esquecer de sete canequinhas. Do outro lado estavam sete caminhas lado a lado, todas impecavelmente arrumadas com lençóis brancos como a neve. Sedenta e com fome Branca de Neve comeu um pouquinho de cada pratinho e tomou um gole de vinho de cada canequinha.         Extenuada por tantas emoções juntou as caminhas, deitou e dormiu profundamente.

Já era noite fechada quando os proprietários da pequena cabana chegaram. Eram sete anões garimpeiros que passavam o dia nas montanhas escavando a terra em busca de minérios. Entraram na casa, cada um segurando sua lanterninha, e pararam assustados ao verem que as coisas não estavam do jeito que haviam deixado.

O primeiro anão perguntou:

__Quem se sentou na minha cadeirinha?

O segundo perguntou:

__Quem usou o meu garfinho?

O terceiro perguntou:

__Quem comeu o meu bolinho?

O quarto perguntou:

__Quem comeu as minhas verdurinhas?

O quinto perguntou:

__Quem comeu do meu pratinho?

O sexto perguntou:

__Quem cortou com a minha faquinha?

O sétimo enfim perguntou:

__Quem bebeu da minha canequinha?

Os anõezinhos começaram a olhar em volta, fazendo exclamações a toda hora cada vez que se deparavam com suas coisas fora do lugar, até que os olhos do sétimo anão caíram sobre as sete caminhas e viram Branca de Neve deitada nelas, dormindo a sono solto. Começou a gritar chamando os outros, que prontamente acudiram e ficaram tão assombrados que todos ergueram suas sete lanterninhas para ver melhor Branca de Neve.

__Meu Deus, que bela moça! – exclamavam boquiabertos, __É a mais linda menina que já vimos!

Os anões ficaram tão encantados com a princesinha que resolveram não acordá-la. Pegaram almofadas e se arrumaram no tapete como puderam para dormir.

Logo de manhã Branca de Neve acordou. Quando viu os anõezinhos a volta de sua cama observando-a, ficou bem assustada, mas eles foram muito amáveis e perguntaram:

__Qual é o seu nome?

__Meu nome é Branca de Neve! – ela respondeu.

__Como você veio parar aqui? – perguntaram.

Branca de Neve contou tudo que lhe acontecera, de como a madrasta mandou matá-la, e como o caçador poupara sua vida. Contou que saiu correndo pela floresta por várias horas até chegar à cabana deles.

Os anões lhe disseram:

__Princesinha, se quiser ficar conosco e ajudar nas tarefas da casa, mantendo tudo limpo e arrumadinho, pode ficar, e nada lhe faltara.

__Sim, quero muito ficar. Obrigada, senhores! Obrigada – exclamou emocionada.

Desde então Branca de Neve passou a cuidar da casa para os anões. De manhã bem cedo eles saiam para trabalhar no alto das montanhas, em busca de ouro e prata. Ao cair da noite voltavam e encontravam um gostoso jantar prontinho à sua espera. Como a princesinha passava os dias sozinha, os anões recomendavam seriamente:

__Não abra a porta para ninguém e não se afaste da cabana. Sua madrasta é uma perversa bruxa e pode descobrir que não morreu e vir até aqui, atrás de você!

A rainha porém, em seu castelo, acreditando que o coração que tinha me sua caixinha era o de Branca de Neve, estava certa que era agora a mulher mais linda do mundo. Foi até o espelho e perguntou:

__Espelho, espelho meu, existe outra mulher mais bela do que eu?

O espelho que jamais mentia respondeu:

__És sempre bela minha rainha, mas na colina distante, por sete anões cercada, Branca de Neve ainda vive e floresce, e sua beleza jamais foi superada.

Ao ouvir essas palavras a rainha sentiu fel correr pelas veias, pois sabia que o espelho era encantado e por isso não podia mentir. Depois quase explodiu de tanto ódio ao compreender que o caçador a enganara e que Branca de Neve continuava viva. Cheia de inveja e vaidade, desceu aos porões do castelo, onde costumava praticar feitiçaria, e utilizando seus conhecimentos de bruxa ficou irreconhecível, tornando-se semelhante a uma velha. Desta forma disfarçada viajou para além das sete colinas até a casa dos sete anões. Lá chegando fingiu ser uma vendedora e anunciou:

__Belas mercadorias, preço excelente!

Ouvindo isso Branca de Neve olhou pela janela e, vendo a velhinha disse:

__Bom dia, minha senhora. O que tem aí para vender?

__Muitas coisas novas e bonitas – a bruxa respondeu – Os mais finos cordões para o corpete. – e puxou um cadarço de seda tecido em muitas cores.

__É só uma inofensiva velhinha, disse para si mesma, acho que não há mal em deixá-la entrar, e correndo o ferrolho da porta comprou o bonito cadarço.

A bruxa, muito ladina, disse para Branca de Neve:

__Oh, minha filha, você é tão bonita, mas está tão desarrumada. Sente-se aqui perto de mim e deixe que eu arrume o cadarço pra você.

Branca de Neve, completamente inocente sobre as verdadeiras intenções da velha, colocou-se diante dela e deixou que arrumasse seu cadarço de seda em seu corpete. A perversa apertou o cadarço tanto e tão depressa que Branca de Neve ficou sem fôlego e caiu desmaiada como se estivesse morta.

Já era de tardinha, não demorou a anoitecer e não demorou muito os anõezinhos voltaram pra casa. Quando entraram deram com sua amada Branca de Neve estendida no chão e ficaram horrorizados. Ela não se mexia, nem um pouquinho sequer, e eles acreditavam que estivesse morta. Ergueram-na para colocá-la sobre a cama e aí perceberam o cadarço do corpete, fortemente amarrado, e o cortaram com a tesoura. A princesinha finalmente voltou a respirar, e pouco a pouco voltou à vida. Quando os anões souberam o que tinha acontecido disseram:

__A velha vendedora era a rainha má disfarçada. Tome mais cuidado e não deixe ninguém entrar, a menos que estejamos em casa.

Assim que chegou no castelo a primeira coisa que a rainha fez foi dirigir-se ao espelho mágico e perguntar:

__Espelho, espelho meu, existe outra mulher mais bela do que eu?

O espelho respondeu como sempre fazia:

__És sempre bela, minha rainha, mas na colina distante, por sete anões cercada,

Branca de Neve ainda vive e floresce, e sua beleza jamais foi superada.

A rainha sentiu uma sombra em seu coração, tremia e vociferava:

 __Branca de Neve tem que morrer, mesmo que isso custe minha própria vida!

Dirigiu-se ao calabouço do castelo começou a preparar uma maçã envenenada. Enquanto o fazia, seu semblante expunha toda maldade de seu perverso coração. A aparência da fruta encantada era maravilhosa – branca com as faces vermelhas – num mórbido paralelismo com sua vítima. Qualquer um desejaria comer essa maçã, mas, bastaria uma só mordida para ser levado à morte.

Assim que terminou de confeccionar a maçã enfeitiçada, usando de artimanhas transmutou-se desta vez na forma de uma velha camponesa e partiu para além das sete colinas até a casa das sete anões.

A bruxa bateu à porta e Branca de Neve olhou pela janela e disse:

__Fale o que a senhora deseja aí fora, pois estou proibida de deixar entrar estranhos.

__Não faz mal, respondeu a camponesa, Posso lhe mostrar a minha mercadoria daqui mesmo. Prove essa linda maçã, presente meu.

__Não, respondeu Branca de Neve, estou proibida de aceitar seja o que for de estranhos.

__Não tenha medo, não está envenenada, disse a velha, vou provar pra você. Vou partir a maçã ao meio, você come uma metade e eu como a outra, esta bem assim?

O veneno da maçã estava todinho concentrado na sua casca, não atingia a parte interna. Branca de Neve estava com a boca aguada de tanto desejo de comer a maçã e, quando viu a camponesa morder seu pedaço não resistiu mais. Estendeu a mão e pegou a outra metade. Assim que mordeu, caiu morta no chão. A rainha triunfante olhou-a caída no chão, explodiu numa sonora gargalhada e falou ironizando a falecida rainha, mãe da princesinha:

__Branca como neve, boca vermelha como o sangue, cabelos negros como o ébano, eu venci! Desta vez aqueles horríveis anões não conseguirão trazê-la de volta à vida!

Chegando ao castelo dirigiu-se de imediato ao espelho mágico e perguntou:

__Espelho, espelho meu, existe outra mulher mais bela do que eu?

E desta vez o espelho respondeu:

__Sois vós, minha rainha, do reino a mais bela.

E a invejosa rainha mal podia se conter de tanta felicidade.

Ao cair da noite os anões voltaram pra casa e encontraram Branca de Neve caída no chão. Não tinha respiração e nenhum movimento. Ergueram-na e procuraram algo em volta que pudesse ser venenoso. Procuraram em seus cabelos, seu bolso, mas nada. Ficaram completamente desalentados, a princesinha estava morta e nada mais poderia ser feito para trazê-la de volta. Construíram um caixão de vidro, com inscrições em ouro com seu nome e os dizeres de que ali estava a filha de um rei, e colocaram nele Branca de Neve. Depois os sete se sentaram em torno dela e a velaram. Por três dias assim ficaram, chorando na mais profunda tristeza. Levaram o caixão até o topo de uma alta montanha e mantinham sempre um deles montando guarda. Os animais também foram chorar por Branca de Neve, desde as aves até as feras.

Branca de Neve permaneceu no caixão e muito tempo se passou, entretanto seu corpo não se decompunha, e dava a impressão de estar dormindo. Suas feições continuavam as mesmas, branca como a neve, boca vermelha como o sangue e cabelos negros como o ébano.

Certo dia um belo e valente príncipe, filho de um poderoso rei atravessava a floresta quando chegou à casa dos sete anões.Queria pedir hospedagem por uma noite. Quando subiu no alto da montanha, atrás dos donos da cabana, se deparou com o caixão com a linda Branca de Neve deitada dentro dele rodeada pelos anões. Leu os dizeres em ouro e viu tratar-se de uma princesa. Ficou de tão forma encantado com a beleza da princesinha que disse aos anões:

__Deixai-me levar esse caixão. Eu pagarei o que pedirem.

Os anões responderam:

__Não o venderíamos nem por todo ouro do mundo!

O príncipe então respondeu:

__Dêem-me então como presente, pois depois que a vi não posso mais viver sem ela. Vou honrá-la e tratá-la como se fosse minha amada.

Os anões, comovidos com o profundo sentimento do príncipe, se apiedaram dele e lhe entregaram o caixão. O príncipe mandou vir seus criados a quem ordenou que pusessem o ataúde sobre os ombros e o transportassem. Mas aconteceu que o peso era grande e eles tropeçaram, dando um tranco no caixão. Com o solavanco o pedaço de maçã envenenada que estava preso na garganta de Branca de Neve se soltou, e ela prontamente voltou à vida e exclamou assustada:

__O que aconteceu, onde estou?

O príncipe com radiante alegria diante do que acontecera, disse:

__Você vai ficar comigo!, e contou-lhe o que acontecera.

__Eu te amo mais que tudo no mundo, ele disse, Venha comigo para o castelo do meu pai, seja minha noiva, case comigo!

Branca de Neve sentiu um grande amor pelo príncipe, segundo suas palavras “maior que o mundo”, e partiu com ele. Em breve as núpcias foram celebradas com enorme esplendor e com a presença dos queridos anõezinhos.

A perversa madrasta também foi convidada para a festa de casamento da princesa, sem saber que era a sua enteada. Vestiu suas mais belas roupas, pois o que mais gostava era expor sua beleza, postou-se diante do espelho e disse:

__Espelho, espelho meu, existe outra mulher mais bela do que eu?

O espelho respondeu:

__Ó minha rainha, sois muito bela ainda, mas a jovem princesa é mil vezes mais linda.

A malvada mulher ficou de tal forma possessa que jogou tudo que encontrou pela frente sobre o espelho, que se espatifou em mil pedaços, libertando o gênio escravo do espelho, que partiu aliviado por não precisar mais servir a uma rainha tão pérfida.

Foi à festa de casamento com as piores intenções em seu negro coração. Quando entrou no castelo, Branca de Neve a reconheceu no mesmo instante. A bruxa, ao ver que se tratava da princesinha ficou tão aterrorizada que saiu correndo pela porta, com medo de ser punida pelos seus terríveis atos. Porém, antes que desse muitos passos um raio saiu do céu a fulminou, deixando-a completamente esturricada e morta no chão.

O rei, pai de Branca de Neve, que há muitos anos vivia preso imóvel à uma cama, vítima das feitiçarias da rainha, se libertou recobrando a consciência e a saúde. Ele e o castelo inteiro festejaram o fim da rainha, que a todos perseguia, e foi ao encontro de sua amada filha. Agora, todos em plena alegria festejaram por sete dias a chegada de uma era de paz e Branca de Neve e seu príncipe viveram felizes para sempre.

Cinderela-Conto de Charles Perrault-Versão Original

Cinderela
Por: Charles Perrault


Era uma vez um nobre que se casou pela segunda vez com uma mulher que tinha um temperamento terrível, era orgulhosa, vaidosa e arrogante. Tinha duas filhas tão orgulhosas e de mau gênio quanto a mãe. O nobre, por sua vez tinha uma linda filha que era a própria doçura e bondade. Cinderela era seu nome, ela herdara a beleza deslumbrante e o temperamento gentil de sua mãe.

Logo após o casamento a madrasta pôs a mostra o seu mau gênio. Detestava as qualidades da enteada, que faziam suas filhas parecerem ainda mais detestáveis. Incumbiu-lhe dos serviços mais pesados e grosseiros da casa. Era ela ainda menina que lavava toda louça e a roupa da casa, e as escadarias, e ainda limpava e arrumava os quartos. Seu quarto, na casa em que outrora era toda sua, agora era o sótão, enquanto sua madrasta e irmãs dormiam em quartos luxuosos, atapetados, ricamente decorados e com amplos espelhos, onde passavam horas se olhando, alimentando a sua vaidade.

Cinderela suportava tudo com paciência. Não se queixava com o pai que mais parecia estar enfeitiçado pela nova esposa. Todos os dias após terminar seu trabalho ela se sentava junto à lareira, no meio às cinzas, por isso todos a chamavam de Gata borralheira. Entretanto, apesar das roupas luxuosas das filhas da madrasta, Cinderela que usava quase trapos era evidentemente muito mais bonita do que elas.
Certo dia o filho do rei, o príncipe resolveu dar um baile e convidar todas as pessoas importantes do reino, e a família da Gata Borralheira por ser da nobreza estava incluída. As irmãs ficaram eufóricas, ocupadíssimas, passavam todas as suas horas a escolher roupas, sapatos, jóias e penteados com que iriam ao baile. O que significava mais e mais trabalho para Cinderela que além de seu trabalho habitual tinha que lavar e passar toneladas de vestidos saias cheios de babados.

“Acho que vou usar meu vestido de veludo azul com gola de renda inglesa”, dizia a mais velha.

“Vou usar minha saia bordô com meu mantô de flores douradas e meu broche de diamantes”, dizia a segunda.

 Fizeram vir o melhor cabeleireiro da região para que ficasse totalmente a disposição delas, fazendo os penteados mais rebuscados, mas quanto mais tentavam ser elegantes mais sua feiúra era ressaltada. A toda hora chamavam Cinderela para dar opinião, pois sabiam que era educada e tinha bom gosto. Cinderela, de boa vontade deu os melhores sugestões, e elas lhe perguntaram: “Cinderela, você gostaria de ir conosco ao baile?”



“Pobre de mim! Nem tenho o que vestir. Vocês estão é zombando de mim”.

“Tem razão, todos dariam boas risadas se vissem uma Gata Borralheira entrando no baile!”.

Cinderela, entretanto era muito bondosa, e não se ofendia, ajudando no que podia para que elas ficassem com o melhor aspecto possível. As irmãs, que estavam bem gordas, ficaram quase dois dias sem comer tentando emagrecer um pouquinho. Arrebentaram mais de uma dúzia de corpetes de tanto apertá-los na tentativa de afinar a cintura, e passavam os dias em frente ao espelho.

Finalmente chegou o grande dia. Elas começaram a se arrumar desde as primeiras horas da manhã e quando chegou a hora, partiram. Cinderela ficou vendo-as se afastar e começou a chorar.

Sua madrinha chegou, viu-a nesse estado e perguntou por que chorava:

“Eu gostaria tanto e ir ao baile” e caiu novamente em prantos. O que Cinderela não sabia é que sua madrinha era uma fada, e a madrinha disse: “Você gostaria muito de ir ao baile, não é minha filha?”.

“Eu adoraria”, disse Cinderela, suspirando profundamente.

“Está bem, eu farei com que você vá a esse baile, e como a moça mais bonita do reino”.
A fada madrinha foi com Cinderela até o quarto dela e lhe disse: “Desça ao jardim e traga-me uma abóbora”.



 Cinderela procurou a abóbora maior e mais bonita que pode encontrar e a levou para a madrinha. Não podia imaginar como aquela abóbora poderia ajudá-la a ir ao baile. A madrinha escavou a abóbora deixando só a casca. Depois tocou nela com sua varinha de condão e no mesmo instante a abóbora se transformou em uma linda carruagem toda dourada. Depois se dirigiu às ratoeiras da casa apanhando seis gordinhos camundongos. Tocou cada um deles com sua varinha transformando-os em belos cavalos de raça, assim formaram-se três belas parelhas de graciosos cavalos. Agora era preciso achar um cocheiro. Cinderela disse: “Vou buscar Tom, o cachorro da casa”, trazendo-o logo em seguida. A madrinha tocou-lhe com a varinha e ele se transformou em um cocheiro corpulento e com longos cabelos castanhos.

Em seguida ordenou à Cinderela: “Vá ao jardim e lá encontrará seis lagartos atrás da torneira. Traga-os para mim”.

Assim que ela os trouxe a madrinha os transformou em seis lacaios, que rapidamente se puseram atrás da carruagem com suas librês, ficando empoleirados como se tivessem passado a vida toda fazendo isso.

A fada se virou para Cinderela e disse: “Pronto, agora você já pode ir ao baile. Está feliz?”.

“Estou, mas não posso chegar ao baile assim, maltrapilha!”

“É mesmo”, disse a madrinha assustada, “deixe que eu dê um jeito nisso!” E tocou com sua varinha nas vestes pobres de Cinderela que imediatamente estas foram transformadas em um lindo vestido rosa claro todo bordado em ouro; seus cabelos ficaram penteados, belas jóias adornaram seu pescoço e em seus pés surgiu o mais belo par de sapatinhos de cristal.

“Sapatinhos de Cristal! Para mim bastariam sapatinhos de pele de algum animal”, disse Cinderela.

“De jeito nenhum. Não acredite no que os outros dizem – para você, sapatinhos de cristal é que são o correto. Acredite na sua madrinha!”, disse a fada.
Deslumbrante, Cinderela montou na carruagem. Sua madrinha lhe recomendou que acima de tudo, não passasse da meia noite, pois nesse instante toda magia irá desaparecer, sua carruagem voltará a ser abóbora, os animaizinhos voltarão a sua forma original e ela tornará a estar vestida de andrajos. Cinderela prometeu estar atenta e que sairia do baile antes do bater da meia noite.

Então partiu para o baile, não cabendo em si de tanta alegria.

Enquanto isso, no baile, o príncipe estava desanimado, cercado de moças evidentemente interesseiras, frívolas e vazias, e saiu ao ar livre para tomar um pouco de ar e tomar fôlego, e nessa hora Cinderela chegou ao baile. Ao ver aquela lindíssima moça na carruagem ele ficou encantado e correu para recebê-la. Deu-lhe a mão ajudando-a a descer da carruagem e a conduziu ao salão onde estavam todos os convidados. Cinderela estava igualmente encantada por ele. O rei, percebendo o interesse do filho pela moça não cabia em si de felicidade, pois estava louco para ver o filho casado e com herdeiros. Quando Cinderela entrou fêz-se um grande silêncio; todos pararam de dançar e os violinos emudeceram tal era a atenção com que contemplavam a grande beleza da desconhecida. Todos achavam se tratar de uma princesa e só se ouvia murmúrios: “Ah, como é bela!”. O rei e a rainha a acharam encantadora. Todos os olhos eram para ela, as damas não cansavam de examiná-la, suas roupas e penteado, ansiosas para fazer igual.

O príncipe conduziu Cinderela ao lugar de honra e depois a tirou para dançar, e ela dançava com tanta graça que a todos encantava. Comeu uma ceia maravilhosa, ficou frente a frente com suas irmãs que em nem um momento a reconheceram e estavam encantadas com ela, pensando que se tratasse de uma princesa estrangeira. Mas o príncipe logo que pode voltou a dançar com ela, e dançaram por horas. Cinderela estava tão envolta com o príncipe que não percebeu o tempo passar, foi quando então ouviu soar um quarto para a meia-noite. Sem pestanejar fez uma reverência e saiu correndo tão inesperada e rapidamente que o príncipe ficou sem ação.

Só foi o tempo de chegar em casa e o encanto se desfez, voltando tudo a ser como era. Cinderela foi falar com a sua madrinha, contou como foi o baile, agradeceu-lhe muito e disse que gostaria muito de ir novamente ao baile do dia seguinte, pois o príncipe a convidara.

Enquanto conversava com a madrinha as irmãs e a madrasta chegaram e bateram à porta. Cinderela foi abrir.

- “Como demoraram a chegar!”, disse, bocejando, esfregando os olhos e se espreguiçando como se tivesse acabado de acordar. As irmãs queriam espezinhá-la e não paravam de contar coisas magníficas sobre o baile: “Se você tivesse ido ao baile teria visto a mais bela princesa que já apareceu neste reino, ela ficou nossa amiga, não parava de conversar conosco!”.

Cinderela ficou radiante ao ouvir essas palavras, e também achou muito engraçado. Perguntou o nome da princesa, mas as irmãs responderam que ninguém a conhecia e que até o príncipe estava pasmo. Ele daria qualquer coisa para saber quem era ela. Cinderela sorriu e lhes disse: “Ela era bonita mesmo”? Que sorte vocês tiveram! Ah, se eu pudesse vê-la também! “Que pena!” E as irmãs começaram a rir e a debochar: “Você, a Gata Borralheira, chegar perto de uma fina dama da corte, não nos faça rir!”.
No dia seguinte, ou melhor, na noite seguinte as duas irmãs e a madrasta foram no segundo baile, mas o que elas não podiam imaginar é que Cinderela também foi e ainda mais magnificamente trajada que da primeira vez.

Usava um vestido verde, da cor de seus olhos, e que trazia todos os peixinhos do mar. Como na primeira noite o príncipe ficou todo o tempo junto dela e não parou de lhe sussurrar palavras doces. A jovem estava se divertindo tanto dançando com seu amado que esqueceu o conselho da sua madrinha, e foi com um grande susto que escutou soar a primeira badalada da meia-noite. Libertou-se dos braços do príncipe e fugiu célere como uma corsa. O príncipe a seguiu, mas não conseguiu alcançá-la. Ela deixou cair um dos seus sapatinhos de cristal, que o príncipe pegou e guardou com todo cuidado.

Cinderela chegou em casa sem fôlego, sua carruagem virou uma abóbora que ficou aos pedaços pelo caminho, os lacaios voltaram a ser os bichinhos de antes e suas roupas os mesmos trapos de sempre; não lhe restara nada de todo esplendor de a pouco, apenas um pé dos sapatinhos, o par do que deixara cair.

O rei deu ordens a guarda para procurá-la em todos os cantos, e assim foi feito, mas não se encontrou nem sombra dela.

Quando as irmãs e a madrasta voltaram do baile Cinderela perguntou como foi, se tinham se divertido e se a bela dama lá estivera. Responderam que sim, mas que fugira ao toque da décima segunda badalada, e tão depressa que deixara cair um de seus sapatinhos de cristal, o mais lindo do mundo. Contaram que o filho do rei o pegara e que junto aos seus soldados saíra em busca da sua linda princesa. Tinham certeza que ele estava completamente apaixonado pela linda moça, a dona do sapatinho.

E estavam certas, porque, poucos dias depois o príncipe mandou anunciar ao som de trompas que se casaria com aquela cujo pé coubesse no sapatinho. Mandou enviados por todo o reino para experimentá-lo nas princesas, depois nas duquesas, e na corte inteira, mas em vão. Levaram-no às duas irmãs, que não mediram esforços para enfiarem seus pés nele, mas sem sucesso. Cinderela, que discretamente as observava, reconheceu seu sapatinho e disse, sorrindo: “Deixem-me ver se serve em mim”. As irmãs começaram a rir e a caçoar dela, porém o fidalgo que fazia a prova do sapato olhou com seu olhar experiente atentamente para Cinderela e, reconhecendo sob àquelas pobres roupas a classe de uma princesa e achando-a belíssima, disse que o pedido era justo e que ele tinha ordens de experimentá-lo em todas as moças.
Pediu a Cinderela que se sentasse. Levou o sapato até seu pezinho e viu que cabia perfeitamente, como um molde de cera. O espanto da madrasta e das irmãs foi grande, mas maior ainda quando Cinderela tirou do bolso o outro sapatinho e o calçou. Neste instante a madrinha entrou pela sala e tocando-a com sua varinha os trapos de Cinderela, transformou-os de novo em seu esplêndido vestido.

As duas irmãs pasmas perceberam que Cinderela era a linda princesa que tinham visto no baile. Jogaram-se aos seus pés para lhe pedir perdão por todos os maus tratos que a tinham feito sofrer. Cinderela perdoou tudo, abraçando-as.

Levaram Cinderela até o príncipe, suntuosamente vestida como estava. Ela lhe pareceu mais bela que nunca e poucos dias depois estavam casados. Cinderela, que era tão boa quanto bela, casou as duas irmãs com dois grandes senhores da corte, mas preferiu nunca mais vê-las, por uma questão de segurança.

Rapunzel-Conto dos Irmãos Grimm-Versão Original




Rapunzel
Conto dos Irmãos Grimm
Era uma vez um casal que, tendo desejado, em vão, um filho durante anos, acabou por descobrir, com alegria, que a mulher estava grávida.

A casa onde morava tinha, nas traseiras, uma janela de onde se avistava um terreno cheio de flores e de magníficas plantas. No entanto ninguém se atrevia a lá entrar, não só porque o rodeava um muro muito alto, como porque pertencia a uma poderosa e temida feiticeira.

Certo dia em que a mulher, à janela, olhava para lá, caíram-lhe os olhos num canteiro em que floresciam os mais belos rapôncios. Eram tão verdes e frescos que lhe fizeram crescer água na boca. Ora, sabendo que não os podia comer, cada dia tinha mais desejos. Emagreceu muito e ficou com um ar pálido e doente. O marido assustou-se:

― O que tens, querida mulher?

― Ai! – suspirou ela tristemente. – Se não como aqueles rapôncios, morro!

O marido, que a amava muito, pensou: “Mais vale eu ir colhê-los, senão ela ainda morre!”

Assim que escureceu, trepou o muro, entrou no jardim da bruxa, colheu a toda a pressa uma mão-cheia de rapôncios e trouxe-os à mulher. Esta com eles preparou uma salada que comeu com prazer. Mas soube-lhe tão bem, tão bem que, no dia seguinte, os desejos tinham triplicado. Por isso o homem teve de lá voltar. Ao escurecer, trepou o muro, mas, mal entrou no jardim, surgiu-lhe uma bruxa muito feia que, com um olhar terrível, lhe perguntou:

― Como te atreves a entrar aqui para me roubar como um ladrão? Vou castigar-te!

― Tem pena de mim! Só fiz isto porque a minha mulher, que está grávida, morria se não comesse os teus rapôncios, que viu da janela!

Ao ouvi-lo, a fúria da bruxa desapareceu.

― Bem, se é o caso, deixo-te levar todos os que quiseres, com uma condição: logo que a tua mulher tenha a criança deverás dar-ma imediatamente. De resto, não te preocupes que eu serei uma mãe para ela.

Cheio de medo, o homem concordou com tudo. E, mal a mulher teve a criança, a bruxa apareceu deu à menina o nome de Rapunzel, que é o mesmo que Rapôncio, e levou-a consigo.

Quando fez dezesseis anos, Rapunzel era a menina mais linda do mundo e a bruxa fechou-a numa torre sem escada nem porta, no meio de uma grande floresta. Só havia uma janela e, quando a velha queria entrar, chamava:

― Rapunzel! Ó minha bela!Solta a trança à janela!

A menina tinha os cabelos muito compridos e tão louros que pareciam feitos de ouro. Quando ouvia a voz da bruxa, prendia a trança num gancho da janela e deixava os cabelos caírem até ao chão para ela poder subir.

Passaram alguns anos. Certo dia o filho do rei, que cavalgava por ali, ouviu um melodioso canto. Prestando mais atenção notou que a voz saía de uma alta torre, mas ao procurar entrar, descobriu que não havia escada nem porta. Acabou por regressar ao palácio e, todos os dias, vinha ouvir aquele doce cantar. Até que, um dia, viu chegar uma velha e ouviu-a dizer:

― Rapunzel! Ó minha bela!Solta a trança à janela!

Do alto da torre caiu uma trança por onde a velha subiu. “Se a escada é essa” – pensou o príncipe – “também eu subirei.”



E, no dia seguinte, quando começou a escurecer, aproximou-se da torre e chamou:
― Rapunzel! Ó minha bela!Solta a trança à janela!

Os cabelos foram lançados lá de cima e o príncipe subiu. Quando o viu entrar, a menina apanhou um grande susto porque nunca tinha visto nenhum homem. Porém, o príncipe falou-lhe com grande cortesia, explicando que a voz dela se tinha insinuado no seu coração ao ponto de ele já não ter sossego e como, por isso, tinha sido forçado a procurá-la. Então Rapunzel perdeu o receio e, quando o príncipe lhe perguntou se o queria como marido, ela olhou-o com atenção. Era jovem e belo e a menina pensou: “De certeza que gosta mais de mim do que a minha madrasta!” Assim, acedeu em dar-lhe a mão, dizendo:

― De boa vontade iria contigo, mas não sei como descer. Sempre que vieres visitar-me traz-me uma meada de seda. Com ela tecerei uma escada. Quando estiver pronta, poderei descer e partir contigo no teu cavalo.

O príncipe passou a vir todas as noites porque a bruxa vinha de dia. A velha não se apercebeu de nada até que uma vez a menina observou:

― Como és pesada! Demoras muito mais a subir do que o príncipe, que chega cá acima num instante!

― Oh! Malvada! Pensei que te tinha mantido afastado de todos e afinal enganaste-me?!
Furiosa, prendeu os cabelos de Rapunzel com a mão esquerda e, com a direita, agarrou num par de tesouras: Zac! Zac! Cortou-lhe a bela trança. Foi tão má, tão má que levou a pobre da menina para um deserto onde a deixou ficar. Depois, voltou à torre e, quando o príncipe chamou:

― Rapunzel! Ó minha bela!Solta a trança à janela!

Lançou-lhe a trança cortada. O príncipe subiu sem desconfiar de nada mas, lá em cima, só encontrou a bruxa que o olhou com os seus olhos cheios de veneno e exclamou:
― Vieste buscar a tua bela? Ah, mas a graciosa avezinha já não está no ninho! Nem sequer canta! Levou-a o gato e agora vai arranhar-te os olhos a ti. Nunca mais a verás!
Fora de si, o príncipe saltou da torre. Salvou-se, mas caiu sobre os espinhos que o cegaram. Assim vagueou, comendo só raízes e bagas e chorando a perda da sua amada esposa. Andou, andou, andou até que chegou ao deserto onde vivia Rapunzel que, entretanto, tinha tido gémeos: um menino e uma menina. O príncipe ouviu-lhe a voz e, deixando-se guiar por ela, aproximou-se. Logo sentiu uns braços à volta do pescoço: era Rapunzel, a chorar. Duas dessas lágrimas caíram nos olhos do príncipe, que brilharam de novo, voltando a ver como antes. Ele levou-a para o seu reino onde houve grandes festejos e viveram felizes durante muitos e muitos anos.

O Gato de Botas-Conto de Charles Perrault-Versão Original

O Gato de Botas
Por:Charles Perrault
Era uma vez um moleiro muito pobre, que tinha três filhos. Os dois mais velhos eram preguiçosos e o caçula era muito trabalhador.

Quando o moleiro morreu, só deixou como herança o moinho, um burrinho e um gato. O moinho ficou para o filho mais velho, o burrinho para o filho do meio e o gato para o caçula. Este último ficou muito descontente com a parte que lhe coube da herança, mas o gato lhe disse:

- Meu querido amo, compra-me um par de botas e um saco e, em breve, te provarei que sou de mais utilidade que um moinho ou um asno.

Assim, pois, o rapaz converteu todo o dinheiro que possuía num lindo par de botas e num saco para o seu gatinho. Este calçou as botas e, pondo o saco às costas, encaminhou-se para um sítio onde havia uma coelheira. Quando ali chegou, abriu o saco, meteu-lhe uma porção de farelo miúdo e deitou-se no chão fingindo-se morto.

Excitado pelo cheiro do farelo, o coelho saiu de seu esconderijo e dirigiu-se para o saco. O gato apanhou-o logo e levou-o ao rei, dizendo-lhe:

- Senhor, o nobre marquês de Carabás mandou que lhe entregasse este coelho. Guisado com cebolinhas será um prato delicioso.

- Coelho?! – exclamou o rei.

- Que bom! Gosto muito de coelho, mas o meu cozinheiro não consegue nunca apanhar nenhum. Diga ao teu amo que eu lhe mando os meus mais sinceros agradecimentos.

No dia seguinte, o gatinho apanhou duas perdizes e levou-as ao rei como presente do marquês de Carabás.

Durante um tempo, o gato continuou a levar ao palácio outros presente, todos dizia ser da parte do Marquês de Carabás.

Um dia o gato convidou seu amo para tomar um banho no rio. Ao chegarem ao local o gato disse ao jovem

- De hoje em diante seu nome será Marquês de Carabás. Agora, por favor, tire sua roupa e entre na água.

O rapaz não estava entendendo nada, mas como confiava no gato atendeu seu pedido.

O gato havia levado rapaz no local por onde devia passar a carruagem real.

Esperto, o gato ao ver uma carruagem se aproximando começou a gritar

- Socorro! Socorro!

- Que aconteceu? – perguntou o rei, descendo da sua carruagem.

Os ladrões roubaram a roupa do nobre marquês de Carabás! – disse o gato

- Meu amo está dentro da água, ficará resfriado.

O rei mandou imediatamente uns servos ao palácio; voltaram daí a pouco com um magnífico vestuário feito para o próprio rei, quando jovem.

O dono do gato vestiu-se e ficou tão bonito que a princesa, assim que o viu, dele se enamorou. O rei também ficou encantado e murmurou:

- Eu era exatamente assim, nos meus tempos de moço.

O rei convidou o falso marquês para subir em sua carruagem.

- Será que a vossa majestade nos dá a honra de visitar o palácio do Marquês de Carabás? – perguntou o gato, diante do olhar aflito do rapaz.

O rei aceitou o convite e o gato saiu na frente, para arrumar uma recepção par ao rei e a princesa.

O gato estava radiante com o êxito do seu plano; e, correndo à frente da carruagem, chegou a uns campos e disse aos lavradores:

- O rei está chegando; se não lhes disserem que todos estes campos pertencem ao marquês de Carabás, o rei mandará cortar-lhes a cabeça.

De forma que, quando o rei perguntou de quem eram aquelas searas, os lavradores responderam-lhe:

- Do muito nobre marquês de Carabás.

- Que lindas propriedades tens tu!- elogiou o rei ao jovem.

O moço sorriu perturbado, e o rei murmurou ao ouvido da filha:

- Eu também era assim, nos meus tempos de moço.

Mais adiante, o gato encontrou uns camponeses ceifando trigo e lhes fez a mesma ameaça:

- Se não disserem que todo este trigo pertence ao marquês de Carabás, faço picadinho de vocês.

Assim, quando chegou a carruagem real e o rei perguntou de quem era todo aquele trigo, responderam:

- Do mui nobre marquês de Carabás.

O rei ficou muito entusiasmado e disse ao moço:

- Ó marquês! Tens muitas propriedades!

O gato continuava a correr à frente da carruagem; atravessando um espesso bosque, chegou à porta de um magnífico palácio, no qual vivia um ogro muito malvado que era o verdadeiro dono dos campos semeados. O gatinho bateu à porta e disse ao ogro que a abriu:

Meu querido ogro, tenho ouvido por aí umas histórias a teu respeito. Dizei-me lá: é certo que te podes transformar no que quiseres?

- Certíssimo – respondeu o ogro, e transformou-se num leão.

- Isso não vale nada – disse o gatinho. – Qualquer um pode inchar e aparecer maior do que realmente é. Toda a arte está em se tornar menor. Poderias, por exemplo, transformar-te em rato?

- É fácil – respondeu o ogro, e transformou-se num rato.

O gatinho deitou-lhe logo as unhas, comeu-o e desceu logo a abrir a porta, pois naquele momento chegava a carruagem real. E disse:

- Bem vindo seja, senhor, ao palácio do marquês de Carabás.

- Olá! – disse o rei.

- Que formoso palácio tens tu! Peço-te a fineza de ajudar a princesa a descer da carruagem.

O rapaz, timidamente, ofereceu o braço à princesa e o rei murmurou-lhe ao ouvido:

- Eu também era assim tímido, nos meus tempos de moço.

Entretanto, o gatinho meteu-se na cozinha e mandou preparar um esplêndido almoço, pondo na mesa os melhores vinhos que havia na adega; e quando o rei, a princesa e o amo entraram na sala de jantar e se sentaram à mesa, tudo estava pronto.

Depois do magnífico almoço, o rei voltou-se para o rapaz e disse-lhe:

- Jovem, és tão tímido como eu era nos meus tempos de moço. Mas percebo que gostas muito da princesa, assim como ela gosta de ti. Por que não a pedes em casamento?

Então, o moço pediu a mão da princesa, e o casamento foi celebrado com a maior pompa. O gato assistiu, calçando um novo par de botas com cordões encarnados e bordados a ouro e preciosos diamantes.

E daí em diante, passaram a viver muito felizes. E se o gato às vezes ainda se metia a correr atrás dos ratos, era apenas por divertimento; porque absolutamente não mais precisava de ratos para matar a fome…


Conto de Joseph Jacobs-Catarina Quebra Nozes-Conto de Fadas

Catarina Quebra-Nozes- 
(Versão Original)
Por:Joseph Jacobs
Era uma vez um rei e uma rainha, como os que reinavam em muitas nações. O rei tinha uma filha chamada Ana, e a rainha tinha outra chamada Catarina. Ana era muito mais bonita que a filha da rainha, mas gostavam uma da outra como verdadeiras irmãs. Sentindo inveja da filha do rei por ser mais bonita que a sua Catarina, a rainha procurou um meio de estragar a beleza dela. Assim, foi se aconselhar com a dona Galinha, que lhe disse para mandar a mocinha ir vê-la na manhã seguinte, de jejum.
Na manhã seguinte, bem cedo, a rainha disse a Ana:

“Vá, minha querida, até a dona Galinha, na ravina, e peça- lhe alguns ovos.” Lá se foi Ana, mas, vendo um pedaço de pão ao passar pela cozinha, pegou-o e foi mastigando pelo caminho afora.

Ao chegar à dona Galinha, pediu os ovos, como lhe haviam mandado fazer. A dona Galinha lhe disse: “Levante a tampa daquela panela ali e veja.” A mocinha obedeceu, mas não aconteceu nada. “Volte para sua mãe e diga-lhe para manter sua despensa bem trancada”, disse a dona Galinha. Assim ela voltou para casa e contou à rainha o que a galinha dissera. Com isso, a rainha soube que a mocinha tinha comido alguma coisa. Na manhã seguinte ficou muito atenta e despachou a princesa de jejum. Mas ela viu uns camponeses colhendo ervilhas à beira do caminho e, sendo muito gentil, falou com eles e pegou um punhado de ervilhas, que foi comendo pelo caminho.


Quando chegou à dona Galinha, esta disse: “Levante tampa da panela e verá”Ana levantou a tampa do recipiente, mas nada aconteceu. Dona Galinha ficou terrivelmente zangada e disse a Ana: “Diga para sua mãe que a panela não vai ferver se o fogo estiver apagado.”Ana voltou para casa e contou isso à rainha. No terceiro dia a rainha foi pessoalmente com a menina até a dona Galinha. Ora, dessa vez, quando Ana levantou a tampa da panela, sua linda cabeça despencou e uma cabeça de ovelha pulou no seu pescoço.

Muito satisfeita, a rainha voltou para casa. Sua própria filha, Catarina, no entanto, pegou um fino pano de linho, envolveu com ele a cabeça da irmã e tomou-a pela mão. Assim partiram, em busca da sorte. Andaram, andaram e andaram até que chegaram a um castelo. Catarina bateu à porta e pediu pousada por uma noite para ela e uma irmã doente. Ao entrar, descobriram que era o castelo de um rei. Esse rei tinha dois filhos e um deles estava muito doente, à beira da morte, e ninguém conseguia descobrir qual era o seu mal. O curioso era que toda pessoa que o velava durante a noite desaparecia para nunca mais. Por isso o rei oferecera uma burra de prata a quem se dispusesse a ficar com ele. Ora, Catarina era uma menina muito corajosa, e se ofereceu para cuidar do principe.

Até a meia-noite, tudo correu bem. Quando as doze badaladas soaram, porém, o príncipe doente levantou-se, vestiu-se e se esgueirou escada abaixo. Catarina seguiu-o, mas ele não pareceu notar. O príncipe foi até o estábulo, selou seu cavalo, chamou seu cão de caça, pulou na sela e Catarina pulou lepidamente atrás. E lá se foram o príncipe e Catarina pela floresta. Catarina ia arrancando nozes das árvores e enchendo com elas seu avental. Cavalgaram e cavalgaram até chegar a um monte verdejante. Ali o príncipe refreou o cavalo e disse: “Abra, abra, monte verdejante, e deixe entrar o jovem príncipe com seu cavalo e seu cão.” E Catarina acrescentou: “E sua dama atrás de si’.

Imediatamente o monte verdejante se abriu e eles entraram. O príncipe penetrou num salão magnífico, feericamente iluminado, e muitas lindas fadas o cercaram e o chamaram para dançar. Enquanto isso, sem ser notada, Catarina escondeu-se atrás da porta. Dali viu o principe dançando, e dançando, até que não pôde dançar mais e desabou sobre um divã. As fadas se puseram então a abaná-lo, até que ele conseguiu se levantar e continuar dançando. Finalmente o galo cantou e o príncipe tratou de montar de novo seu cavalo a toda pressa; Catarina pulou atrás e rumaram para casa. Quando o sol da manhã se levantava, foram ao quarto do príncipe e encontraram Catarina sentada junto ao fogo, quebrando suas nozes. Contou que o príncipe tivera uma boa noite, mas que não velaria por ele mais uma noite a menos que ganhasse uma burra de ouro. A segunda noite transcorreu como a primeira, O príncipe se levantou à meia-noite e cavalgou até o monte verdejante e o baile das fadas, e Catarina foi com ele, colhendo nozes enquanto avançavam pela floresta. Dessa vez não espiou o príncipe, pois sabia que ia dançar, dançar e dançar. Mas viu urna fadinha-bebê brincando com uma varinha de condão e, sem ser notada, ouviu uma fada dizer a outra: “Três batidas corn essa varinha de condão tornariam a irmã de Catarina tão linda como sempre foi.”

Assim, Catarina começou a rolar nozes para a fada-bebê, e mais, e mais, até que a criança saiu cambaleando atrás dos frutos e deixou cair a varinha, que Catarina guardou no avental. E ao cantar do galo cavalgaram para casa como antes e, mais que depressa, ao entrar em seu quarto no palácio, Catarina tocou Ana três vezes com a varinha de condão.A repelente cara de ovelha caiu e ela voltou a ser linda como sempre.



Na terceira noite, Catarina só consentiu em velar o príncipe doente se pudesse se casar com ele. Tudo se passou como nas duas primeiras noites. Dessa vez a fadinha-bebê estava brincando corn um passarinho. Catarina ouviu urna das fadas dizer:”Três bocados deste passarinho devolveriam ao príncipe doente mais saúde do que ele jamais teve.” Catarina rolou todas as nozes que tinha para a fadinha-bebê, até o passarinho cair; guardou-o então no seu avental.

Ao cantar do galo partiram de novo, mas, ern vez de quebrar suas nozes como costumava fazer, nesse dia Catarina depenou o passarinho e cozinhou-o. “Oh!” disse o príncipe doente. “Gostaria de um bocado desse passarinho:’ Assim Catarina deu-lhe um pedacinho da ave e ele se ergueu sobre os cotovelos. Dá um pouco exclamou de novo: “Oh, se eu pudesse comer mais um bocado daquele passarinho!” Catarina deu-lhe mais um pedaço e ele se sentou na cama. Depois ele disse de novo:”Ah, se pudesse comer um terceiro bocado daquele passarinho!” Catarina deu-lhe um terceiro bocado e ele se levantou, forte e lampeiro, vestiu-se e foi se sentar junto ao fogo.

Quando o pessoal chegou na manhã seguinte, encontrou Catarina e o jovem pnncipe quebrando nozes juntos. Nesse meio tempo, o irmão do príncipe vira Ana e caíra de amores por ela, como faziam todos que viam seu lindo rosto. Assim o filho doentio casou-se com a irmã sadia e o irmão sadio casou-se com a irmã doentia, e todos viveram felizes e morreram felizes e nunca beberam de um copo vazio.

As Flores da Pequena Ida-Um Lindo Conto de Fadas de Hans Christian Andersen

As Flores da Pequena Ida-(Versão Original)
Por: Hans Christian Andersen
Minhas pobres flores estão todas mortas – disse a pequenina Ida. – Estavam tão bonitas à noite pas­sada, e agora todas as flores pendem, murchas. Por que será? – perguntou ao estudante de quem gostava muito e estava sentado com ela no sofá.

Ele contava-lhe as mais belas histórias, e sabia re­cortar figuras muito engraçadas – corações com mu­lheres dançando dentro deles diversos tipos de flores, e grandes castelos, cujas portas se podiam abrir. Em suma, era um estudante alegre.

-   Por que estarão as flores tão tristes hoje? – tor­nou  a perguntar Ida, e mostrou-lhe  todo um buquê inteiramente murcho.

-   Sabes o que há? – disse o estudante.  – As flores estiveram no baile esta noite, e por isso estão com as cabeças pendendo de cansadas.

-   Mas as flores não sabem dançar! – disse a pe­quena Ida.

Sabem, sim – contestou o estudante. – Quan­do é noite, e todos nós vamos dormir, elas pulam, ale­gres. Quase todas as noites elas vão ao baile!

Crianças podem ir a esse baile?

Podem – esclareceu o estudante. – Mas só as pequeninas margaridas e os lírios do vale.

Onde dançam as flores mais bonitas? – pergun­tou Ida.

Já não estiveste várias vezes fora dos portõesda cidade, em frente ao grande palácio onde o rei re­side no verão e onde há um maravilhoso jardim com muitas flores? Já não viste os cisnes que ali nadam ao teu encontro, quando lhes dás migalhas de pão? Pois é. Lá fora há o baile, podes crer!

Ontem mesmo estive lá fora, no jardim, com a minha mãe – disse Ida. – Mas todas as folhas ti­nham caído das árvores e nelas não havia flores. Onde estarão elas? Vi tantas, no último verão!

Estão no castelo – explicou o estudante.  – Deves saber que, mal o rei e os cortesãos vêm cá para a cidade, as flores deixam o jardim e correm muito ale­gres a instalar-se no castelo.  Devias vê-las! As duas rosas mais bonitas sentam-se no trono, e fazem as ve­zes de rei e de rainha. Todas as cristas-de-galo verme­lhas se perfilam, reverentes, são os camareiros. As mais graciosas flores vão chegando, e há então o grande bai­le. Os jacintos são pequenos cadetes navais, e dançam com as violetas, a quem chamam senhoritas. As tulipas e os grandes lírios amarelos são damas idosas – zelam pela correção e decência do baile.

Mas – perguntou a pequena Ida – ninguém faz nada às flores por dançarem no palácio do rei?

Ninguém o sabe ao certo – disse o estudante.- Às vezes, à noite, aparece, com seu grande molho de chave, o velho administrador. Assim que ouvem o tilintar das chaves, as flores ficam  bem quietinhas, escondidas atrás das cortinas, e põem apenas a cabeça de fora.  “Estou sentindo cheiro de flores cá dentro”, diz o velho administrador do castelo. Mas não consegue vê-las.

- Claro!  – respondeu o estudante.  – Quando querem, até voar sabem. Não já viste as belas borbole­tas vermelhas, amarelas e brancas, que quase parecem flores? Pois de fato já o foram um dia. Saltaram das hastes para o espaço, bateram as pétalas como se fos­sem azinhas, e saíram voando.  Por se terem compor­tado direitinho, foi-lhes permitido voar também duran­te o dia e não regressaram para ficar de novo imóveis nas hastes. Assim, as pétalas acabaram por transfor­mar-se em verdadeiras asas. Tu mesma o viste. Entre­tanto, é possível que as flores do Jardim Botânico nunca tenham estado no palácio do rei e nem saibam que ali é tão alegre à noite. Por isso vou dizer-te uma coisa que deixará perplexo o professor de botânica que mora aí, ao lado, tu o conheces, não é? Quando entrares no seu jardim, deves contar a uma das flores que há um grande salão de baile no castelo; ela o contará as ou­tras, e todas sairão voando. O professor virá ao jardim, e lá não encontrará mais uma única flor, sem que ele possa, entretanto, compreender para onde  foram.


- E o professor entende os sinais delas? – per­guntou Ida.

-    Decerto que entende! Desceu ao jardim outro dia, e viu uma grande urtiga fazendo sinais, com as folhas, para um cravo vermelho, dizendo: “És tão belo, e gosto tanto de ti!” Mas o professor, como não tolera coisas assim, logo bateu nas folhas da urtiga, que são os dedos da planta.  Mas machucou-se nelas, e desde então não mais se atreveu a tocar nas urtigas.

-    Que engraçado! – disse a pequena Ida, rindo.

-    Como é possível meterem semelhantes bobagens na cabeça de uma criança!  – observou o conselheiro da chancelaria, que viera fazer uma visita e também estava sentado no sofá.

Não gostava do estudante,, e resmungava sempre que o via recortando as suas figurinhas, ora a de um homem pendurado na forca, com um coração na mão, a indicar um ladrão de corações, ora a de uma velha bruxa montada numa vassoura, levando o marido no nariz. Disso o conselheiro não gostava.

-  Então isso são coisas que se metem na cabeça de uma criança? – protestava. – Que fantasias tolas!

Mas a pequena Ida achava muito engraçado o que o estudante contava das flores, e pensava atentamente no que ouvira. As flores deixavam pender a cabeça por estarem cansadas de dançar toda a noite; com certeza estavam até doentes! Levou-as para junto dos seus brin­quedos, arrumados numa linda mesinha com a gaveta cheia de coisas bonitas. Numa caminha, estava deitada a sua boneca Sofia, dormindo, mas a pequenina Ida lhe disse:

-  Tens de levantar, Sofia, e contentar-te com pas­sar esta noite na gaveta. As pobres flores estão doen­tes, precisam deitar na tua cama, onde talvez fiquem boas.

Assim dizendo, retirou a boneca, que fez cara feia, mas não disse uma só palavra, zangada por não poder ficar em sua caminha.

Ida deitou as flores na cama da boneca, cobriu-as bem com o cobertorzinho, mandou-as ficar bem quietinhas e lhes disse que ia fazer chá para elas, para que sarassem e se levantassem na manhã seguinte. Puxou bem o cortinado em redor da caminha, para que o sol não lhes doesse nos olhos.





Durante toda a noite não pôde deixar de pensar no que o estudante lhe contara, e, quando chegou a hora de ir ela própria para a cama, foi primeiro es­piar atrás das cortinas das janelas, onde estavam as belas flores de sua mamãe, uns jacintos e tulipas.

- Sei que vão ao baile esta noite! – murmurou ela baixinho.

As flores fingiram nada entender, não moveram uma folha, mas a pequena Ida sabia de tudo.

Na cama, ficou ainda muito tempo pensando co­mo devia ser bonito ver dançar as graciosas flores lá fora, no castelo do rei. “Será que minhas flores já estiveram lá?”, pensou. Mas acabou adormecendo. Mais tarde, tornou a acordar. Sonhara com as flores e com o estudante, que o conselheiro repreendia, di­zendo que ele punha tolices na cabeça dela. No quar­to tudo estava quieto. Na mesa ardia a lamparina, e o pai e a mãe dormiam.

- Será que minhas flores estão deitadas na cama de Sofia? – disse de si para si a pequena Ida. – Quanto eu gostaria de sabê-lo!

Ergueu-se um pouco e olhou para a porta entrea-berta. Lá dentro estavam as flores e todos os seus brinquedos. Pôs-se a escutar, e pareceu-lhe ouvir que tocavam piano na sala, mas baixinho, tão de leve como nunca antes ouvira.

-  Agora, decerto, todas as flores estão dançando lá dentro! – disse ela. – ó, meu Deus, como eu gostaria de vê-las!

Mas não ousou levantar-se, para não acordar o pai e a mãe.
-  Tomara que entrem aqui…

As flores, porém, não entraram, e a música conti­nuou a soar, doce e suave. Ida não pôde mais resistir àquele mágico encanto. Saiu de sua caminha e foi, pé ante pé, até a porta, e espiou. Ah! Como era engraçado o que viu na sala! Apesar de não haver lamparina lá dentro, havia claridade bastante, pois a Lua iluminava a sala através da janela aberta. Os jacintos e as tuli­pas formavam duas longas filas – na janela não havia mais nenhuma flor, só os vasos vazios. Pelo soalho, todas as flores dançavam, graciosas, fazendo roda, dan­do umas às outras as longas folhas verdes. Junto ao piano estava sentado um grande lírio amarelo, certa­mente o mesmo que ela vira no verão, pois se lembrava bem do que dissera o estudante: “Como esta flor se parece com a senhorita Lina!” Então, todos tinham zombado dele. Agora, porém, também Ida achava se­melhança entre a longa flor amarela e a senhorita Lina. A flor também se portava da mesma maneira que da Lina ao tocar piano, inclinava ora para um lado, ora para outro o longo rosto amarelo, meneava a cabeça ao compasso da música. Ninguém reparou na pequena Ida. De repente, ela viu uma grande flor de açafrão azul pular bem no meio da mesa, onde estavam os brin­quedos, e ir direitinho à cama da boneca e puxar as cortinas para o lado. Ali estavam as flores doentes, que, no entanto, logo se ergueram e acenaram para as outras, avisando que também queriam dançar. O ve­lho boneco, limpador de chaminés, cujo lábio inferior se partira, pôs-se de pé, fez reverências às flores, que já não tinham aspecto doentio e pulavam entre as ou­tras, muito alegres.

Alguma coisa pareceu cair da mesa, e Ida para lá voltou os olhos. Viu a vara de bétula pular para baixo. Sem dúvida, a vara achava que também fazia parte das flores. Era, de fato, muito airosa e trazia no alto um pequeno boneco de cera, que tinha na cabeça um lar­go chapéu, exatamente como aquele usado pelo conse­lheiro da chancelaria. A vara pulava no meio das flo­res com as suas três pernas de pau vermelhas, dança­va a mazurca sapateando, o que as outras flores não podiam fazer, por serem leves demais para sapatear.

O boneco de cera, no topo da vara da bétula, tor­nou-se subitamente comprido, girou por sobre as flo­res de papel e gritou em voz alta: “Então, isso são coi­sas que se metam na cabeça de uma criança! Que fan­tasias tolas!”

O boneco de cera era direitinho o conselheiro, com o largo chapéu e tudo, até mesmo a cara amarela e azeda. Mas as flores de papel batiam-lhe em torno das pernas finas, até obrigá-lo a encolher-se de novo e tor­nar-se o minúsculo bonequinho de cera que fdra antes. Tudo aquilo era muito divertido, e a pequena Ida não pôde deixar de rir. A vara continuou a dançar e o con­selheiro tinha de dançar também, não havia como fur­tar-se, quer fosse ele comprido, quer continuasse a ser o pequeno boneco de cera amarela, com o grande cha­péu preto. Foi quando as outras flores intercederam, principalmente aquelas que tinham estado deitadas na cama da boneca, e a vara de bétula parou. No mesmo instante, ouviram-se fortes batidas no interior da gaveta, onde, ao lado de muitos brinquedos, estava guardada a boneca Sofia. O limpador de chaminés correu ao can­to da mesa, deitou-se de barriga para baixo, em todo o comprimento, e conseguiu abrir um pouquinho a ga­veta. Sofia surgiu admirada, e olhou ao redor.

-    “Parece que aqui há baile!” – disse ela.  – “Por que ninguém me avisou?”

-    “Queres  dançar comigo?” – perguntou-lhe o limpador de chaminés.
-    “Logo com quem!” – retrucou a boneca, dando-lhe as costas.

Sentou-se na gaveta, pensando que certamente vi­ria urna flor tirá-la para dançar. Mas nenhuma veio. Ela tossiu, para chamar a atenção sobre si, mas nem uma só flor notou-a. O limpador de chaminés dançou sozinho, o que era melhor do que nada.

Nenhuma das flores parecia ver a boneca, e So­fia deixou-se cair da gaveta ao soalho, fazendo baru­lho. Todas as flores vieram então correndo, e pergun­taram se ela não se machucara. Mostravam-se muito amáveis com ela, principalmente as que tinham dor­mido em sua caminha. Mas ela não se machucara, e as flores de Ida agradeceram-lhe a boa cama, disse­ram que gostavam muito dela. Levaram-na depois ao meio da sala, onde chegava a luz da Lua, e dançaram com ela, enquanto as outras flores formavam roda, com a boneca no meio. Sofia mostrou-se contente, e disse que podiam ficar com a cama quanto tempo sessem, pois ela não se incomodava de dormir na ga­veta.

Mas as flores disseram:

-    “Muito te agradecemos, mas não vivemos tan­to como imaginas.  Amanhã estaremos todas mortas.Dize à pequena Ida que nos enterre no jardim, onde
está enterrado o canário. No verão nasceremos de no­vo, e seremos muito mais belas.”

-    “Não!”   -   protestou   Sofia.   -   “Não   deveismorrer!”



Beijou-as, e abriu-se então a porta da sala e entrou dançando uma infinidade de outras flores. Ida não pôde compreender de onde teriam vindo. Eram com certeza as flores do palácio real. Na frente, vinham duas magní­ficas rosas, com pequenas coroas de ouro na cabeça: eram o rei e a rainha. Vinham em seguida os mais gra­ciosos goivos e cravos, saudando para todos os lados as outras flores. Surgiu em seguida a banda de música. Grandes papoulas e peônias sopravam em vagens de er­vilha, com toda a força, a ponto de ficarem vermelhas. As campânulas azuis e os pequenos e alvos galantes ti­niam, como se carregassem campainhas. Era uma músi­ca divertida. Vieram muitas outras flores, todas dan­çando, violetas azuis, boninas vermelhas, margaridinhas e convalárias. Todas as flores se beijavam: eram cenas encantadoras.

Por último, as flores deram boa-noite umas às ou­tras, e também a pequena Ida esgueirou-se para a cama, onde dormiu e sonhou com tudo quanto vira.

Ao levantar-se, na manhã seguinte, dirigiu-se logo à mesinha, a ver se as flores ainda lá estavam. Puxou para um lado as cortinas, e viu-as todas, mas estavam murchas, muito mais do que no dia anterior. Sofia es­tava deitada na gaveta, onde Ida a deixara, mas tinha cara de sono.

- Lembras-te do recado que tens para me dar? – perguntou Ida.

Mas Sofia tinha uma expressão absolutamente parva, e não dizia uma só palavra.

-  Não és boa amiga – disse Ida. – Esqueces que todas elas dançaram contigo.

Tomou uma caixinha de papelão, forrada de papel com pássaros pintados, abriu-a, e nela depositou as flo­res mortas.

-  Este será o vosso caixão funerário – disse ela às flores. – E quando os meus primos chegarem, esta­rão presentes ao sepultamento, no jardim, onde no ve­rão podereis nascer de novo e ser muito mais belas!

Os primos de Ida eram dois guapos rapazes cha­mados Jonas e Adolfo. O pai presenteara-lhes com dois lindos arcos, que trouxeram do norte para mostrar a Ida. Ela contou-lhes tudo a respeito das pobres flores que tinham morrido, e foi-lhes permitido enterrá-las. Os dois meninos iam na frente, com os arcos ao ombro, e a pequena Ida ia atrás, com as flores dentro da cai­xa. Cavaram no jardim uma pequena sepultura. Pri­meiro, Ida beijou as flores, depois enterrou a caixa com elas dentro. E Adolfo e Jonas lançaram flechas sobre o túmulo, com os seus pequenos arcos, pois não tinham espingardas nem canhão para a cerimônia.

Os Elfos-Conto dos Irmãos Grimm-Versão Original

Os Elfos
Conto dos Irmãos Grimm

Era uma vez um sapateiro que tinha ficado tão pobre, mesmo sem culpa nenhuma, que a única coisa que lhe restara era um pedaço de couro que dava para fazer um único par de sapatos. De noite, ele cortou o molde dos sapatos, planejando começar a trabalhar neles no dia seguinte. Depois, de consciência tranqüila, foi calmamente para a cama, entregou-se a Deus, e adormeceu.

De manhã, rezou suas orações e ia se sentar para começar a trabalhar quando viu que os sapatos estavam prontinhos em cima da banca. Ficou tão espantado, que nem sabia o que pensar. Pegou os sapatos e olhou de perto. Não havia um único ponto irregular e estava perfeito como se tivesse sido feito por um mestre-artesão.

Melhor ainda: logo chegou um cliente que gostou tanto dos sapatos que pagou por eles mais do que seria o preço normal. Com o dinheiro, o sapateiro ia comprar um pedaço de couro que dava para fazer dois pares de sapatos. Novamente, ele deixou os moldes cortados de noite, antes de ir deitar, pretendendo trabalhar neles com mais ânimo no dia seguinte. Mas nem precisou, porque quando se levantou os sapatos já estavam prontos. E também logo chegaram compradores, que lhe pagaram o suficiente para que ele comprasse couro para quatro pares novos.

Na manhã seguinte, ele encontrou os quatro pares prontos. E assim continuou: os sapatos que ele deixava cortados de noite estavam terminados de manhã. Em pouco tempo ele estava conseguindo se manter decentemente e, daí a mais um pouco, estava rico.

 Numa noite, pouco antes do Natal, depois que o sapateiro tinha cortado o couro e eles estavam se preparando para ir dormir, ele disse para a mulher:

— E se a gente ficasse acordado hoje para ver quem é que está nos ajudando?
A mulher gostou da idéia e deixou a lâmpada acesa. Os dois se esconderam num canto, atrás de umas roupas, e ficaram esperando. À meia-noite, dois homenzinhos nus e com ar muito esperto entraram, se iclinaram diante da banca de trabalho, pegaram as peças que estavam cortadas e começaram a furar, costurar e martelar com tanta rapidez e agilidade em dedinhos pequenos que o sapateiro nem acreditava, de tão espantado. Trabalharam sem um momento de descanso, até que os sapatos estavam prontinhos, em cima da banca. Então saíram correndo e foram embora. Na manhã seguinte, a mulher disse:

— Esses homenzinhos nos fizeram ficar ricos. Devíamos mostrar a eles como estamos gratos. Eles devem ter frio, coitados, correndo de um lado para outro sem nada para vestir. Sabe de uma coisa? Vou fazer umas camisas e calças para eles, coletes, e casacos… E você podia fazer uns pares de sapatos.

— Ótima idéia disse o sapateiro.

Naquela noite, quando aprontaram tudo, deixaram os presentes em cima da banca de trabalho, em vez dos moldes de couro cortado. Depois se esconderam para ver o que os homenzinhos iam fazer. À meia-noite, lá chegaram eles correndo, prontos para trabalhar. De início, ficaram meio intrigados ao ver aquelas roupinhas, em vez do couro cortado. Mas deram pulos de alegria. Ligeiros como o relâmpago, vestiram as roupinhas lindas, se ajeitaram todos e cantaram:

— Estamos lindos, tão elegantes. sem mais trabalho, como era antes…

Pularam e dançaram, saltaram por cima das cadeiras e dos bancos, e finalmente saíram pela porta afora, sem parar de dançar. Depois disso, nunca mais voltaram, mas o sapateiro continuou prosperando até o fim de seus dias, porque tudo em que ele punha as mãos dava certo.


A Bela Adormecida-Conto de Charles Perrault

A Bela Adormecida
Por:Charles Perrault



Há muito tempo, viviam um rei e uma rainha que todos os dias diziam: “Ah, se nós tivéssemos uma criança!”, e nunca conseguiam uma. Aí aconteceu que, uma vez em que a rainha estava se banhando, um sapo rastejou para fora da água e lhe disse “Seu desejo será realizado; antes que se passe um ano, você dará à luz uma menina”. Aquilo que o sapo dissera aconteceu, e a rainha teve uma menina que era tão formosa que o rei mal se continha de felicidade, e preparou uma grande festa. Ele não apenas convidou seus parentes, amigos e conhecidos, como também as fadas, a fim de obter suas boas graças para a criança. Havia treze delas em seu reino, mas como ele só possuía doze pratos de ouro, nos quais elas poderiam comer, uma delas teria de ficar em casa. A festa foi celebrada com toda a pompa e, quando chegou ao fim, as fadas presentearam a criança com dotes mágicos: uma com a virtude, outra com a formosura, a terceira com riqueza, e assim com tudo o que há de desejável no mundo. Quando onze já tinham falado, entrou de repente a décima terceira. Ela queria se vingar por não ter sido convidada e, sem cumprimentar ou mesmo olhar para quem quer que seja, exclamou aos brados: “A princesa deverá espetar-se em um fuso quando tiver quinze anos, e cair morta.” E sem dizer mais nada, virou as costas e deixou o salão. Todos estavam assustados, e então se adiantou a décima segunda, que ainda não tinha feito seu desejo, e como não podia anular a maldição, mas apenas abrandá-la, ela disse: “A princesa não morrerá, apenas cairá em um sono profundo que durará cem anos.”

O rei, que queria salvar sua querida criança do infortúnio, ordenou que todos os fusos do reino inteiro fossem queimados. Na menina, entretanto, realizaram-se plenamente todos os dons das fadas, pois ela era tão bela, educada, gentil e sensata que todos que a viam não podiam deixar de gostar dela. Sucedeu que, justamente no dia em que ela completava quinze anos, o rei e a rainha não estavam em casa, e a menina estava sozinha no castelo. Ela andou então por todos os cantos, examinou à vontade aposentos e câmaras, e finalmente chegou até uma velha torre. Subiu a estreita escada em espiral e deparou-se com uma pequena porta. Na fechadura havia uma chave enferrujada e, quando ela a girou, a porta se abriu de um só golpe e lá, em um quartinho, estava sentada uma velha com um fuso, fiando diligentemente seu linho. “Bom dia, velha mãezinha”, disse a princesa, “o que você está fazendo aí?” “Eu estou fiando,” disse a velha, e balançou a cabeça. “O que é isto, que pula tão alegremente?” perguntou a menina, e pegou o fuso querendo também fiar. Mal ela tinha tocado o fuso, a maldição se realizou, e ela espetou-se no dedo.

Mas, no mesmo instante em que foi picada, ela caiu na cama que ali estava, e foi tomada de um profundo sono. E este sono estendeu-se por todo o castelo: o rei e a rainha, que tinham acabado de chegar e entrado no salão, começaram a dormir, e com eles toda a Corte. Dormiram então também os cavalos no estábulo, os cachorros no pátio, as pombas no telhado, as moscas na parede, e até o fogo, que chamejava no fogão, ficou imóvel e adormeceu, e o assado parou de crepitar, e o cozinheiro, que queria puxar seu ajudante pelos cabelos porque ele havia feito uma coisa errada, soltou o menino e dormiu. E o vento assentou-se, e nas árvores defronte ao castelo nem uma folhinha se movia.

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Ao redor do castelo começou porém a crescer uma cerca de espinhos, que a cada ano ficava mais alta e que, por fim, estendeu-se em volta de todo o castelo e cobriu-o de tal forma que nada mais se podia ver dele, nem mesmo a bandeira sobre o telhado. Começou então a correr no país a lenda da bela adormecida, pois assim era chamada a princesa, de modo que de tempos em tempos chegavam príncipes que tentavam penetrar no castelo através da cerca viva. Mas nenhum deles conseguiu, pois os espinhos estavam tão entrelaçados como se tivessem mãos, e os jovens ficavam presos neles e não conseguiam se soltar, sofrendo uma morte lastimável. Depois de muitos anos, chegou mais uma vez um príncipe ao reino e ouviu quando um velho contava da cerca de espinhos, e que havia um castelo atrás dela, no qual uma linda princesa, chamada Bela Adormecida, já dormia há cem anos, e com ela dormia o rei e a rainha e toda a corte. Ele também sabia pelo seu avô que muitos príncipes já haviam vindo e tentado penetrar pela cerca viva de espinhos, mas haviam ficado presos nela e morrido tristemente. O jovem então disse: “Eu não tenho medo, eu quero ir lá e ver a Bela Adormecida.” O bom velho tentou dissuadi-lo de todos os modos, mas ele não deu ouvidos às suas palavras.

Mas agora os cem anos tinham justamente acabado de transcorrer, e havia chegado o dia em que Bela Adormecida deveria acordar. Quando o príncipe se aproximou da cerca de espinhos, estes não eram agora mais do que flores grandes e bonitas que por si sós se abriram e o deixaram passar ileso, e se fecharam atrás dele, formando novamente uma cerca. No pátio do castelo ele viu os cavalos e os cães de caça malhados deitados e dormindo, no telhado estavam pousadas as pombas, e tinham a cabecinha metida debaixo da asa. E quando ele entrou na casa, as moscas dormiam na parede, o cozinheiro na cozinha ainda levantava a mão como se quisesse agarrar o menino, e a criada estava sentada diante da galinha preta que deveria ser depenada.

Ele então continuou andando, e avistou no salão toda a corte deitada e dormindo, e lá em cima, perto do trono, estavam deitados o rei e a rainha. Aí ele continuou andando ainda mais, e tudo estava tão quieto que se podia ouvir sua respiração, e chegou finalmente à torre e abriu a porta do quartinho, no qual Bela Adormecida dormia. Lá estava ela deitada, e era tão bela que ele não conseguia desviar os olhos, e ele se inclinou e beijou-a. Quando ele a tinha tocado com os lábios, Bela Adormecida abriu os olhos, acordou e olhou para ele amavelmente. Então os dois desceram, e o rei acordou, e a rainha e toda a corte, e se olharam espantados. E os cavalos no pátio se levantaram e se sacudiram; os cães de caça pularam e abanaram suas caudas; as pombas no telhado tiraram a cabecinha de sob a asa, olharam ao redor e voaram para o campo; as moscas nas paredes recomeçaram a rastejar; o fogo na cozinha levantou-se, chamejou e cozinhou a comida; o assado voltou a crepitar; e o cozinheiro deu um tamanho tabefe no menino que este gritou; e a criada terminou de depenar a galinha. E aí foram festejadas com todas as pompas as bodas do príncipe com a Bela Adormecida, e eles viveram felizes até o fim.

sábado, 10 de setembro de 2011

Conto de Hans Christian Andersen-A Polegarzinha

A Polegarzinha
Por:Hans Christian Andersen






Era uma vez uma mulher que queria ter um filho muito pequenino, mas não sabia como havia de fazer para encontrar um. Então, foi ter com uma velha bruxa e disse-lhe:

— Gostava tanto de ter um filho pequenino! Não sabes dizer-me onde posso arranjar um?

— Oh, isso não é difícil — disse a bruxa. — Aqui tens um grão de cevada, e olha que não é da que cresce nos campos dos lavradores nem daquela que as galinhas comem. Planta este grão num vaso e verás o que acontece!

— Oh, obrigada! — disse a mulher, dando uma moeda de prata à bruxa.

Depois foi para casa e semeou o grão. Não foi preciso esperar muito tempo para que nascesse uma bela flor; parecia uma túlipa, mas as pétalas estavam muito fechadas como se fosse ainda um botão.

— Que linda flor! — disse a mulher, dando um beijo nas pétalas vermelhas e amarelas.

Nesse preciso momento, a flor abriu-se com um forte estalido. Era realmente uma túlipa — agora via-se bem —, mas mesmo no centro da flor, no centro verde, estava sentada uma menina minúscula, graciosa e delicada como uma fada. Não era maior que metade de um polegar, e por isso ficou a chamar-se Polegarzinha.

A cama em que dormia era uma casca de noz muito bem polida; tinha um colchão de pétalas de violeta azuis-escuras e o seu cobertor era uma pétala de rosa. Dormia ali à noite, mas durante o dia brincava em cima da mesa, onde a mulher tinha posto um prato de sopa cheio de água com um círculo de flores à volta, com os caules virados para o meio. Dentro do prato, a flutuar, estava uma grande pétala de túlipa em que a Polegarzinha se podia sentar e remar de um lado para o outro usando dois pêlos brancos de cavalo como remos. Era lindo de se ver! Ela também sabia cantar, e tinha a vozinha mais frágil e mais doce que jamais se ouviu.



Uma noite, quando estava deitada na sua linda cama, um sapo entrou no quarto através de um vidro partido da janela. O sapo parecia muito grande e estava molhado quando saltou para cima da mesa onde a Polegarzinha dormia profundamente debaixo da sua pétala de rosa.

— Ora aqui está uma bela esposa para o meu filho! — disse o sapo.

E pegou na cama de casca de noz em que a Polegarzinha estava a dormir e saltou com ela através da janela para o jardim. No fim do jardim corria um largo regato, de margens pantanosas e lamacentas; era aí que o sapo vivia com o seu filho.

Este não era nada bonito; na realidade, era igualzinho ao pai.

— Croc! Croc! Brec-rec-rec! — foi tudo quanto disse quando viu a linda menina na casca de noz.

— Não fales tão alto, se não ela acorda — disse-lhe o pai. — Olha que pode fugir, porque é leve como uma pena de cisne. Já sei, vamos pô-la no meio do rio, em cima de uma daquelas grandes folhas de nenúfar! Assim, ela vai pensar que está numa ilha, porque é uma criaturinha minúscula. Entretanto, nós podemos começar a preparar o melhor quarto debaixo da lama, para vocês os dois lá viverem.

No regato, havia muitos nenúfares com grandes folhas verdes que pareciam flutuar soltas na água. A folha que estava mais longe era também a maior de todas, e foi nela que o velho sapo poisou a casca de noz com a Polegarzinha. A pobre menina acordou muito cedo e, quando viu onde estava, começou a chorar amargamente, porque havia água a toda a volta da grande folha e era impossível voltar para terra.

Entretanto, o velho sapo andava metido na lama, decorando atarefadamente o quarto com juncos e flores aquáticas amarelas, para ficar bonito e alegre para a sua futura nora. Depois, acompanhado pelo filho, nadou até à folha onde estava a Polegarzinha. Iam buscar a linda cama de casca de noz para a colocarem no quarto antes de a noivazinha ir para lá. O velho sapo, ainda dentro de água, fez uma profunda vénia e disse à Polegarzinha:

— Este é o meu filho. Vai ser o teu marido, e vocês os dois vão viver muito felizes numa bela casa debaixo da lama.

— Croc! Croc! Brec-rec-rec! — foi tudo o que o filho disse.

Então, pegaram na bonita caminha e lá foram a nadar com ela, enquanto a Polegarzinha ficava sozinha na folha verde, a chorar, porque não lhe apetecia nada viver com o velho sapo nem casar com o filho dele. Ora os peixinhos que nadavam ali por baixo tinham visto o sapo e ouvido o que ele dissera, de maneira que deitaram as cabeças de fora para verem a menina. Mas, assim que o fizeram, viram como era bonita e ficaram cheios de pena por ela ter de ir viver na lama com o sapo. Não, isso não podia acontecer! Juntaram-se em redor do pé verde da folha em que ela estava e puseram-se a roê-lo sem parar.

Lá foi a folha, flutuando pelo regato, levando a Polegarzinha para longe, cada vez para mais longe, para onde o sapo não podia ir.

Quando ela passava, os passarinhos nas árvores cantavam “Que linda criaturinha!” assim que a viam. E a folha lá ia a deslizar, cada vez para mais longe – e foi assim que a Polegarzinha chegou a outro país.

Uma linda borboleta branca esvoaçava por cima dela e acabou por poisar na folha, porque tinha começado a gostar da menina. Como ela estava feliz agora! O sapo já não podia apanhá-la e era tudo maravilhoso à sua volta, para onde quer que olhasse. A água, onde o sol brilhava, parecia ouro a cintilar. A Polegarzinha tirou o seu cinto e deu uma ponta à borboleta amiga e atou a outra à folha. Agora é que ia mesmo depressa!

Nesse momento, um grande escaravelho apareceu a voar por cima dela. Assim que viu a menininha, agarrou-a num ápice pela cintura e voou com ela para o cimo de uma árvore. A folha verde continuou a flutuar rio abaixo com a borboleta.

Meu Deus!, como a Polegarzinha ficou assustada quando o escaravelho a levou para cima da árvore! E como teve pena da sua amiga, a borboleta branca! Mas o escaravelho não queria saber disso. Poisou na maior folha verde da árvore e largou-a aí. Deu-lhe pólen para comer e disse-lhe que ela era muito bonita, embora não tanto como um escaravelho.

Em breve, todos os outros escaravelhos que viviam na árvore foram visitá-la. Olhavam para ela, e as jovens escaravelhas encolhiam as antenas, dizendo: “Mas só tem duas pernas, este insecto miserável! Não tem antenas! Tem uma cintura tão fina! Parece mesmo humana! Que feia que é!”, e por aí fora, apesar de a Polegarzinha ser realmente uma criatura linda.

O escaravelho que a tinha levado também era desta opinião, mas quando todas as escaravelhas disseram que ela era horrível, ele começou a pensar o mesmo e acabou por não querer saber dela; podia ir para onde quisesse. Várias escaravelhas pegaram nela e voaram até ao solo, deixando-a em cima de uma margarida. Lá ficou ela a chorar, por ser tão feia que os escaravelhos não a queriam — e, no entanto, era a criaturinha mais bonita que se podia imaginar, mais bela que a mais perfeita pétala de rosa.

Durante todo o Verão, a pobre Polegarzinha viveu completamente sozinha na grande floresta. Teceu uma cama com ervas e pendurou-a como se fosse uma rede por baixo de uma grande folha de azeda, para ficar abrigada da chuva. Para comer apanhava mel e pólen das flores e bebia as gotas de orvalho que encontrava todas as manhãs nas folhas. E assim passou o Verão e o Outono, mas depois chegou o Inverno, o longo e frio Inverno. Os passarinhos, que tão docemente tinham cantado, voavam agora para longe, as árvores perdiam as folhas, as flores murchavam. Depois, a grande folha de azeda que lhe fazia de telhado começou a enrolar-se e murchou, até que ficou apenas uma haste seca e amarela. A Polegarzinha tinha imenso frio, porque o seu vestido estava todo roto e ela era muito frágil e pequenina. Em breve morreria de frio. A neve começou a cair, e cada floco que caía sobre ela era tão pesado como uma pazada atirada a um de nós. Afinal, ela só tinha dois centímetros e meio de altura. Embrulhou-se numa folha murcha, mas não conseguiu aquecer-se, e tremia cada vez mais.



Por essa altura, já tinha alcançado a orla da floresta. Mesmo ao lado havia um grande campo de trigo, mas este tinha sido ceifado há muito tempo e só se via o restolho seco na terra gelada. Para ela, aquilo era o mesmo que uma floresta para atravessar e oh!, como ela tremia de frio! Finalmente, chegou à porta de um rato do campo, que vivia numa casinha por baixo do restolho. Era aconchegada e confortável, com um armazém cheio de trigo, uma cozinha quente e uma sala de jantar. A pobre Polegarzinha parou à porta da casa do rato como se fosse uma mendiga e pediu se ele lhe dava um bocadinho de um grão, porque já há dois dias que não comia nada.

— Pobrezinha! — disse o rato do campo, que tinha muito bom coração. — Vem para a cozinha, que está quente, e comes comigo.

Gostou tanto da companhia da Polegarzinha que acabou por lhe dizer:

— Podes ficar comigo durante o Inverno, mas tens de limpar e arrumar a casa e contar-me histórias. Gosto muito de histórias.

A Polegarzinha fez o que o velho rato do campo lhe disse; e o tempo foi passando agradavelmente.

— Em breve teremos uma visita — disse o rato do campo. — O meu vizinho vem visitar-me todas as semanas. A casa dele ainda é melhor do que a minha, com grandes e belos quartos, e ele usa um lindo casaco de veludo preto! Se conseguisses que ele casasse contigo, nunca mais te faltaria nada. Mas ele é quase cego, de maneira que tens de te preparar para lhe contar as melhores histórias que souberes.

A Polegarzinha não gostou muito da ideia. Não lhe apetecia nada casar com o vizinho rico; era um toupeiro, e veio fazer a sua visita com o casaco de veludo preto. O rato do campo lembrou à Polegarzinha como ele era rico e culto; disse-lhe que a casa dele era vinte vezes maior do que a sua.

Que ele sabia muitas, muitas coisas, embora não gostasse do sol e das lindas flores, porque nunca os tinha visto. A Polegarzinha teve de cantar para ele, e cantou Tive uma nogueirazinha e Joaninha voa, voa. O toupeiro apaixonou-se pela sua linda voz, mas não disse nada, porque era muito cauteloso.

Ele tinha escavado recentemente uma passagem muito longa, que ia da sua casa à do vizinho, e disse ao rato do campo e à Polegarzinha que podiam ir visitá-lo quando quisessem. Mas pediu-lhes que não tivessem medo da ave morta que estava na passagem. Contou-lhes que a ave não tinha qualquer marca nem ferida, não lhe faltavam penas, e o bico estava intacto; devia ter morrido há muito pouco tempo, com a chegada do Inverno, e, de alguma maneira, tinha caído na sua passagem subterrânea.

Então, o toupeiro agarrou num pedaço de madeira podre com a boca (porque a madeira podre brilha como fogo no escuro) e foi à frente para iluminar a longa passagem para os seus convidados. Depressa chegaram ao sítio onde estava a ave, e o toupeiro empurrou o tecto com o focinho largo, levantando a terra para fazer um buraco que deixou entrar a luz do dia. E lá estava uma andorinha, com as lindas asas encostadas ao corpo, as pernitas e a cabeça escondidas nas penas; a pobre ave de certeza que tinha morrido de frio. A Polegarzinha teve muita pena dela, porque amava todas as avezinhas, que tinham cantado e chilreado para ela de uma maneira tão encantadora durante todo o Verão. Mas o toupeiro empurrou a andorinha para o lado com as suas pernitas curtas e disse:

— Esta já não assobia mais! Que pouca sorte nascer ave! Felizmente que nenhum dos meus filhos será como elas. Uma ave não sabe fazer nada a não ser dizer tuit-tuit e depois morrer de fome no Inverno!

— Sim, lá nisso tens razão — disse o rato do campo. — Com todo o seu tuit-tuit, que é que elas fazem quando chega o Inverno? Morrem de fome e de frio. E, no entanto, toda a gente as acha muito importantes.

A Polegarzinha não disse uma palavra, mas, quando os outros recomeçaram a andar, baixou-se, afastou meigamente as penas da cabeça da andorinha e beijou-lhe os olhos fechados.

— Talvez esta seja a que cantou tão suavemente para mim durante o Verão — pensou. — Que felicidade me deu esta pobre avezinha da floresta!

Então, o toupeiro tapou o buraco que tinha feito para deixar entrar a luz do dia e acompanhou as visitas a casa. Mas nessa noite a Polegarzinha não conseguia dormir, de maneira que levantou-se e teceu uma cobertazinha de feno. Quando acabou, foi pô-la em cima da ave. Ao lado, deixou um pouco de lanugem de cardo que tinha encontrado na sala de estar do rato do campo, para que a ave pudesse repousar quentinha sobre a terra fria.

— Adeus, linda andorinha! — disse ela. — Adeus e obrigada pelas tuas belas canções no Verão, quando as árvores estavam verdes e o Sol brilhava tão alegremente sobre nós todos!

Depois encostou a cabeça ao coração da andorinha — mas ficou logo muito espantada, porque parecia que alguma coisa batia lá dentro. Era o coração da andorinha a bater. Não estava morta, apenas entorpecida pelo frio, e, como tinha sido aquecida, começava a voltar a si.

No Outono, as andorinhas voam todas para terras mais quentes, mas, se uma delas se atrasa, o frio pode fazê-la gelar; então cai no chão e depressa fica coberta de neve.

A Polegarzinha tremia, assustada; a ave era muito maior do que ela, que só tinha dois centímetros e meio de altura. Mas encheu-se de coragem e aconchegou a lanugem de cardo ao corpo da pobre andorinha. Depois, foi a correr buscar a sua coberta, uma folha de hortelã, para lhe tapar a cabeça.

Na noite seguinte, esgueirou-se outra vez para visitar a andorinha — ela estava realmente viva, mas tão fraca que mal pôde abrir os olhos para olhar para a Polegarzinha. Ali estava ela, com um pedacinho de madeira podre na mão, porque não tinha outra lanterna.

— Obrigada, obrigada, linda menina — disse a andorinha doente. — Aqueceste-me tão bem que depressa estarei suficientemente forte para voar ao sol brilhante.

— Oh! — exclamou a Polegarzinha —, ainda está muito frio lá fora! Há neve e gelo por todo o lado. Fica aí na tua caminha quente que eu trato de ti.

Depois levou-lhe água numa folha, e a andorinha bebeu e contou-lhe como tinha magoado uma asa numas silvas e, por isso, não tinha conseguido voar tão depressa como as outras andorinhas quando partiram para terras mais quentes. Por fim, acabara por cair, e não se lembrava de mais nada. Não fazia a menor ideia de como tinha ido parar ali.

Durante todo o Inverno, a andorinha ficou na passagem subterrânea. A Polegarzinha tratou dela e tornou-se muito sua amiga. Mas não disse nada ao toupeiro nem ao rato do campo, porque eles não gostavam de avezinhas. Por fim, chegou a Primavera e os raios de Sol começaram a atravessar a terra. A andorinha disse adeus à Polegarzinha e reabriu o buraco que o toupeiro tinha feito no tecto da passagem. A luz do Sol encheu ambas de alegria, e a andorinha pediu à Polegarzinha que fosse com ela; podia subir para as suas costas e voariam para a floresta cheia de verdura. Mas a Polegarzinha sabia que o velho rato do campo ficaria triste se ela se fosse embora assim sem mais nem menos.

— Não, não posso ir — disse ela.

— Então adeus, adeus, linda menina bondosa! — respondeu a andorinha, voando em direcção ao Sol.

A Polegarzinha viu-a subir no céu, e os seus olhos encheram-se de lágrimas, porque se tinha tornado muito amiga da pobre andorinha.

— Tuit, tuit! — cantou a avezinha, voando em direcção à floresta verde.



A Polegarzinha estava agora muito triste. Não a deixavam sair para a claridade do Sol, e, nos campos onde vivia, o trigo era tão alto que, para ela, era como uma floresta que se erguia muito acima da sua cabeça.

— Tens de ter o teu enxoval pronto este Verão — disse o rato do campo, porque, entretanto, o vizinho toupeiro do casaco de veludo tinha proposto casamento à Polegarzinha. — Precisas de roupas de linho e lã e de muitos cobertores e lençóis quando fores casada com o toupeiro.

A Polegarzinha teve de trabalhar arduamente com a roca, e o toupeiro contratou quatro aranhas para tecerem para ela de dia e de noite. Todas as tardes lhe fazia uma vista e dizia sempre que, quando o Verão acabasse e o Sol não estivesse tão terrivelmente quente e deixasse de queimar a terra até a deixar dura com uma pedra, então casariam. Mas a Polegarzinha não estava nada satisfeita, porque não gostava daquele velho toupeiro tão pomposo. Todas as manhãs, quando o Sol se erguia, e todas as noites, quando se punha, ela esgueirava-se lá para fora; quando o vento fazia ondular as espigas de trigo, conseguia ver o céu azul e pensava sempre como era bom e belo viver ao ar livre. Desejava imenso ver de novo a sua amiga andorinha, mas ela não voltou a aparecer; tinha voado para o bosque verde coberto de folhas.

Quando o Outono chegou, o enxoval da Polegarzinha estava pronto.

— Casas daqui a quatro semanas — disse o rato do campo.

Mas a Polegarzinha começou a chorar e disse que não queria casar com o toupeiro.

— Que disparate! — respondeu o rato do campo. — Não te ponhas com problemas. Arranjaste um marido esplêndido, pois nem a rainha tem um casaco de veludo preto tão bom como o dele! E pensa naquela cozinha e cave tão bem fornecidas! Deves agradecer a tua boa sorte.



E, assim, chegou o dia do casamento. O toupeiro já tinha ido buscar a Polegarzinha, pois ela ia viver com ele bem debaixo do solo; nunca mais poderia apanhar a luz radiante do Sol, porque o toupeiro não a suportava. Cheia de tristeza, foi dizer o último adeus ao Sol brilhante; enquanto vivera com o rato do campo, sempre a tinham deixado ir pelo menos até à porta.

— Adeus, Sol brilhante! — disse ela, erguendo os braços em direcção a ele e dando alguns passos no campo imenso, pois o trigo tinha sido ceifado e só ficara o restolho. — Adeus, adeus — disse ela outra vez, abraçando uma florzinha vermelha que crescia por entre os caules. — Se alguma vez tornares a ver a andorinha, diz-lhe que lhe mando saudades!

Nesse preciso momento ouviu um som — tuit, tuit — mesmo por cima de si. Era a andorinha.

Como estava, contente por ver a sua amiga Polegarzinha! Então esta contou-lhe que tinha de casar nesse mesmo dia com o toupeiro e ir viver com ele debaixo da terra, onde o Sol nunca brilhava. E as lágrimas saltaram-lhe dos olhos só de pensar nisso.

— Vem aí o frio Inverno — disse a andorinha. — Vou voar para longe, para os países quentes. Por que não vens comigo? Podes subir para as minhas costas e atares-te a mim com o teu cinto. Deixamos o toupeiro e a sua casa escura e voamos para muito, muito longe, por cima das montanhas, para um país onde o Sol brilha ainda mais do que aqui, onde é sempre Verão e onde as matas e as florestas estão cobertas das mais belas flores. Ah, vem comigo, querida Polegarzinha, tu que me salvaste a vida quando eu estava gelada na escura passagem debaixo da terra!

— Sim, vou contigo — acabou por dizer a Polegarzinha.

Sentou-se nas costas da ave e atou o cinto a uma das suas penas mais fortes. Então, a andorinha ergueu-se muito alto no céu e voou por cima de florestas, lagos e montanhas onde há sempre neve. O ar gelado fazia a Polegarzinha tremer, mas ela enfiava-se debaixo das penas quentes da ave e só espreitava para olhar, assombrada, para as belas coisas lá em baixo.



Por fim, chegaram aos países quentes. Aí, o Sol brilhava com muito mais intensidade do que a Polegarzinha supunha ser possível; o céu parecia duas vezes mais alto. Ao longo das estradas, havia deliciosas uvas brancas e roxas; limões e laranjas pendiam das árvores; o ar estava perfumado de mirto e de muitas outras plantas aromáticas; e, pelos caminhos, corriam muitas crianças lindas, a brincar por entre coloridas borboletas. Mas a andorinha voou ainda para mais longe, para onde a paisagem era também ainda mais bonita. E então, à sombra de enormes árvores verdes, na margem de um lago azul-safira, viram um palácio muito antigo construído em mármore branco, com videiras enroladas nas suas altas colunas. Mesmo no cimo das colunas havia muitos ninhos de andorinhas, e num deles vivia a amiga da Polegarzinha.

— A minha casa é esta — disse ela. — Mas, se quiseres escolher uma daquelas lindas flores ali em baixo, eu ponho-te lá, e podes viver feliz à tua vontade.

— Ah, como vou gostar! — gritou a Polegarzinha, batendo as mãozinhas.

Uma grande coluna branca estava caída por terra, partida em três bocados, e entre eles cresciam altas e belas flores brancas. A andorinha voou até lá abaixo com a Polegarzinha e poisou-a numa pétala. Então, a Polegarzinha teve uma grande surpresa. Ali, no centro da flor, estava um principezinho, tão belo e delicado que parecia feito de vidro. Tinha na cabeça a coroa de ouro mais bonita que pode imaginar-se e nos ombros um par de asas coloridas e brilhantes, e não era maior do que a própria Polegarzinha. Era o espírito que guardava a flor. Em cada flor havia uma criaturinha igual, mas ele era o rei de todas.

— Que bonito que ele é! — sussurrou a Polegarzinha à andorinha.

O principezinho ao princípio ficou muito assustado com a ave, que lhe parecia gigantesca, mas quando viu a Polegarzinha ficou cheio de alegria. Achou que ela era a mais bela de todas as criaturas que jamais tinha visto, mesmo entre as fadas das flores. Tirou a coroa de ouro da sua cabeça e colocou-a na dela e perguntou-lhe como se chamava e se queria ser sua mulher e rainha de todas as flores.

Bem, este marido podia ela amar de verdade — era muito diferente do filho do sapo ou do velho toupeiro com o seu casaco de veludo. E por isso disse que sim ao belo príncipe. Então, ergueu-se de cada flor uma criaturinha, rapaz ou rapariga, homem ou mulher, tão pequeninas e tão bonitas que era emocionante vê-las. Todas deram uma prenda à Polegarzinha, mas a melhor de todas foi um lindo par de asas. Prenderam-nas aos ombros da Polegarzinha, e agora também ela podia voar de flor em flor. Toda a gente estava cheia de alegria: era como uma maravilhosa festa de Verão. A andorinha, lá em cima no seu ninho, cantou-lhes a canção mais bonita que sabia, mas no fundo estava triste, porque gostava tanto da Polegarzinha que não queria separar-se dela.

— Nunca mais te chamarás Polegarzinha — declarou o príncipe das flores. — Não é um nome suficientemente bonito para uma criatura tão bela como tu. A partir de agora, vamos chamar-te Maia!

— Adeus, adeus — disse a andorinha, quando chegou a altura de voar de novo dos países quentes para a Dinamarca.

Aí, ela tinha um pequeno ninho ao lado da janela do homem que escreve contos de fadas.

— Ouve, ouve — trinou a andorinha para o escritor de contos de fadas…

E foi assim que soubemos esta história.

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Fontes http://guida.querido.net


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