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domingo, 17 de julho de 2011

H.P.Lovecraft - A Àrvore


 A Árvore
                     por:  H. P. Lovecraft
(trad. de KA-AK-KIM)
                                                 Escrito em 1920
             Publicado em outubro de 1921 em The Tryout, Vol. 7, nº 7, pp. 3-10.
                                                                       1                2
        Em uma ladeira verdejante do monte Mênalo  , na Arcádia  , ergue-se um pequeno
bosque   de   oliveiras   nas   imediações   das   ruínas   de   uma   casa   de   campo.   Perto,   há   um
túmulo,   outrora   belo,   com   as   esculturas   mais   sublimes,   mas   agora   tão   abandonado
quanto       a  casa.    Em     uma     das    extremidades        daquele      túmulo,      suas    curiosas     raízes
                                                                             3
deslocando-se entre os blocos de mármore pan-helênico   manchados pelo tempo, cresce
uma      excepcionalmente           grande      oliveira     de   forma      estranhamente         repugnante;        tão
semelhante a um homem grotesco, ou a um corpo humano deformado pela morte, que o
povo      do   interior    tem    medo     de   passar    próximo       a  ela   à  noite    quando   a   lua   brilha
debilmente através dos galhos tortos. O monte Mênalo é um dos abrigos preferidos do
temível   Pã,   cujas   estranhas   companhias   são   muitas,   e   os   caipiras   humildes   acreditam
                                                                                                                4
que   a   árvore   deve   ter   algum   medonho   parentesco   com   estes   misteriosos   faunos  ; mas
um velho apicultor que mora na cabana vizinha me contou uma história diferente.
        Muitos anos atrás, quando a casa da encosta era nova e resplandecente, lá dentro
                                                 5               6
moravam os dois escultores Kalos                    e Musides  .   De   Lídia   a   Neápole,   a   beleza   de   seu
trabalho era apreciada, e ninguém ousava dizer que um excedia o outro em talento. O
Hermés   de   Kalos   se   erguia   em   um   relicário   de   marmóre   em   Corinto,   e   a   Pallas   de
Musides   sobrepujou   um   pilar   em   Atenas   próximo   ao   Parthenon.   Todos   os   homens
rendiam   homenagens   a   Kalos   e   Musides,   e   se   maravilhavam   por   nenhuma   sombra   de
inveja artística ter esfriado o calor de sua amizade fraternal.
        Mas embora Kalos e Musides vivessem em indissolúvel harmonia, suas naturezas
não eram semelhantes. Enquanto Musides festejava noite adentro em meio à algazarra7
             8          9
de Tegea  , Saios          permanecia   em   casa;   longe   da   vista   de   seus   escravos   nos   recessos
serenos do bosque de oliveiras. Lá ele meditava sobre as visões que enchiam sua mente,
e   lá   arquitetava   as   formas   estéticas   que   mais   tarde   se  tornariam   imortais   no   mármore
exultante.   O   povo   ocioso,   de   fato,   dizia   que   Kalos   conversava   com   os   espíritos   do
1
  O monte Mênalo, na Arcádia, é consagrado ao deus Pã. (V. nota seguinte.) [N.T.]
2
   A   Arcádia,   na   região   central   do   Peloponeso,   Grécia,   é   escolhida   na   poesia   como   cenário   bucólico,
graças à mitologia grega, segundo a qual, o local era residência de Pã, deus da natureza e padroeiro dos
pastores. [N.T.]
3 A expressão faz referência ao sistema pan-helenista, que visava à união de todos os gregos dos Bálcãs,
das ilhas do Egeu e da Ásia Menor num só Estado, movimento que ocorreu por volta dos século III e IV
a.C.
4
  No original, “Panisci” (pl. it. de Pan). [N.T.]
5 Do grego Kalós: “bom”; em outra acepção: “belo”. [N.T.]
6  Do   grego  Musides :    “filho  das   Musas”.  (V.   nota  publicada   no   sítio  The  Temple   of  Dagon:    H.  P.
Lovecraft and the Cthulhu Mythos.  Seção Community, Mythos Forum.  EEUU, 28 jun 2005. Disponível
em:     <http://www.templeofdagon.com/forum/viewtopic.php?t=518&highlight=>.                    Acesso     em:   23   jan
2006.) [N.T.]
7  No   original,   “gaieties”   (pl.   de gaiety):   algazarra,   jovialidade,   alegria;   tem   a   mesma   raiz   da   nossa
“gaiatice” (do occitânico gai : alegre, jovial). [N.T.]
8  Área   onde   havia   um   templo   dedicado   à   deusa   Atena.   A   municipalidade   de   Tegea,   famosa   pela   seu
mercado   de   gado,   pertence   à   província   de   Mantínia,   que   se   mantém   sob   jurisdição   da   prefeitura   de
Arcádia, na região do Peloponeso. [N.T.]
9 Embora haja versões deste mesmo trecho que citam “Kalos”, ao invés de “Saios”, a tradução optou por
manter o nome  presente no original consultado, transcrito por Agha Yasir <http://www.ech-pi-el.com/>.
[N.T.]
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bosque,   e   que   as   estátuas   dele   eram   apenas   imagens   dos   faunos   e   dríades   que   ele
encontrava ali, pois ele não concebia suas obras a partir de nenhum modelo vivo.
       Tão famosos eram Kalos e Musides, que ninguém se espantou quando o Tirano de
Siracusa enviou-lhes representantes para falar da cara estátua de Tyche 10 que ele havia
planejado   para   a   sua   cidade.   De   grande   colossal   e   hábil   trabalho   artesanal,   a   estátua
deveria   ser,   já   que estava destinada a       se   tornar   um   prodígio   da   nação   e   um   destino
turístico     para    viajantes.    Seria    exaltado     além    da    imaginação       aquele    cuja    obra
conquistasse  boa  aceitação,  e  para  esta  honraria  foram  convidados  a  competir  Kalos  e
Musides. O amor fraterno dos dois era bem conhecido, e o Tirano ardiloso propôs que
cada um, ao invés de esconder a obra do outro, deveria oferecer ajuda e conselho; esta
caridade produziria duas imagens de inaudita beleza, dentre as quais, a mais aclamada
eclipsaria até mesmo os sonhos dos poetas.
       Com alegria os escultores aceitaram a oferta do Tirano, de modo que, nos dias que
se seguiram, os escravos de ambos ouviram o sopro incessante dos cinzéis. Nem Kalos
nem Musides escondiam a obra um do outro, mas reservavam a visão geral apenas para
si.   Com   exceção   deles   próprios,   nenhum   olho   contemplava   as   duas   figuras   divinas,
libertas pelo sopro talentoso nos blocos ásperos, que os tinham encarcerado desde que o
mundo surgira.
       À   noite,   como   de   antanho,   Musides   buscava   os   salões   de   banquetes   de   Tegea
enquanto      Kalos     vagava    sozinho     no   Bosque     de   oliveiras.   Mas     conforme      o  tempo
passava, os homens observaram uma carência de alegria no outrora faiscante Musides.
Era estranho, eles se admiravam de como a depressão podia arrebatar uma pessoa assim
com tanta chance de ganhar a maior recompensa oferecida pelo mundo da arte. Muitos
meses   se   passaram   e   ainda   na   face   azeda   de   Musides   não   havia   vestígio   de   que   a
situação pudesse melhorar.
       Então   um   dia   Musides   falou   da   enfermidade   de   Kalos,   depois   do   que   ninguém
mais     se  espantou  com       sua   tristeza   novamente,       uma    vez   que    o  vínculo    dos    dois
escultores era conhecido por ser profundo e sagrado. Subseqüentemente muitos foram
visitar Kalos, e realmente notaram a palidez de seu rosto; mas havia em torno dele uma
serenidade feliz que fazia seu olhar mais mágico que o olhar de Musides, o qual parecia
claramente   distraído,   sob   apreensão,   e   que,   em   sua   avidez,  deixara   de   lado   todos   os
escravos   para   alimentar   e   cuidar   ele   próprio   do   amigo.   Escondido        atrás   de   pesadas
cortinas     estavam     as  duas   figuras   inacabadas      de  Tyche,     pouco    tocadas    nos   últimos
tempos pelo pobre homem doente e seu fiel assistente.
       Como   Kalos   ficasse   inexplicavelmente   mais   e   mais   fraco,   a   despeito   do   que   lhe
ministravam   os   médicos   aturdidos   e   seu   assíduo   amigo,   ele   desejou   ser   de   vez   em
quando levado ao bosque que ele tanto amava. Lá ele pedia para que fosse deixado só,
como se desejasse falar com coisas invisíveis. Musides sempre atendia aos pedidos dele,
conquanto seus olhos se enchessem de lágrimas à hipótese de que Kalos pudesse querer
mais aos faunos e às dríades que a ele. O fim, afinal, se aproximava, e Kalos discursou a
respeito     das   coisas   que   há   além    desta   vida.   Musides,     soluçante,    prometeu-lhe       um
sepulcro mais amável que a tumba de Mausolo 11; mas Kalos lhe pediu que não falasse
mais   das   glórias   do   marmóre.   A   mente   do   pobre   moribundo   estava   obcecada   por   um
único desejo; que a lenha de determinadas oliveiras no bosque fosse enterrada junto à
sua sepultura  - próxima à sua cabeça. E              uma   noite,   sentado   sozinho   na   escuridão   do
bosque      de  oliveiras,   Kalos    morreu.     Indescritivelmente       belo   era   o  mármore      de   seu
10 Do grego Tyché: “sorte”, “o acaso”, “o inesperado”. [N.T.]
11
   A  tumba de Mausolo, donde vem “mausoléu”, foi erguida sob mando de Artemisa, viúva de Mausolo,
rei da Cária (século IV a.C.), em Halicarnasso, na Ásia Menor. O monumento era tido como uma sete
maravilhas do mundo e se tornou sinônimo de um sepulcro suntuoso. [N.T.]
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sepulcro   que   o   dedicado   Musides   entalhou   para   o   amado   amigo.   Ninguém   além   do
próprio Kalos poderia ter modelado tais baixos-relevos em que foram exibidos todos os
esplendores   de   Elísio.   Também   Musides   não   falhou   em   enterrar   próxima   à   cabeça   de
Kalos alguns galhos das oliveiras do bosque.
       Conforme        os  primeiros     arroubos     de  pesar    de  Musides      foram    dando    lugar   à
resignação, ele avançou diligentemente em sua figura de Tyche. Toda a honra era sua
agora,  uma  vez  que  o  Tirano  de  Siracusa  não  teria  interesse  na  obra  de  nenhum  outro
artista   exceto   ele   ou   Kalos.   Sua   tarefa   se   revelou   um   alívio   para   as   suas   dores   e   ele
trabalhou duro continuamente, cada  dia   mais,   esquivando-se das algazarras que antes
apreciava.   Enquanto   isso   passava   as   noites   ao   lado   do   túmulo   do   amigo,   onde   uma
jovem   oliveira   brotava   perto   da   cabeça   do   adormecido.   Tão   veloz   era   o   brotar   desta
árvore, e tão estranha era sua forma, que todos os que a viam exclamavam surpresos; e
Musides parecia, ao mesmo tempo, fascinado e avesso.
       Três    anos    depois   da   morte    de  Kalos,    Musides     despachou      um   mensageiro      ao
Tirano, e comentou-se na ágora de Tegea que a magnífica estátua estava terminada. Por
esta    época     a  árvore    junto    ao   túmulo     tinha   atingido    proporções      surpreendentes,
excedendo todas as outras árvores de seu tipo, e dirigindo um galho extraordinariamente
pesado sobre o apartamento no qual Musides trabalhava. Tantos eram os visitantes que
vinham para ver a prodigiosa árvore, quanto os que vinham admirar a arte do escultor,
de   forma   que   Musides   raramente   ficava   só.   Mas   ele   não   ligava   para   a   multidão   de
hóspedes; na verdade, ele parecia ter receio de ficar só agora que o trabalho absorvedor
estava concluído. O vento árido da montanha, suspirando através do bosque de oliveiras
e da árvore-túmulo, tinha um modo sinistro de formar sons vagamente articulados.
       O céu estava escuro na noite em que os emissários do Tirano chegaram a Tegea.
Definitivamente         sabia-se   que   eles   haviam   vindo   para   carregar   a   grande   imagem   de
Tyche e trazer honra eterna a Musides, então a recepção que eles tiveram do próxeno 12
foi   de   grande   entusiasmo.   À   medida   que   a   noite   convertia-se   gradativamente   em   uma
violenta     ventania    que   cairia   sobre   o   espinhaço   de   Mênalo,   os   homens   da   distante
Siracusa se rejubilaram por poderem descansar sãos e salvos na cidade. Eles falaram de
seu ilustre Tirano, e do esplendor de sua capital, e exultaram de glórias a estátua em que
Musides havia trabalhado para ele. E então os homens de Tegea discorreram acerca da
bondade de Musides, e de seu pesado fardo da morte do amigo e de como nem mesmo
as   láureas   da   arte   que   estavam   por   vir   poderiam   consolá-lo   na   ausência   de   Kalos,   a
quem   os   lauréis   deveriam   caber   mais   propriamente.   Da   árvore   que   cresceu   junto   ao
túmulo,   próxima   à   cabeça   de   Kalos,   eles   também   falaram.   O   vento   guinchou   mais
horrivelmente, e tanto siracusanos quanto arcadianos rezaram para Éolo 13.
       No raiar do dia, o proxenoi conduziu os mensageiros do Tirano ladeira acima até a
residência do escultor, mas o vento noturno fizera algumas coisas estranhas. Os gritos
dos escravos sobressaíam em uma cena de desolação, e não se erguiam mais, em meio
ao bosque de oliveiras, as colunatas daquele vasto corredor em que Musides sonhara e
trabalhara. Solitários e abalados restavam humildes pátios e as mais fracas paredes, pois
sobre o suntuoso magnífico peri-estilo desabara o pesado e vacilante galho da estranha
nova     árvore,   reduzindo     o  majestoso     poema     em   mármore      de  perfeição     ímpar    a  um
punhado de horrendas ruínas. Estrangeiros e tegeanos ficaram espantados, olhando dos
destroços para a grande, sinistra árvore cujo aspecto era tão misteriosamente humano e
cujas raizes se estenderam tão estranhamente ao esculpido sepulcro de Kalos. E o medo
12
   No original, “proxenoi”. Próxeno (do gr. proxenos) era o título concedido ao incumbido de cuidar dos
estrangeiros e das visitas importantes. É também, em outra acepção, o título concedido por um Estado
grego a outros Estados, gregos ou estrangeiros, em reconhecimento de serviços prestados. [N.T.]
13 Éolo ou Aíolus, o Deus grego do vento. [N.T.]
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e a consternação aumentaram quando eles procuraram o apartamento desmoronado, pois
do   gentil   Musides,   e   da   sua   maravilhosamente   modelada   imagem   de   Tyche,   nenhuma
pista pôde ser descoberta. Em meio a tão estupenda ruína só o caos é capaz de habitar, e
os representantes de ambas as cidades abandonaram o local desapontados; siracusanos
porque não tinham nenhuma estátua para levar para casa, tegeanos porque não tinham
nenhum       artista   a  coroar.    No    entanto,    os   siracusanos     obtiveram      mais    tarde   uma
esplêndida      estátua   em    Atenas,    e  os  tegeanos    se   consoloram      erguendo     na  ágora    um
templo   de   mármore   em   comemoração   aos   dons,   às   virtudes,   e  à devoção fraterna de
Musides.
       Mas o bosque de oliveiras ainda está lá, como também a árvore que cresce sobre o
túmulo  de  Kalos,  e  o  velho  apicultor  me  contou  que  de  quando  em  quando  os  galhos
sussurram   um   para   o   outro   com   o   vento   noturno,   dizendo   repetidas   vezes   uma   após   a
outra. "Oida14! Oida! - Eu sei! Eu sei!"

Fontes:
traduzido para o português por
KA-AK-KIM http://www.contoaberto.org/
14
   A tradução do autor é literal. Do grego Oida, “eu sei”, “eu conheço”. [N.T.]
site:www.sitelovecraft.com

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