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domingo, 17 de julho de 2011

H.P.Lovecraft-Fechado na Catabumba-Conto de Terror

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                 “Fechado na Catacumba”
                                             Por:  H.P. Lovecraft

                                                                                                                                   1
                                                                                                  Fonte: Revista Spektro
                                                 *Notas de transcrição não constam nos originais da revista.

Antes de ler o conto de Lovecraft, aprecie a bela e interessante introdução do magazine:

Clássicos do Terror – H.P. LOVECRAFT

          Embora falecido há mais de quarenta anos, Howard Phillips Lovecraft continua mais vivo do
que nunca. Para muitos de nós, o seu lugar na literatura americana, e especialmente na chamada
“tradição gótica”, sempre esteve plenamente assegurado e parece mais do que evidente, para uma
crescente legião de amantes das belas-letras, que a sua prematura morte, aos quarenta e sete anos de
idade, constituiu imensa perda para a cultura humana, e também uma irreparável tragédia pessoal,
visto que não tinha ainda atingindo pleno desenvolvimento do seu talento.2

          Curiosamente, Lovecraft, na vida real, possuía um tipo físico que ia com a maior perfeição a
um     escritor    de   fantasmagorias,       do   sobrenatural      em    prosa    e  verso,    tal  como     o   público     mais
imaginativo   poderia   conceber.   Era   um  recluso   e   literalmente   enfeitiçado   pelas   sombras   da   noite.
Tinha uma alergia pelo frio e freqüentes vezes se via obrigado a ficar encerrado em casa por meses
a fio. Fora dessas ocasiões, gostava de perambular pelas ruas, sem nenhuma espécie de iluminação,
da sua cidade natal, Providence, em Rhode Island.
          Em criança, Lovecraft fora paralítico e assim permanecera largo tempo, preso na morada de
seu     avô,    de    cuja    biblioteca     devorou      avidamente        todos     os   volumes,       e   a   sua   memória,
extraordinariamente   retentiva,   repletou-se   de   uma variedade   de   informes   sobre   todos   os   assuntos
imagináveis, inclusive sobre os costumes e maneiras do século dezoito, época em que ele sempre
desejou ter vivido, conforme afirmou na sua volumosa correspondência.3

          Poucas fotografias existem de Lovecraft. Era alto, magro e, por toda a vida, espectralmente
pálido,   embora   de   olhos   brilhantes   e   de   vivacidade   invulgar.   Apresentava   um   prognatismo   do
maxilar inferior em franca discordância com o seu caráter meigo e delicado.
          A   virtuosidade   excelsa   do   seu   portento   foram   as   histórias   sobrenaturais   de   que   se   tornou
verdadeiro símbolo e que, por exclusivas, personalíssimas, se deveram a sua única criação genial.

1  Este   conto  foi-me   enviado   pelo   prof.   Renato   Suttana,   que   por   sua   vez   o   recebeu  dum   amigo.   Deixo   aqui   meus

agradecimentos      por  este  material,  diga-se   de  passagem,   raríssimo.  A  revista  Spektro   foi  uma  grande  publicação
brasileira  de terror e ficção científica das décadas de setenta e oitenta e que foi descontinuada nos primeiros anos da
década de 1980. Foi, certamente o único grande pulp brasileiro. (Nota de Transcrição)
2 Opinião pessoal da revista não corroborada por outros fãs de Lovecraft que reconhecem a maturidade de seus escritos

a partir do ano de 1924, onde começa sua fase literária mais intensa. (Nota de Transcrição)
3 Embora se tenha excelentes biografias em inglês como HP Lovecraft: A Life (1996) de S.T. Joshi, em português não

existe nenhum publicação, apenas traduções independentes, de forma que alguns detalhes como a paralisia de Lovecraft
é   por  nós  desconhecido,   pois   algumas   evidencias  em   outras   biografias   não   corroboram   tais   afirmações.   Mas,  nada
significativo na vida do autor. Fora isto existem alguns mitos sobre sua vida, coisas erradas que se imagina dele (mesmo
no seu país de origem), algumas, por exemplo, são: a) Lovecraft era recluso: o era, mas mais por causa da dificuldade
econômica, pois se observou que ele viajou bastante quando pôde e gostava muito disto, um exemplo são seus escritos
sobre as viagens; b) Lovecraft era homossexual: esta afirmação falsa se originou porque Lovecraft tinha pouco sucesso
com   as  mulheres,   mas   é   falso,  pois   são  muitas   as   cartas  dele  que   admira  mulheres   atraentes   e  além   é   claro  dos
comentários de sua esposa; c) Colaborações de August Derleth: Derleth, amigo de Lovecraft que criou a Arkham House
sua primeira editora póstuma, dizem que ele mexeu na obra do autor. O mesmo nada mais fez que criar contos segundo
um livro de notas deixado pelo autor, mas seus contos permaneceram intactos. d) Lovecraft foi envolvido com seitas de
magia negra: isto é falso. e) Lovecraft e sua esposa foram associados a Aleister Crowley; famoso ocultista, outra falsa
afirmação de um ‘falso’ necronomicon que corre na web f) Necronomicon é real: talvez a maior  ‘hoax’ sobre o autor,
sabe-se que tal livro mágico nunca existiu e que Lovecraft, seu criador, apenas se referia a ele sem nunca ter criado uma
versão. (Nota de Transcrição)

                                                                  1

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Mestre do macabro, suas primeiras obras palmilhavam o campo do sobrenatural (In the Vault, The
Picture in the House) mas, logo abordou os temas de terror cósmico e de horror espiritual, como as
notáveis narrativas  The Colour out of Space, The Dunwich Horror, The Whisperer in Darkness e
outras.    Não     conhecemos,       nem    concebemos       que    existia   um    entrecho,    mais    essencialmente
impregnado de tétrica alucinação do que o de The Rats in the Walls. O seu monumental The Call of
Cthulhu desenvolve-se um motivo mitológico que originou a expressão mitologia cthulhu, com que
se crismou o gênero então criado. Publicou mais: Pickman´s Model, The Music of Erich Zann, The
Hunter of the Dark, Cool Air, The Terrible  Old Man, Beyond the Wall of Sleep, Marginalia e as
Selected   Letters,   esta   última,   grande   coletânea   de   sua   correspondencia,   que   Edições   Bourgois   de
Paris acaba de lançar o primeiro volume de 418 páginas (Letters 1).
         Lovecraft foi largamente difundido no Brasil na década de 40 e 50 pela revista pulp Policia l
em Revista, que era editada pela Empresa A Noite. É desse grande mestre do horror sobrenatural
que hoje apresentamos o presente Fechado na Catacumba (In the Vault).

                                             FECHADO NA CATACUMBA

Não sei de crença mais absurda do que essa associação convencional dos fatos simples às coisas
       serenas e banais de que parece imbuída a psicologia das multidões. Em conseqüência de um
bucólico lugarejo yankee , um inepto e obtuso agente funerário de aldeia e um descuido desastroso
no   interior   de   um   jazigo   tumular,   nenhum   leitor   de   mediano   entendimento   podia   esperar   outro
desfecho   que   não   alegre,   embora   grotesco   ato   de  comédia.   Mas   só   Deus   sabe   como   a   tremenda
história de George Birch, cuja morte agora me permite contá-la, apresenta aspectos frente aos quais
as nossas mais sombrias tragédias são perfeitamente simples, leves, pueris.

         Birch,   que   abandonou   a   profissão,   trocando-a   por   outra,   em   1881,   jamais   tocava   nesse
assunto,   fugindo   do   caso   o   mais   que   podia.   Também  o   velho   médico,   Dr.   Davis,   que   morreu   há
alguns anos, não emitira a menor palavra a respeito. Geralmente se atribuía tal atitude à aflição e ao
abalo    resultante    de  um    fatídico   descuido    pelo   qual   Birch   se  fechara,    durante    nove   horas,   na
catacumba do cemitério de Peck Valley e de onde só conseguiu escapar, empregando meios rudes e
contundentes. Embora tudo isso fosse incontestável, havia outras coisas mais negras que o pobre
homem me confiou, sussurrando, no seu delírio de ébrio já às portas da morte. Ele confiou em mim
porque eu era o seu médico e também, provavelmente, por sentir a necessidade de desabafar-se com
alguém  depois   do   falecimento   do   Dr.  Davis.   Birch   jamais   se   casara,   nem  contava   parente   algum
neste mundo.

         Até   1881,   fora   empreiteiro   dos   enterros,   em   Peck   Valley   e   sempre   se   mostrara   o   tipo   do
individuo rude e primitivo de modos e idéias. As práticas que ouvi se lhe atribuírem, hoje ninguém
as   acreditaria   possíveis,  pelo   menos,   em  uma   cidade,   e   mesmo   Peck   Valley   teria   estremecido   de
espanto se soubesse ao certo dos inescrupulosos processos do seu coveiro exclusivo, tais como, por
exemplo, a subtração dos custosos tecidos amortalhantes, favorecida pela tampa fechada do caixão
e a falta de respeito sacrílega na colocação e arranjo dos restos mortais no ataúdes que fornecia,
nem   sempre   fabricados   no   comprimento   adequado.   Mas,   acima   de   tudo,   o   coveiro   era   moroso,
relaxado   e   mau   profissional.   Apesar   disso,   não   penso   que   fosse,   no   fundo,   mau   sujeito.   Julgo-o
simplesmente duro de inteligência e ação, bronco, desmazelado e beberrão, como a presente história
o demonstrará à sociedade, e além disso, sem o mínimo grau de imaginação comum à maioria dos
seres humanos, dentro do limite fixado pelo bom senso.

         Dificilmente      sei  por   onde   começar     o  caso   de   Birch,   uma    vez   que   não   possuo   prática
qualquer      de  narrador.    Mas    como    tenho    forçosamente      de  fazê-lo,   principiarei    por   aquele   frio
dezembro de 1880, quando os campos gelaram de tal forma que impediram de cavar-se sepulturas
até   o   advento   da   primavera   e   conseqüentemente   reamolecimento   do   solo.   Felizmente,   a   aldeia

                                                              2

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possuía pequenas proporções, o que tornava muito baixo o seu coeficiente de mortalidade. Assim,
foi   possível   dar-se   todas   as   cargas   fúnebres   do   enterrador   local  um   abrigo   provisório   na   única
catacumba do cemitério. Com a inclemência do tempo, Birch ficou dobradamente lerdo e parecia
superar-se, a si mesmo, de relaxamento nos diversos misteres da sua profissão. Jamais construíra ele
ataúdes     tão   grosseiros    e  mal   ajustados,    nem   mais   flagrantemente         descurara    antes   os   cuidados
indispensáveis   com   a   enferrujada   fechadura   da  cripta,   cuja   porta   ele   costumava   abrir   com   um
safanão e fechava com desleixados pontapés.

         Afinal veio o degelo e as sepulturas puderam ser cavadas laboriosamente para os silenciosos
frutos humanos, safra da impiedosa segadora eterna e que pacientemente esperavam o repouso final
da   última   morada.   Birch,   embora   maldizendo   o   afã,   começou   a   remoção   dos   cadáveres,   numa
desagradável manhã de abril,  interrompendo-a, porém, antes do meio-dia, devido à pesada chuva
que cegava o cavalo da carreta, e depois de só ter baixado um único defunto ao seio da terra. Este
era Darius Peck, nonagenário, cuja cova ficava perto da catacumba. O coveiro resolveu começar, no
dia   seguinte,   com   Matthew   Fenner,   velhinho   miúdo   que   tinha   o   seu   túmulo   também   não   muito
distante. Acabou, porém, adiando o serviço para três dias depois, só voltando a trabalhar na Sexta-
feira   Santa,   dia   quinze.   Não   sendo   supersticioso,   nenhuma   importância   deu   à   data,   se   bem   que,
depois   da   história,   sempre   se   recusou   a   fazer   qualquer   serviço   de   importância   neste   fatídico   dia.
Certamente, os acontecimentos daquela noite mudaram por completo, o feitio de George Birch.

         Então,     na   tarde   de   Sexta-Feira      Santa,   quinze     de  abril,   o  nosso    homem       se  dirigiu   à
catacumba,   com   o   cavalo   a   puxar   a   carroça,   a   fim   de   apanhar   o   caixão   de   Matthew   Fenner.   A
verdade   é   que   Birch   já   gostava   da   bebida,   conforme   ele   próprio   o   confessou   mais   tarde,   muito
embora,      naquele     tempo,    ainda    contraíra    o  vício  desbragado       pelo   qual   procurou     esquecer,     na
embriaguez,       certos   fatos   penosos.     O   agente    funerário    sentia-se,    então,   bastante    entontecido     e
abstrato que esquecia o necessário incitamento ao seu cavalo que, vendo-se assim dignificantemente
conduzido,   relinchava,   batia   com  as   patas   no   solo   e   remexia   continuamente   a   cabeça,   molestado
pela chuva. Entretanto, o dia mostrava-se claro e a aventura soprava, o que pôs o coveiro contente,
com a idéia de abrigar-se, ao abrir a porta de ferro e penetrar na cripta cavada no flanco da colina.
Um   outro   não   teria   gostado   daquele   recinto   úmido   e   malcheiroso,   com   oito   esquifes   dispostos
cuidadosamente ao centro, mas Birch tinha a alma já calejada pelo ofício e só se preocupava em não
errar   a   sepultura   de   cada   um.   Jamais   esquecera   os   protestos   levantados,   quando   os   parentes   de
Hanna Bixby, desejando transportar-lhe os restos para o cemitério da cidade para onde se haviam
mudado, encontraram, sob a lápide de Hanna, a urna do Juiz Capwell.

         O   interior   da   catacumba   mergulhava-se   em  densa   penumbra.   Birch,   no   entanto,   possuía
excelente   vista   e   não   confundiu   o   caixão   de   Fenner   com  o   de   Asaph   Sawyer,   embora   fosse   este
muito semelhante àquele. Com efeito, o ataúde de Sawyer destinava-se primitivamente a Matthew
Fenner, mas, à última hora, Birch pusera-o de lado, achando-o demasiado frágil e tosco pois, num
impulso de sentimentalismo agradecido, lembrou-se de quando o velhinho Fenner o ajudara em uma
falência, cinco anos antes. Assim, deu ao seu bom protetor tudo o que de melhor a sua arte poderia
produzir. Mas, sendo demasiado sovina para desperdiçar o material defeituoso, aproveitou o refugo,
quando Asaph Sawyer morreu de febre maligna. Este não gozava de bom conceito, como cidadão, e
muitas histórias corriam da sua quase desumana  sede de vingança e da sua memória tenaz que o
impedia de esquecer ressentimentos reais ou imaginários contra os desafetos. Assim, o empreiteiro
fúnebre nenhum constrangimento sentiu em reservar-lhe o ataúde mal feito que, naquele momento,
afastava para lado com um repelão, procurando o de Fenner.

         Foi justamente então, quando punha as mãos no caixão do bom velhinho, que o vento bateu
a   porta,   mergulhando   tudo   em   negra   escuridão.   O  estreito   postigo   só   deixava   uma   fraquíssima
claridade e nenhuma virtualmente se coava pela chaminé de ventilação do teto. O coveiro ficara,
pois,   reduzido   a   um   tatear   inconsciente,   caminhando  hesitante,   entre   os   esquifes,   na   direção   da

                                                                3

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porta. Neste débil lusco-fusco, fez tanger a enferrujada aldrava, sacudiu inutilmente as almofadas de
ferro,   espantando-se   com   a   súbita   resistência   da  maciça   porta.   Compreendeu   logo   a   realidade   da
situação e pôs-se a gritar desesperadamente como se o cavalo, lá fora, pudesse fazer mais do que
responder-lhe com relinchos agudos e desolantes. A lingüeta da fechadura, longamente desleixada,
quebrara-se finalmente, fechando, na catacumba, a culpada vítima da própria negligência, como em
ratoeira.

         A    coisa    devia   ter  acontecido      cerca   das   três  horas    e  meia    da   tarde.   Birch,   dotado     de
temperamento   fleumático   e   prático,   não   gritou  por   muito   tempo,   pondo-se   logo   a   procurar,   às
apalpadelas,   algumas   ferramentas   que   lembrava   haver   visto   amontoadas   em   um   canto.   Não   há,
contudo, certeza se ele avaliou de pronto todo o horror e a impressionante fatalidade da sua crítica
situação, mas o simples fato de se ver encerrado em local fora do caminho de qualquer ser humano
seria   bastante   para   fazer   perder   a   cabeça   ao   mais   valente   indivíduo.   A   tarefa   do   dia   fora   assim
desgraçadamente interrompida e a não ser que a sorte trouxesse até ali algum excursionista errante,
Birch   teria   de   ficar   enclausurado   durante   toda   a   noite   e   ninguém   podia   saber   por   quanto   tempo
mais. Logo que encontrou o monte de ferramentas, o enterrador escolheu um martelo e um escopo e
voltou à porta, passando por sobre os caixões.  O ar começara a ficar excessivamente empestado,
mas ele não atentou em semelhante detalhe, tão ocupado estava em atacar o pesado e corroído metal
da fechadura. Teria certamente então dado tudo por uma lanterna acesa ou um simples toco de vela,
mas, na falta de qualquer iluminação bastante, martelava, às cegas, da melhor maneira que podia.

         Percebendo,        porém,     que   o   fecho   resistiria   inexoravelmente,        pelo  menos      a   tão  frágeis
instrumentos, naquelas tenebrosas condições, Birch olhou em torno, na esperança de achar outros
possíveis meios de safamento. A catacumba se cavava na encosta de uma elevação, de modo que o
ventilador   atravessava   vários   pés   de   terra,   eliminando   assim   qualquer   visibilidade   de   evasão   por
aquele lado. A clarabóia losangular, tendida bem alto, sobre a porta, na fachada de tijolos, parecia-
lhe mais suscetível de ser alargada, embora à custa de rudes esforços. Os olhos do homem nela se
fixaram longamente,   enquanto espremia o cérebro,   em  busca   do   meio   de   subir   e   alcançá-la.   Não
havia ali espécie alguma de escada e os nichos destinados a receber as urnas, situados nas paredes
laterais e do fundo, não lhe dariam acesso, muito distantes, à parte superior da porta. Só restava,
portanto,   o   uso   dos   próprios   esquifes,   à   guisa   de   degraus.   Fixando   o   pensamento   nesse   sentido,
estudo   o   melhor   meio   de   colocá-los.   Calculou   que  a   altura   de   três   caixões   superpostos   lhe   seria
bastante   para   chegar   à   clarabóia,   mas   quatro   lhe  tornaria   o   trabalho   ainda  mais   fácil.   As   urnas
fúnebres   era   bem   niveladas   e   podiam   ser   empilhadas   solidamente.   Sem   mais   demora,   pôs-se   a
imaginar como deveria dispor os oito féretros para construir uma plataforma escalável, cujo piso
superior se constituísse de quatro deles, verticalmente arrumados. Enquanto pensava, só lamentava
não tê-los feito com absoluta solidez. Agora, se a sua imaginação chegou a desejar que os caixões
estivessem vazios, é francamente duvidoso.

         Finalmente,   decidiu   encostar   uma   base   de   três   ataúdes   à   porta   e   colocar   sobre   esta   duas
camadas de dois féretros cada uma e, em cima de tudo, um único caixão, servindo de estrado. Tal
disposição podia ser erguida com o mínimo de tropeços e lhe forneceria a altura desejada. Ainda
melhor, assim só se utilizaria de dois caixões, na base, para suportar a superestrutura, deixando o
terceiro, como um degrau disponível, para o caso de ser-lhe necessário maior altura. E o prisioneiro
labutou,   na   penumbra   espessa,   erguendo   os   defuntos   com  nenhuma   cerimônia,   naquela   muda   de
torre   de   babel.   Vários   féretros   começaram   a       estalar   no   decurso   da   operação   e   Birch   resolveu
reservar   o   de   Matthew  Fenner,   pela   sólida   construção,   para   encimar   a  pilha,   de   modo   que,   ao
trabalhar na clarabóia, os seus pés encontrassem a superfície mais firme possível como apoio.

         Por fim, a torre foi terminada e, com os braços doloridos, Birch fez uma pausa, durante a
qual   se   sentou   no   primeiro   degrau   da   estranha  escada.   A   seguir,   subiu   cautelosamente,   com   as
ferramentas, até a clarabóia, cujos bordos era m de tijolos e que, lhe parecia, não lhe seria difícil

                                                                4

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dilatar do suficiente para escapulir daquela fúnebre prisão. Ao ressoar das primeiras marteladas, o
cavalo, lá fora, relinchou em tom que tanto podia ser de encorajamento como de mofa. Em ambas as
hipóteses, a manifestação da alimária se tornava adequada, pois a imprevista tenacidade da camada
de tijolos, de frágil aspecto à vista, simbolizava um verdadeiro comentário sardônico à falacidade
das esperanças terrenas e exigia um trabalho merecedor dos mais acalorados incitamentos.

         Caiu a noite, que encontrou o coveiro ainda mourejanto. Agora, trabalhava exclusivamente
pelo tato, pois grandes nuvens repentinamente aglomeradas eclipsaram a lua. Embora o progresso
geral fosse medíocre, ele se sentia animado com a extensão das erosões produzidas no alto e no
fundo da clarabóia. Estava firmemente convicto, enfim, de que conseguiria libertar-se por volta da
meia-noite. Abstraído de reflexões opressivas sobre o tempo, o lugar e a companhia empilhada sob
os seus pés, Brich ia filosoficamente lascando os pétreos tijolos. Praguejava, quando um estilhaço o
atingia no rosto e ria-se quando outros se projetavam sobre o cada vez mais enlevado cavalo que
pastejava, amarrado ao cipreste. De vez em quando, julgava a abertura tão adiantada que tentava por
ela   passar   o   corpo   e,   ao   assim  proceder,   tanto   se   remexia   que   os   esquifes   embaixo,   dançavam   e
estalavam. Esperava, entretanto, não ter de elevar mais a plataforma por meio de um quinto ataúde,
pois o buraco se encontrava no nível exato de ser transposto logo que as dimensões permitissem a
passagem.

         Devia     ser,  pelo    menos,    meia-noite,     quando    Birch    decidiu    empreender      a  travessia    da
clarabóia.   Cansado   e   suarento,   a   despeito   das   inúmeras   pausas,   desceu   ao   chão   e   sentou-se   um
momento sobre o esquife inferior,  a fim de reunir as forças para  o esforço final e o salto para o
exterior. O cavalo, faminto, relinchava repetida e fracamente, enquanto o seu dono fazia votos para
que ele parasse com aqueles lúgubres apelos. Birch sentia-se paradoxalmente pouco entusiasmado.
No momento de realizar a ambiciosa libertação, assautou-o um como quase medo de iniciá-la, pois
a   coisa   se   revestia   de   intemerata   rudeza   dos   heróicos   tempos   medievais.   Ao   galgar   de   novo   os
caixões, já rachados, ele percebeu, apreensivo, o próprio corpo mais pesado ainda, especialmente
quando,   depois   de   atingir   a   plataforma,   ouviu   um  estalo   forte   de   madeira   que   acabava   de   ceder.
Fora-lhe inútil escolher o caixão mais sólido para encimar o macabro andaime. Tão pronto voltara a
descansar sobre ele o peso do corpo, a tampa rompeu-se, fazendo-o baixar duas jardas sobre uma
coisa mole, de que jamais imaginara, um dia, haver de sentir, sob os pés, a muralhante e gosmenta
friagem. Estonteado pelo barulho ou pelo fétido que se desprendera, vigoroso, até o lado de fora, o
cavalo emitiu um berro estridente, demasiado selvagem para chamar-se um relincho, e mergulhou
na    noite   de  piche,   louco    de   pânico,   seguido    do  estrépito     infernal   da   carroça,   arrastada    aos
trambolhões cegos.

         Naquela      angustiosa     situação,    Birch   se   encontrava     agora    impotente     para   atravessar     a
clarabóia     já  alargada,   mas    resolveu    reunir   as   energias  para   uma    tentativa   desesperada.     Tendo
conseguido   agarrar-se   à   beira   da  abertura   pela   ponta   dos   dedos,  dispunha-se   a   alcançar-se,   pela
força dos braços, quando notou uma estranha pressão como se alguém o puxasse para baixo, pelos
calcanhares.   Então,   pela   primeira   vez,   naquela  noite,   ele   sentiu   medo.   Sim.  Porque,   embora   se
debatesse, esperneando furiosamente o mais possível, não conseguiu sacudir fora a misteriosa garra
que    lhe   prendia    os  pés,   em   uma     tração   contínua.    Dores    horríveis,    como    de   chagas    cruéis,
percorriam-lhe a barriga da perna e, em seus espírito, dançava, num vértice de horror supersticioso,
a   inequívoca   realidade,   a   prova   material;   o   lascar   das   tábuas,   os  pregos   arrancados   e   todos   os
demais ruídos característicos da madeira que se parte. Não era, portanto, uma ilusão dos sentidos,
um     fenômeno      alucinatório    gerado    pelas    circunstâncias.    Pô-se    a  lutar,  dando     de   pernas,   em
contorções      ainda    mais   frenéticas,   até   passar  a   um    estado   de   semidesmaio,       em   que   os   seus
desvairados movimentos continuaram, ao acaso, automáticos. De repente, sem saber como, viu-se
livre, já com o corpo metido na clarabóia.

                                                              5

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         Somente o instinto o guiou, no trágico caminho sinuoso através da abertura e ao rastejar que
seguiu o baque surdo da sua queda, no exterior, sobre o chão úmido. Birch não podia caminhar e a
lua    nascente    deve   ter  testemunhado       a  horrível  cena     daquele    homem      delirante,   arrastando    os
tornozelos     em    sangue,    na  direção    do  pequeno  pavilhão       do   cemitério,    os  dedos    espasmódicos
enterrando-se na relva enegrecida, em pressa febril, o corpo, porém, respondendo com a clássica
lentidão   desesperante   de   que   procura   fugir   dos   fantasmas,   nos   pesadelos.   Evidentemente,   ali   não
havia   perseguidor   algum,   pois   que   Birch   estava   só   e   acordado,   quando   Armington,   o   guarda   da
necrópole, atendeu a seu fraco batido à porta.

         O guarda levou-o para uma cama de reserva e mando o filho, Edwin, chamar o Dr. Davis. O
pobre empreiteiro de enterros se achava em perfeito estado de conhecimento, mas nada dizia sobre
o   acontecimento,   murmurando   apenas   raras   palavras   como:   “Ai!   Meus   tornozelos!   Largue-me!...
Fechado   na   catacumba...”.   Pouco   depois,   chegou   o  médico   com   a   sua   maleta   de   remédios,   fez
perguntas insistentes ao ferido e removeu-lhe as roupas de cima, os sapatos e as meias. As feridas
(ambos      os   artelhos   se   apresentavam       horrivelmente      dilacerados    sobre    o   tendão    de  Aquiles)
intrigaram  grandemente   o   velho   doutor   e,   a   seguir,   quase   o   aterrorizaram.   O   interrogatório,   com
efeito, ultrapassou o terreno médico e as mãos do esculápio tremiam visivelmente ao contribuírem
os   retalhados   membros   de   espessas   ataduras,       como   se   ele   quisesse,   sobretudo,   ocultar   aquelas
chagas, o mais depressa possível.

         Realmente,      as   perguntas    angustiosas     e  solenes   do   Dr.  Davis    tornavam-se      mais   do   que
estranháveis,   pois   deixavam   bem   patente   a   intenção   de   arrancar   do   infeliz   coveiro   até   o   mais
insignificante detalhe da sua pavorosa aventura, o que era inadmissível em médico. Davis mostrava-
se   singularmente   ansioso   pos   saber   se   Birch   tinha   a   certeza   absoluta   de   quem   era   o   caixão   que
servia de plataforma, de como ele o identificara em plena escuridão e finalmente, por que maneira o
distinguira   da   duplicata   de   qualidade   inferior,   mais   tarde   ocupada   pelo  corpo   do   mal-afamado
Asaph Sawyer. Em suma, por que artes o sólido ataúde de Fenner cedera assim tão facilmente? O
profissional, antigo médico da aldeia, assistira, naturalmente, aos funerais de ambos, como também
os havia atendido nas suas derradeiras enfermidades. Até mesmo no enterro de Sawyer, muito se
admirara de como se arranjara o vingativo fazendeiro defunto para acomodar os longos ossos em
tão diminuto caixão, feito sob as medidas do pequeno Fenner.

         Após duas longas horas, o Dr. Davis partiu, insistindo com o paciente para convencer-se de
que as suas feridas só poderiam ter sido causadas por pregos de pontas soltas estilhaços agudos de
madeira. Nada mais explicaria o acontecido, com lógica e verossimilhança, acrescentou. Sobretudo,
recomendou-lhe ainda falar o menos possível sobre o caso e, em nenhuma hipótese, permitisse que
ouro médico lhe tratasse aqueles ferimentos. Birch seguiu esses conselhos o resto da sua vida, até
que    um    dia,   me   contou     a  sua   história.   Depois     de  examinar-lhe       as  cicatrizes    já  velhas    e
esbranquiçadas, achei que ele fizera muito bem em manter-se discreto. Do acidente, o pobre homem
saira aleijado, pois fora cortado o tendão principal, mas, para mim, a sua maior invelidez operou-se-
lhe na própria alma. De temperamento outrora tão fleumático, o seu raciocínio guardou, depois do
fato, transtornos imperecíveis e comovia observar-se-lhe as reações e certas alusões causais, como
“sexta-feira, catacumba, caixão” e outras palavras menos diretamente significativas. O seu cavalo
assustado, regressara a casa, nas a razão do pobre homem nunca mais retornou ao lugar devido. Ele
trocou a profissão, mas, para sempre, algo lhe ficou, penando-o. Talvez fosse apenas o medo, ou o
medo      envolto   em    espécie    estranha   de   implacável     remorso     pelas   más    ações   do   seu  passado.
Ademais, a bebida só veio agravar o que ele tencionava aliviar com a embriaguez.

         O Dr. Davis, ao deixá-lo, naquela noite, pegara uma lanterna e se dirigira à catacumba. A luz
iluminava vagamente os destroços dos tijolos espalhados, a fachada esburacada e o velho cipreste,
de cujo tronco ainda pendia o segmento do cabresto arrebentado pelo eqüino, em pânico. O trinco
da pesada porta de ferro abriu-se à primeira pressão da maçaneta exterior. Endurecido pela antiga

                                                              6

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prática das autópsias, o médico entrou e correu o olhar em torno, contendo a náusea física e moral
que o mau cheiro e tudo mais ali provocavam. De repente, deixou escapar um grito e, logo depois,
teve     um    extremeção      que   lhe   pareceu     mais   terrível    do   que   um    berro    de   dor.   E   correu
desabaladamente para o pavilhão do cemitério, onde, contra todas as regras da compostura, agarrou
o doente pelas roupas, levantando-o, com força, atirou-lhe uma série de cochichos frenéticos que
entraram pelos ouvidos do ferido, fervilhantes como vitríolo.

         — O caixão era de Asaph, Birch — sibilou-lhe o doutor, justamente como eu pensava. —
Reconheci-lhe o cadáver pela dentadura a que faltavam incisivos superiores. Pelo amor de Deus,
jamais mostre os seus ferimentos a quem for! O corpo estava completamente putrefeito, mas, ainda
assim, nunca vi expressão tão nítida de vingança satisfeita como a das suas feições já enegrecidas.
Nunca, juro-o, em toda a minha vida! Bem sabe o demônio tenaz que era lê para vingar-se. Ainda
deve estar lembrado de como arruinou o velho Raymond, trinta anos depois da demanda de terras
entre ambos e como matou, a pisadas, o cãozinho inofensivo que o perseguira, latindo, fez um ano
em agosto... Era o diabo em figura de gente e penso que a sua teoria de olho por olho e dente por
dente   tinha   tanta   ferocidade   que   resistiu   à   própria   morte.   O  seu   ódio...   meu   Deus!...   eu   não   o
quisera, jamais, sobre mim!

         Então, por que você o foi provocar, Birch? Por ter sido um sujeito miserável, não te censuro
ter-lhe    dado   um    caixão   refugado.     Mas    sempre    exageras    as  coisas!    Há   limites   que   se  devem
respeitar, a todo preço, e conhecias muito bem o tamanho do velhinho Fenner!

          Nunca mais se me apagará da memória, enquanto vivo for, o quadro que então presenciei. O
caixão   de   Asaph   estava   por   terra,   atirado   longe.   A   sua   cabeça   esfacelada   e   tudo   mais,   dentro,
resolvido.   Já   muita   coisa   neste   mundo,   mas   uma,  doravante,   ficará   insuperável!   Olho   por   olho!
Francamente, Birch teve o que merecia. O crânio esmigalhado de Asaph embrulhou-me o estômago,
mas   a   outra   extremidade   do   corpo   fez-me   pior.   Aqueles   tornozelos   cortados   rentes   para   que   o
defunto coubesse no caixão feito para Matt Fenner!

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Fontes:
www.sitelovecraft.com                                                                         de3103@yahoo.com.br 

2 comentários:

Guta Schneider disse...

Minha querida Fada Morgana,

Passando para lhe desejar uma linda semana, cheia de alegrias e realizações!

Beijos,

Guta

Morgana disse...

Obrigada pelo carinho querida Guta!

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