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domingo, 7 de agosto de 2011

Joseph Sheridan Le Fanu-O Pintor-Conto Fantasmagórico

Schalken-O Pintor
Por. Sheridan Le Fanu


Revenants o pintor holandês Godfried Schalcken, Que realmente viveu no século XVII, atingindo grande celebridade por causa de suas cenas aterrorizantes à luz de velas.





Joseph Thomas Sheridan Le Fanu (28 de agosto de 1814-7 de Fevereiro 1873) FOI UM Irlandés Escritor de Gótico contos e romances de Mistério. FOI elementos o Líder História de fantasmas Escritor do Século XIX e FOI fundamentais par o Desenvolvimento do Gênero no Era Vitoriana .


                                                            

      O tema desta narrativa, meu caro amigo, certamente o surpreenderá. O
que tenho eu que ver com Schalken, ou Schalken comigo? Ele retornara a
sua terra natal e estava já morto e enterrado antes de meu nascimento; nun-
ca visitei a Holanda ou falei com um nativo daquele país. Tudo que eu disse
até este ponto já é de seu conhecimento, creio eu. Quanto ao restante, so-
mente em minha palavra estará confiada a credibilidade da estranha história
que passo a lhe narrar.
      Conheci, em minha juventude, um Capitão Vandael, cujo pai servira o
Rei Guilherme nos Países Baixos e também em meu infeliz país durante as
campanhas irlandesas. Não sei por que motivo apreciava a companhia desse
homem, a despeito de suas idéias políticas e religiosas, mas assim foi; e foi
no livre curso de nossa amizade que me chegou a estranha história que você
vai ouvir.
      Em minhas visitas a Vandael, muitas vezes me chamara a atenção um
quadro extraordinário, no qual, embora eu não passasse de um amador, não
pudera   deixar  de   notar   algumas   características   muito   peculiares,   especial-
mente na distribuição de luz e sombra, assim como uma certa estranheza no
próprio desenho que aguçou minha curiosidade. Representava o interior do
que poderia ser um  aposento  em algum edifício religioso antigo —  o pri-
meiro plano era ocupado por uma figura feminina, vestida com uma espécie
de manto branco, parte do qual disposto à maneira de um véu. A vestimenta,

                                    

contudo, não era a de uma ordem religiosa. Em sua mão, a figura portava
uma candeia, e dessa fonte de luz somente vinha a iluminação de sua forma
e face; as feições eram marcadas por um sorriso brejeiro, como o que vemos
em   belas   mulheres  ocupadas   em praticar   algum   estratagema   malicioso;   no
plano de fundo e (salvo onde a fraca luz vermelha de um fogo baixo tornava
a imagem visível) totalmente na sombra, ficava uma figura masculina, vesti-
da à maneira antiga, com gibão e coisas assim, em uma atitude de alarme, a
mão no punho de sua espada, que parecia estar prestes a desembainhar.
      “Existem algumas figuras”, disse eu a meu amigo,  “que causam uma
forte impressão   de   que   não   representam   meras   formas,   idéias   e   combina-
ções   provenientes  da   imaginação   do  artista,   mas   cenas,   rostos   e   situações
que realmente existiram. Quando olho para esse quadro, algo me convence
de que contemplo a representação de algo real.”
      Vandael sorriu e, mirando pensativamente o quadro, disse:
      “Sua imaginação não o enganou, meu bom amigo, pois esse quadro é o
registro — e acredito que um registro fiel — de um evento extraordinário e
misterioso. Foi pintado por Schalken e o rosto da figura feminina que ocupa
o lugar principal da cena, é um retrato exato de Rose Velderkaust, a sobri-
nha de Gerard Douw, o primeiro e, creio eu, o único amor de Godfrey S-
chalken. Meu pai conhecia bem o pintor e do próprio Schalken ouviu a his-
tória   do   misterioso   drama,   do   qual   o  quadro   representa   uma   cena.   Esse
quadro, que é tido como um belo exemplo do estilo de Schalken, foi doado
em testamento pelo artista ao meu pai e, como você observou, é uma obra
impressionante e curiosa.”
      Bastou-me um pedido para que Vandael contasse a história do quadro;
e assim é que posso fornecer-lhe uma repetição fiel do que eu próprio ouvi,
cabendo-lhe rejeitar ou aceitar o testemunho sobre o qual depende a verda-
de da tradição — com uma única garantia, a de que Schalken era um holan-
dês franco e rude e, creio eu, absolutamente incapaz de vôos de imaginação;
mais ainda, que Vandael, de quem ouvi a história, parece firmemente con-
vencido de sua veracidade.

                                       

      A poucas formas o manto de mistério e fantasia cairia menos elegante-
mente do que ao desajeitado e ridículo Schalken — o matuto holandês —, o
rude   e  obstinado,   mas   extremamente   habilidoso   trabalhador   da   pintura   a
óleo, cujas obras deliciam os iniciados de hoje quase tanto quanto seus mo-
dos causavam aversão às pessoas refinadas de sua própria época; e no en-
tanto esse homem, tão rude, tão obstinado, tão desleixado — diria eu quase
selvagem em seu aspecto e maneiras — durante seus êxitos posteriores, fora
eleito pela deusa caprichosa, em sua infância, para protagonizar como herói
de uma aventura romanesca não menos despida de interesse ou mistério.
      Como saber se em sua juventude estivera à altura do papel de amante
ou herói? Como afirmar que em sua infância fora o mesmo matuto carran-
cudo,   mal-educado  e   rude   que   se   mostrava   na   idade   madura?   Ou   até   que
ponto o grosseiro desleixo que posteriormente imprimiu-se em sua aparên-
cia, em seu porte e maneiras, poderia ser o desenvolvimento daquela apatia
inquieta, não poucas vezes produzida por amarguras e decepções no início
da vida?
      Essas perguntas jamais poderão ser agora respondidas.
      Devemos   nos   contentar,   pois,   com   uma   simples   exposição   de   fatos,
deixando essas especulações àqueles que com elas se comprazem.
      Quando   estudara  com   o   imortal   Gerard   Douw,   Schalken   era   um   jo-
vem;   e  apesar   da   constituição   fleumática   e   maneiras   nervosas   mostradas,
acreditamos, assim como seus compatriotas, não era incapaz de impressões
profundas e vividas, pois é fato aceito que o jovem pintor via com conside-
rável interesse a bela sobrinha do rico mestre.
      Rose Velderkaust era muito jovem, não tendo, no período ao qual nos
referimos, atingido a idade de dezessete anos; e se a tradição é verdadeira,
possuía os encantos suaves das belas e loiras donzelas holandesas. Não ha-
via muito tempo que estudava na escola de Gerard Douw quando Schalken
sentiu seu interesse transformar-se em um sentimento mais agudo e intenso
do que convinha à tranqüilidade de seu digno coração holandês; e ao mes-
mo tempo percebeu — ou julgou ter percebido — sinais lisonjeiros de afei-
ção recíproca, e isso bastou para eliminar qualquer vacilação que poderia até


então ter sentido e levá-lo a destinar exclusivamente a ela toda esperança e
sentimento de seu coração. Em suma, ele estava tão apaixonado quanto po-
deria estar um holandês. Não demorou muito para que revelasse seu amor à
própria donzela, e sua declaração foi seguida de uma confissão de reciproci-
dade.
      Entretanto, Schalken era pobre e não possuía quaisquer vantagens de
nascimento ou condição social que convencessem o ancião a consentir em
uma união que  deveria mergulhar sua sobrinha nas lutas e dificuldades de
um jovem e quase solitário artista. Ele deveria, portanto, esperar até que o
tempo lhe fornecesse uma oportunidade e algum evento inesperado, o su-
cesso;   e   então,   se  seus   esforços se mostrassem   suficientemente   lucrativos,
esperava-se que suas propostas recebessem pelo menos uma certa atenção
por   parte   do   ciumento   guardião.   Meses   passaram-se  e,   encorajados   pelos
sorrisos da pequena Rose, redobraram-se os esforços de Schalken, e tanto
que   seus   resultados   pareciam   trazer   a   fundada   promessa   de   realização  de
suas esperanças e celebridade de sua arte num futuro não muito distante.
      O curso regular dessa prosperidade animadora estava, desgraçadamen-
te,  destinada   a   sofrer   uma súbita   e   tremenda   interrupção   e   de   uma forma
não menos estranha e misteriosa o bastante para frustrar todas as investiga-
ções e lançar sobre os próprios eventos a sombra de um terror quase sobre-
natural.
      Certa   noite,   Schalken   havia   permanecido   no   estúdio   do   mestre   um
tempo  consideravelmente   mais   longo   do   que   seus   companheiros   mais   in-
constantes, que alegremente se permitiam o pretexto da penumbra da tarde
para afastar-se de suas várias tarefas, a fim de terminar um dia de trabalho
nos prazeres e na sociabilidade da taverna.
      Mas Schalken trabalhava pela perfeição, ou antes, por amor. Além dis-
so, sua ocupação presente era apenas um esboço, um trabalho que, ao con-
trário da pintura, poderia prosseguir enquanto houvesse luz suficiente para
distinguir entre tela e carvão. Não tinha então, e de fato nem muito tempo
depois,   descoberto   as  qualidades   singulares   de   seu   lápis   e   trabalhava   na
composição de um grupo de diabinhos e demônios de aparência extrema-

                                      

mente traquinas e grotesca, que infligiam vários tormentos engenhosos a um
santo Antônio suarento e barrigudo reclinado entre eles, aparentemente no
último estágio de embriaguez.
      O   jovem   artista,   contudo,   apesar   de   incapaz   de   executar   ou   mesmo
compreender   algo   verdadeiramente   sublime,   possuía   no   entanto   discerni-
mento suficiente para não se satisfazer com a própria obra; e muitas eram as
pacientes retificações e correções que os membros e feições do santo e do
diabo sofriam, sem todavia produzir em suas novas disposições algum aper-
feiçoamento ou intensificação.
      O grande e antigo aposento estava em silêncio e, exceto pela presença
do pintor, absolutamente vazio de seus ocupantes habituais. Uma hora —
quase duas — passou-se sem qualquer resultado melhor. A luz do dia já de-
clinara, e a penumbra estava rapidamente cedendo às trevas da noite. A pa-
ciência do jovem se esgotara, e ele postou-se diante da obra inacabada, ab-
sorto em ruminações nada agradáveis, uma das mãos mergulhada nas cama-
das de sua longa cabeleira negra, a outra segurando o pedaço de carvão que
tão mal executara sua função, e que ele agora apagara, quase descuidado dos
negros   traços   que   fazia,   com   pressão  irritada   sobre   sua   inexpressibilidade
flamenga.
      “Arre!”, disse em voz alta o jovem, “queria que esse quadro, diabos,
santo e tudo o mais, estivessem onde deveriam — no inferno!”
      Uma breve e súbita risada, soada surpreendentemente perto de seu ou-
vido, instantaneamente respondeu à exclamação.
      O artista virou-se num pulo e agora, pela primeira vez, deu-se conta de
que seus esforços haviam sido inspecionados por um estranho.
      A cerca de um metro e meio e bem atrás dele, postava-se o que era, ou
parecia ser, a figura de um homem idoso: usava uma capa curta e um cha-
péu de abas largas com uma copa em forma de cone, na mão, protegida por
uma luva pesada, à maneira de luva de esgrima, portava uma bengala longa
de marfim, coroada pelo que parecia, com um fraco brilho na penumbra, ser
uma cabeça de ouro maciço; e sobre seu peito, por entre as dobras da capa,
brilhavam os elos de uma rica corrente do mesmo metal.


      O   aposento   estava   tão   escuro   que   nada  mais   da   aparência   da   figura
podia ser afirmado, e o rosto estava totalmente imerso na sombra da pesada
aba de feltro  que sobre ele pendia, de forma que nenhum traço podia ser
divisado. Uma massa de cabelo negro escapava desse chapéu sombrio, uma
circunstância   que,   ligada   ao  porte   ereto,   estático,   do   intruso,   provava   que
seus anos não excediam os sessenta ou algo assim.
      Havia um ar de gravidade e importância no garbo de sua pessoa e algo
de indescritivelmente   extraordinário —  eu   diria   terrível —  na   imobilidade
total, pétrea, da figura que realmente refreou o comentário impertinente que
imediatamente subiu aos lábios do irritado artista. Ele portanto, tão logo se
recuperara suficientemente da surpresa, pediu ao estranho, polidamente, que
se sentasse e dissesse se tinha alguma mensagem ao seu mestre.
      “Diga   a   Gerard   Douw”,   disse   o   desconhecido,   sem   alterar   minima-
mente sua atitude, “que Mynher Vanderhausen, de Roterdã, deseja lhe falar
amanhã   à   noite  a   esta hora   e,   se   assim   desejar,   neste   mesmo   lugar,   sobre
questões importantes; isto é tudo. Boa noite.”
      O estranho, ao cabo dessa mensagem, virou-se abruptamente e, com
um passo rápido mas silencioso, deixou o  aposento antes que Schalken ti-
vesse tempo de responder.
      O jovem ficou curioso para ver em que direção o cidadão de Roterdã
iria ao deixar o estúdio e para isso foi imediatamente para a janela que dava
vista para a porta.
      Um salão bastante amplo ficava entre a porta interior do aposento do
pintor e a porta de entrada, e assim Schalken ocupou o posto de observação
antes que o velho pudesse ter alcançado a rua.
      Em vão ele espiou, contudo. Não havia outra via de saída.
      Desaparecera o velho, ou espreitava ele nos recessos do salão com al-
gum propósito escuso? Essa última consideração encheu de um vago terror
o espírito de Schalken, que foi tão inexplicavelmente intenso que o tornou
igualmente temeroso de permanecer sozinho no aposento e relutante a atra-
vessar o salão.

                                       

      Contudo, com um esforço que parecia desproporcional à ocasião, ele
reuniu  forças   para   decidir-se   a   sair   do   aposento   e,   tendo   dado   uma   volta
dupla à chave e enfiado a chave em seu bolso, sem olhar à direita ou à es-
querda, atravessou a passagem que havia sido há pouco, talvez ainda, ocu-
pada   pela   pessoa  desse misterioso  visitante,   mal   se  aventurando   a   respirar
até chegar em plena rua.
      “Mynher Vanderhausen”, disse Gerard Douw para si, quando se apro-
ximava a hora marcada; “Mynher Vanderhausen de Roterdã! Nunca ouvira
falar de tal homem até ontem. O que poderia ele querer de mim? Pintar um
retrato, talvez;  ou tomar como aprendiz o filho mais novo de um parente
pobre; ou a avaliação de uma coleção; ou — arre! Não existe ninguém em
Roterdã que pudesse me deixar uma herança. Bem, seja qual for o assunto,
logo saberemos do que se trata.
      O fim do dia aproximava-se e todos os cavaletes, salvo o de Schalken,
estavam vazios. Gerard Douw andava de um lado para outro com o passo
inquieto de expectativa impaciente; de quando em quando cantarolava uma
passagem   de   uma  música   que   ele   próprio   estava   a   compor,   pois,   embora
não fosse um grande conhecedor, admirava a arte; detendo-se às vezes para
dar   uma   olhada   na   obra   de  algum   de   seus   discípulos   ausentes,   mas,   mais
freqüentemente, postava-se diante da janela, da qual podia observar os pas-
santes da obscura travessa na qual se localizava seu estúdio.
      “Você não disse, Godfrey”, exclamou Douw, após uma longa e infrutí-
fera mirada de seu posto de observação e virando-se para Schalken — “vo-
cê não disse que a hora marcada era por volta das sete, pelo relógio da Sta-
dhouse?”
      “Já haviam dado as sete quando o vi pela primeira vez, senhor ”, res-
pondeu o estudante.
      “Já está quase na hora, então ”, disse o mestre, consultando um relógio
tão grande e redondo quanto uma laranja.  “Mynher Vanderhausen, de Ro-
terdã — não é?”
      “Foi esse o nome.”
      “Um homem mais velho, ricamente vestido?”, continuou Douw.


      “Tanto quanto pude ver”, respondeu o discípulo. “Não devia ser jo-
vem nem muito velho, e sua vestimenta era cara e formal, como conviria a
um cidadão rico e importante.”
      Nesse momento, o sonoro relógio da Stadhouse deu, batida após bati-
da, sete horas; os olhos do mestre e do discípulo dirigiram-se para a porta; e
não foi senão depois que o último repique do velho sino acabou de vibrar
que Douw exclamou:
      “Ora, ora; agora veremos Sua Senhoria — isto é, se ele for pontual; se
não, podereis esperar por ele, Godfrey, se concederdes o que é devido a um
burgomestre  caprichoso.   Quanto   a   mim,   penso   que   nosso   velho   Leyden
contém uma quantidade suficiente de tais produtos, sem importação de Ro-
terdã.”
      Schalken   riu,   educadamente;   e   após   uma   pausa   de   alguns   minutos,
Douw subitamente exclamou:
      “Pode ter sido uma brincadeira, uma palhaçada aprontada por Vankarp
ou alguém de sua laia! Gostaria que você tivesse corrido o risco e dado uma
boa bordoada no velho burgomestre, stadholder ou o que quer que ele possa
ser. Eu aposto uma dúzia de Rhenish que Sua Senhoria juraria ser um velho
conhecido antes do terceiro golpe”.
      “Aqui vem ele, senhor”, disse Schalken, em um tom baixo, admonitó-
rio; e no mesmo instante, após virar-se para a porta, Gerard Douw obser-
vou a mesma figura que havia, no dia anterior, se apresentado tão inespera-
damente à vista de seu discípulo Schalken.
      Havia algo na aparência e no semblante da figura que ao mesmo tem-
po convenceu o pintor de que não se tratava de uma palhaçada e de que ele
realmente  estava em presença de um homem importante; e portanto, sem
hesitação, tirou seu boné e, saudando cortesmente o estranho, pediu-lhe que
se sentasse.
      O   visitante   acenou   levemente   com   a   mão,   como   que   em   resposta   à
cortesia, mas permaneceu em pé.
      “Tenho a honra de ver Mynher Vanderhausen, de Roterdã?”, disse Ge-
rard Douw.


      “Ele próprio”, foi a resposta lacônica.
      “Soube que Vossa Senhoria deseja me falar”, continuou Douw, “e es-
tou aqui à hora marcada, ao seu dispor.”
      “Esse homem é de confiança?”, disse Vanderhausen, virando-se para
Schalken, que se postara logo atrás de seu mestre.
      “Certamente”, respondeu Gerard.
      “Então ele deverá levar esta caixa ao joalheiro ou ourives mais próxi-
mo para avaliar seu conteúdo e retornar com um certificado da avaliação.”
      Ao mesmo tempo ele colocou uma pequena caixa, medindo cerca de
vinte   e  três   centímetros   de   cada   lado,   nas   mãos   de  Gerard   Douw,   que   se
espantou tanto com seu peso quanto com a rudeza com a qual  ela lhe foi
entregue.
      De acordo com os desejos do estranho, ele a passou às mãos de Schal-
ken e, repetindo as ordens, despachou-o para a missão.
      Schalken guardou sua preciosa carga cuidadosamente entre as dobras
de   sua  capa   e   rapidamente   atravessando   duas   ou   três   ruas   parou   em   uma
casa de esquina, cujo andar térreo era então ocupado pela loja de um ourives
judeu.
      Schalken entrou na loja e chamando o pequeno hebreu na obscuridade
de sua sala traseira, colocou diante dele o pacote de Vanderhausen.
      Examinado à luz de um candeeiro, pareceu ser inteiramente envolvido
em  chumbo,   cuja   parte   exterior   apresentava   muitas   ranhuras   e   manchas   e
quase  esbranquiçado   pelo   passar   dos   tempos.   Esse   envoltório   foi   parcial-
mente removido, com dificuldade, e revelou uma caixa de madeira escura e
particularmente dura; também esta foi aberta com dificuldade e, após a re-
moção de duas ou três camadas de linho, verificou conter uma quantidade
de lingotes de ouro, empilhados de forma compacta e, segundo afirmou o
joalheiro, da mais pura qualidade.
      Cada   um   dos   lingotes   foi   submetido   ao   exame   pelo   judeuzinho,   que
pareceu sentir um prazer epicuriano em tocar e examinar essas porções do
glorioso metal; e cada um deles foi recolocado na caixa com uma exclama-
ção:


      “Mein Gott,  que   perfeição!   Nem   um   único   grão   de   liga —  belíssimo,
belíssimo!”
      A tarefa foi por fim concluída e o judeu certificou por escrito que o va-
lor dos lingotes submetidos ao seu exame chegava a muitos milhares de rix-
dollars.
      Com o desejado documento em seu peito e a rica caixa de ouro cuida-
dosamente apertada sob seu braço e oculta sob sua capa, refez o trajeto e,
entrando no estúdio, encontrou seu mestre e o estranho em uma conversa-
ção concentrada.
      Tão logo Schalken deixara o estúdio a fim de executar a ordem que lhe
fora  confiada,   Vanderhausen   dirigiu-se   a   Gerard   Douw   com   as   seguintes
palavras:
      “Não demorarei convosco esta noite senão alguns minutos e, portanto,
relatarei brevemente o motivo de minha vinda. Visitastes a cidade de Roter-
dã cerca de quatro meses atrás, e na ocasião vi, na Igreja de São Lourenço,
vossa sobrinha, Rose Velderkaust. Desejo casar-me com ela e se vos satisfi-
zer o fato de que sou muito rico — mais rico do que qualquer marido que
pudésseis sonhar para ela creio que concedereis aos meus propósitos a má-
xima atenção. Se aprovardes minha proposta, devereis fechar o acordo ime-
diatamente, pois não tenho tempo suficiente para esperar por cálculos e re-
tardamentos.”
      Gerard Douw ficou talvez tão perplexo quanto qualquer pessoa diante
do caráter extremamente inusitado da comunicação de Mynher Vanderhau-
sen;   mas não   deu   qualquer   manifestação   inconveniente   de surpresa.   Além
dos motivos  ditados pela prudência e polidez, o pintor sentiu uma espécie
de calafrio e sensação de opressão — um sentimento como o que suposta-
mente toma um homem colocado inconscientemente em contato com algo
por que tenha uma antipatia natural — um horror e um pavor indefiníveis
—  quando   diante   da   presença   do   estranho  excêntrico,   que   lhe   tirou   toda
vontade de dizer algo que pudesse ser ofensivo.
      “Não tenho dúvidas”, disse Gerard, após uma ou duas hesitações pre-
liminares,   "de   que   a   ligação  que   propondes   poderia   ser   tanto    vantajosa

quanto   honrosa   para  minha   sobrinha;   mas   devo   informar-vos   de   que   ela
tem vontade própria e pode não aquiescer ao que julgaríamos lhe ser bené-
fico.”
      “Não   tenteis   me   enganar,   Senhor   Pintor”,   disse   Vanderhausen;  “vós
sois seu guardião — ela é vossa protegida. Ela é minha, se assim o determi-
nardes.”
      O homem de Roterdã deu um passo à frente enquanto falava, e Ge-
rard Douw, quase inadvertidamente, rezou interiormente pelo rápido retor-
no de Schalken.
      “Desejo”, disse o misterioso cavalheiro, “colocar em vossas mãos ime-
diatamente uma prova de minha riqueza e uma garantia de minha generosi-
dade para com ossa sobrinha. O garoto retornará em um ou dois minutos
com uma soma equivalente a cinco vezes a fortuna que ela tem o direito de
esperar de um marido. Ela será posta em vossas mãos, juntamente com seu
dote, e podereis aplicar a  soma conjunta como julgar conveniente ao inte-
resse da moça, e será exclusivamente dela enquanto ela viver. Será isso sufi-
cientemente generoso?"
      Douw   concordou,   e   interiormente   pensou   que   a   sorte   fora   extrema-
mente generosa com sua sobrinha. O estranho, estimou, devia ser extraor-
dinariamente rico e generoso, e tal oferta não deveria ser desprezada, embo-
ra feita por um mal-humorado e sem uma presença muito agradável.
      Rose não acalentava expectativas muito altas, pois seu dote era quase
nulo;   na  verdade   absolutamente   nulo,   exceto   pelo   fato   dessa   carência   ter
sido suprida pela generosidade de seu tio. Tampouco tinha ele qualquer di-
reito de alegar quaisquer escrúpulos contra o casamento por motivo de nas-
cimento, pois sua própria origem não era absolutamente elevada; e quanto a
outras objeções, decidiu Gerard — e, de fato, segundo os costumes da épo-
ca tinha o direito de fazê-lo — não ouvi-las no momento.
      “Senhor”, disse ele, dirigindo-se ao estranho, “vossa oferta é muito ge-
nerosa e qualquer hesitação que eu possa sentir em aceitá-la imediatamente
dever-se-á somente a não ter eu a honra de saber algo sobre vossa família

                                        

ou condição social. Sobre esse ponto poderíeis, com certeza, facilmente es-
clarecer-me?”
      “Quanto à minha respeitabilidade”, disse o estranho secamente, “ten-
des minhas garantias por ora; não me importuneis com interrogatórios; nada
podereis descobrir a meu respeito se não o que eu decidir revelar-vos. Tereis,
como garantia bastante de minha respeitabilidade, minha palavra, se fordes
honrado; se sórdido, meu ouro.”
      “Um   velho   cavalheiro   bem   petulante”,   pensou  Douw;  “ele   só   faz   o
que quer. Mas, tudo considerado, tenho motivos para lhe dar a mão de mi-
nha   sobrinha.  Fosse   ela   minha   própria   filha,   não   faria   diferente.   Não   me
comprometerei desnecessariamente, contudo.”
      “Não   vos   comprometereis   desnecessariamente”, disse   Vanderhausen,
proferindo estranhamente as mesmas palavras que haviam acabado de vir à
mente de seu interlocutor: “mas o fareis se necessário, imagino; e vos mos-
trarei que o considero indispensável. Se o ouro que pretendo deixar em vos-
sas mãos vos bastar e se não desejardes que minha proposta seja imediata-
mente retirada, devereis, antes que eu deixe esta sala, assinar este compro-
misso.”
      Tendo assim falado, ele colocou um papel nas mãos de Gerard, cujo
conteúdo  explicitava   um   solene   compromisso   firmado  por   Gerard   Douw
em   dar   a   Mynher  Vanderhausen,   de   Roterdã,   Rose   Velderkaust   em   casa-
mento e assim por diante, dentro de uma semana a partir desta data.
      Enquanto o pintor lia esse acordo, Schalken, como dissemos anterior-
mente, entrou no estúdio e, tendo entregado a caixa e a avaliação do judeu
às mãos do estranho, estava para se retirar quando Vanderhausen pediu-lhe
que esperasse; e, entregando a caixa e o certificado a Gerard Douw, esperou
em   silêncio   até   que  ele   se   certificasse,   pelo   exame   de   ambos,   do   valor   da
caução entregue a suas mãos. Por fim, disse ele:
      “Estais satisfeito?”
      O pintor pediu “se poderia ter mais um dia para pensar”.
      “Nem mesmo uma hora”, disse friamente o pretendente.
      “Bem, então”, disse Douw, “estou satisfeito; é uma pechincha.”

                                       
      “Assine imediatamente, então”, disse Vanderhausen, “minha paciência
chegou ao fim.”
      Ao mesmo tempo, ele apresentou uma pequena caixa de papéis escri-
tos e Gerard assinou o importante documento.
      “Que este jovem testemunhe o acordo”, disse o velho; e Godfrey  S-
chalken inconscientemente assinou o instrumento que concedia a um outro
aquela mão que durante tanto tempo ele vira como objeto de recompensa
por todos os seus esforços.
      Concluído assim o acordo, o estranho visitante dobrou o papel e guar-
dou-o com segurança em um bolso dentro da capa.
      “Visitar-vos-ei   amanhã   à   noite,   às   nove   horas,   em   sua   casa,   Gerard
Douw,   e   verei  o objeto   de  vosso   contrato.   Adeus.” E   com  essas   palavras
Mynher Vanderhausen moveu-se rígida, mas rapidamente para fora do apo-
sento.
      Schalken, ansioso por esclarecer suas dúvidas, postou-se ao lado da ja-
nela para observar a porta de entrada; mas o experimento serviu apenas para
confirmar  suas suspeitas, pois o velho não saiu pela porta. Isso era muito
estranho, muito singular, muito amedrontador. Ele e seu mestre retornaram
juntos e pouco  conversaram no caminho, pois cada um tinha seu próprio
objeto de reflexão, de ansiedade e de esperança.
      Schalken, todavia, não sabia a desgraça que ameaçava seus acalentados
planos.
      Gerard Douw nada sabia acerca dos laços que haviam sido estabeleci-
dos entre o seu pupilo e sua sobrinha; e mesmo que soubesse é duvidoso
que teria considerado sua existência como uma obstáculo sério para os dese-
jos de Mynher Vanderhausen.
      Casamentos eram então questões de negociação e cálculos; e teria sido
tão absurdo aos olhos do guardião fazer de uma afeição mútua um elemento
essencial  em um contrato de casamento, tanto quanto teria sido descrever
suas obrigações e contratos na linguagem de romance de cavalaria.
      O pintor, contudo, não comunicou a sua sobrinha o passo importante
que havia tomado em seu benefício, e sua resolução não nasceu de qualquer


antecipação de oposição da parte da moça, mas somente de uma consciên-
cia ridícula de que, se sua protegida lhe pedisse, como o faria muito natu-
ralmente, para descrever a aparência do noivo que ele lhe destinara, ele seria
obrigado a confessar que não vira seu rosto e, se instado, ser-lhe-ia impossí-
vel identificá-lo.
      No dia seguinte, após o jantar, Gerard Douw chamou sua sobrinha e,
examinou  cuidadosamente   sua   aparência   com   um   ar   de   satisfação,   tomou
sua mão e, mirando sua bela e inocente face com um sorriso bondoso, disse:
      “Rose, minha garota, esse vosso rosto vos fará a fortuna.” Rose enru-
besceu e sorriu. “Faces e temperamentos como esses raramente andam jun-
tos   e,   quando   o  fazem,   o   composto  é   uma   poção   amorosa   à   qual   poucas
cabeças ou corações podem resistir. Crede-me, sereis em breve uma noiva,
garota. Mas chega de frivolidades;  o tempo urge e portanto apronte a sala
grande por volta das oito horas esta noite e dê ordens para servirem o jantar
às nove. Espero um amigo para esta noite; e cuide, minha criança, para se
apresentar em belas roupas, a fim de que ele não nos julgue pobres ou su-
jos.”
      Com essas palavras ele deixou a sala e dirigiu-se ao aposento que já a-
presentamos aos nossos leitores — aquele no qual seus discípulos trabalha-
vam.
      Quando chegou a noite, Gerard chamou Schalken, que estava prestes a
tomar o caminho de seu alojamento obscuro e confortável e lhe pediu para
vir a sua casa e cear com Rose e Vanderhausen.
      O convite é claro, foi aceito e Gerard Douw e seu discípulo logo se vi-
ram na bela e algo antiquada sala que havia sido preparada para a recepção
do estranho.
      Uma lareira acesa alegrava a ampla sala; em um canto, colocara-se uma
mesa antiga, com pés ricamente esculpidos — destinada, sem dúvida, a re-
ceber a ceia para a qual se adiantavam os preparativos; e dispostas com exa-
ta   regularidade  ficavam   as   cadeiras   de   espaldar   alto   cuja   deselegância   era
mais do que contrabalançada pelo conforto.

                                 

      O pequeno grupo, formado por Rose, seu tio, e o artista aguardou a
chegada do esperado visitante com muita impaciência.
      Por fim chegaram as nove horas e com elas, batidas à porta da rua, as
quais, rapidamente atendidas, foram seguidas por pisadas lentas e enfáticas
na escada; os passos moveram-se lentamente através do vestíbulo, a porta
da sala em que o grupo que descrevemos estava reunido abriu-se lentamente
e entrou uma figura que chocou, quase estarreceu, o fleumático holandês e
quase fez Rose gritar de medo; era a forma, e em roupagens adornadas, de
Mynher Vanderhausen; a atitude, o porte, a altura eram os mesmos, mas as
feições nunca haviam sido vistas antes por qualquer daquelas pessoas.
      O estranho parou à porta da sala e exibiu inteiramente sua forma e fa-
ce. Ele usava um manto de tecido escuro, que era curto e volumoso, não
chegando aos joelhos; suas pernas estavam envoltas em meias de seda púr-
pura escura e seus sapatos adornados com rosas da mesma cor. A abertura
frontal do manto mostrava uma vestimenta que parecia consistir de um ma-
terial muito escuro, talvez de zibelina, e suas mãos estavam envoltas em um
par de luvas pesadas de couro que iam bem além dos punhos, à maneira de
uma manopla. Em uma das mãos ele levava sua bengala e seu chapéu, que
havia tirado, e a outra pendia pesadamente ao seu lado. Abundantes melenas
de cabelos grisalhos desciam em longos cachos de sua cabeça, e suas dobras
repousavam   sobre   as   pregas   de  uma  rígida   gola franzida,  que   ocultava   to-
talmente seu pescoço.
      Até este ponto, tudo estava bem; mas o rosto! — toda a carne do rosto
estava colorida de um tom azul-acinzentado que às vezes é produzido pela
ação de medicamentos metálicos administrados em quantidades excessivas;
os olhos eram enormes e o branco aparecia tanto acima quanto abaixo da
íris, o que lhes dava uma aparência de insanidade, intensificada por seu ver-
melho vítreo; o nariz era bem feito, mas um dos lados da boca estava consi-
deravelmente repuxado, onde se abria para dar lugar a dois longos e desco-
loridos   caninos,  que se projetavam   da mandíbula   superior  até   bem  abaixo
do lábio inferior; a cor dos próprios lábios era correspondente à da face e
conseqüentemente   quase   negra.   A   fisionomia   era  extremamente   malévola,


mesmo   satânica;   e,   com   efeito,   uma   combinação   tão  horrível   mal   poderia
ser descrita, exceto pela imagem do cadáver de algum malfeitor atroz, que
pendera   de   uma   corda,   escondido,   durante   longo   período,   para   tornar-se
finalmente a morada de algum demônio — o horrendo passatempo de pos-
sessão satânica.
      Notava-se que o digno estranho permitia que apenas o mínimo possí-
vel   de  sua   carne   aparecesse   e   que   durante   sua   visita   nem   uma   vez   sequer
tirou suas luvas.
      Permanecendo por alguns momentos à porta, Gerard Douw por fim
encontrou ânimo e calma para dar-lhe as boas vindas e, com um mudo ace-
no da cabeça, o estranho entrou na sala.
      Havia algo de indescritivelmente singular, horrível mesmo em todos os
seus movimentos, algo indefinível, algo não natural, inumano — era como
se os membros fossem guiados e dirigidos por um espírito desabituado ao
funcionamento da maquinaria corporal.
      O estranho mal disse algumas palavras durante sua visita, que não ex-
cedeu meia hora; e o próprio anfitrião pôde reunir coragem suficiente para
proferir alguns cumprimentos e cortesias necessárias; e, na verdade, tal era o
nervoso   terror  que   a   presença   de   Vanderhausen   inspirava   que   por   pouco
todos os seus convivas não fugiram gritando da sala.
      Contudo, eles não perderam totalmente a calma a ponto de deixar de
notar duas estranhas peculiaridades de seu visitante.
      Durante sua estadia, ele nem uma só vez fechou os olhos, nem mesmo
moveu-os  ainda   que   minimamente;   mais   ainda,  havia   uma   quietude   quase
cadavérica em toda a sua pessoa, em virtude da total ausência de movimento
do peito causado pelo processo de respiração.
      Essas   duas   peculiaridades,   embora   quando   descritas   possam   parecer
triviais, produziam um efeito impressionante e extremamente desagradável
quando   vistas  e   observadas.   Vanderhausen,   por   fim,   aliviou   o   pintor   de
Leyden de sua presença agourenta e, com não pouca satisfação, o pequeno
grupo ouviu a porta da rua fechar-se atrás dele.

                                        

      “Querido tio”, disse Rose, “que homem horrível! Eu não desejaria vê-
lo novamente nem pelas riquezas dos Estados!”
      “Cale-se, garota tola!”, disse Douw, cujos sentimentos  estavam longe
de confortáveis. “Um homem pode ser tão feio quanto o demônio, e ainda
assim, se seu coração e ações forem bons, valerá todos os belos e perfuma-
dos janotas que passeiam no Mall. Rose, minha criança, é bem verdade que
ele não tem uma face graciosa como a tua, mas sei que é rico e generoso; e
ainda que dez vezes mais feio.”
      “O que é inimaginável”, observou Rose.
      “Essas duas virtudes seriam o bastante”, continuou seu tio, “para con-
trabalançar   toda   a   sua   deformidade;  e   se  não  têm   o poder para   realmente
alterar   a   forma   de   sua   aparência,   são   ao   menos   eficazes   o   suficiente   para
impedir alguém de considerá-las erroneamente.”
      “Sabe, meu tio”, disse Rose, “quando o vi à porta não pude tirar de
minha cabeça que via a cabeça velha, pintada, de madeira que me amedron-
tava tanto na igreja de São Lourenço em Roterdã”.
      Gerard riu, embora não pudesse deixar de reconhecer interiormente a
justeza da comparação. Todavia, ele estava decidido, tanto quanto possível,
a deter a inclinação de sua sobrinha a ridicularizar a feiúra de seu pretenden-
te, embora não lhe agradasse nem um pouco observar que ela parecera to-
talmente livre daquele misterioso medo do estranho que — impossível não
podia deixar de reconhecê-lo —  afetava-o consideravelmente, assim como
ao seu discípulo Godfrey Schalken.
      Na manhã daquele mesmo dia, chegaram de diversas partes da cidade
ricos presentes de sedas, veludos, jóias e assim por diante para Rose; e tam-
bém um pacote endereçado a Gerard Douw, o qual, aberto, revelou conter
um   contrato   de  casamento  formalmente   redigido,   em   Roterdã,   entre   My-
nher Vanderhausen de Boom-quay, e Rose Velderkaust de Leyden, sobrinha
de   Gerard   Douw,   mestre   na  arte   da   pintura,   também   da   mesma   cidade;   e
contendo compromissos da parte de Vanderhausen a prover sua noiva de
luxos   muito   superiores   do  que   ele   havia  anteriormente   levado   seu   tutor   a


esperar   e   cujo   uso   deveria   ser   garantido incondicionalmente   à   moça  —  o
dinheiro seria confiado ao próprio Gerard Douw.
      Eu não descreverei cenas sentimentais, nem crueldade de guardiões ou
magnanimidade de protegidos ou sofrimentos de amantes. Ofereço registros
de sordidez, leviandade e interesse. Em menos de uma semana após o pri-
meiro encontro que já descrevemos, o contrato de casamento foi realizado e
Schalken   viu   o   troféu  pelo   qual   arriscara   tudo   o   mais   para   conquistar   ser
levado triunfantemente pelo seu poderoso rival.
      Durante dois ou três dias ele se ausentou da escola; depois retornou e
trabalhou, com menos alegria, mas com uma obstinação redobrada; o sonho
de amor dera lugar ao da ambição.
      Passaram-se   meses   e,   contrariando   suas   expectativas   e   até   mesmo   as
promessas explícitas das partes, Gerard Douw nenhuma notícia teve de sua
sobrinha ou de seu venerável esposo. Os benefícios em dinheiro, que deve-
riam ser solicitados em somas entregues trimestralmente, jaziam intocados
em suas mãos. Ele começou a se sentir extremamente inquieto.
      Possuía   o   endereço   de   Mynher   Vanderhausen   em   Roterdã.   Após   al-
gumas  hesitações,   ele   finalmente   decidiu-se   a   viajar   até   lá  —  algo   muito
simples e facilmente realizável —  e assim certificar-se da segurança e con-
forto de sua protegida, pela qual nutria um sincero e intenso afeto.
      Sua busca foi em vão, contudo. Ninguém em Roterdã jamais ouvira fa-
lar de Mynher Vanderhausen.
      Gerard Douw procurou por todas as casas de Boom-quay; mas em vão.
Ninguém pôde lhe dar qualquer informação acerca do objeto de sua busca,
e ele foi obrigado a retornar a Leyden tão desinformado quanto antes.
      Ao   chegar,   ele   correu   para   o   estabelecimento   do   qual   Vanderhausen
havia alugado o pesado, embora, em vista dos tempos, luxuoso veículo que
o casal de noivos empregara para levá-los a Roterdã. Pelo condutor dessa
máquina ele ficou  sabendo que, tendo marchado em lentas etapas, haviam
chegado altas horas da noite a Roterdã; mas, antes de entrar na cidade e ain-
da a uma milha de seu destino, um pequeno grupo de homens sobriamente
vestidos e à moda antiga,  com barbas e bigodes pontiagudos, postados no


meio da estrada, obstruíram o caminho e detiveram a carruagem. O condu-
tor freou seus cavalos, temendo, pela escuridão da noite e a solidão da es-
trada, que se tratasse de algum intento maléfico.
      Seus receios foram, contudo, acalmados ao observar que aqueles ho-
mens  estranhos   carregavam   uma   grande   liteira,   de   forma   antiga,   que   eles
imediatamente puseram ao chão, onde o noivo tendo aberto a porta do co-
che, desceu e, tendo auxiliado a noiva a fazê-lo também, conduziu-a, a ela
que chorava copiosamente e torcia as mãos, à liteira, na qual ambos entra-
ram.   A   liteira,   erguida   pelos   homens  que   a   rodeavam   foi   conduzida  sem
demora em direção à cidade, e antes que andassem muito as trevas a oculta-
ram da vista da carruagem holandesa.
      No interior do veículo, ele encontrou uma bolsa, cujo conteúdo exce-
dia o triplo do pagamento devido pelo aluguel da carruagem e do condutor.
Ele nada mais viu ou pôde contar sobre Mynher Vanderhausen e sua bela
senhora.   Esse mistério   foi   uma   fonte   de   profunda   angústia   e   quase   pesar
para Gerard Douw.
      Vanderhausen evidentemente o enganara, embora por qual motivo ele
não podia imaginar. Ele duvidava da possibilidade de que um homem que
mostrasse em sua fisionomia indícios tão fortes da presença de sentimentos
extremamente  demoníacos   não  fosse   na   realidade   senão   um   bandido;   e   o
passar dos dias sem notícias de sua sobrinha, ao contrário de induzi-lo a es-
quecer seus temores, tendia a intensificá-los cada vez mais.
      A perda da companhia alegre de sua sobrinha tendia também a depri-
mi-lo; e para dissipar esse desânimo, que muitas vezes tomava seu espírito
quando  terminavam   seus   afazeres   diários,   ele   freqüentemente   costumava
persuadir Schalken a acompanhá-lo até a casa e, com sua presença, até certo
ponto afastar a tristeza de sua ceia solitária.
      Uma noite, o pintor e seu discípulo estavam sentados ao pé da lareira,
terminada   uma   ceia   confortante.   Haviam   se   entregado   àquela   melancolia
pensativa por vezes induzida pelo processo da digestão, quando suas refle-
xões foram perturbadas por um barulho na porta da rua, como se causado
por alguém que a forçasse repetidamente. Um criado acorrera sem demora

                                        

para averiguar a causa do tumulto, e eles ouviram-no duas ou três vezes in-
terrogar a quem batia na porta, mas sem obter qualquer resposta ou cessa-
ção dos sons.
      Ouviram-no então abrir a porta do saguão e imediatamente seguiu-se
uma luz e passos rápidos na escada. Schalken pôs a mão na espada e avan-
çou em direção à porta. Esta abriu antes que ele a alcançasse, e Rose preci-
pitou-se na sala. Ela parecia fora de si e magra, pálida de exaustão e terror;
mas sua vestimenta os chocou quase tanto quanto seu surgimento inespera-
do.  Esta   consistia   em   uma  espécie  de   roupão   de   lã   branca,   fechada   até   o
pescoço e chegando até o chão. Estava toda em desalinho e suja, talvez pela
viagem. A pobre criatura mal havia  entrado no aposento quando caiu sem
sentidos. Com alguma dificuldade, eles conseguiram fazê-la voltar a si e ela,
ao recobrar os sentidos, instantaneamente exclamou num tom impetuoso e
aterrorizado:
      “Vinho, vinho, depressa, ou estarei perdida!”
      Extremamente alarmados com a estranha agitação em que o pedido fo-
ra feito, imediatamente satisfizeram seu desejo e ela tomou vinho com uma
rapidez e avidez que os surpreendeu. Mal o havia sorvido, ela exclamou com
a mesma urgência:
      “Comida, comida, agora, ou morrerei!”
      Uma grande porção de carne estava sobre a mesa, e Schalken imediata-
mente avançou para cortar um pedaço, mas foi impedido; pois tão logo per-
cebera o alimento ela se precipitou em sua direção com a voracidade de um
abutre e, tomando-o em suas mãos, dilacerou a carne com os dentes e a en-
goliu.
      Quando o paroxismo da fome mitigou, ela pareceu subitamente aper-
ceber-se da estranheza de sua conduta, ou por   terem outros pensamentos
mais perturbadores acorrido a seu espírito, pois ela começou a chorar copi-
osamente e a esfregar as mãos.
      “Oh! Chamem um sacerdote de Deus”, disse ela, “não estarei salva até
que ele chegue; chamem-no sem demora.”


      Gerard Douw despachou um mensageiro imediatamente e convenceu
sua sobrinha a servir-se de seu quarto; ele também a persuadiu a nele per-
manecer imediatamente para descansar; sua concordância foi obtida à con-
dição de que não a deixariam só nem por um momento sequer.
      “Oh!, quem dera que o santo homem já estivesse aqui!”, disse ela, “ele
pode me libertar. O morto e o vivo jamais podem ser um só — Deus não
quis.”
      Com essas misteriosas palavras ela cedeu aos seus pedidos e eles entra-
ram no aposento que Gerard Douw colocara a sua disposição.
      “Não  —  não   me   deixem   nem   por   um   instante”,  disse  ela.  “Estarei 
perdida para sempre se o fizerem.”
      Para se chegar ao quarto de Gerard Douw era preciso atravessar um
salão espaçoso, no qual eles estavam agora prestes a entrar. Gerard Douw e
Schalken carregavam candeeiros, de modo que uma luz iluminava todos os
objetos   circundantes.  Eles   estavam   entrando   agora   no   salão   espaçoso,   o
qual, como eu disse, se comunicava com o quarto de Douw, quando Rose
deteve-se subitamente e, num sussurro que parecia tremer de horror, disse:
      “Meu Deus! Ele está aqui... ele está aqui! Vejam, vejam... lá vai ele!”
      Ela apontou para a porta do quarto interno, e Schalken julgou ver o
vulto de uma forma indefinida deslizar para dentro dele. Desembainhou a
espada e, erguendo o candeeiro para iluminar mais fortemente os objetos do
quarto, entrou no local para onde a sombra deslizara. Nada havia lá — nada
senão a mobília que pertencia ao quarto, e contudo  não restava dúvida de
que algo se movera diante deles em direção ao quarto.
      Um pavor terrível tomou-o, e o suor frio jorrou em enormes gotas so-
bre sua  fronte; pavor que só aumentou por continuar a ouvir a insistência
cada   vez   maior,  as   súplicas   aflitas   com  as   quais   Rose   lhes   implorava   para
não a deixarem nem por um instante.
      “Eu o vi”, disse ela. “Ele está aqui! Tenho certeza... eu o conheço. Ele
está ao meu lado... ele está comigo... ele está no quarto. Então, pelo amor de
Deus, salvem-me, não se afastem de mim!”

                                    

      Por   fim,   eles   conseguiram   convencê-la   a   deitar-se   na   cama,   onde   ela
continuou a suplicar que ficassem perto dela. Murmurava muitas frases in-
coerentes, repetindo sem cessar: “O morto e o vivo não podem ser um só...
Deus não quis!”, e então novamente: “Paz aos despertos... sono aos sonâm-
bulos”.
      Ela   continuou   a   dizer   essas   frases   misteriosas   e   entrecortadas   até  a
chegada do sacerdote.
       Gerard Douw começou a temer, muito naturalmente, que a pobre ga-
rota,  em virtude do terror e dos maus-tratos,  enlouquecera; e ele tinha al-
gumas suspeitas, pelo inesperado de sua vinda, pelo inusitado da hora e so-
bretudo pelo desvario e terror de seu comportamento, que ela fugira de al-
gum hospício e estava agora com medo da perseguição. Ele resolveu consul-
tar   um   médico   assim  que   conseguisse  acalmar   o   espírito   de   sua   sobrinha
com a ajuda do sacerdote, cuja presença ela implorava tão ardentemente; e
até   que   este   chegasse   ele   não se   arriscaria   a   fazer-lhe  perguntas,   o   que   só
reavivaria lembranças penosas ou terríveis e aumentaria sua agitação.
       O sacerdote chegou logo — um homem de fisionomia ascética e idade
venerável —, por quem Douw tinha grande respeito, porquanto fosse um
polemista de longa data, embora, talvez, mais temido como guerreiro do que
amado como cristão, de moral pura, cérebro refinado e coração gelado. O
sacerdote   entrou   no  quarto   que   se   comunicava   com   aquele   em   que   Rose
estava deitada e imediatamente  à sua chegada pediu para rezarem por ela,
que estava nas mãos de Satã e não tinha esperanças de libertação, a não ser
dos céus.
      Para que nossos leitores possam perceber claramente todas as circuns-
tâncias  do   acontecimento   que   estamos   para   descrever   imperfeitamente,   é
necessário esclarecer as posições relativas dos envolvidos. O velho sacerdo-
te e Schalken estavam na antecâmara de que já falamos; Rose estava deitada
no quarto interno, cuja porta estava fechada; e ao lado da cama, a seus pedi-
dos insistentes, estava seu guardião; havia uma vela acesa no quarto e mais
três no salão.

                                        

      O velho senhor pigarreou, como que para começar; mas antes que o
fizesse, um súbito golpe de vento apagou a vela que iluminava o quarto no
qual estava deitada a pobre garota e ela, grandemente alarmada, exclamou:
      “Godfrey, traga outra vela; não estou segura na escuridão”.
      Gerard     Douw,     esquecendo     por   um   instante   suas  repetidas   ordens,
num impulso momentâneo, dirigiu-se para o salão, a fim de fazer o que ela
pedira.
      “Meu Deus, não vá, querido tio!”, gritou a infeliz menina; e ao mesmo
tempo ela saltou da cama e correu ao seu encalço, para agarrá-lo e detê-lo.
      Mas o aviso veio tarde demais, pois mal ele atravessara a soleira e sua
sobrinha mal   tivesse  acabado   de   pronunciar   essas   palavras   assustadoras,  a
porta que dividia os dois aposentos fechou-se violentamente atrás dele, co-
mo que movida por uma forte rajada de vento.
      Schalken e ele correram   ambos para a porta, mas, não obstante seus
esforços desesperados, não conseguiram movê-la.
      Grito após grito soaram do quarto interno, com toda a altura aguda de
pavor desesperado. Schalken e Douw empregaram toda a energia e disten-
deram todos  os nervos para forçar a porta a abrir; mas em vão. Nenhum
som de luta se ouvia lá dentro, mas os gritos pareciam se tornar mais altos, e
ao mesmo tempo ouviram os ferrolhos da janela de treliça moverem-se e a
própria janela ranger no peitoril como se abrisse com um solavanco.
      Um ÚLTIMO grito, tão prolongado, agudo e agoniado que mal pare-
cia humano, veio do quarto e subitamente seguiu-se um silêncio mortal.
      Ouviram-se pisadas leves pelo chão, como que da cama para a janela; e
quase no mesmo instante a porta cedeu e abriu, fazendo com que ambos os
homens, que sobre ela estavam exercendo pressão, quase se precipitassem
para dentro do quarto. Este estava vazio. A janela estava aberta, e Schalken
pulou   para   uma   cadeira  e   olhou  para   a   rua   e o  canal   abaixo.   Não  viu ne-
nhuma forma, mas divisou, ou pensou ter divisado, as águas do largo canal
abaixo agitarem-se em grandes ondas concêntricas, como se, momentos an-
tes, fossem perturbadas pela imersão de um grande e pesado corpo.


      Jamais se descobriu um vestígio sequer de Rose, ou se obteve alguma
informação clara com relação ao seu misterioso pretendente; nenhuma pista
que   orientasse  alguém   pelo   labirinto   e   chegar   a   uma   conclusão   definitiva.
Mas ocorreu um incidente que, embora não seja aceito por nossos leitores
racionais   como   algo  próximo   a   uma   prova   do   ocorrido,   produziu   todavia
uma impressão forte e duradoura sobre Schalken.
      Muitos   anos   depois   dos   acontecimentos   que   descrevemos,   Schalken,
num lugar muito distante, recebeu a notícia da morte de  seu pai e de seu
sepultamento num dia marcado, na igreja de Roterdã. Foi consideravelmen-
te longo o caminho percorrido pela procissão funerária, que não foi acom-
panhada por muitas pessoas.  Schalken não conseguiu chegar a Roterdã no
dia marcado para o enterro senão à tarde. A procissão ainda não havia che-
gado. Anoiteceu e, mesmo então, ela não chegara.
      Schalken caminhou lentamente até a igreja na qual se anunciara o fune-
ral — e que, portanto, estava aberta — e a câmara mortuária onde deveria
ser colocado o corpo à disposição. O funcionário que corresponde ao nosso
sacristão, ao ver um cavalheiro bem vestido, que pretendia assistir ao aguar-
dado funeral, andando pela nave lateral de igreja, hospitaleiramente convi-
dou-o a dividir com ele o conforto de uma boa fogueira, a qual, segundo seu
hábito durante o inverno e em ocasiões semelhantes, ele costumava acender
na   lareira   de   um   aposento   que   se  comunicava,   por   um   pequeno   lance   de
escada, com a câmara mortuária abaixo.
      Nesse quarto, Schalken e seu anfitrião sentaram-se, e o sacristão, após
algumas tentativas infrutíferas para iniciar uma conversa com seu hóspede,
foi obrigado a ocupar-se de seu cachimbo e de sua caneca para compensar
sua solidão.
      Apesar de seu pesar e preocupações, a fadiga de uma cansativa jornada
de  aproximadamente   quarenta   horas   gradualmente   venceu   o   espírito   e   o
corpo de Godfrey Schalken que caiu num sono pesado, do qual foi acorda-
do por alguém que o sacudia delicadamente pelo ombro. Ele julgou primei-
ramente que o velho sacristão o chamara, mas ELE não estava mais no apo-
sento.

                                       

      Schalken levantou-se e assim que conseguiu ver claramente o que havia
a sua volta, percebeu uma forma feminina, vestida numa espécie de manto
leve de musselina, parte do qual servia de véu, e em sua mão carregava um
candeeiro Ela movia-se para longe dele e para o lance de escadas que con-
duzia às câmaras mortuárias.
      Schalken sentiu um certo temor ao ver essa imagem e ao mesmo tem-
po   um  impulso   irresistível   de   segui-la.   Ele  a   acompanhou   até   as   câmaras
mortuárias, mas quando a forma alcançou o topo da escada ele se deteve; a
imagem também parou e, voltando-se suavemente, mostrou à luz do cande-
eiro que portava, o rosto e as feições de seu único amor, Rose Velderkaust.
Não havia nada de terrível, ou mesmo  triste, em sua fisionomia. Pelo con-
trário, ela mostrava o mesmo sorriso brejeiro que encantava o artista muito
tempo atrás, nos dias felizes.
      Um sentimento de espanto e de curiosidade, irresistivelmente intenso,
obrigou-o a seguir o espectro, se é que era um espectro. Ela desceu os de-
graus e ele seguiu-a; e, voltando-se para a esquerda, através de um corredor
estreito,   ela  conduziu-o,   para   sua  enorme   surpresa,   ao  que   parecia   ser   um
salão   holandês  do tipo  antigo,   como   os   que   os   quadros   de  Gerard   Douw
ajudaram a imortalizar.
      Havia um grande número de peças de mobiliário caro e antigo no apo-
sento, e em um canto, uma cama de dossel, com cortinas negras e pesadas a
sua volta; a imagem voltou-se várias vezes para ele com o mesmo sorriso
brejeiro; e ao chegar ao lado da cama, abriu as cortinas e, à luz do candeeiro,
exibiu para o pintor aterrorizado, a forma lívida e demoníaca de Vanderhau-
sen, sentada rigidamente na cama. Schalken mal olhou para ele e caiu sem
sentidos   no   chão,   onde   ficou   até  que   o   encontraram,   na   manhã   seguinte,
pelas pessoas encarregadas de fechar os corredores entre as câmaras mortu-
árias.   Ele   jazia   deitado   numa   cela   de   tamanho  considerável,   que   durante
muito tempo não era visitada, e caíra ao lado de um grande caixão sustenta-
do por pequenos pilares de pedra, uma garantia contra os ataques dos ver-
mes.

                                       

      Até o dia de sua morte, Schalken esteve convencido da realidade da vi-
são que testemunhara, e deixou atrás de si uma prova estranha da impressão
que ela produzira em sua imaginação, num quadro executado pouco depois
do evento narrado por nós e que é valioso não somente em virtude dos de-
talhes, pelos quais Schalken é tão apreciado, mas até mesmo mais por mos-
trar um retrato, tão detalhado e fiel quanto pode ser o que é feito de memó-
ria, de seu antigo amor, Rose Venderkaust, cujo destino misterioso será para
sempre objeto de especulação.
      O quadro representa um aposento de construção antiga, como os que
se encontram na maioria das velhas catedrais, e iluminado fracamente por
um candeeiro, levado pela mão de uma imagem feminina, como o que ten-
tamos descrever acima; e no fundo, à esquerda do espectador do quadro, há
a   forma   de  um   homem   aparentemente   recém-despertado   do   sono   e   cuja
postura, com a mão sobre sua espada, expressa um grande susto: esta última
imagem está iluminada apenas pelo débil brilho do fogo de uma tora de ma-
deira ou de carvão.
      A   obra   toda   constitui   um   belo   exemplo   daquela   astuciosa   e   singular
distribuição de luz e sombra que tornou imortal, entre os artistas de seu país,
o nome de Schalken. Este conto é tradicional, e o leitor facilmente percebe-
rá, por termos intencionalmente deixado de dar relevo a muitos pontos da
narrativa, quanto de umas poucas cores a mais poderia ter-lhe acrescentado
de   re-alce,   que  desejamos   apresentar-lhe   não   uma   ficção   do   cérebro,   mas
uma tradição singular relacionada e pertencente à biografia de um famoso
artista.

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