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domingo, 7 de agosto de 2011

Sir Arthur Conan Doyle-O Capitão do Estrela do Mar-Conto Fantasmagórico



                 O CAPITÃO DO ESTRELA POLAR

                                                                Por:  Sir Arthur Conan Doyle

          

Sir Arthur Ignatius Conan Doyle, DL (Edimburgo, 22 de Maio de 1859 — Crowborough, 7 de Julho de 1930) foi um escritor e médico britânico, nascido na Escócia, mundialmente famoso por suas 60 histórias sobre o detetive Sherlock Holmes, consideradas uma grande inovação no campo da literatura criminal. Foi um escritor prolífico cujos trabalhos incluem histórias de ficção científica, novelas históricas, peças e romances, poesias e obras de não-ficção.

Arthur Conan Doyle viveu e escreveu parte de suas obras em Southsea, um bairro elegante de Portsmouth.
[Extrato do diário de JOHN McALISTER RAY, estudante de medicina, mantido
           por ele durante os seis meses de viagem aos mares da Antártida, no vapor ba-
           leeiro Estrela Polar, de Dundee, Capitão Nicholas Craigie.]

       11 de setembro— Lat. 81° 40‟ N.; Long. 2° E. — Ainda preso nos vas-
tos campos de gelo. O que se estende ao nosso norte e ao qual nossa âncora
de gelo está presa não pode ser menor do que um condado inglês. À direita
e à esquerda, lençóis contínuos se estendem até o horizonte. Esta manhã, o
imediato   relatou  que   havia   sinais   de   banquisas   ao   sul.   Se  essa forma   tiver
espessura   suficiente   para impedir   nosso   retorno,   ficaremos   numa   posição
perigosa, uma vez que a comida, segundo ouço, já está escasseando. A esta-
ção já está avançada e as noites estão começando a reaparecer. Esta manhã
vi uma estrela piscando acima da verga do  traquete —  a primeira desde o
início de maio. Há muito descontentamento entre a tripulação, muitos estão
ansiosos em voltar para casa a tempo de aproveitar a temporada de arenque,
quando o trabalho sempre faz jus a um alto preço na costa  escocesa. Até
agora seu aborrecimento manifestou-se somente por fisionomias zangadas e
olhares   soturnos,   mas   ouvi   do   segundo   imediato   esta   tarde   que   estavam
pensando em enviar uma delegação ao Capitão para expor suas queixas. Te-
nho  muitas dúvidas quanto ao modo pelo qual ele as receberá, pois é um
homem de temperamento irritadiço e muito sensível a tudo que se aproxime
de uma violação  de seus direitos. Vou tentar, após o jantar, conversar um

                                   

pouco com ele sobre esse assunto. Constato sempre que ele tolera de mim o
que o ofende quando vem de qualquer outro membro da tripulação. A Ilha
de Amsterdã, no lado noroeste do Spitzbergen, é visível acima de nosso es-
tibordo — uma linha enrugada de rochas vulcânicas, entremeadas de cama-
das brancas, que representam as geleiras. É estranho pensar que até o pre-
sente momento não existe provavelmente nenhum ser humano mais próxi-
mo de nós do que os acampamentos dinamarqueses, no sul da Groenlândia
—  umas   boas   novecentas  milhas   em   linha   reta.   Um   capitão   assume   uma
grande responsabilidade quando expõe seu navio a essas circunstâncias. Ne-
nhum baleeiro jamais permaneceu nestas latitudes em um período tão avan-
çado do ano.
      21 horas —  Falei com o Capitão   Craigie  e, embora o resultado tenha
sido menos que satisfatório, posso certamente dizer que ele ouviu ao que eu
tinha a  dizer com muita calma e até mesmo deferência. Quando terminei,
ele assumiu aquele ar de determinação férrea que muitas vezes observei em
seu rosto e percorreu com passos rápidos, para cá e para lá, a estreita cabine,
durante alguns minutos. De início, eu temia que o houvesse ofendido gra-
vemente, mas ele afastou essa idéia ao sentar-se novamente e pôr a mão em
meu braço com um gesto que quase equivalia a uma carícia. Havia também
em seus olhos negros e tempestuosos uma ternura profunda que muito me
surpreendeu.  “Olhe,   Doutor”,   disse ele,  “lamento  nunca   tê-lo   levado...   la-
mento mesmo... e daria cinqüenta libras neste instante para vê-lo em segu-
rança no cais de Dundee. Desta vez, é tudo ou nada para mim. Há peixes ao
nosso norte. Como ousa balançar sua cabeça, senhor, quando lhe  digo que
os vi do topo do mastro!”, disse num súbito rompante de fúria, embora eu
não estivesse consciente de ter manifestado nenhum sinal de dúvida. “Vinte
e dois peixes durante tantos minutos quantos vivi, e nenhum com menos de
dez pés. Ora, Doutor, o senhor julga que posso deixar a região, quando há
apenas uma droga de faixa de gelo entre eu e minha sorte? Se acontecesse
um vento norte amanhã, poderíamos encher o navio e ir embora antes que a
geada pudesse nos apanhar. Se acontecesse um vento sul... bem, acho que
os homens são pagos para  arriscar suas vidas, e quanto a mim, pouco me

                                      

importa, pois tenho mais a me prender ao outro mundo do que a este. Con-
fesso que lamento por você, no entanto. Gostaria de ter o velho Angus Tait,
que estava comigo na última viagem, pois é um homem de quem ninguém
sentiria falta, e você... você disse uma vez que estava noivo, não?”
      “Sim”, respondi, pressionando a mola do medalhão que pendia da cor-
rente de meu relógio de bolso e mostrando o pequeno retrato de Flora.
      “Para o inferno!”, gritou ele, saltando de seu assento em extrema agita-
ção, a barba eriçada. “O que significa para mim sua felicidade? O que tenho
eu a ver com ela, para que você me ponha diante dos olhos sua fotografia?” 
Quase cheguei a pensar que ele ia me golpear na exaltação de sua raiva, mas
com uma outra imprecação ele arremessou-se à porta do camarote, abrindo-
a   e   ganhando  apressadamente   o   convés   e   deixando-me   bastante   perplexo
pela sua extraordinária violência. Foi a primeira vez em que não se mostrou
cortês e gentil. Posso ouvi-lo caminhando agitado de um lado para outro lá
em cima, enquanto escrevo estas linhas.
      Gostaria de apresentar um esboço do caráter desse homem, mas pare-
ce presunção  tentar   algo   assim   no papel,   quando   a   idéia   em   meu   próprio
espírito é no máximo vaga e indefinida. Muitas vezes julguei ter captado a
chave   de   sua  definição,   mas   apenas   para   ver-me   frustrado   diante   de   uma
nova   luz   que   contradizia  todas   as   minhas   conclusões. É   provável   que   ne-
nhum olhar humano, salvo o meu,  jamais vejam estas linhas, mas tentarei
deixar algum registro do Capitão Nicholas Craigie.
      A   forma   exterior   de   um   homem   geralmente   dá   alguma   indicação   da
alma interior. O Capitão é alto e de boa compleição, com um rosto sombrio
e belo e um modo peculiar de contrair seus membros, o que pode ter uma
origem nervosa  ou ser simplesmente produto de sua extrema energia. Seu
queixo, assim como todo seu semblante, é másculo e determinado, mas os
olhos   constituem   o   traço  característico   de   seu   rosto.   São   de   um   castanho
muito escuro, brilhantes e vivos,  com uma expressão em que se misturam
singularmente inquietude e algo mais, que por vezes eu julgava mais próxi-
ma do terror do que de qualquer outra emoção. Geralmente predominava a
primeira,   mas   às   vezes   e   mais  particularmente   quando  estava   pensativo, o

                                       

olhar de medo se espalhava e se intensificava até imprimir um novo aspecto
a todo o seu semblante. É nesses momentos que está mais sujeito a ataques
tempestuosos de ira, e parece estar consciente disso, pois percebi que ele se
retira, a fim de que ninguém possa se aproximar dele, até que passe a hora
tenebrosa. Ele não dorme bem, e o tenho ouvido gritando durante a noite,
mas seu aposento é um pouco distante do meu, e nunca pude distinguir as
palavras que dizia.
      Esse é um aspecto da sua personalidade e também o mais desagradável.
Somente minha proximidade com ele, obrigados que somos a conviver dia
após dia, permitiu-me observá-lo. No mais, ele é uma companhia agradável,
culto e divertido e o marinheiro mais corajoso que jamais pisou um convés.
Não me será fácil esquecer como ele lidava com o navio quando um vento
forte nos apanhava entre os blocos soltos de gelo, no início de abril. Nunca
o vi tão alegre e até mesmo espirituoso quanto naquela noite em que andava
para frente e para trás na ponte de comando, por entre os clarões dos raios
e o sibilar do vento. Me dissera várias vezes que o pensamento da morte lhe
era agradável, algo triste para um jovem: não podia ter mais de trinta anos,
embora   seus   cabelos   e   bigodes   já   fossem  ligeiramente   grisalhos.   Alguma
grande   tristeza   devia   tê-lo   tomado   e   arruinara  toda   a   sua   vida.   Talvez   me
ocorresse o mesmo, se perdesse Flora — sabe Deus! Acho que se não fosse
por ela pouco me importaria que o vento soprasse do norte ou do sul ama-
nhã. Eis que o ouço descer pela gaiúta e se trancar em seu aposento, o que
mostra estar ainda num humor cordial. E então para a cama, como diria o
velho Pepys, pois a vela está se apagando (temos de usá-las agora, já que as
noites  estão   chegando),   e   o   camareiro   está   recolhendo-se   e   portanto   uma
outra é impossível.
       12 de setembro— Dia claro e calmo, e ainda na mesma posição. O vento
que  sopra   vem   do   sudeste,   mas   é muito   fraco.   O   humor   do   Capitão   está
melhor e ele se desculpou comigo no desjejum por sua grosseria. Ainda pa-
rece um pouco  desatento, no entanto, e seus olhos ainda mantêm aquele   ar
tempestuoso que num montanhês da Escócia significaria que está  “desvai-
rado” —  pelo menos foi  essa a observação que me fez nosso engenheiro-


chefe, e ele tem certa reputação de vidente e arauto de presságios entre os
celtas de nossa tripulação.
      É estranho que a superstição tenha alcançado tal mestria nessa raça ca-
beçuda e utilitária. Jamais poderia acreditar até que ponto vai, não o tivesse
visto eu próprio. Já tivemos uma epidemia total dela nesta viagem, a ponto
de eu me sentir tentado a servir rações de sedativos e tônicos para os nervos
juntamente  com   a   porção   de   sábado   de   grogue.   Seu   primeiro   sintoma foi
quando, logo após a partida de Shetland, os homens no leme se queixavam
de terem ouvido lamentos e gritos ao movimento do navio, como se algo o
estivesse seguindo e não conseguisse  alcançá-lo. Essa afirmação fantasiosa
tem   se   repetido   durante   toda   a viagem,   e   nas  noites   escuras,   no   início da
pesca às focas, encontrávamos grande dificuldade em persuadir os homens a
cumprir seus turnos. Não há dúvida de que o que ouviam era ou o ranger
das   correntes   do  leme,   ou  o  grito   de   algum   pássaro   marinho. Tenho sido
tirado   da   cama   várias   vezes   para   ouvi-lo,   mas   é   quase   desnecessário  dizer
que nunca pude identificar nada de anormal. Os homens, todavia, estão tão
absurdamente convencidos que é inútil discutir com eles. Falei com o Capi-
tão sobre isso, mas, para minha surpresa, ele o recebeu com muita seriedade
e na verdade pareceu bastante perturbado com o que lhe contei. Julgara que
pelo menos ele estaria acima dessas ilusões populares.
      Todas essas indagações sobre superstição estão relacionadas ao fato de
que o sr. Manson, nosso segundo imediato, viu um fantasma na noite pas-
sada — ou, pelo menos, diz que viu; o que, obviamente, é a mesma coisa. É
muito agradável ter algum novo assunto de conversa depois da incessante
rotina de ursos e baleias que nos tem ocupado durante tantos meses. Man-
son jura que o navio é assombrado e que não ficaria nele um dia se tivesse
outro lugar para onde ir. O sujeito está, de fato, realmente aterrorizado, e eu
tive de lhe dar um pouco de cloral e brometo de potássio esta manhã para
acalmá-lo.   Ele   pareceu   bastante   indignado  quando   insinuei   que   ele   havia
tomado um copo extra na noite anterior, e fui obrigado a apaziguá-lo, man-
tendo uma fisionomia tão solene quanto possível durante sua história, a qual
ele indubitavelmente narrou de uma forma muito direta e verdadeira.

                                       

      “Eu estava na ponte de comando”, disse ele, “durante cerca de quatro
batidas  de   sino   durante   a   vigília   intermediária,   justamente   quando   a   noite
está mais escuta. Havia algum luar, mas as nuvens estavam passando por ela,
e   por  isso  não  se  conseguia   ver   muito  adiante   do  navio.   John   McLeod, o
arpoador, veio da cabeça da proa e informou um estranho ruído na proa, a
estibordo. Fui lá e juntos ouvimos aquilo, às vezes como um pássaro gritan-
do, às vezes como uma coitada gemendo de dor. Já estive dezessete anos na
região e nunca ouvi foca, velha ou nova, fazer um som como aquele. En-
quanto estávamos lá na cabeça da proa, a lua saiu de trás de uma nuvem e
nós dois vimos uma espécie de vulto branco movendo-se no campo de gelo,
na mesma direção dos gritos que tínhamos ouvido. Nós o perdemos de vis-
ta por um momento, mas ele voltou pela proa de vigia e o vimos como uma
sombra no gelo. Mandei buscar os rifles lá embaixo, e McLeod e eu desce-
mos até o gelo, pensando que talvez fosse um urso. Quando chegamos lá
perdi McLeod de vista, mas continuei na direção onde podia ainda ouvir os
gritos. Eu os segui por uma milha ou talvez mais, e então correndo em volta
de um monte dei de cara com ele, lá em pé, parece que me esperando. Não
sei o que era. De qualquer modo, não era um urso. Era alto, branco e ereto,
e se não era um homem nem uma mulher, aposto que era alguma coisa pior.
Voltei correndo para o navio o mais depressa que pude e fiquei danado de
feliz quando me vi a bordo. Assinei embaixo que faria meu dever no navio,
e no navio vou ficar, mas ninguém vai me ver de novo no gelo depois do
pôr-do-sol.”
      Essa foi sua história em suas próprias palavras, tanto quanto posso re-
produzi-las. Imagino que o que ele viu, apesar de sua negativa, deve ter sido
um jovem urso ereto sobre suas pernas traseiras, uma atitude que eles assu-
mem   quando  alarmados.  Sob   pouca   luz,   ele   se   assemelharia   a   uma   figura
humana, especialmente a um homem cujos nervos já estavam um tanto aba-
lados. Seja o que for, a ocorrência foi inoportuna, pois produziu um efeito
muito desagradável na tripulação. Suas  fisionomias estão mais desoladas do
que   nunca   e   seu   descontentamento  ainda  mais   intenso.   O   aborrecimento
duplo  de   ser   privado   da   pesca   de   arenque   e   estar  preso   no   que   preferem


chamar de nave assombrada pode levá-los a fazer algo temerário. Até mes-
mo   os   arpoadores,   que são os   mais velhos   e  serenos   dentre   eles,  estão  se
deixando contaminar pela agitação geral.
      Apesar dessa explosão absurda de superstição, as coisas parecem um
pouco  mais   animadoras.   O   bloco   de   gelo   que  estava   se   formando   no   sul
desapareceu parcialmente, e a água está tão morna que me leva a crer que
estamos em uma daquelas ramificações da corrente do golfo que passa entre
a Groenlândia e Spitzbergen. Há uma grande quantidade de pequenas me-
dusas e lesmas-do-mar à volta do navio, assim como uma profusão de ca-
marões, e assim é bastante provável que se  aviste “peixe”. De fato, viu-se
uma esguichando por volta da hora do jantar, mas numa posição que impe-
dia os barcos de a seguirem.
       13 de setembro— Tive uma conversa interessante com o imediato-chefe,
o sr. Milne, na ponte de comando. Parece que nosso Capitão é um enigma
tão grande aos marujos e até mesmo aos donos do navio quanto tem sido
para mim. O Sr Milne me diz que quando se acertam as contas do navio, no
retorno de uma viagem, o Capitão Craigie desaparece e não é visto nova-
mente até a aproximação  de outra temporada, quando ele entra silenciosa-
mente no escritório da companhia e pergunta se seus serviços serão requisi-
tados. Não tem amigos em Dundee, ninguém alega ter informações acerca
de sua história precedente. Sua posição baseia-se inteiramente em sua habi-
lidade como marinheiro e na reputação de coragem e sangue-frio que anga-
riou na posição de imediato, antes de lhe confiarem um comando indepen-
dente. A opinião unânime parece ser que ele não é escocês e que seu nome é
fictício. O sr. Milne acha que se dedicou à caça à baleia simplesmente por-
que é a ocupação mais perigosa que pôde encontrar e que corteja a morte de
todas as maneiras possíveis. Ele citou vários exemplos disso, um dos quais
bastante estranho, se verdadeiro. Parece que em uma ocasião ele não apare-
ceu no escritório e tiveram de selecionar um substituto. Foi na época da úl-
tima   guerra  russa   e   turca.   Quando   ele   apareceu   novamente   na   primavera
seguinte, tinha uma ferida enrugada no lado de seu pescoço, que costumava
tentar ocultar com a gravata. Se a inferência do imediato de que o Capitão

                                    

estivera na guerra é verdadeira ou não, não posso afirmar. Foi certamente
uma estranha coincidência.
      O vento está mudando para a direção do leste, mas ainda é muito fraco.
Acho que o gelo está mais próximo do que ontem. Até onde os olhos alcan-
çam, há por todo lado uma vasta extensão de branco imaculado, quebrado
apenas por uma greta ocasional ou pela sombra de uma elevação de gelo.
Ao sul há a estreita passagem de mar aberto que constitui nosso único meio
de   fuga   e   que   está   se  fechando   dia   a   dia.   O   Capitão   está   assumindo   uma
grande   responsabilidade.   Eu  soube que   o   suprimento   de  batatas   acabou   e
que até mesmo os biscoitos estão escasseando, mas ele mantém o mesmo
semblante impassível e passa a maior parte do dia no ninho de pega, a varrer
o horizonte com sua luneta. Sua atitude varia muito, e ele parece evitar meu
contacto, mas não se repetiu a violência mostrada na outra noite.
       19h30— Estou convencido de que somos comandados por um louco.
Nada mais pode explicar as divagações extraordinárias do Capitão Craigie.
Felizmente mantenho este diário de nossa viagem, pois ele servirá para justi-
ficar-nos, caso tenhamos de detê-lo, uma medida a que eu somente poderia
consentir   como  último   recurso.   Muito   curiosamente,   foi   ele   próprio   que
sugeriu insanidade, e não mera excentricidade, como a chave para sua estra-
nha conduta. Ele estava de pé na ponte de comando há cerca de uma hora,
perscrutando como de costume com sua luneta, enquanto eu caminhava de
um lado a outro do convés. A maioria  dos homens estava lá embaixo, to-
mando seu chá, pois as vigílias não têm sido escaladas com regularidade ul-
timamente. Cansado de andar, apoiei-me na amurada e contemplei o suave
brilho lançado pelo sol poente sobre os vastos campos de gelo que nos ro-
deavam. Fui subitamente despertado do devaneio em que caíra por uma voz
áspera e virando-me descobri que o Capitão descera e se postara a meu lado.
Ele olhava fixamente acima do gelo com uma expressão na qual o terror, a
surpresa   e   um   sentimento   semelhante   ao   júbilo   disputavam   a   supremacia.
Apesar do frio, grandes gotas de suor escorriam em sua fronte e ele estava
visivelmente tomado de uma exaltação assustadora. Seus membros retorci-

                                     

am-se como os de um homem à beira de um ataque epilético, e as linhas em
torno de sua boca estavam estiradas e vincadas.
      “Veja!”, disse ele, ofegante, agarrando-me pelo pulso, mas ainda man-
tendo  os   olhos sobre   o   gelo   distante   e   movendo  vagarosamente   a   cabeça
numa direção horizontal, como se seguisse algum objeto que se movia pelo
campo de visão.
      “Veja! Lá, homem, lá! Entre os montes! Agora saindo de trás do mais
distante! Você a vê, você deve vê-la! Lá ainda! Fugindo de mim, por Deus,
fugindo de mim... desapareceu!”
      Ele murmurou as duas últimas palavras num sussurro de agonia con-
centrada que jamais se me apagará da lembrança. Agarrando-se aos enfre-
chates, tentava subir até o topo da amurada, como se na esperança de obter
um último relance do objeto que se afastava. Sua força não sustentou a ten-
tativa, contudo, e recuou, a cambalear contra a clarabóia do salão, onde se
apoiou ofegante e exausto. Seu rosto estava tão lívido que achei que ele des-
faleceria,   e   assim   conduzi-o imediatamente   à   gaiúta   e   o   estendi   sobre   um
dos sofás do camarote. Servi-lhe então um pouco de conhaque, na verdade
despejei   em sua   boca,   e   que   produziu  um   efeito   incrível sobre   ele,   devol-
vendo-lhe   o sangue   às   faces   brancas   e   serenando-lhe  os pobres   membros
trêmulos. Ele apoiou-se no cotovelo e, olhando em volta para ver se está-
vamos sozinhos, fez-me um gesto para aproximar-me e sentar perto dele.
      “Você a viu, não foi?”, perguntou, ainda no mesmo tom de suave reve-
rência tão alheio à natureza daquele homem.
      “Não, não vi nada.”
      Sua cabeça afundou novamente nas almofadas. “Não, ele não conse-
guiria,  sem a luneta”, murmurou. “Ele não conseguiria. Foi a luneta que a
mostrou para mim, e então os olhos amorosos... os olhos amorosos. Ouça,
Doutor, não deixe o camareiro entrar! Ele julgará que estou louco. Tranque
a porta, por favor!”
      Levantei-me e fiz o que ordenara.


      Deitou-se quieto por um momento, aparentemente perdido em pensa-
mentos, e então apoiou-se novamente no cotovelo e pediu-me um pouco de
conhaque.
      “Você não  acha que estou, não é, Doutor?”, perguntou enquanto eu
colocava de volta a garrafa no armário com chave. “Diga-me agora, de ho-
mem para homem, você acha que estou louco?”
      “Acho que algo em seu espírito”, respondi, “está excitando-o e fazen-
do-lhe grande mal.”
      “Exatamente lá, jovem!”, exclamou ele, os olhos faiscando pelos efei-
tos do conhaque. “Muita coisa em meu espírito... muita coisa! Mas consigo
calcular a latitude e a longitude, consigo manejar meu sextante e lidar com
meus logaritmos. Você não conseguiria provar que estou louco em um tri-
bunal   agora,   poderia?”  Era  estranho   ouvir   o   homem   deitado   e   friamente
discutindo a questão de sua própria insanidade.
      “Talvez não”, disse eu, “mas ainda assim acho que seria conveniente o
senhor ir para casa assim que puder e levar uma vida tranqüila durante al-
gum tempo.”
      “Ir para casa, é?”, murmurou, com uma expressão de sarcasmo no ros-
to.  “Uma   palavra   para   mim   e   duas   para   você,   jovem.   Estabelecer-se   com
Flora... a pequena e bonita Flora. Pesadelos são sinais de loucura?”
      “Às vezes”, respondi.
      “De que mais? Quais seriam os primeiros sintomas?”
      “Dores de cabeça, ruídos nos ouvidos,  clarões diante dos olhos, delí-
rios...”
      “Ah, e daí?”, ele interrompeu. “O que você chamaria de delírio?”
      “Ver algo que não está lá é um delírio.”
      “Mas ela  estava lá!”, resmungou ele para si. “Ela estava lá!”, e levantan-
do-se destrancou a porta e caminhou com passos vagarosos e vacilantes pa-
ra   seu   próprio  camarote,   onde   não  tenho   dúvida   de   que   permanecerá   até
amanhã de manhã. Seu organismo parece ter recebido um choque terrível,
seja o que for que ele imagine ter visto. O homem se torna um mistério cada
dia maior, embora eu receie que a solução sugerida por ele próprio é a cor-

                                     

reta, e que sua razão está afetada. Não acho  que uma consciência culpada
tenha algo a ver com seu comportamento. Essa idéia tem muitos adeptos
entre os oficiais e, creio, entre a tripulação; mas nada vi que a sustente. Ele
não tem o ar de um homem culpado, mas sim de quem tem sofrido golpes
terríveis da fortuna e que deveria ser considerado antes um mártir do que
um criminoso.
      O vento está mudando em direção ao sul, esta noite. Deus nos proteja,
se ele bloquear aquela passagem estreita que é nossa única via para a segu-
rança! Situados como estamos, na borda do principal bloco de gelo do Árti-
co, ou a “barreira”, como os baleeiros o chamam, qualquer vento que venha
do norte resulta no esgarçamento do gelo a nossa volta e nos permite fugir,
ao passo que um vento do  sul sopra todo o gelo solto atrás de nós e nos
prende entre dois blocos. Deus nos proteja, repito!
      14 de setembro— Domingo e um dia de descanso. Meus temores foram
confirmados,   e   a   fina   faixa   de   mar   aberto   desapareceu   do   lado   sul.   Nada
além dos vastos e imóveis campos de gelo a nossa volta, com  seus bizarros
montes e picos fantásticos. Há um silêncio mortal em toda a sua amplidão
que é horrível. Nenhum barulho das ondas agora, nem gritos de gaivotas ou
trapejamento de velas, mas um único silêncio absoluto, no qual os murmú-
rios dos marujos e o ranger de suas botas sobre o convés branco brilhante
parecem destoantes e fora de lugar. Nosso único visitante foi uma raposa do
Ártico, um animal raro nos blocos de gelo, embora muito comum em terra.
Ela não se aproximou do navio, contudo, mas, após nos examinar à distân-
cia, fugiu rapidamente pelo gelo. Essa conduta foi estranha, pois elas geral-
mente nada sabem sobre o homem e, possuindo uma  natureza inquisitiva,
tornam-se tão mansos que são facilmente capturados. Por incrível que pare-
ça, até mesmo esse pequeno incidente teve um efeito ruim sobre a tripula-
ção. “Aquele pobre animal sabe mais, sabe sim, e vê mais do que você ou
eu!”, foi o comentário de um dos principais arpoadores, e os outros fizeram
um gesto de aquiescência. É inútil tentar argumentar contra tal superstição
pueril. Eles já decidiram que há uma maldição sobre o navio, e nada jamais
os convencerá do contrário.


      O Capitão permaneceu recluso o dia todo, exceto por cerca de meia
hora   à  tarde,   quando   subiu   ao   tombadilho.   Observei  que   ele   mantinha   os
olhos fixos no ponto em que a visão de ontem aparecera e estava preparado
para outra explosão, mas isso não aconteceu. Ele não pareceu me ver, em-
bora eu estivesse bem ao seu lado. As preces foram lidas, como de costume,
pelo engenheiro-chefe. É curioso como nos navios baleeiros o livro de ora-
ções da Igreja da Inglaterra é sempre usado, embora nunca haja um membro
dessa Igreja entre os oficiais ou entre a tripulação. Nossos homens são to-
dos    católicos   romanos     ou   presbiterianos,    com   predominância       daqueles.
Uma vez que o ritual usado é alheio a ambos, nenhum deles pode se queixar
da   preferência   do outro,   e   todos   ouvem   com  igual   atenção   e  devoção, de
modo que o sistema é conveniente.
      Um esplêndido pôr-do-sol, que fez com que os vastos campos de gelo
parecessem   um   lago   de   sangue.   Eu   jamais   vira   um   efeito   mais  belo   e   ao
mesmo tempo mais espectral. O vento está mudando de direção. Se ele so-
prar vinte e quatro horas do norte, tudo estará bem, finalmente.
       15 de setembro— Hoje é o aniversário de Flora. Minha querida! É bom
que ela não possa ver seu menino, como costumava me chamar, preso entre
os   campos  de   gelo   com   um   capitão   louco   e   provisões   para   apenas   umas
poucas   semanas.     Certamente   ela   percorre   as    listas   de   carregamentos    no
Scotsman toda manhã, para ver se há informações de Shetland sobre nós. Te-
nho de dar o exemplo aos homens e parecer animado e despreocupado; mas
Deus sabe que às vezes meu coração fica muito pesado.
      O   termômetro   mostra   dezenove   Fahrenheit   hoje   [-7,2°C].   Há   pouco
vento, e o que sopra vem de um lado desfavorável. O Capitão está de exce-
lente humor; acho que imagina ter visto algum outro presságio ou espectro,
pobre homem, durante a noite, pois veio até meu camarote de manhã cedo
e, inclinando-se sobre meu beliche, sussurrou: “Não era uma miragem, Doe,
está tudo bem!” Depois do desjejum, pediu-me  que verificasse quanta co-
mida restara, o que o segundo imediato e eu fizemos. Há até menos do que
esperávamos. Na proa, há meio tanque de biscoitos, três barris de carne sal-
gada e um suprimento muito pequeno de café, feijão e açúcar. No porão e

                                      

nos armários há uma grande quantidade de iguarias como salmão em lata,
sopas, guisado de carneiro etc., mas é muito pouco para uma tripulação de
cinqüenta homens. Há dois barris de farinha na despensa e um suprimento
ilimitado de tabaco. No todo, há quase o suficiente para manter os homens
em   meia   ração   durante   dezoito   ou   vinte   dias  —  não   mais,  com   certeza.
Quando relatamos o estado das coisas ao Capitão, ele ordenou que chamas-
sem todos os marinheiros e, do tombadilho, dirigiu-se a eles. E nunca o vira
tão imponente. Alto e bem proporcionado, o rosto moreno e animado, pa-
recia  um   homem   nascido   para   comandar   e  discutiu   a   situação   num   tom
calmo e típico de marinheiro, o que mostrou que, embora avaliando o peri-
go, mantinha-se alerta para qualquer oportunidade de fuga.
      “Meus rapazes”, disse ele, “não há dúvida de que vocês julgam que eu
os trouxe a esta posição difícil, e talvez alguns de vocês sintam mágoa de
mim por isso. Mas devem lembrar que durante muitas temporadas nenhum
navio chegou ao país com tanto dinheiro em óleo quanto o Estrela Polar, e
cada um de vocês recebeu seu quinhão. Vocês podem deixar suas esposas
em   situação   confortável,  enquanto   outros   pobres   rapazes   voltam   para   en-
contrar suas meninas entregues à caridade da paróquia. Se devem me agra-
decer por um, devem me agradecer por outro, e estamos todos quites. Ten-
tamos uma aventura ousada antes disso e tivemos  êxito, e portanto agora,
que tentamos mais uma e fracassamos, não temos motivo para chorar. Se o
pior acontecer, podemos ganhar terra através do gelo e nos  servir de focas,
que nos manterão vivos até a primavera. Mas isso não acontecerá, no entan-
to, pois verão a costa escocesa novamente antes que se passem três semanas.
Agora,   todos   receberão   meia   ração,   todos   indistintamente,   sem   quaisquer
privilégios. Mantenham-se animados, e se sairão bem, assim como se saíram
bem de muitos perigos antes.” Este discurso breve e simples teve um efeito
maravilhoso sobre a tripulação. Sua impopularidade anterior foi esquecida, e
o velho arpoador, a quem já mencionei por sua superstição, deu três vivas,
nos quais foi acompanhado com grande animação pela tripulação.
       16 de setembro — O vento mudou para o norte durante a noite, e o gelo
mostra alguns sinais de que está abrindo. Os homens estão de bom humor,

                                      

apesar do racionamento a que foram submetidos. O vapor é alimentado na
sala de máquinas, para que não haja demora, caso se apresente uma oportu-
nidade de fuga. O moral do Capitão está muito alto, embora ainda conserve
aquela expressão selvagem de “desvairado” que já mencionei. Essa explosão
de ânimo me deixa mais perplexo do que sua tristeza anterior. Não consigo
entendê-la. Acho que já mencionei numa parte anterior deste diário que uma
de   suas   excentricidades   é nunca  permitir   que   pessoa   alguma   entre   em seu
camarote e insiste em fazer sua própria cama, assim como executar qualquer
outro serviço sozinho. Para minha surpresa, hoje ele entregou-me a chave e
me   ordenou  que   descesse   lá  e  visse  a hora  em  seu  cronômetro,   enquanto
media a altura do sol ao meio-dia. É um pequeno quarto simples, com um
lavatório e alguns poucos livros, mas quase nenhum outro  luxo, exceto al-
guns quadros nas paredes. A maioria deles são pequenas oleografias baratas,
mas havia um esboço em aquarela de uma jovem senhora que atraiu minha
atenção. Era obviamente um retrato, e não um desses tipos imaginários de
beleza   feminina  de  que   gostam   particularmente   os   marinheiros.   Artista   al-
gum poderia ter tirado de sua própria cabeça uma tal mistura de personali-
dade e sinceridade. Os olhos lânguidos, sonhadores, com seus longos cílios
úmidos, e a  fronte ampla, sem marcas de pensamento ou cuidado, faziam
um forte contraste com o queixo bem marcado e proeminente e com a linha
determinada   do   lábio  inferior.   Abaixo,   em   um   dos   cantos,   estava   escrito
“M.B., aet. 19”. Que alguém, no breve espaço de dezenove anos de existên-
cia pudesse ter desenvolvido tal força de vontade quanto a estampada em
seu rosto pareceu-me, na época, quase inacreditável. Ela deve ter sido uma
mulher   extraordinária.   Suas   feições   lançaram  sobre   mim   um   encanto   que,
não obstante eu as tivesse visto somente de um  relance, poderia, se fosse
um desenhista, reproduzi-las linha por linha nesta página do diário. Imagino
que papel exerceu ela na vida do nosso capitão. Ele pendurou  seu retrato
aos pés do leito, para que seus olhos pousassem continuamente sobre  ele.
Fosse ele um homem menos reservado, eu lhe teria feito alguma observação
sobre esse assunto. Entre os outros objetos de seu camarote nada havia que
mereça menção —  casacos   de   uniforme,   um   tamborete   de   acampamento,

                                       

um   espelho  pequeno,   caixa   de   tabaco   e   muitos   cachimbos,   incluindo   um
narguilé oriental — o qual, a propósito, dá alguma veracidade à história do
sr. Milne sobre sua participação na guerra, embora a ligação possa parecer
um tanto remota.
      23h20 — O Capitão acabou de ir para a cama, após uma conversa lon-
ga   e  interessante   sobre   assuntos   gerais.   Quando   quer,   ele   pode   ser   uma
companhia extremamente fascinante, extraordinariamente culto e com uma
capacidade  de   exprimir   sua   opinião   com   energia,   sem   parecer   dogmático.
Detesto quando pisam em meus calos intelectuais. Ele falou sobre a nature-
za da alma e fez um esboço das idéias de Aristóteles e de Platão acerca desse
assunto de uma forma magistral. Parece ter uma preferência pela metempsi-
cose e pelas doutrinas de Pitágoras. Ao discuti-las, fizemos algumas ligeiras
observações sobre o espiritualismo moderno, e fiz uma alusão jocosa sobre
as imposturas de Slade, e ele, para minha surpresa, admoestou-me veemen-
temente a não confundir o inocente com o culpado e argumentou que, pela
mesma lógica, classificar-se-ia o cristianismo como um engano porque Judas,
que professava essa religião, era um homem vil Pouco depois, ele se despe-
diu com um boa-noite e retirou-se para seu quarto.
      O vento está tomando força e sopra uniformemente do norte. As noi-
tes estão tão escuras agora quanto na Inglaterra. Espero que amanhã seja-
mos libertados de nossas cadeias geladas.
       17 de setembro—  O Bogie [duende] novamente. Graças a Deus que te-
nho nervos fortes! A superstição desses pobres rapazes e as explicações cir-
cunstanciais que dão, com a maior sinceridade e convicção, repugnariam a
quem não estivesse acostumado com seu jeito. Há muitas versões da ques-
tão, mas a soma total delas é que algo sinistro adejou pelo navio inteiro du-
rante a noite toda, e que Sandie McDonald de Peterhead e Peter Williamson
“outrora” de Shetland o viram, como também o sr. Milne na ponte — por-
tanto,   com   três   testemunhas,   eles   podem  argumentar   mais   fortemente   do
que o segundo imediato fizera. Falei com o sr. Milne após o desjejum e dis-
se-lhe que ele deveria estar acima de tais absurdos e que, como oficial, deve-
ria dar aos homens um exemplo melhor. Ele balançou agourentamente sua


cabeça curtida pelo tempo, mas respondeu com a habitual cautela, “Talvez
sim, talvez não, Doutor”, murmurou, “eu não disse que era um  fantasma.
Num   posso   dizê   que   ponho   minha   fé   em   garrafas   no   mar   e   coisa   assim,
embora muita gente diz que viu uma coisa parecida. Não é fácil me dar me-
do, mas talvez seu sangue corria o mais que pode, homem, se em vez de
procura ele de dia o senhor estivesse comigo noite passada e visse uma for-
ma feia como aquela, branca, repulsiva, ora aqui, ora lá, e saudando e cha-
mando na escuridão como uma ovelhinha que perdeu a mãe. Ocê não teria
tanta pressa em dizê que é coisa de comadres faladeiras, é o que penso.” Vi
que   era   inútil   argumentar   com   ele,   e portanto   me  contentei   em  lhe  rogar,
como um favor pessoal, que me chame na próxima vez que o espectro apa-
recer — um pedido com o qual ele concordou, exprimindo eloqüentemente
suas esperanças de que tal oportunidade jamais ocorra.
      Como eu esperava, o branco deserto atrás de nós quebrou-se em mui-
tas tiras estreitas de água, que o atravessam em todas as direções. Nossa lati-
tude hoje era de 80° 52‟ N., o que mostra existir uma forte corrente para o
sul,   embaixo   do bloco.  Caso   o  vento   continue  favorável,   ela   se  dissolverá
tão rapidamente quanto  foi formada. No momento, nada há a fazer senão
fumar, aguardar e esperar pelo melhor. Estou rapidamente me tornando um
fatalista. Quando se lida com fatores tão incertos como o vento e o gelo,
não   há   outra   alternativa.   Talvez   o   vento   e   a  areia   dos   desertos   árabes   te-
nham dado aos primeiros seguidores de Maomé sua  tendência a curvar-se
ao destino.
      Esses alarmes espectrais exercem um efeito ruim sobre o Capitão. Eu
receava que pudessem excitar seu espírito impressionável e me esforcei por
esconder   dele  a   história   absurda,   mas   infelizmente   ele   ouviu   um   dos   ho-
mens fazer uma alusão a ela e insistiu em ser informado sobre isso. Como
eu esperava, ela trouxe à tona toda a sua insanidade latente de forma exa-
cerbada. Mal posso acreditar que esse é o mesmo homem que discutia filo-
sofia na noite passada com uma agudeza extremamente crítica e o juízo mais
calmo.   Ele   está   andando para   frente   e   para  trás   no  tombadilho  como   um
tigre enjaulado, parando de quando em quando para estirar suas mãos com


um gesto anelante e fixar os olhos impacientemente no gelo. Ele murmura
incessantemente  consigo  mesmo  e  uma  vez  gritou:  “pouco  tempo   mais,
amor... pouco tempo mais!” Pobre coitado, é triste ver um marinheiro gar-
boso e um cavalheiro bem-educado reduzido a esse estado e pensar que a
imaginação e o delírio podem amedrontar um espírito para o qual o perigo
real era apenas o sabor da vida. Existiu jamais um homem em posição seme-
lhante à minha, entre um capitão demente e um imediato que vê fantasmas?
Às vezes penso que sou o único homem realmente são a bordo —  exceto
talvez o segundo  engenheiro, que é de natureza contemplativa e jamais se
importaria com nada por  todos os demônios do Mar Vermelho, contanto
que o deixem em paz e não desarrumem suas ferramentas.
      O gelo ainda está se abrindo rapidamente e muito provavelmente po-
deremos partir amanhã de manhã. Pensarão que estou inventando quando
contar em casa todas as coisas estranhas que me sucederam.
      Meia-noite —  Estou   bastante   assustado,   embora   me   sinta   mais   calmo
agora, graças a um copo de conhaque bem forte. Mas ainda estou muito  a-
balado, como se verificará por minha caligrafia. O fato é que passei por uma
estranha   experiência  e   estou  começando   a   duvidar   de  que   estava   certo   ao
classificar   todos   a   bordo   como loucos,   porque   afirmavam   ter   visto   coisas
que não pareciam razoáveis segundo meu entendimento. Ora bolas! Sou um
louco em deixar que uma coisa insignificante me desanime, e contudo,  co-
mo ocorreu depois de todos esses sinais, isso adquiriu uma importância adi-
cional, pois não posso duvidar quer da história do sr. Milne quer da história
do imediato, agora que passei por tudo aquilo de que costumava desdenhar.
      Afinal, não era nada de muito alarmante — um mero som, e foi tudo.
Não posso, esperar que quem ler isto, se é que alguém jamais o fará, se soli-
darize com meus sentimentos ou compreenda o efeito que ele produziu em
mim naquela época. A ceia terminara e fui ao convés para fumar calmamen-
te meu cachimbo antes de entrar. A noite estava muito escura — tão escura
que, mesmo estando no lado da popa do barco, não podia ver o oficial na
ponte   de   comando.   Acho   que   já  mencionei   o   extraordinário   silêncio   que
cobre   esses   mares   gelados.   Em   outras  partes   do   mundo,   ainda   que   extre-


mamente áridas, há alguma leve vibração do ar — algum rumor fraco, seja
dos distantes abrigos dos homens, seja das folhas das árvores, seja das asas
dos pássaros   ou  até   mesmo  o  débil farfalhar   da   grama   que  cobre   o  chão.
Podemos não nos dar conta do som e mesmo assim, se ele desaparecesse,
daríamos por sua falta. É somente aqui, nestes mares árticos, que esse silên-
cio completo, imenso, abate-se sobre uma pessoa com todo o seu horrível
realismo. Percebe-se o esforço do tímpano em captar algum pequeno mur-
múrio e a demorar-se em cada som acidental dentro da nave. Assim estava
eu, apoiado no balaústre, quando se elevou do gelo, quase exatamente abai-
xo de mim, um grito, agudo e penetrante, no ar silencioso da noite, come-
çando —  assim me pareceu —  com uma nota impossível de ser alcançada
por uma prima-dona e ascendendo a tons cada vez mais altos até culminar
num lamento de intensa dor, que poderia ter sido o último grito de uma al-
ma perdida. O terrível guincho ainda soa em meus ouvidos. Parecia exprimir
um pesar, um indescritível pesar, e uma profunda saudade, mas não obstan-
te nele havia por vezes uma nota de louca exultação. Pareceu-me vir de per-
to de mim e contudo, quando olhei para a escuridão abaixo nada pude vis-
lumbrar. Esperei um pouco, mas não ouvi nenhuma repetição do som, en-
tão desci, mais trêmulo do que jamais ficara em toda a minha vida. Enquan-
to descia a gaiúta, encontrei o sr. Milne, que subia para render sentinela. “O-
ra, Doutor”, disse ele, “talvez sejam as comadres faladeiras, não é? O senhor
não ouviu um som de gaita de foles? Seria uma superstição? O que o senhor
acha?” Fui obrigado a desculpar-me com aquele sujeito franco e reconhecer
que eu estava tão intrigado com aquilo quanto ele. Talvez amanhã as coisas
pareçam diferentes. No momento, mal me atrevo a escrever tudo que penso.
Ler isto novamente em dias futuros, quando me libertar de todas essas co-
notações, poderá fazer com que me despreze por ter sido tão fraco.
      18 de setembro —  Uma   noite   agitada   e   inquieta,   ainda   perseguido   por
aquele som estranho. O Capitão também não parece ter conseguido descan-
sar muito, pois sua fisionomia está perturbada e seus olhos, injetados. Não
lhe contei minha aventura da noite passada e nem o farei. Ele já está agitado

e   exaltado,   ora   levanta-se, ora   senta-se,   visivelmente   incapaz   de  manter-se
quieto.
      Uma boa passagem surgiu no bloco esta manhã, como eu já esperava,
e pudemos   recolher   nossa   âncora   de   gelo   e   avançar   cerca   de   doze   milhas
numa  direção   oeste-sudoeste   para   o   oeste.   Fomos   então   detidos   por   uma
grande banquisa, tão compacta quanto as que tínhamos deixado para trás.
Ela impede totalmente nosso curso e, portanto, nada podemos fazer senão
lançar âncora novamente e  aguardar até que se abra, o que provavelmente
fará   dentro   de   vinte   e   quatro   horas,  se   o   vento   continuar.   Várias   focas-
narigudas   foram   vistas   a  nadar   na   água,   e   uma  foi   morta —  uma   criatura
imensa, de mais de onze pés de comprimento. São  animais ferozes, belico-
sos, e dizem que um páreo duro para ursos. Felizmente  seus movimentos
são lentos e desajeitados, de modo que oferecem pouco perigo quando ata-
cados sobre o gelo.
      O Capitão demonstra claramente não julgar que nossos problemas es-
tejam superados, embora eu não consiga imaginar o motivo de uma avalia-
ção tão negativa, uma vez que todos a bordo consideram miraculosa nossa
fuga e estejam convictos de alcançar mar aberto.
      “Imagino que você julga estar tudo certo agora, não é, Doutor?”, disse
ele quando estávamos sentados juntos, após o jantar.
      “Espero que sim”, respondi.
      “Não devemos ter tanta certeza — e no entanto não há dúvida de que
você  está  certo.   Estaremos   logo   todos   nos   braços   de nossas   fiéis   amadas,
não é, rapaz? Mas não devemos ter tanta certeza — não devemos ter tanta
certeza.”
      Ele ficou em silêncio por um momento, balançando a perna pensativa-
mente para a frente e para trás. “Veja”, continuou, “este é um lugar perigoso,
até mesmo em circunstâncias favoráveis — um lugar traiçoeiro, perigoso. Já
vi   homens  morrerem   muito   subitamente   numa   terra   como   esta.  Às  vezes
basta um escorregão — um único escorregão, e lá vai você para baixo, por
uma fenda, e apenas uma bolha nas águas verdes, para mostrar onde você
afundou. É algo estranho”, continuou, com uma risada nervosa,  “mas du-

                                       

rante todos esses anos em que estive nesta região nunca pensei em fazer um
testamento — não que eu tenha algo em  especial para deixar, mas mesmo
assim, quando um homem está exposto ao perigo, ele deveria providenciar
para que tudo estivesse em ordem e pronto — você não acha?”
      “Certamente”, respondi, imaginando aonde ele queria chegar.
      “Ele se sente melhor ao pensar que está tudo em ordem”, continuou, 
“agora, se qualquer coisa me acontecer, espero que você cuide de tudo para
mim. Há muito pouco na cabine, mas são coisas que eu gostaria que fossem
vendidas e o dinheiro dividido igualmente entre a tripulação. O cronômetro
eu quero que fique com você, como uma pequena lembrança de nossa via-
gem. É claro que tudo isso é mera precaução, mas julguei que esta seria uma
boa oportunidade de falar sobre isso com você. Posso contar com você se
houver necessidade?”
      “Com toda certeza”, respondi, “e já que o senhor está tomando essa
iniciativa, eu poderia também...”
      “Você! Você!”, interrompeu ele. “Com você está tudo bem. Que diabos
há com você? Não pense que estou bravo, mas não gosto de ouvir um jovem,
que apenas começou a vida, especular sobre a morte. Suba ao convés e aspi-
re um pouco de ar fresco em vez de dizer bobagens na cabine e me encora-
jar a fazer o mesmo.”
      Quanto mais penso sobre essa nossa conversa, menos ela me agrada.
Por que estaria o homem fazendo doações justamente quando o perigo pa-
recia estar terminado? Deve haver algum método em sua loucura. Estaria ele
pensando em suicídio? Lembro-me de que em uma ocasião ele se referiu de
modo   profundamente respeitoso   ao   crime   infame   de   autodestruição.   Vou
vigiá-lo, contudo, e, embora não possa invadir a privacidade de sua cabina,
pelo menos não o deixarei sozinho no convés enquanto ele estiver acordado.
      O   sr.   Milne   desdenha   de   meus   receios   e   diz   que   se   trata   apenas   de
“frescuras do capitão”. Ele próprio tem uma visão bastante rósea da situa-
ção. Segundo ele, sairemos do gelo depois de amanhã, passaremos por Jan
Meyen dois dias depois e veremos Shetland em pouco mais de uma semana.
Espero que ele não esteja otimista demais. Sua opinião pode muito bem ser

                                     

contrabalançada pelas sombrias cautelas do Capitão, pois ele é um velho e
experiente marujo e pesa suas palavras muito bem antes de proferi-las.
       19 de setembro — A catástrofe que há muito tempo pairava no ar final-
mente ocorreu. Não sei o que escrever sobre isso. O Capitão foi embora. É
possível que volte vivo, mas temo... temo. Agora são sete horas da manhã
do dia 19 de setembro. Passei a noite inteira percorrendo a grande banquisa
que se estende diante de nós  com um grupo de marujos, na esperança de
encontrar alguns vestígios dele, mas em vão. Tentarei expor as circunstân-
cias que envolveram seu desaparecimento. Se porventura alguém tiver a  o-
portunidade de ler as palavras que escrevo, confio em que se lembrará que
não escrevo com base em conjeturas ou em rumores, mas sim  que eu, um
homem são e culto, estou descrevendo detalhadamente o que realmente  o-
correu diante de meus olhos. Minhas inferências só a mim pertencem, mas
dou garantias quanto aos fatos.
      O ânimo do Capitão continuou excelente após a conversa por mim re-
latada. Contudo, ele parecia nervoso e impaciente, freqüentemente mudava
sua posição e movia seus membros de forma brusca e aleatória, como era de
seu feitio de tempos em tempos. Num quarto de hora ele subiu ao convés
sete   vezes,   apenas  para   descer   após   uns   poucos   passos   apressados.   Eu   o
seguia a cada vez, pois havia algo em seu rosto que confirmava minha deci-
são   de   não  o  perder   de   vista.   Ele parecia   dar-se   conta   do   efeito   que seus
movimentos produziam, e reagia, com uma alegria excessiva e nervosa, gar-
galhando   ruidosamente   às   menores   brincadeiras,  tentando   apaziguar   meus
temores.
      Depois   da  ceia,   ele   foi   à  popa  uma   vez   mais,   e   eu o   acompanhei.  A
noite estava escura e muito silenciosa, salvo pelo murmúrio melancólico do
vento entre os mastros. Uma nuvem espessa estava surgindo do noroeste, e
os tentáculos esfarrapados que ela lançava sobre o barco estavam se acumu-
lando sobre a face da lua, que apenas brilhava intermitentemente através de
uma fenda nas sombras. O Capitão marchou em passos rápidos para diante
e para trás e, ao ver-me ainda seguindo-o insistentemente, veio ao meu en-

                                     

contro e deu a entender que eu deveria descer — o que, escusado dizer, teve
o efeito de reforçar minha decisão de permanecer no convés.
      Acho que depois disso ele se esqueceu de minha presença, pois per-
maneceu em silêncio, inclinado sobre o balaústre da popa, a observar aten-
tamente o grande deserto de neve, parte envolto em sombras, parte coberto
por uma névoa brilhante sob o luar. Por diversas vezes pude perceber, pelos
seus   movimentos,   que   ele   estava  se   dirigindo   ao   objeto   de   sua   atenção   e
uma vez resmungou uma frase curta, da qual somente pude captar a palavra
“pronto”.  Confesso  que  um  sentimento   lúgubre  foi   lentamente   tomando
conta de mim enquanto observava o vulto de seu talhe alto por entre as tre-
vas e notei como ele concretizava perfeitamente a idéia de um homem que
aguardava um encontro marcado. Um encontro marcado com quem? Uma
vaga percepção começou a se esboçar em mim, ao reunir os fatos, mas eu
estava totalmente despreparado para o que se seguiu.
      Pela súbita intensidade de sua postura, percebi que ele vira algo. Pos-
tei-me sorrateiramente atrás dele. Ele estava fitando com um olhar de ansio-
sa interrogação o que parecia ser uma grinalda de névoa,  soprando rapida-
mente ao lado do navio. Era um corpo nebuloso e indistinto, desprovido de
forma, ora mais, ora menos visível, conforme a luz incidia sobre ele. O bri-
lho da lua estava ofuscado naquele momento por um pálio de nuvem muito
tênue, como a capa de uma anêmona.
      “Estou indo, menina, estou indo”, gritou o capitão, numa voz de in-
descritível ternura e compaixão, como quem conforta uma amada por um
favor há muito buscado, e tão prazeroso a dar quanto a receber.
      O que se seguiu aconteceu num instante. Não pude impedi-lo. Ele ga-
nhou de um salto a borda do balaústre e com outro alcançou o gelo, quase
aos pés da lívida e nebulosa figura. Estendeu as mãos, como que para agar-
rá-la e assim correu para dentro das trevas, com os braços esticados e pala-
vras  amorosas.   Eu   ainda   permanecia   rígido  e   imóvel,   esforçando-me   por
seguir com os olhos sua figura cada vez mais distante, até que sua voz mor-
reu na distância. Julguei que não o veria novamente, mas naquele instante a
lua resplandeceu por uma fenda no céu encoberto de nuvens e iluminou o

                                   

grande  campo gelado. Então vi sua figura sombria já muito ao longe, cor-
rendo com uma velocidade prodigiosa através da planície gelada. Foi a últi-
ma visão que tive dele — talvez a última que jamais teremos. Organizou-se
um grupo para  segui-lo, e  eu o acompanhei, mas os homens não estavam
muito empenhados e nada se encontrou. Formou-se um outro algumas ho-
ras depois. Mal posso crer que não estava sonhando ou sofrendo de algum
pesadelo terrível enquanto escrevo estas palavras.
      19h30— Acabei de retornar, atônito e exausto de uma segunda busca
infrutífera pelo Capitão. A banquisa é enorme, pois embora tenhamos atra-
vessado pelo menos vinte milhas de sua superfície, não se viu sinal de seus
limites. A geada ultimamente foi tão forte que a cobertura de neve está tão
dura quanto granito, do contrário teríamos encontrado pegadas que nos gui-
assem. A tripulação está ansiosa para que zarpemos e avancemos pela ban-
quisa, em direção ao sul, pois o gelo abriu durante a noite e o mar está visí-
vel no horizonte. Eles argumentam que o Capitão Craigie está com certeza
morto e que estamos todos arriscando  nossas vidas inutilmente ao perma-
necer quando temos oportunidade de fuga. O sr. Milne e eu tivemos grande
dificuldade em persuadi-los a aguardar até amanhã à noite e fomos obriga-
dos   a   prometer   que,   sob   nenhuma   circunstância,   adiaremos  nossa   partida
para além desse prazo. Decidimos portanto dormir por algumas horas e en-
tão iniciar uma busca final.
      20 de setembro, anoitecer — Atravessei o gelo esta manhã com um grupo
de homens, explorando a parte sul da banquisa, enquanto o sr. Milne partiu
na direção do norte. Avançamos por dez ou doze milhas, sem divisar vestí-
gio algum de ser vivo, exceto um único pássaro, que volteou durante algum
tempo sobre nossas cabeças e que, a julgar por seu vôo, parecia ser um fal-
cão. A extremidade  sul do campo de gelo afilava-se até uma península es-
treita, que se projetava até o mar. Quando chegamos à base desse promon-
tório, os homens pararam, mas implorei-lhes que continuassem até o extre-
mo, para que nos certificássemos de não haver mais nada a ser explorado.
      Mal havíamos avançado umas cem jardas, quando McDonald de Pete-
rhead gritou que vira algo a nossa frente e começou a correr. Todos nós o

                                     

vislumbramos  e corremos também. De início era apenas uma vaga sombra
escura contra o gelo branco, mas à medida que corríamos juntos ela tomou
a forma de um homem e gradativamente a do homem que procurávamos.
Ele estava de bruços sobre um banco gelado. Muitos cristais minúsculos de
gelo e ondas de neve haviam deslizado sobre seu corpo deitado e faiscavam
sobre sua jaqueta escura de marinheiro. Enquanto nos aproximávamos, uma
lufada de vento apanhou aqueles minúsculos  flocos em seu redemoinho e
eles giraram no ar, desceram em parte e então, presos novamente na corren-
te,   lançaram-se   rapidamente   em   direção   ao   mar.   Aos   meus  olhos   parecia
apenas uma nuvem de neve, mas muitos de meus companheiros afirmaram
que tomou inicialmente a forma de uma mulher, deteve-se sobre o cadáver e
o beijou e então precipitou-se através da banquisa. Aprendi a jamais rir da
opinião de quem quer que seja, por muito estranha que possa parecer. Não
há dúvida de que o fim do Capitão Craigie não foi doloroso, pois havia em
sua   face marcada   de   manchas   azuladas   um sorriso  luminoso,   e  suas   mãos
ainda   estavam  estendidas,   como   para   alcançar   o   estranho   visitante   que   o
chamara até o mundo indistinto existente além do túmulo.
      Nós   o   sepultamos   na   mesma   tarde,   envolto   na   bandeira   do   navio   e
com trinta e duas salvas de tiro. Presidi às exéquias, enquanto os rudes ma-
rujos choravam como crianças, pois muitos deles haviam sido objeto de sua
generosidade   e   agora  demonstravam   o   afeto   que   os   modos   estranhos   do
Capitão haviam repelido em vida. Ele deslizou pela grade com um surdo e
sombrio chapinhar, e quando olhei para a água verde vi-o afundando grada-
tivamente até tornar-se apenas uma tira branca flutuando sobre as fímbrias
das trevas eternas. Então até mesmo ela desvaneceu-se e ele se foi. Lá jazerá,
com seu segredo e suas mágoas e seu mistério ainda encerrados todos eles
em seu peito, até aquele grande dia quando o mar devolver seus mortos e
Nicholas Craigie retorne do gelo com o sorriso em seu rosto e seus braços
rígidos estendidos numa saudação. Rezo para que sua sorte  seja mais feliz
naquela vida do que foi nesta.
      Não darei continuidade ao meu diário. Diante de nós, a estrada para
casa está aberta e desimpedida, e o grande campo de gelo em breve será a-

                                       

penas uma lembrança do passado. Algum tempo se passará até que eu me
recupere do choque causado pelos acontecimentos recentes. Quando iniciei
esse registro de nossa viagem, não imaginava como seria obrigado a encerrá-
lo. Estou escrevendo estas palavras finais na cabina solitária, ainda me assus-
tando às vezes e imaginando ouvir o passo apressado e nervoso do morto
no convés acima de mim. Entrei em  sua cabina esta noite, como era meu
dever, para fazer uma lista de seus bens, para  que possa ser registrado no
diário de bordo oficial. Tudo estava como da minha visita anterior, exceto
pelo retrato que então, como eu o descrevi, estava pendurado ao pé de sua
cama e que agora fora cortado de sua moldura, como por uma faca, e desa-
parecera. Com esse último elo numa estranha cadeia de provas, encerro meu
diário da viagem do Estrela Polar.

     [NOTA pelo Dr. John McAlister Ray, pai. “Li sobre os estranhos acon-
     tecimentos ligados à morte do Capitão do Estrela Polar, tal como narra-
     dos no diário de meu filho. Estou inteiramente convencido de que tudo
     ocorreu   exatamente   como   ele   descreveu   e,   com   efeito,   disso   tenho  a
     mais absoluta certeza, pois conheço-o e sei que ele é um homem calmo
     e avesso a vôos da imaginação, com o maior respeito pela veracidade.
     Ainda assim, a história é, à primeira vista, tão vaga e tão improvável que
     durante muito tempo me opus à sua publicação. Nos últimos dias, po-
     rém, chegou-me um testemunho independente sobre ela que a colocou
     sob   nova   luz.   Eu   fora   a   Edimburgo   para   uma   reunião   da   Associação
     Médica Britânica, quando encontrei-me casualmente com o Dr. P., um
     antigo   colega,   agora   clinicando   em   Saltash,  Devonshire.   Quando   lhe
     contei   essa   experiência   de   meu   filho,   ele   me   declarou   que   conhecia   o
     homem e passou, para minha surpresa, a descrevê-lo de uma forma que
     se adequava admiravelmente bem à registrada no diário, exceto pelo fato
     de referir-se aos tempos em que ele era mais jovem. Segundo seu relato,
     ele fora noivo de uma jovem senhora de beleza singular e que residia na
     costa   da   Cornualha.   Durante   sua   ausência   no   mar,   sua   noiva  morrera
     em circunstâncias particularmente terríveis.]

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