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domingo, 7 de agosto de 2011

M.R. James-O Livro de Recortes do Cônego Alberic-Conto Fantasmagórico




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                       O LIVRO DE RECORTES
                        DO CÔNEGO ALBERIC 
Por: M.R.James







Montague Rhodes James, OM, MA, (1 de agosto, 1862 - 12 Junho 1936), que usou o nome da publicação M. James R., Foi um Inglês medieval estudioso e reitor de Kings College, Cambridge (1905-1918) e de Eton College (1918-1936). Ele é mais lembrado por sua histórias de fantasmas, Que são considerados entre os melhores do gênero. James redefiniu a história de fantasmas para o novo século, abandonando muitos dos formais Gótico clichés de seus antecessores e usando as configurações mais realista contemporânea. No entanto, os protagonistas James e parcelas tendem a refletir o seu próprio antiquário interesses. Assim, ele é conhecido como o criador da "história de fantasmas antiquário".


      Saint Bertrand de Comminges é uma cidade decadente nos contrafor-
tes   dos  Pireneus,   não   muito   longe   de   Toulouse   e   mais   próxima   ainda   de
Bagnères-de-Luchon. Fora a sede de um bispado até a Revolução e possuía
uma catedral que era visitada por uma certa quantidade de turistas. Na pri-
mavera de 1883, um inglês chegou a esse lugar do mundo antigo — chama-
do   de   cidade   talvez   fosse   atribuir-lhe   uma  excessiva   dignidade,   pois   seus
habitantes não chegam a mil. Ele era um homem de Cambridge, que viera
especialmente de Toulouse para ver a igreja de São Beltrão  e deixara dois
amigos, arqueólogos menos apaixonados do que ele, em seu hotel em Tou-
louse, com a promessa de reunirem-se a ele na manhã seguinte. Meia hora
na igreja lhes seria suficiente, e todos os três poderiam depois prosseguir sua
jornada em direção a Auch. Mas nosso inglês viera cedo no dia em questão
e propusera-se encher um caderno e usar dezenas de ilustrações para des-
crever e fotografar cada canto da maravilhosa igreja que domina a colina de
Comminges. A fim de levar a termo seu desígnio de modo satisfatório, era
necessário monopolizar o maceiro da igreja durante o dia todo. O maceiro
ou sacristão (prefiro esta última denominação, por mais inexata que seja) foi,
portanto, chamado pela senhora um tanto rude que administra a pousada do
Chapeau Rouge; e quando veio, o inglês viu nele um objeto de estudo ines-
peradamente interessante. Não era na aparência pessoal  do pequeno, seco,
mirrado velho que residia o interesse, pois ele era exatamente igual a dúzias


de outros guardiões de igreja da França, mas num ar curiosa-mente furtivo,
ou antes de alguém enxotado e oprimido, que ele tinha. Lançava incessantes
olhares de soslaio atrás de si; os músculos de suas costas e de seus ombros
pareciam  encurvar-se numa contração nervosa contínua, como se à espera
de a qualquer momento ver-se nas garras de um inimigo. O inglês não con-
seguia decidir-se quanto a considerá-lo um homem acossado por uma idéia
fixa, ou alguém oprimido por uma consciência culpada, ou um marido into-
leravelmente repreendido. A avaliação das probabilidades certamente apon-
tava para essa última; mas mesmo  assim a impressão era mais a de um  o-
pressor terrível do que a de uma esposa rabugenta.
      Contudo,   o   inglês   (chamemo-lo   Dennistoun)   logo   estava   demasiado
absorto  com seu   caderno   e  demasiado   ocupado  com sua  câmera para   dar
mais do que uma ocasional olhada de relance para o sacristão. Toda vez que
o   olhava,   encontrava-o  perto,   quer   apertando-se   contra   a   parede   ou   aga-
chando-se   em   um   dos   imponentes  sólios   do   coro.   Dennistoun   ficou   um
tanto impaciente após um tempo. Suspeitas várias de que estava impedindo
o velho de fazer seu desjejum, de que poderia evadir-se com a croça de mar-
fim de St. Bertrand ou com o crocodilo empalhado e empoeirado que pen-
dia sobre a fonte começaram a incomodá-lo.
      “Você   não   quer   ir para   casa?”,   disse  ele por fim.  “Posso  muito bem
terminar minhas anotações sozinho; você pode trancar-me aqui dentro, se
quiser. Vou precisar de pelo menos duas horas mais aqui e acho que está
frio para você, não?”
      “Cruzes!”, disse o homenzinho, a quem a sugestão pareceu lançar num
estado de inexprimível terror, “nem por um momento pode-se pensar nisso.
Deixar o  monsieur sozinho na igreja? Não, não; duas horas, três horas, não
fazem   diferença  para   mim.   Já   fiz   meu   desjejum,   não   estou   absolutamente
com frio, muito obrigado, monsieur.”
      “Muito bem, meu homenzinho”, disse Dennistoun para si, “você já foi
avisado e deve aceitar as conseqüências.”
      Antes que se expirassem as duas horas, o enorme órgão em ruínas, o
anteparo do coro do bispo João de Mauléon, os vestígios de vidro e de ta-

                                      

peçaria e os objetos  da câmara do tesouro haviam todos sido examinados
com   cuidado   e   detalhadamente;  com   o   sacristão   ainda   aos   calcanhares   de
Denninstoun e vez por outra a virar-se repentinamente cada vez que ouvia
um dos estranhos ruídos que perturbam um amplo e vazio edifício como se
sentisse uma estocada. Ruídos estranhos havia, por vezes.
      “Eu poderia jurar”, disse-me Dennistoun, “ter ouvido uma vez o som
de um riso alto metálico na torre”. Lancei um olhar interrogativo para meu
sacristão. Seus lábios estavam brancos. “É ele — isto é —, não é ninguém; a
porta está trancada”, foi tudo que ele disse, e olhamos um para o outro du-
rante um minuto inteiro.
      Um outro pequeno incidente intrigou bastante Dennistoun. Ele estava
examinando um grande quadro escuro pendurado atrás do altar, um de uma
série que ilustra os milagres de São Beltrão. A composição do quadro é qua-
se indecifrável, mas há uma legenda em latim abaixo, que diz o seguinte:
      “Qualiter  S. Bertrandus liberavit hominem quem diabolus diu volebat strangulare”
(Como São Beltrão libertou um homem a quem o Diabo há muito tentava
estrangular).
      Dennistoun voltou-se para o sacristão com um sorriso e uma observa-
ção jocosa qualquer em seus lábios, mas ficou surpreso ao ver o velho de
joelhos, olhando  fixamente para o quadro com os olhos de um suplicante
aflito, as mãos postas muito apertadas e um dilúvio de lágrimas nas faces.
Dennistoun instintivamente fingiu que nada notara, mas não conseguia dei-
xar   de   fazer-se  a  pergunta:  “Por   que  uma   pintura   grosseira   assim   afetaria
tanto alguém?” Ele pareceu chegar a algum tipo de pista quanto ao motivo
do estranho olhar que o intrigara o dia todo: o homem deve ser um mono-
maníaco; mas qual seria sua monomania?
      Eram quase cinco horas; o curto dia estava findando, e a igreja come-
çou a encher-se de sombras, enquanto os ruídos estranhos — os sons aba-
fados de passos e as vozes falando à distância que haviam sido perceptíveis
durante todo o dia — pareciam, sem dúvida em virtude da diminuição da
luz   e   o   conseqüente   aguçamento  da   audição,   tornar-se   mais   freqüentes   e
insistentes.

                                      

      O sacristão começou pela primeira vez a mostrar sinais de pressa e im-
paciência.  Deu   um   suspiro   de   alívio   quando   a  câmera  e   o   caderno   foram
finalmente     acondicionados       e  guardados     e  apressadamente       acenou    para
Dennistoun em direção à porta da igreja, sob a torre. Era a hora de soar o
Ângelus.   Uns   poucos   puxões  na corda   relutante,   e   o  grande   sino bertran-
dense, no alto da torre, começou a falar e elevou sua voz cantante acima dos
pinheiros, e por sobre os vales, alta como os riachos da montanha, chaman-
do os habitantes daquelas colinas solitárias a recordar e repetir a saudação
do anjo àquela a quem ele chamou de Abençoada dentre as mulheres. Com
isso, um silêncio profundo pareceu cair pela primeira vez no dia sobre a pe-
quena cidade, e Dennistoun e o sacristão saíram da igreja. Na soleira, inicia-
ram   uma   conversa.  “Monsieur  pareceu   interessar-se   pelos   velhos   livros   do
coro na sacristia.”
      “Sem dúvida. Eu estava para lhe perguntar se há uma biblioteca na ci-
dade.”
      “Não, monsieur, talvez houvesse uma pertencente ao Cabido, mas é  a-
gora   um  lugar  tão  pequeno...”  Aqui   ocorreu   o   que   pareceu   uma   estranha
pausa de hesitação; então, com uma espécie de salto no escuro, ele continu-
ou: “Mas se monsieur é amateur des viex livres, eu tenho em casa algo que pode-
ria interessar-lhe. Não chega a cem jardas.”
      Imediatamente todos os acalentados sonhos de Dennistoun de encon-
trar  inestimáveis   manuscritos   nos   cantos  inexplorados   da   França   ilumina-
ram-se, para morrer novamente no momento seguinte. Era provavelmente
um simplório missal da impressão de Plantin, de cerca de 1580. Qual pro-
babilidade havia de que um lugar tão próximo a Toulouse não fora vascu-
lhado há muito tempo por  colecionadores? Todavia, seria tolice não ir; ele
provavelmente depois se censuraria para sempre por ter recusado o convite.
E assim partiram. A caminho, a estranha hesitação e súbita determinação do
sacristão   ocorreu   novamente   a   Dennistoun,   e  ele   se   perguntou,   envergo-
nhado, se estaria sendo atraído por um engodo até alguns arredores para ser
morto como um inglês supostamente rico. Começou, portanto, a conversar
com seu guia e trouxe à baila, de uma maneira bastante desajeitada, o fato de

                                      

que aguardava dois amigos para a manhã seguinte bem cedo. Para sua sur-
presa, a notícia pareceu aliviar o sacristão imediatamente de alguma aflição
que o oprimia.
      “Ótimo”, disse ele vivamente —  “muito, muito bom. Monsieur viajará
na  companhia   de   seus   amigos;   eles   sempre   estarão   juntos   de   si.  É  muito
bom viajar assim, em companhia — algumas vezes.”
      A última palavra pareceu ser acrescentada como uma reflexão tardia, e
trazer consigo uma recaída no acabrunhamento do pobre homenzinho.
      Logo   chegaram   a   casa,   que   era   um   pouco   maior   do  que   as vizinhas,
feita de pedra, com um brasão gravado sobre a porta, o brasão de Alberic de
Mauléon, um descendente colateral, segundo me informou Dennistoun, do
bispo   João   de  Mauléon.   Esse   Alberic   fora   um   cônego   de   Comminges   de
1680 a 1710. As janelas superiores da mansão estavam fechadas com tábuas,
e o lugar todo portava, como tudo o mais em Comminges, o aspecto de ve-
lhice decadente. Chegando à soleira, o sacristão deteve-se por um instante.
      “Talvez,” disse ele, “talvez, afinal, monsieur não tenha tempo?”
      “Absolutamente — muito tempo — nada a fazer até amanhã. Vejamos
o que você tem aí.”
      A   porta   abriu   neste   instante,   e   um   rosto   apareceu,   um   rosto   muito
mais jovem do que o do sacristão, mas a mostrar a mesma fisionomia an-
gustiada; mas aqui parecia ser a marca, não tanto do receio pela segurança
pessoal quanto de grande preocupação por outrem. A possuidora do rosto
era claramente filha do  sacristão; e,   salvo pela expressão que descrevi, era
uma   moça   bastante   bonita.   Sua  fisionomia   iluminou-se   consideravelmente
ao ver seu pai acompanhado de um estranho saudável. Pai e filha trocaram
algumas observações, das quais Denninstoun  captou apenas estas palavras,
ditas  pelo  sacristão:  “Ele   estava   rindo   na   igreja”,  palavras   que   foram   res-
pondidas apenas por um olhar de terror da moça.
      Mas logo eles estavam na sala de estar da casa, um aposento pequeno e
de pé-direito alto, com piso de pedra, cheio de sombras moventes, lançadas
pelas toras ardentes que tremulavam numa grande lareira. Um crucifixo alto,
que quase alcançava o teto, num dos lados, dava-lhe um certo toque de ora-

                                      

tório; a imagem estava pintada em cores naturais, a cruz era negra. Sob esta,
havia uma cômoda um tanto antiga e maciça, e quando se trouxe um cande-
eiro e se colocaram as cadeiras, o sacristão foi até essa cômoda e dela tirou,
com crescente excitação e nervosismo, segundo pareceu a Dennistoun, um
livro   grande,   embrulhado   num  pano   branco,   no   qual   com   linha   vermelha
estava   bordada   toscamente   uma   cruz. Mesmo   antes   de   removido   o   pano,
Dennistoun começou a interessar-se pelo tamanho e pela forma do volume.
“Muito grande para um missal”, pensou ele, “e não tem a forma de um anti-
fonário; talvez seja algo bom, afinal.” No momento seguinte, o livro estava
aberto, e Dennistoun sentiu que conseguira por fim dar com algo excepcio-
nal. Diante dele estava um grande fólio, encadernado, talvez, em fins do sé-
culo   dezessete,   com   as   armas   do   cônego   Alberic   de   Mauléon  estampados
em ouro nos lados. Havia provavelmente umas cento e cinqüenta folhas de
papel no livro, e em quase todas estava presa uma folha de um manuscrito
ornamentado. Dennistoun jamais sequer sonhara, mesmo em seus sonhos
mais delirantes, em deparar-se com uma tal coleção. Ali estavam dez folhas
de uma cópia do Gênese, ilustradas com imagens, que não podiam ser pos-
teriores a 700 d.C. Além disso, havia um conjunto completo de imagens de
um Saltério, de origem inglesa, da espécie mais refinada que o século treze
poderia produzir; e,  talvez o melhor de tudo, havia vinte folhas de escrita
uncial   em   latim,   as   quais,  como   umas   poucas   palavras   vistas   aqui  e   lá   lhe
disseram imediatamente, deviam pertencer a algum tratado patrístico desco-
nhecido muito antigo. Seriam um fragmento da cópia do Sobre as palavras do
Senhor, de Papias, a qual, sabe-se, teria existido até o século doze em Nîmes?1

De   qualquer   modo,  ele   já se   decidira: aquele   livro   devia   voltar   para   Cam-
bridge com ele, ainda que precisasse sacar o total de seu dinheiro do banco e
ficar em Saint Bertrand até que o dinheiro chegasse. Ele olhou para o sacris-
tão para ver se seu rosto mostrava algum sinal de que o livro estava à venda.
O sacristão estava pálido e seus lábios contraídos.

  1
   Sabemos agora que essas folhas citadas contêm um fragmento considerável dessa obra, mas
não possuímos cópia (N.A.).

                              

      “Se monsieur olhar o fim”, disse ele. Assim, monsieur folheou as páginas,
nas quais encontrou sucessivos tesouros, e no fim do livro encontrou duas
folhas de papel, de data muito mais recente do que as vistas até aquele mo-
mento, o que muito o intrigou. Elas devem ser contemporâneas, concluiu,
ao inescrupuloso cônego Alberic, que sem dúvida saqueara a biblioteca do
Cabido de Saint Bertrand para compor seu inestimável livro de recortes. Na
primeira das folhas de papel estava um plano, cuidadosamente desenhado e
imediatamente identificável por  alguém que conhecesse o terreno, da nave
sul e dos claustros de Saint Bertrand.
      Havia sinais estranhos que se assemelhavam a símbolos planetários e
umas   poucas  palavras   em   hebraico,   nos   cantos;   e   no   ângulo   noroeste   do
claustro   estava   uma  cruz   desenhada   com   tinta   dourada.   Abaixo   da   planta
havia algumas linhas de escrita em latim, que diziam o seguinte:
      “Responsa 12mi Dec. 1694. Interrogatum est: Inveniamne? Responsum est: Inve-
nies.   Fiamne   dives?   Fies.   Vivamne   invidendus?   Vives.   Moriarne   in   lecto   meo?  Ita”
(Respostas   de   12   de   dezembro,   1694.   Foi   perguntado:   Eu   o   encontrarei?
Resposta: Vós o encontrareis. Ficarei rico? Ficareis. Serei objeto de inveja?
Sereis. Morrerei em minha cama? Morrereis.)
      “Um bom espécime do registro do caçador de tesouro — lembra-me
muito um do sr. Cônego Menor Quatremain na antiga igreja de Saint Paul”,
foi o comentário de Dennistoun, e virou a página.
      O que ele então viu impressionou-o, como ele me disse repetidas vezes,
mais do que imaginaria ser capaz qualquer desenho ou figura. E, embora o
desenho   que   viu   não   mais   exista,   há   uma   fotografia   dele   (que   eu   possuo)
que sustenta essa afirmação. A imagem em questão era um desenho em sé-
pia do fim do século dezessete, representando, dir-se-ia a uma primeira vista,
uma cena bíblica; pois a arquitetura (o desenho representava um interior) e
as figuras possuíam aquele ar semiclássico que os artistas de duzentos anos
atrás julgavam apropriado às ilustrações da Bíblia. À direita estava um rei em
seu trono acima de uma escada de doze degraus, coberto por um baldaqui-
no, leões em ambos os lados —  evidentemente o rei Salomão. Ele estava
inclinado para frente, com o cetro estendido, numa atitude de comando; seu

                                        

rosto exprimia horror e repugnância; contudo, havia também nele a marca
de vontade imperiosa e confiança em seu poder. A parte à esquerda do qua-
dro era todavia a mais estranha. O interesse claramente centrava-se ali. No
plano  diante  do   trono   estavam   agrupados   quatro   soldados,   cercando   uma
figura  agachada que será logo descrita. Um quinto soldado jazia morto no
chão, seu pescoço retorcido e os globos oculares saltando de sua cabeça. Os
quatro guardas em volta estavam olhando para o rei. Em suas faces, o sen-
timento de horror era mais intenso; eles pareciam, na verdade, apenas para-
lisados pela  confiança implícita em seu senhor. Todo esse terror era clara-
mente   provocado  pelo   ser   agachado   entre   eles.   Não   tenho   palavras   para
descrever a impressão que essa figura produz em qualquer pessoa que olhe
para ela. Recordo-me de  ter mostrado uma vez a fotografia do desenho a
um estudioso de morfologia — uma pessoa, ia eu dizendo, de espírito ex-
cepcionalmente são e avesso a fantasias. Ele peremptoriamente recusou-se a
ficar sozinho pelo resto daquela noite e contou-me depois que, durante mui-
tas noites, não ousara apagar a luz antes de ir dormir. No entanto, os traços
principais   da   figura   posso   ao  menos   indicar.   A   princípio,   via-se   somente
uma massa de cabelos negros grossos e emaranhados, mas depois notava-se
que eles cobriam um corpo de incrível magreza, quase um esqueleto, mas
com os músculos a sobressaírem como arames. As mãos eram de uma pali-
dez arenosa, cobertas, como o corpo, de pêlos longos e grossos e horren-
damente providas de garras. Os olhos, matizados de um amarelo chamejan-
te, tinham pupilas de um negro intenso e estavam fixas no rei ao trono, com
um olhar de ódio feroz. Imagine-se uma das horrendas aranhas caranguejei-
ras da América do Sul, traduzida para a forma humana e dotada de inteli-
gência um pouco abaixo da humana, e ter-se-á uma fraca idéia do terror ins-
pirado   por   essa   efígie   aterrorizadora.   Uma  observação   comum   é   feita   por
aqueles a quem mostrei a imagem: “Foi desenhada do natural”.
      Assim que o primeiro choque desse susto diminuiu, Dennistoun lan-
çou um olhar furtivo para seus anfitriões. As mãos do sacristão estavam a-
pertadas contra seus olhos; sua filha, os olhos alçados para a cruz na parede,
estava febrilmente rezando seu terço.

                                      

      Por fim, perguntei: “Este livro está à venda?”
      Houve a mesma hesitação, o mesmo salto de determinação que ele ti-
vera anteriormente e então veio a resposta bem-vinda. “Se o monsieur o qui-
ser.”
      “Quanto você pede por ele?”
      “Aceitarei duzentos e cinqüenta francos.”
      Era embaraçoso. Até mesmo a consciência de um colecionador é por
vezes afetada, e a consciência de Dennistoun era mais forte do que a de um
colecionador.
      “Meu   bom   homem!”,   disse   ele   repetidamente,  “seu   livro   vale   muito
mais do que dois mil e quinhentos francos asseguro-lhe. Muito mais.”
      Mas a resposta não mudou:  “Aceitarei duzentos e cinqüenta francos,
não mais”.
      Não havia realmente nenhuma possibilidade de recusar uma oportuni-
dade como aquela. O dinheiro foi pago, o recibo assinado, um copo de vi-
nho bebido em honra à transação e então o sacristão pareceu transformar-se
em outro homem. Endireitou o corpo, cessou de lançar aqueles olhares de
suspeita   atrás   de   si,   na verdade   riu   ou   tentou   rir.   Dennistoun   levantou-se
para partir.
      “Terei a honra de acompanhar monsieur ao seu hotel?”, disse o sacristão.
      “Ah!, não, obrigado! São menos de cem jardas. Conheço muito bem o
caminho e há luar.”
      A oferta foi repetida três ou quatro vezes e todas elas recusadas.
      “Então, monsieur me chamará se —  se precisar; caminhe pelo meio da
estrada, pois as margens são muito irregulares.”
      “Certamente,   certamente”,   disse   Dennistoun,   que   estava   impaciente
para examinar seu troféu sozinho; e ele atravessou o corredor com o livro
sob o braço.
      Lá a filha do sacristão o esperava; ela, parecia, estava ansiosa para con-
cretizar uma transação de sua própria iniciativa; talvez, como Gehazi, “levar
mais algum” do estranho a quem seu pai poupara.

                                   

      “Um crucifixo de prata e uma corrente para o pescoço; monsieur faria a
gentileza de aceitá-los?”
      Bem, na verdade, essas coisas não teriam muita serventia para Dennis-
toun. “Quanto mademoiselle queria por elas?”
      “Nada, nada mesmo. Monsieur nada me deve por elas.”
      O tom com que isso e muito mais foi dito era claramente sincero, e as-
sim Dennistoun foi obrigado a exprimir seus agradecimentos e a pôr a cor-
rente em volta de seu pescoço. Parecia que ele realmente prestara ao pai e à
filha   algum  favor   que   eles   mal   sabiam   como   recompensar.   Enquanto   ele
partia com seu livro eles ficaram à porta, cuidando dele e ainda estavam o-
lhando   quando   ele   acenou-lhes      em   despedida,   nos   degraus   do   Chapeau
Rouge.
      O jantar havia terminado, e Dennistoun estava em seu quarto, fechado
sozinho  com   sua   aquisição.   A   senhoria   manifestara   um   especial   interesse
nele desde que  ele lhe dissera ter visitado o sacristão e comprado dele um
livro antigo. Ele julgou também ter ouvido um diálogo apressado entre ela e
o dito sacristão no corredor fora da salle à manger, algumas palavras, seguidas
por “Pierre e Bertrand dormiriam na casa”, que encerrara a conversa.
      Todo esse tempo, uma sensação crescente de desconforto estivera to-
mando conta dele — reação nervosa, talvez, após o prazer de sua descober-
ta. Fosse  como fosse, resultou numa convicção de que havia alguém atrás
dele   e   de   que  ele   estava   muito   mais  confortável   com   suas   costas   voltadas
para a parede. Tudo isso, é claro, pesava pouco na balança, em vista do va-
lor da coleção que ele adquirira. E agora, como eu disse, ele estava a sós em
seu   quarto,   avaliando  os   tesouros   do   cônego   Alberic,   nos   quais   cada   mo-
mento revelava algo mais encantador.
      “Bendito cônego Alberic!”, disse Dennistoun, que tinha um hábito in-
veterado de falar consigo mesmo.  “Onde estará ele agora? Meu Deus! Eu
gostaria que a senhoria aprendesse a rir de um modo mais agradável; ela faz
sentir como se houvesse alguém morto na casa. Meia cachimbada mais, vo-
cê diz? Acho que talvez você tenha razão. Que crucifixo é aquele que a jo-
vem insistiu em me dar? Do século passado, imagino. Sim, provavelmente.

                                      

É uma maçada tê-lo em volta do pescoço — pesado demais. É provável que
seu pai o usou durante anos. Acho que poderia limpá-lo um pouco antes de
tirá-lo.”
      Ele tirara o crucifixo e o pusera sobre a mesa, quando sua atenção foi
atraída por um objeto que estava sobre o pano vermelho, perto de seu coto-
velo esquerdo. Duas ou três idéias sobre o que ele poderia ser perpassaram
sua cabeça com uma rapidez incalculável e singular.
      “Um mata-borrão? Não, não nesta casa. Um rato? Não, preto demais.
Uma  aranha   grande?   Deus   queira   que   não  —  não.   Deus   meu!   Uma   mão
como a daquele desenho!”
      Num outro átimo, ele o entendeu. Pele pálida, arenosa, a cobrir nada
senão ossos e tendões de uma força espantosa; pêlos negros e ásperos, mais
longos do que os que jamais cobriram uma mão humana; unhas que avan-
çavam das pontas dos dedos e curvavam-se em ângulo agudo para baixo e
para frente, cinzentas, córneas e rugosas.
      Ele pulou da cadeira com um terror mortal, inconcebível, a apertar seu
coração. A forma, cuja mão esquerda jazia sobre a mesa, estava elevando-se
a  uma   postura   ereta   atrás   de   seu   assento,   os   cabelos   ásperos   cobriam-na,
como no desenho. A mandíbula era fina — como diria eu? — rasa, como a
de uma fera; os dentes mostravam-se atrás dos lábios negros; não havia na-
riz; os olhos, de um amarelo flamejante, contra os quais as pupilas eram ne-
gras e intensas, e o ódio exultante e a sede para destruir a vida que lá brilha-
va, eram os traços  mais aterradores de toda a visão. Havia uma espécie de
inteligência neles — inteligência para além da que possui uma fera e abaixo
da que possui um homem.
      Os   sentimentos   que   esse   horror   incitou   em   Dennistoun   eram   os   do
mais intenso medo físico e da mais profunda repugnância mental. O que ele
fez? O que podia fazer? Ele nunca soube muito bem que palavras proferiu,
mas sabe que falou, que agarrou cegamente o crucifixo de prata, que estava
consciente de um movimento em sua direção da parte do demônio, e de que
gritou com a voz de um animal em agonia medonha.


       Pierre e Bertrand, os dois pequenos criados vigorosos, que acorreram,
nada viram, mas sentiram-se empurrados por algo que passava entre ambos,
e   encontraram  Dennistoun   desfalecido.   Velaram-no   naquela   noite,   e   seus
dois amigos chegaram a São Beltrão por volta das nove horas na manhã se-
guinte. Ele próprio, embora ainda trêmulo e nervoso, já estava quase resta-
belecido   àquela   hora,   e   sua   história  mereceu   o   crédito   deles,   embora   não
antes que vissem o desenho e falassem com o sacristão.
       Quase ao amanhecer, o homenzinho viera à hospedaria sob um pretex-
to e ouvira com o mais profundo interesse a história contada com detalhes
pela senhoria. Ele não mostrou surpresa.
       “É ele... é ele! Eu também já o vi”, foi seu único comentário; e a todas
as perguntas respondeu apenas:  “Deux fois je l’ai vu; mille fois je l’ai senti ”. Ele
não quis lhes contar qual a origem do livro, nem quaisquer detalhes de suas
experiências. “Logo dormirei, e meu repouso será agradável. Por que vocês
me perturbariam?”, disse ele.2

       Nunca saberemos o que ele ou o cônego Alberic de Mauléon passaram.
No verso daquele desenho sinistro haviam  algumas linhas manuscritas que
podem lançar alguma luz sobre o caso:

                      “Contradictio Salomonis cum demonio nocturno.
                              Albericus de Mauleone delineavit.
                          V. Deus in adiutorium. PS. Qui habitat.
            Sancte Bertrande, demoniorum effugator, intercede pro me miserrimo.
                              Primo uidi nocte 12mi  Dec. 1694:

                           uidebo mox ultimum. Peccaui et passus
                       sum,plura adhuc passurus. Dec. 29, 1 701”.3

  2  Ele morreu naquele verão; sua filha casou-se e estabeleceu-se em São Papoul. Ela jamais en-

tendeu as circunstâncias da “obsessão” do seu pai (N.A.).
  3  “A Luta de Salomão com um demônio da noite. Desenhada por Alberic de Mauléon. Versículo.

Oh, Senhor, apresse-se em meu auxílio. Salmo. „Quem quer que habite‟ [xci].
  São Beltrão, que combateu aos demônios voadores, reza por mim, o maior dos infelizes. Eu o vi
pela primeira vez na noite de  12 de dezembro de 1694; logo o verei de novo pela última vez. Pe-
quei, sofri e ainda tenho de sofrer mais. 29 de dezembro de 1701.”

                                      

      Nunca compreendi inteiramente como Dennistoun vivenciou os fatos
que narrei. Uma vez citou um trecho de Eclesiastes: “Alguns espíritos foram
criados para a vingança, e, em sua fúria provocam as chagas e os golpes”.
Em outra ocasião  falou: Isaias foi um homem muito sensível; nunca disse
nada   sobre   espíritos  noturnos   nas   ruínas   da   Babilônia.   Estas   coisas   estão
fora de nosso entendimento”.
      Fiquei impressionado também com outra de suas confidencias e senti
pena dele. No ano passado estivemos em Comminges e fizemos uma visita
ao túmulo do Cônego Alberic. É grande, feito de mármore, com a efígie do
Cônego com uma grande peruca e manto clerical, e um elaborado elogio à
sua sabedoria. Vi Dennistoun conversando com o vigário de São Beltrão e
ao partirmos disse-me: “Espero não estar enganado, pois, como sabes, sou
presbiteriano, mas penso que eles rezam missa e cantam lamentações pelo
descanso da alma de Alberic de Mauléon”, acrescentando, no tom do norte
da Inglaterra, “mas parece que não o apreciam de verdade”.
      O livro acha-se na Coleção Wentworth, da Universidade de Cambridge.
A gravura foi queimada por Dennistoun no dia em que partiu de Commin-
ges por ocasião da sua primeira visita.

  O  "Gallia   Christiana"  dá   como data do   falecimento do   Cônego a   data de   31 de dezembro de
1701, "na cama, de um ataque súbito". Detalhes dessa espécie não são comuns na grande obra de
Sammarthani (N.A.).

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