Amigos da Toca

Visitem meu outro blog!

Se alguma das imagens estiver muito grande clique em cima da imagem para poder vê-la por inteiro

Se alguma das imagens estiver muito grande clique em cima da imagem para poder vê-la por inteiro

...

Navegue na Toca ouvindo os sons da Natureza!

domingo, 7 de agosto de 2011

Rudyard Kipling-No Fim da Passagem-Conto Fantasmagórico

Photobucket

                            NO FIM DA PASSAGEM

                                                                                   Por:   Rudyard Kipling

                               O céu é plúmbeo e nossas faces, vermelhas,
                               E os portais do Inferno estão abertos e violados,
                               E os ventos do Inferno estão soltos e impelidos,
                               E o pó fustiga a face dos Céus,
                               E as nuvens descem num sudário em chamas,
                               Pesado demais para subir e sólido demais para se espalhar.
                               E a alma do homem é tirada de sua carne,
                               Desprega-se das futilidades pelas quais lutou
                               O corpo doente e o coração opresso,
                               E sua alma alça vôo como o pó de um sudário
                               Desprega-se de sua carne, despede-se e vai embora,
                                                                                            1
                               Como os sons que se tiram das trompas da cólera.

                                                                                  Kipling, Himalaio

        Quatro homens, cada um deles com direito à “vida, liberdade e à busca
da   felicidade”,2     estavam   sentados   à   mesa,   jogando   uíste.3            O   termômetro

  1
    Collery-Horn, cholera horn (trompa da cólera). Longo instrumento de metal — trombeta de
corno  —  que   produz   um   som   horripilante   geralmente   usada   pelos   nativos   indus   em   funerais
(N.E.).
  2
    Life, liberty, and the pursuit of happiness . Referência à Declaração da Independência dos  E-
E.UU. (N.E.).
  3 Whist, jogo de cartas de raciocínio, muito popular na Inglaterra nos séculos XVIII e XIX; utili-

za um baralho comum de 52 cartas, e é jogado por quatro jogadores divididos em duas duplas. É
jogado ainda hoje na Inglaterra, e é considerado o ancestral do bridge. Em português, uíste (N.E.).

                                               

marcava —  para   eles —  cento  e  um   graus   de   calor   [38,3°C].   O  aposento
estava tão escuro que era possível distinguir apenas as figuras das cartas e as
faces muito brancas dos jogadores. Umpunkah  4  esfarrapado e podre de chi-

ta esbranquiçada poluía o ar quente e gemia lamurientamente a cada movi-
mento. Lá fora, pairavam as sombras nubladas de um dia londrino de no-
vembro.   Não   havia   nem   céu,   nem   sol,   nem   horizonte —  nada   senão   um
mormaço pardacento e violáceo. Era como se a Terra estivesse morrendo
de apoplexia.
      De   tempos   em   tempos,   nuvens   de   pó   fulvo   levantavam-se   do   chão
sem vento ou prenuncio, atiravam-se como toalhas por entre as copas das
árvores   ressecadas   e   depois   desciam   novamente.   Então,   um   redemoinho
corria através da campina por umas duas milhas, desfazia-se e caía, embora
nada houvesse para deter seu vôo exceto uma pilha longa e baixa de dor-
mentes de estrada de ferro esbranquiçados pela poeira, um amontoado de
barracas feitas de barro, trilhos descartados e lona, e um bangalô de quatro
cômodos abandonado, que pertencera ao engenheiro assistente responsável
por uma seção da linha Gaudhari State, então em construção.
       Os quatro, quase despidos, cobertos apenas de seus pijamas mais leves,
jogavam uíste rabugentamente, com altercações acerca das mãos e reconhe-
cimento de cartas. Não era o melhor tipo de uíste, mas eles tinham se esfor-
çado   para   jogá-lo.   Mottram,   da   Inspetoria   Indiana,   havia   cavalgado   trinta
milhas e viajado de trem por outras tantas cem de seu posto solitário no de-
serto desde a noite anterior; Lowndes, do Serviço Civil, em cargo especial
no departamento político, viera de longe para fugir por um instante às mes-
quinhas intrigas de um Estado nativo empobrecido, cujo rei alternadamente
bajulava e vociferava por mais dinheiro a ser retirado de impostos mingua-
dos, pagos por camponeses exauridos pelo trabalho e desalentados criadores
de camelos; Spurstow, o médico da linha, deixara um campo de trabalhado-
res devastado pelo cólera para cuidar de si durante quarenta e oito horas, no

  4
   Punkah. Um grande leque, consistindo numa armação recoberta de tecido que é posicionada
sob o teto e movimentada geralmente por um serviçal. Usado na Índia para a circulação de ar em
um aposento (N.E.).

                                         

 convívio   renovado   com   outros   homens   brancos.   Hummil,   o   engenheiro
 assistente, era o anfitrião. Ele era estacionário e recebia seus amigos, assim,
todo   domingo,   sempre   que   conseguiam   vir.  Quando   um   deles   deixava   de
 comparecer, ele mandava um telegrama para o seu último endereço, com a
 finalidade de saber se o ausente estava morto ou vivo. Existem muitas regi-
 ões no Leste em que não é bom nem gentil perder de vista os conhecidos,
nem mesmo por uma breve semana.
      Os jogadores não estavam conscientes de qualquer afeição mútua es-
pecial. Brigavam toda vez que se encontravam; mas desejavam ardentemen-
te se encontrarem, como homens sedentos desejam beber água. Eram pes-
 soas solitárias, que compreendiam o terrível significado da solidão. Tinham
todos cerca de trinta anos — cedo demais para que se possa saber disso.
      “Pilsener?”, disse Spurstow, após a primeira negra, enxugando a testa.
      “Sinto muito, mas a cerveja acabou, e há muito pouca água gasosa para
 esta noite”, disse Hummil.
      “Que porcaria de estabelecimento!”, rosnou Spurstow.
      “A culpa não é minha. Escrevi e telegrafei; mas os trens ainda não che-
gam regularmente. Na última semana o gelo acabou — como Lowndes sa-
be.”
      “Ainda bem que eu não vim. Mas eu poderia ter-lhe mandado algumas,
 se tivesse sabido. Ufa! Está quente   demais para continuar jogando  bumble-
puppy ”, disse, lançando um olhar feroz para Lowndes, que apenas sorriu. Ele
 era um agressor inveterado.
      Mottram levantou-se da mesa e olhou por uma fenda nas venezianas.
      “Bonito dia!”, disse ele.
      Os companheiros bocejaram, todos juntos, e lançaram-se a uma inves-
tigação inútil sobre todos os bens de Hummil — armas, romances despeda-
 çados, selaria, esporas e objetos semelhantes. Eles os haviam  contado inú-
meras vezes antes, mas não havia outra coisa a fazer.
      “Alguma notícia nova?”, disse Lowndes.
      “A Gazeta da Índia da última semana e um recorte de casa. Meu pai en-
viou-o. É bastante divertido.”

                                      

      “Um daqueles paroquianos que se denominam M.P.s 5  novamente, não

é?”, disse Spurstow, que lia seus jornais quando os conseguia.
      “Sim. Ouçam isto. Diz respeito ao seu campo, Lowndes. O homem es-
tava fazendo um discurso aos seus eleitores e passou dos limites. Eis uma
amostra, „ E afirmo peremptoriamente que o Serviço Civil da Índia é reserva
— reserva de estimação — da aristocracia da Inglaterra. O que a democracia
— o que as massas — recebem daquele país, que pouco a pouco fraudulen-
tamente anexamos? Respondo: absolutamente nada. É cultivada unicamente
com   vistas   a   seus   próprios   interesses   pelos   rebentos   da   aristocracia.   Eles
cuidam muito bem de manter seus rendimentos generosos, evitar ou abafar
quaisquer   investigações   sobre   a   natureza   e   conduta   de   sua   administração,
enquanto eles próprios forçam o infeliz camponês a pagar com o suor de
sua fronte todos os luxos com os quais se mimam‟.” Hummil abanou o re-
corte sobre sua cabeça. “Ouçam! Ouçam!”, disseram seus ouvintes.
      E então Lowndes, pensativamente,  “eu daria... daria o salário de três
meses para que esse cavalheiro passasse um mês comigo e visse como os
príncipes nativos livres e independentes lidam com as coisas. O velho Per-
na-de-pau” 6  —  era esse o irreverente título para um ilustre e condecorado

príncipe feudatário — “me esgotou a paciência a semana passada por causa
de dinheiro. Por Júpiter, sua última façanha foi enviar-me uma de suas mu-
lheres como suborno!”.
      “Que ótimo! Você aceitou?”, disse Mottram.
      “Não. Gostaria de tê-lo feito, agora. Ela era bem bonitinha e contou-
me uma história comprida sobre a horrível penúria entre as mulheres do rei.
As   queridinhas   não   conseguiram   nenhuma   roupa   nova   durante   quase   um
mês, e o velho quer comprar uma nova carruagem de Calcutá — grades de
prata maciça, lanternas de prata e quinquilharias desse tipo. Tentei fazê-lo
entender que ele esbanjou os últimos rendimentos dos últimos vinte anos e
precisa ir devagar. Ele não se convenceu.”

  5  M.P.s: Members of Parlament (Membros do Parlamento) (N.E.).
  6 No original: Timbersides, diz-se de uma construção de alvenaria, com uma das paredes de ma-

deira (N.E.).

                                        

       “Mas ele possui as caixas-fortes do tesouro ancestral com que contar.
Deve haver pelo menos três milhões em jóias e moedas sob seu palácio”,
disse Hummil.
      “Vá um rei nativo remexer no tesouro da família! Os sacerdotes o pro-
íbem, exceto como último recurso. O velho Perna-de-pau acrescentou algo
como um quarto de milhão ao depósito de seu reino.”
      “De que maldade vem tudo isso?”, disse Mottram.
      “Do   país.   A   situação   do   povo   é   de   deixar   qualquer   um   doente.   Eu
soube que os coletores de impostos se postam ao lado de uma camela leitei-
ra até que a cria nasça e então correm até a mãe em busca dos atrasados. E
o que posso fazer? Não consigo que os funcionários da corte me prestem
contas;    não   consigo    senão    um    sorriso  gordo    do  comandante-em-chefe
quando descubro que as tropas estão com três salários atrasados; e o velho
Perna-de-pau começa a chorar quando falo com ele. Encharca-se de King‟s
Peg, trocou o uísque por conhaque, e Heidsieck por água de soda.7  ”
      “Foi nisso que o Rao de Jubela 8  se afundou. Nem mesmo um nativo

consegue   agüentar   muito   tempo   assim”,   disse   Spurstow.  “Ele   vai   apagar.
Acho que então teremos um conselho de regência e um tutor para o jovem
príncipe, e de lhe devolver seu reino com as rendas acumuladas em dez a-
nos.”
      “E depois disso esse jovem príncipe, a quem se ensinaram todos os ví-
cios ingleses, brincará com o dinheiro e desfará o trabalho de dez anos em
dezoito meses. Já vi isso antes”, disse Spurstow. “Eu pegaria leve com o rei,
se fosse você, Lowndes. De qualquer modo eles vão odiá-lo.”
      “Perfeito. Quem está de espectador pode falar em pegar leve; mas vo-
cê não pode limpar um chiqueiro com uma pena molhada em água de rosas.
Conheço   meus   riscos;   mas   nada   aconteceu   ainda.   Meu   criado   é   um   velho
patane e cozinha para mim. É muito pouco provável que o subornem, e não

  7 King’s  Peg,  coquetel   preparado   com  brandy  e   champanhe; Heidsieck,   marca   de   champanhe

(N.E.).
  8 Rao. Título honorífico concedido a gentlemans, magistrados etc; Jubela. Designação não con-

firmada de um Estado ou região da Índia (N.E.).


aceito comida de meus fiéis amigos, como  eles se denominam. Mas é um
trabalho exaustivo! Eu preferiria ficar com você, Spurstow. Há caça perto
de seu acampamento.”
      “Você iria? Acho que não. Cerca de quinze mortes por dia não incitam
um homem a atirar em nada exceto em si mesmo. E o pior de tudo é que os
pobres diabos olham para você como se fosse salvá-los. Deus sabe que ten-
tei de tudo. Minha última tentativa foi empírica, mas tirou um velho de difi-
culdades. Ele chegou até mim evidentemente depois de ter perdido todas as
esperanças, e lhe dei gim e molho Worcester com pimenta de Caiena. Isso o
curou, mas não o recomendo.”
      “Como os casos acabam, de modo geral?”, disse Hummil.
       “Na verdade, de uma forma muito simples. Chlorodyne, pílula de ópio,
colapso, nitro,9  pesos para os pés, e então... as escadarias do rio. Esta última

parece ser a única coisa que põe fim ao problema. É o cólera negro, você
sabe. Pobres diabos! Mas, digo-lhes, o pequeno Bunsee Lal, meu farmacêu-
tico, trabalha como o diabo. Vou indicá-lo para promoção, se ele sobrevi-
ver.”
      “E quais são as suas chances, meu velho?”, disse Mottram.
      “Não sei; pouco me importa, mas enviei  uma carta. O que você tem
feito em geral?”
      “Sentar sob uma mesa na tenda e cuspir no sextante para mantê-lo fri-
o", disse o topógrafo. "Lavar meus olhos para evitar a oftalmia, que certa-
mente   pegarei,  e   tentar   fazer   o   ajudante   entender   que   um   erro  de   cinco
graus num ângulo não é tão pequeno quanto parece. Estou completamente
sozinho, você sabe, e assim vou estar até o fim da estação quente.”
      “Hummil é o sortudo”, disse Lowndes, atirando-se sobre um sofá. “E-
le tem um teto de verdade — de lona rasgada, mas ainda assim um teto —
sobre sua cabeça. Vê um trem todos os dias. Consegue deles cerveja, água
gasosa e gelo, quando Deus permite. Tem livros, quadros — eles foram re-

  9  Prescrição para os casos de cólera no final do sec. XIX. Chorodyne: uma mistura de clorofór-

mio e ópio. Nitre: nitrato de potássio em solução diluída (N.E.).

                                       

cortados do Graphic — e o convívio com o sub-empreiteiro Jevins, além do
prazer de nos receber semanalmente.”
       Hummil deu um sorriso feroz. “Sim, acho que sou um sujeito de sorte.
Jevins tem mais sorte ainda.”
       “Como? Não...”
       “Sim. Foi-se. Segunda-feira última.”
       “Por suas próprias mãos?”, disse Spurstow rapidamente, insinuando a
suspeita que estava na cabeça de todos. Não há cólera perto da região de
Hummil. Até mesmo a febre dá a um homem o período de uma semana, e a
morte súbita geralmente implicava suicídio.
       “Com esse tempo, não culpo ninguém”, disse Hummil. “Ele foi afeta-
do   pelo  sol,   imagino;   pois   uma   semana   atrás,   depois   que   vocês   partiram,
entrou na varanda e me disse que estava indo para casa ver sua mulher, na
rua Market, em Liverpool, naquela noite.”
       “Consegui que o farmacêutico viesse vê-lo e tentamos fazer com que
se deitasse, depois de uma ou duas horas, ele esfregou os olhos e disse que
achava ter tido um ataque, esperava não ter dito nenhuma palavra grosseira.
Jevins   tinha   grandes  esperanças   de   progredir   socialmente.   Usava   uma   lin-
guagem muito peculiar.10”

       “E?”
       “Então ele foi para o seu pequeno bangalô e começou a limpar um ri-
fle. Disse ao criado que pela manhã iria caçar. Provavelmente mexeu no ga-
tilho e deu um tiro na cabeça — acidentalmente. O farmacêutico enviou um
relatório ao meu chefe, e Jevins está enterrado em algum lugar lá. Eu teria
lhe telegrafado, Spurstow, se você tivesse podido fazer alguma coisa.”
       “Você é um sujeito esquisito”, disse Mottram. “Se você mesmo tivesse
matado o homem não poderia ter ficado mais quieto sobre o caso.”
       “Cruzes! O que importa?”, disse Hummil calmamente. “Tenho muito
trabalho de supervisão dele a fazer, além do meu próprio. Sou o único a so-

  10 No original  Chucks: significando um meio de vida, atributos, ações, crenças e estilo de um

homem. Chucks the Boatswain, uma espécie de escalador social, in: Peter Simple novela do Capi-
tão Frederick Marryat (1792-1848) (N.E.).

                                         

frer. Jevins está livre, por puro acidente, é claro, mas livre. O farmacêutico
ia   escrever   um   longo  discurso  sobre   suicídio.   Nada   como   um   babu11  para

escrever besteiras sempre que a chance aparece."
       “Por    que    você   não   deixou    que    isso  passasse    por   suicídio?”,    disse
Lowndes.
       “Nenhuma prova irrefutável. Um homem não tem muitos privilégios
neste país, mas pelo menos deveria ser-lhe permitido manejar mal seu pró-
prio rifle. Além disso, algum dia eu posso precisar que alguém abafe um aci-
dente comigo. Viva e deixe viver. Morra e deixe morrer.”
       “Tome   uma   pílula”,   disse   Spurstow,   que   estivera   observando   atenta-
mente   o  rosto  pálido  de  Hummil.  “Tome   uma   pílula   e   não   faça   besteira.
Esse tipo de conversa não tem sentido.12  De qualquer modo, suicídio é fugir

do trabalho. Se eu tivesse a paciência de dez Jós, estaria tão interessado no
que iria acontecer em seguida, que ficaria e observaria.”
       “Ah! Perdi essa curiosidade”, disse Hummil.
       “Fígado ruim?”, disse Lowndes compassivamente.
       “Não. Não consigo dormir. O que é pior.”
       “Por Júpiter que é!”, disse Mottram.  “Vez por outra eu também fico
assim, e o ataque tem que se esgotar por si mesmo. O que você toma?”
       “Nada. Para quê? Não preguei o olho desde a sexta-feira de manhã.”
       “Coitado!   Spurstow,   você   devia   dar   um   jeito   nisso”,   disse   Mottram.
“Agora que você falou, seus olhos estão bastante remelentos e inchados.”
       Spurstow, ainda observando Hummil, sorriu levemente. “Eu o conser-
tarei logo mais. Você acha que está muito quente para cavalgar?”
       “Para   onde?”,   disse   Lowndes,   cansado.  “Teremos   de   partir   às   oito   e
então haverá muito que cavalgar. Odeio um cavalo quando tenho de utilizá-
lo por necessidade. Céus! O que há para fazer?”

  11
    Babu: Funcionário bengali, fluente na língua inglesa. Bengali: habitante do Estado de Bengali,
Índia (N.E.).
  12 Skittles, no original: um dos pinos no jogo de nove pinos; no contexto, non sense (N.E.).


      “Começar o uíste novamente, por pontos de pintinho (um “pintinho”
vale oito xelins) e um mohur de ouro13  na falta”, disse Spurstow prontamente.

      “Pôquer.   O   pagamento   de   um   mês   pela   parada  —  sem   limites —  e
aumentos de cinqüenta rúpias. Alguém estará quebrado antes que nos levan-
temos”, disse Lowndes.
      “De minha parte, não me daria prazer algum quebrar alguém nesta me-
sa”, disse Mottram. “Não há nada de emocionante nisso e é tolice.” Ele di-
rigiu-se ao pequeno piano velho e quebrado do acampamento — destroços
de um ocupante casado que outrora havia ocupado o bangalô e abriu-o.
      “Está em cacos há muito tempo”, disse Hummil. “Os criados destruí-
ram-no.”
      O   piano   estava   de   fato   irremediavelmente   quebrado,   mas   Mottram
conseguiu pôr as notas rebeldes numa espécie de acordo e nasceu do tecla-
do dissonante algo que poderia outrora ter sido o fantasma de uma canção
popular do teatro de variedades. Os homens nas poltronas viraram-se com
visível interesse enquanto Mottram golpeava com violência cada vez maior.
      “Muito bem!”, disse Lowndes. “Por Júpiter! A última vez em que ouvi
essa canção foi em 79, ou por volta disso, um pouco antes de vir para cá.”
      “Ah!”,  disse  Spurstow  com  orgulho,  “eu   estava   em   casa   em   80.”  E 
mencionou uma canção popular em moda então.
      Mottram dedilhou-a toscamente. Lowndes criticou e se propôs a fazê-
lo corretamente. Mottram esboçou outra cançoneta, diferente das caracterís-
ticas do teatro de variedades, e fez um movimento como se fosse se levantar.
      “Sente-se”, disse Hummil, “eu não sabia que você compunha. Conti-
nue a tocar até que não consiga pensar em mais nada. Vou mandar afinar
esse piano antes que você venha novamente. Toque algo alegre.”
      Muito simples eram de fato as melodias que a arte de Mottram e as li-
mitações do piano poderiam produzir, mas os homens ouviram com prazer
e nas pausas falavam todos juntos do que haviam visto ou ouvido quando
estiveram pela última vez em casa. Uma densa tempestade de areia soprou lá

  13  Gold mohur: a moeda de maior valor utilizada na Índia na época (N.E.).


 fora e passou sibilando por sobre a casa, envolvendo-a nas sufocantes trevas
 da meia-noite, mas Mottram continuou, despreocupado, e o louco tilintar se
 elevava acima da vibração do pano de teto esfarrapado.
       No silêncio após a tempestade, ele passou gradativamente das canções
 escocesas de apelo mais íntimo, cantarolando-as por vezes enquanto as to-
 cava, para o Evening Hymn.
       “Domingo”, disse ele, fazendo um aceno com a cabeça.
       “Continue. Não se desculpe por isso”, disse Spurstow.
       Hummil riu, longa e ruidosamente.  “Isso mesmo, toque-a. Você está
 cheio de surpresas, hoje. Eu não sabia que você tinha esse dom consumado
 do sarcasmo. Como isso acontece?”
       Mottram recomeçou a música.
       “Está meio lenta. Você não pegou o tom de gratidão”, disse Hummil. 
 “Ela deveria passar para a „Grasshopper‟s Polka‟14  — assim.” E cantarolou,

pre stissimo,

              Glória a Ti, meu Deus, por esta noite,15

              Por todas as bênçãos de luz.

       Isso mostra que realmente nos sentimos abençoados. Como ela conti-
 nua? —

              Se à noite deito-me insone,
              Minha alma me enche de pensamentos sagrados:
                             Não perturbem meu descanso pensamentos maus —

  14  Grasshopper’s Polka, composição de Ernest Bucalossi (1859-1933) (N.E.).
  15  Glory to thee, my God, this night, / For all the blessings of the light. // If in the night I sleep-

 less lie,/ My soul with sacred thoughts supply; / May no ill dreams disturb my rest, /  Or powers of
 darkness me molest!. Hino All praise to Thee, my God, this night  (1674), letra do bispo Thomas
Ken sobre música de Thomas Tallis. Trechos citados erradamente por  Kipling, talvez intencio-
nalmente. O correto é: All praise to Thee, my God, this night, / For all the blessings of the light! //
 When in the night I sleepless lie, /  My soul with heavenly thoughts supply; /  Let no ill dreams
 disturb my rest, / No powers of darkness me molest (N.E.).

                                            

      Mais rápido, Mottram! —

              Ou me persigam potências do mal!

      “Bah! Que hipócrita você é!”
      “Não seja bobo”, disse Lowndes. “Você tem toda liberdade para fazer
o que quiser, mas não brinque com esse hino. Ele está associado em meu
espírito às mais sagradas recordações...”
      “Noites de verão no campo, janelas de vidro colorido, a luz esmaecen-
do,   e você  e   ela,   as   cabeças   coladas,  pendendo  sobre   um   livro   de hinos”,
disse Mottram.
      “Sim, e besouro velho e gordo atingindo seu olho quando vocês estão
indo para casa. Cheiro de feno e uma lua tão grande quanto uma chapeleira,
acima do topo de um monte de feno; morcegos, rosas, leite e mosquitos”,
disse Lowndes.
      “Mães também. Lembro-me exatamente de minha mãe cantando isso
para eu dormir quando era pequeno”, disse Spurstow.
      As trevas haviam caído sobre a sala. Eles podiam ouvir Hummil me-
xendo-se em sua cadeira.
      “Conseqüentemente”, disse ele irritado, “você o canta quando está no
sétimo círculo, bem fundo no Inferno! É um insulto à inteligência da Divin-
dade fingir que não somos uns rebeldes atormentados”.
      “Tome duas pílulas”, disse Spurstow: “isso é fígado maltratado”.
      “O geralmente plácido Hummil está num mau humor dos diabos. Te-
nho pena dos  coolies amanhã”, disse Lowndes, enquanto os criados traziam
os candeeiros e preparavam a mesa para o jantar.
      Enquanto   tomavam   seus   lugares   em   volta   das   sofríveis   costeletas   de
cabrito e do pudim de mandioca defumada, Spurstow aproveitou a ocasião
para sussurrar para Mottram, “muito bem, David!”
      “Procure Saul, então”, foi a resposta.
      “O que vocês estão cochichando?”, disse Hummil desconfiado.

                                       

      “Apenas que você é um anfitrião bem ruinzinho. Não se consegue cor-
tar esta carne”, respondeu Spurstow, com um sorriso gentil.  “Você chama
isso de jantar?”
      “Não posso fazer nada. Você não esperava um banquete, não é?”
      Durante toda aquela refeição Hummil se esforçou em insultar direta e
propositalmente todos os seus convidados, um após o outro, e a cada insul-
to Spurstow cutucava as pessoas agredidas sob a mesa; mas não ousou tro-
car um olhar de conivência com nenhum deles. O rosto de Hummil estava
branco e contraído, ao passo que seus olhos estavam anormalmente grandes.
Ninguém sonharia por um momento em ressentir-se de suas ofensas pesa-
das, mas assim que terminaram a refeição apressaram-se em partir.
      “Não     vão   embora.     Vocês    estavam    justamente    ficando    divertidos,
companheiros. Espero não ter dito nada que os aborrecesse. Vocês são tão
sensíveis...” E então, mudando o tom para uma súplica quase abjeta, Hum-
mil acrescentou, “Ora essa! Vocês não estão mesmo indo embora, não é?”
      “Na língua do abençoado Jorrocks,16  onde como, durmo”, disse Spurs-

tow. “Quero dar uma olhada em seus coolies amanhã, se você não se importa.
Será que poderia me arranjar um lugar para deitar?”
      Os outros alegaram urgência em seus muitos deveres no dia seguinte e,
montando,   partiram   juntos,   Hummil   lhes   pedia   que   viessem   no   domingo
seguinte. Enquanto partiam a trote, Lowndes abriu-se com Mottram:
      “... E eu nunca tive tanta vontade de chutar um homem na sua própria
mesa em toda a minha vida. Ele disse que eu roubei no uíste e me lembrou
que lhe devia dinheiro! Disse-lhe na sua cara que você era um mentiroso!
Você tem todo o direito de se sentir mais do que indignado.”
      “Eu não me sinto”, disse Mottram. “Pobre diabo! Você já viu alguma
vez o velho Hummy se portar desse jeito ou de forma remotamente seme-
lhante?”

  16 Jorrocks. Personagem de diversas novelas de Robert Smith Surtees (1803-1864), um dos au-

tores preferidos de Kipling (N.E.).

                                      

      “Não há desculpa para isso. Spurstow estava me chutando a perna o
tempo todo, e por isso me segurei. Do contrário, teria...”
      “Não, você não o faria. Você fez como Hummy com Jevins; não jul-
gue mal um homem tão indisposto. Por Júpiter! A fivela da minha rédea está
queimando minha mão! Trote um pouco e cuidado com os buracos de ra-
to.”
      Dez minutos de trote arrancaram de Lowndes uma observação bastan-
te solene quando ele se deteve, suando por todos os poros...
      “Ainda bem que Spurstow ficou com ele esta noite.”
      “Sim. Bom homem, o Spurstow. Nossas estradas se separam aqui. Ve-
jo você no próximo domingo, se o sol não me derrubar.”
      “Acho que sim, a menos que o secretário das finanças do velho Perna-
de-pau consiga temperar um pouco de minha comida. Boa noite, e... Deus
meu!”
      “O que foi agora?”
      “Nada,  não!”,   Lowndes   apanhou   seu   chicote   e,   batendo   de   leve   no
flanco da égua de Mottram, acrescentou: “Você não é um sujeitinho de todo
mau, só isso”. E a essas palavras a égua disparou assustada por meia milha
através da areia.
      No   bangalô   do   assistente   de   engenheiro,   Spurstow   e   Hummil   fuma-
vam cachimbo juntos, em silêncio, observando-se atentamente um ao outro.
O espaço da moradia de um solteirão é tão elástico quanto simples sua or-
ganização. Um criado desocupou a mesa de jantar, trouxe um par de toscas
armações   de   cama  feitas   de   tiras   fixadas   numa   estrutura   leve   de   madeira,
atirou um quadrado de esteira fresca de Calcutá sobre cada uma, colocou-as
uma ao lado da outra, prendeu com alfinetes duas toalhas àpunkah,  de mo-
do   que   suas franjas   pendessem   até  quase   o   nariz   e   a   boca   de   quem nelas
dormisse, e anunciou que os leitos estavam prontos.
      Os homens atiraram-se às camas, ordenando aos coolies do punkah  que,
com todas as forças infernais, abanassem. Todas as portas e janelas estavam
fechadas, pois a temperatura lá fora estava um forno. Dentro, a temperatura
era apenas 104° [40°C], como testemunhava o termômetro, e pesado com o

                                         ~

terrível cheiro dos candeeiros a querosene mal-ajustados; e esse fedor, com-
binado ao do tabaco nativo, tijolo queimado e terra seca, faz parar até o co-
ração   de   um   homem   forte,  pois   é   o   cheiro   do   Grande   Império   Indiano
quando ele se transforma, durante seis meses, em um lugar atroz. Spurstow
empilhou habilmente seus travesseiros, de modo que ficasse mais reclinado
do que deitado, com a cabeça em uma altura adequada acima de seus pés.
Não é bom dormir em travesseiro baixo quando está fazendo calor e se tem
pescoço grosso, pois pode-se passar, com roncos e gorgolejos vigorosos, do
sono natural para o sono pesado da apoplexia por calor.
      “Empilhe   seus   travesseiros”,   disse   o   doutor   secamente,   quando   viu
Hummil preparando-se para se estirar.
      A iluminação noturna estava bem distribuída: a sombra do punkah  on-
deava pela sala, o adejar da toalha-pu nkah e o suave ranger da corda através
do buraco da parede a seguiam. Então opunkah  esmoreceu, quase cessou. O
suor pingava da fronte de Spurstow. Deveria ele sair e repreender o  coolie?
Ela começou novamente a balançar com um solavanco forte e um alfinete
soltou-se  das   toalhas.   Quando   ele   foi   substituído,   um   tumtum   na   direção
dos coolies começou a soar com o pulsar firme de uma artéria inchada dentro
de um  crânio tomado de febre cerebral. Spurstow virou de lado e roncou
suavemente.  Não   havia   nenhum   movimento   da   parte   de   Hummil.   O   ho-
mem havia se ajeitado tão rigidamente quanto um cadáver, as mãos aperta-
das em seus flancos. A respiração estava demasiado rápida para indicar sono.
Spurstow   olhou   para  o   rosto   imóvel.   A   mandíbula   estava   cerrada   e   havia
uma ruga em torno das pálpebras palpitantes.
      “Ele está se segurando o mais que pode”, pensou Spurstow. “Que dia-
bos está acontecendo com ele? — Hummil!”
      “O quê?”, respondeu uma voz pesada e contida.
      “Você não consegue dormir?”
      “Não.”
      “Cabeça quente? Sentindo a garganta inchada? Ou o quê?”
      “Nenhuma das duas, obrigado. Não durmo muito, você sabe.”
      “Sentindo-se muito mal?”

                                       


      “Muito mal, obrigado. Há um tumtum lá fora, não? De início pensei
que  fosse   minha   cabeça...   Oh!,   Spurstow,   por   misericórdia,   me   dê   alguma
coisa para dormir, cair num sono profundo, ainda que por apenas seis ho-
ras!” Ele levantou-se num pulo, tremendo da cabeça aos pés. “Há dias não
tenho conseguido dormir bem, e não estou agüentando! Não estou agüen-
tando!”
      “Pobre amigo velho!”
      “Não adianta. Dê-me algo que me faça dormir. De verdade, estou qua-
se louco. Metade do tempo não sei o que digo. Durante três semanas tive de
pensar e soletrar cada palavra que me veio à boca antes que ousasse dizê-la.
Não é para deixar um homem louco? Não consigo ver as coisas claramente
agora, e perdi o sentido do tato. Minha pele dói — minha pele dói! Faça-me
dormir. Oh!, Spurstow, pelo amor de Deus, faça-me dormir um sono pro-
fundo. Não é suficiente deixar-me apenas sonhar. Faça-me dormir!”
      “Está bem, meu velho, está bem. Vá com calma; você não está tão mal
assim.”
      Uma vez abertas as comportas da represa, Hummil estava agarrando-se
a ele como uma criança amedrontada. “Você está machucando meu braço.”
      “Vou quebrar seu pescoço, se não me ajudar. Não, não quis dizer isso.
Não  fique   bravo,  meu   velho.” Ele   enxugou   o suor   enquanto   se  esforçava
por recompor-se. “Estou um pouco inquieto e inapetente, e talvez você pu-
desse me receitar alguma espécie de composto para dormir — brometo de

           17
potássio.  ”
      “Brometo uma ova! Por que não me disse isso antes? Solte meu braço,
e verei se há algo em minha cigarreira que resolva seu problema.” Spurstow
procurou entre suas roupas diárias, aumentou a luz da lamparina, abriu uma
pequena  cigarreira   de   prata   e   deu   uns   passos   em   direção   ao   expectante
Hummil com uma seringa extremamente fina e elegante.

  17 Bromide of potassium. Medicamento utilizado em distúrbios nervosos, como sedativo. O pe-

dido de Hummil provoca a experta exclamação de Spurstow, que lhe injeta morfina (N.E.).

                                         

      “O último recurso da civilização”, disse ele, “e algo que odeio usar. Es-
tenda seu braço. Bem, sua insônia não prejudicou seu músculo; e que couro
duro! Parece que estou dando uma subcutânea num búfalo. Agora, dentro
de poucos minutos a morfina começará a fazer efeito. Deite-se e espere”.
      Um sorriso de genuíno e beatífico prazer começou a insinuar-se pelo
rosto   de  Hummil.  “Acho”,   sussurrou   ele.  —  “Acho   que   estou   apagando
agora. Meu Deus! É decididamente celestial! Spurstow, você precisa me dar
essa caixa para eu guardar; você...” A voz cessou enquanto a cabeça pendeu
para trás.
      “Não por muito tempo”, disse Spurstow à forma inconsciente. “E a-
gora, meu amigo, já que insones do seu tipo tendem a relaxar a pressão mo-
ral em questiúnculas de vida e morte, tomarei a liberdade de travar suas ar-
mas.”
      Ele andou descalço a passos trôpegos até o quarto de selaria e tirou da
caixa um rifle calibre doze, uma espingarda automática e um revólver. Do
primeiro ele desatarraxou o bocal e os escondeu no fundo da caixa de selari-
a; da segunda tirou a alavanca, chutando-a para trás de um grande guarda-
roupas.  O terceiro ele apenas abriu, e emperrou o tambor com o salto de
uma bota de montar.
      “Feito”, disse ele, enquanto sacudia o suor de suas mãos. “Essas pe-
quenas precauções pelo menos lhe darão tempo para mudar de idéia. Você é
muito compassivo com acidentes com armas.”
      E, enquanto se levantava, a voz pastosa e abafada de Hummil excla-
mou na porta: “Seu tolo!”
      É esse o tom de voz que costumam usar aqueles que, nos intervalos de
lucidez em meio ao delírio, falam a seus amigos um pouco antes de morrer.
      Spurstow deu um pulo, deixando cair a pistola. Hummil estava na so-
leira, sacudindo-se numa gargalhada convulsiva.
      “Você foi muito gentil, sem dúvida”, disse ele, muito lentamente, bus-
cando  palavras.  “Não   pretendo   pôr   um   fim   em   mim   mesmo   por   minhas
próprias mãos, por enquanto. Ora essa, Spurstow, esse negócio não funcio-

                                    

na. O que vou fazer? O que vou fazer?” Pânico e terror transpareciam em
seus olhos.
      “Deite-se e dê um tempo. Deite-se imediatamente.”
      “Não   tenho   coragem.   Aquilo   vai   me   levar   novamente   e   não   poderei
fugir desta vez. Você sabe que isso era tudo que eu poderia fazer para me
safar neste instante? Geralmente sou rápido como um raio; mas você tinha
imobilizado meus pés. Quase fui pego.”
      “Ah, sim, entendo. Vá se deitar.”
      “Não, não é delírio; mas foi uma peça danada de baixa que você me
pregou. Você sabe que eu poderia ter morrido?”
      Assim   como   uma   esponja   apaga   completamente   uma   lousa,   também
algum poder ignorado por Spurstow apagara do rosto de Hummil todo tra-
ço   humano,  e  ele  postava-se   à porta   como   a   manifestação   de sua   perdida
inocência. Dormindo, ele recuara à infância aterrorizada.
      “Será que ele vai morrer aqui mesmo?”, pensou Spurstow. E então em
voz  alta: “Está bem, meu filho. Volte para a cama e me conte tudo. Você
não conseguiu dormir; mas como foi o resto da bobagem?”
      “Um lugar, um lugar lá”, disse Hummil, com uma sinceridade genuína.
A  droga estava agindo sobre ele em ondas, e ele passara do medo de um
homem forte para o terror de uma criança quando seus nervos assumiram o
controle ou foram embotados.
      “Deus do Céu! Há meses venho sentindo medo daquilo, Spurstow. Ele
transformou todas as noites em um inferno para mim; e, no entanto, não
tenho consciência de haver feito nada de errado.”
      “Fique quieto e lhe darei outra dose. Vamos cessar seus pesadelos, seu
grandissíssimo idiota!”
      “Sim, mas você precisa me dar bastante, para que eu não possa ir em-
bora.  Você   precisa   me   fazer   dormir   profundamente,   e   não   só   um   pouco
sonolento. É muito difícil correr depois.”
      “Eu sei, eu sei. Eu também já senti isso. Os sintomas são exatamente
como você descreve.”

                                      

      “Ah!, não ria de mim, seu maldito! Antes que essa terrível insônia me
acontecesse, eu tentava apoiar-me no cotovelo e colocar uma espora na ca-
ma para me picar quando caía. Veja!”
      “Por Júpiter! O homem tem sido esporeado como um cavalo! Caval-
gado turbulentamente pelo pesadelo! E todos nós o julgávamos muito sen-
sato. Vá lá entender! Você gosta de falar, não é?”
      “Sim, às vezes. Não quando estou amedrontado. Nessa hora desejo cor-
rer. Você não?”
      “Sempre. Antes de eu lhe dar sua segunda dose, tente dizer-me exata-
mente qual é o seu problema.”
      Hummil falou num sussurro entrecortado por quase dez minutos, en-
quanto Spurstow examinava as pupilas de seus olhos e passava a mão diante
deles uma ou duas vezes.
      No fim da narrativa, pegou a cigarreira de prata, e as últimas palavras
ditas por Hummil enquanto caía para trás pela segunda vez foram: “Faça-
me dormir um sono profundo; pois se eu for pego, morro, morro!”
      “Sim, sim, como todos nós, cedo ou tarde, graças aos Céus, que põem
um fim a todas as nossas desgraças”, disse Spurstow, arrumando as almofa-
das sob a cabeça. “Ocorre-me que, a menos que beba algo, morro antes da
hora. Parei de suar e — eu uso um colarinho cinqüenta.” Fez um chá escal-
dante, que é um excelente remédio contra a apoplexia por calor, quando se
toma   três   ou   quatro  xícaras   de   uma   só   vez.   Então   observou   aquele   que
dormia.
      “Um rosto apático que grita e não pode enxugar seus olhos, um rosto
apático  que   o   persegue   pelos   corredores!   Hum!   Decididamente,   Hummil
deveria   pedir uma   licença   assim   que   possível;   e,   são  ou   não,   ele   indubita-
velmente esporeou-se da maneira mais atroz. Bem, vá lá entender!”
      Ao meio-dia Hummil levantou-se, com um gosto ruim na boca, mas
com os olhos desanuviados e espírito alegre.
      “Eu passei bem mal na noite passada, não é?”, disse ele.

                                      

      “Já vi homens mais saudáveis. Você deve ter tido insolação. Olhe: se
eu escrever um atestado médico a seu favor, você pedirá licença imediata-
mente?”
      “Não.”
      “Por quê? Você precisa disso.”
      “Sim, mas posso agüentar até que o tempo fique um pouco mais fres-
co.”
      “E por quê, se pode conseguir um alívio imediato?”
      “Burkett é o único que poderia ser enviado; e ele é um rematado tolo.”
      “Oh!, não se preocupe com a linha. Você não é tão importante assim.
Telegrafe pedindo licença, se necessário.”
      Hummil parecia muito constrangido.
      “Posso agüentar até a estação das chuvas”, disse evasivamente.
      “Você não pode. Telegrafe ao centro de operações pedindo Burkett.”
      “Não. Se você quer saber por quê, exatamente, Burkett é casado e sua
mulher acabou de ter um filho e está em Simla, lugar mais fresco, e Burkett
tem um ótimo posto que lhe permite ir até Simla de sábado a segunda. A
mulherzinha não está muito bem. Se Burkett fosse transferido, ela teria de
segui-lo. Se ela deixasse o bebê para trás, ficaria mortalmente aflita. Se ela
viesse —  e Burkett é um daqueles animaizinhos egoístas que estão sempre
falando do lugar de sua mulher com seu marido — ela morreria. E assassi-
nato trazer uma mulher para cá justamente agora. Burkett tem o físico de
um rato. Se vier para cá, morre; e sei que ela não tem dinheiro algum e te-
nho certeza de que morrerá também. De certa forma estou imunizado, não
sou casado. Espere até a estação das chuvas, e então Burkett pode emagre-
cer aqui embaixo. Isso lhe fará um bem danado.”
      “Você quer dizer que pretende enfrentar... o que você enfrentou, até a
chegada das chuvas?”
      “Ora, não será tão ruim, agora que você me mostrou a saída. Sempre
posso  telegrafar-lhe. Além disso, agora que encontrei o caminho do sono,
vai ficar tudo bem. De qualquer modo, não vou pedir licença. E ponto fi-
nal.”

                                   

      “Meu excelente Scott! Eu julgava que tudo isso já eram águas passa-
das.”
      “Pfuh! Você faria o mesmo. Sinto-me um novo homem, graças àquela
cigarreira. Você vai para o acampamento agora, não é?”
      “Sim; mas virei vê-lo de vez em quando, se puder.”
      “Não   estou   tão   ruim   assim.   Não   quero   incomodá-lo.   Dê   gim   e   ket-
chup aos coolies.”
      “Então você está se sentindo bem?”
      “Pronto para sobreviver, mas não para ficar ao sol conversando com
você. Vá embora, meu velho, e Deus o acompanhe.”
      Hummil girou em seus calcanhares para enfrentar a solidão permanen-
te de seu bangalô, e a primeira coisa que viu na varanda foi a imagem de si
mesmo.      Ele  deparara-se     com    uma   aparição    semelhante     uma    vez  antes,
quando estava sofrendo de excesso de trabalho e da pressão do calor.
      “Isso é muito mau”, disse ele, esfregando os olhos. “Se a coisa deslizar
para longe de mim de uma  só vez, como um fantasma, saberei se se trata
apenas de um desarranjo dos olhos e do estômago. Se ela caminhar... minha
cabeça está indo.”
      Ele se aproximou da figura, que tinha a característica de manter distân-
cia dele, como costumam fazer todos os espectros que nascem do excesso
de   trabalho.  Ela   deslizou   pela   casa   e   dissolveu-se   nas   manchas   dentro  do
globo ocular assim que atingiu a luz ofuscante do jardim. Hummil cuidou de
seus afazeres até o entardecer. Quando entrou para jantar, ele viu a si pró-
prio sentado à mesa. A visão levantou-se e saiu apressadamente. Salvo pelo
fato de não lançar sombra, ela era, sob todos os aspectos, real.
      Nenhum        homem      vivo  sabe   o   que   aquela   semana    preparava     para
Hummil. Um aumento da epidemia reteve Spurstow no acampamento, en-
tre os coolies, e tudo que pudera fazer fora telegrafar para Mottram, instando-
o para que fosse para o bangalô e dormisse lá. Mas Mottram estava a qua-
renta milhas de distância do telégrafo mais próximo e de nada sabia, exceto
das   necessidades   da   inspeção,  até   que   encontrou,   na   manhã   de   domingo,
Lowndes e Spurstow a caminho da casa de Hummil para a reunião semanal.

                                         

      “Espero que o pobre sujeito esteja num humor melhor”, disse o pri-
meiro, pendendo seu corpo para apear-se à porta. “Acho que ele ainda não
se levantou.”
      “Vou dar uma olhada nele”, disse o doutor. “Se ele estiver dormindo,
não há necessidade de acordá-lo.”
      E um instante mais tarde, pelo tom da voz de Spurstow pedindo-lhes
que entrassem, os homens souberam o que acontecera. Não havia necessi-
dade de acordá-lo.
      O punkah  ainda estava sendo movido, mas Hummil deixara a vida ha-
via pelo menos três horas.
      O   corpo   jazia   de   costas,   as   mãos   rígidas   ao   lado   do   corpo,   como
Spurstow as vira sete noites antes. Nos olhos estatelados estava escrito um
terror fora do alcance de qualquer pena.
      Mottram, que entrara atrás de Lowndes, inclinou-se sobre o morto e
tocou levemente a testa com os lábios. “Oh, sujeito de sorte, diabo de sor-
te!”, sussurrou.
      Mas Lowndes vira os olhos e recuou tremendo para o outro lado da
sala.
      “Pobre rapaz! Pobre rapaz! E na última vez em que o vi eu estava bra-
vo. Spurstow, deveríamos ter cuidado dele. Ele...?”
      Habilmente,   Spurstow   continuou   em   suas   investigações,   terminando
em uma busca pela sala.
      “Não, ele não”, disse ríspida e rapidamente. “Não há vestígios de nada.
Chame os criados.”
      Eles vieram, oito ou dez deles, cochichando e espiando por sobre os
ombros dos outros.
      “Quando seu Sahib foi para a cama?”, disse Spurstow.
      “Achamos que às onze ou dez”, disse o criado pessoal de Hummil.
      “Ele estava bem então? Mas como vocês sabem?”
      “Ele   não   estava   doente,   tanto   quanto   pudemos   entender.   Mas   havia
dormido  muito   pouco   durante   três   noites.   Isso   eu   sei,   porque   o   vi   cami-
nhando muito e especialmente no meio da noite.”


      Quando Spurstow estava arranjando o lençol, uma grande espora reta
de caça caiu no chão. O doutor suspirou. O criado pessoal olhou de relance
para o corpo.
      “O que você acha, Chuma?”, disse Spurstow, percebendo o olhar na
face escura.
      “O  Nascido-do-Céu,18  na   minha   pobre   opinião,   este   que   era   o  meu

amo desceu até as Trevas e lá foi pego porque não conseguiu escapar rápido
o bastante. Temos a espora como prova de que ele lutou com o Medo. Te-
nho visto homens da minha raça fazerem assim com espinhos quando um
encanto lhes foi lançado para arrastá-los nas horas de sono e eles não ousa-
vam dormir.”
      “Chuma, você é um cabeça tonta. Vá e faça os preparativos para selar
os pertences de Sahib.”
      “Deus criou o Nascido-do-Céu. Deus me criou. Quem somos nós, pa-
ra indagar os desígnios de Deus? Pedirei aos outros criados para manter dis-
tância enquanto o senhor estiver relacionando os bens de Sahib. São todos
ladrões e roubariam.”
      “Na minha avaliação, ele morreu de... ora, de qualquer coisa; de parada
cardíaca, apoplexia pelo calor, ou alguma outra provação”, disse Spurstow a
seus companheiros. “Precisamos fazer um inventário de seus bens e coisas
assim.”
      “Ele estava morto de medo”, insistiu Lowndes. “Veja esses olhos! Pelo
amor de Deus, não deixem que seja enterrado com eles abertos!”
      “Fosse o que fosse, ele está livre de todos os problemas agora”, disse
Mottram     suavemente.
      Spurstow estava examinando os olhos abertos.
      “Venha cá”, disse ele. “Consegue ver algo aí?”

  18 Heaven-born. Título aplicado aos membros do Indian Civil Service como forma de elogio e

respeito.  Inspirado em twice-born  [nascido-duas-vezes] como eram nomeados os Brâmanes, sa-
cerdotes hindus da mais alta casta e cultura superior (N.E.).


      “Não consigo olhar para ele!”, disse Lowndes com uma voz lamurienta.
“Cubra o rosto! Haverá no mundo um medo que possa imprimir num ho-
mem essa aparência? É horrível. Oh, Spurstow, cubra isso!”
      “Nenhum   medo...   no   mundo”,   disse   Spurstow.   Mottram   inclinou-se
sobre seu ombro e olhou atentamente.
      “Não   vejo   nada,   exceto   algumas   manchas   cinzentas   na   pupila.   Não
pode haver nada, você sabe.”
      “Mesmo   assim.   Bem,   pensemos.   Levará   metade   do   dia   para   montar
qualquer tipo de caixão; e ele deve ter morrido à meia-noite. Lowndes, meu
velho, vá e diga aos coolies para começar a abrir uma cova ao lado do túmulo
de Jevins. Mottram, dê uma volta pela casa com Chuma e veja se puseram
selos nas coisas. Mande-me uns dois homens e porei ordem nisso.”
      Os   criados   de   braços   fortes,   quando   retornaram   aos   seus,   contaram
uma estranha história do doutor Sahib inutilmente tentando chamar de volta
à vida o seu amo, por rituais mágicos — segurando uma pequena caixa ver-
de que tinia em cada um dos olhos do homem morto, e de um murmúrio
confuso  da   parte   do   doutor   Sahib,   que   levou   embora   consigo   a   pequena
caixa verde.
      O ecoar das batidas de martelo em um caixão não é um som agradável,
mas os que passaram pela experiência sustentam que muito mais terrível é o
suave   farfalhar   dos   lençóis   de   linho,   o   ranger   das   tiras   de   lona   de   cama,
quando aquele que caiu à beira da estrada é preparado para o enterro, o gra-
dual   afundar  à   medida   que   as   tiras   amarradas   são   soltas,   até   que   a   forma
amortalhada toca o chão e não se ouve nenhuma queixa contra a indignida-
de da remoção apressada dos restos mortais.
      No último momento, Lowndes foi tomado de escrúpulos. “Há neces-
sidade de vocês seguirem o ritual inteiro?”, disse a Spurstow.
      “É o que pretendo. Como civil, você é o mais velho. Pode fazê-lo você
mesmo, se preferir.”
      “Não   quis   dizer   exatamente   isso.   Apenas   pensei   que,   se pudéssemos
conseguir um capelão em algum lugar, eu me ofereceria para ir procurado e
dar ao pobre Hummil uma chance melhor. Só isso.”

                                         

      “Pfuh!”, disse Spurstow, pondo nos lábios as terríveis palavras que são
ditas no início das exéquias.
      Depois do desjejum, fumaram cachimbo em silêncio, em memória do
morto. Então disse Spurstow distraidamente:
      “Não é coisa para a medicina.”
      “O quê?”
      “Coisas no olho de um morto.”
      “Pelo amor de Deus, deixa para lá aquele horror!”, disse Lowndes. “Já
vi um nativo morrer de puro medo quando um tigre o acossara. Sei o que
matou Hummil.”
      “Uma ova, que você sabe! Vou  tentar saber.”  E o doutor foi para o
banheiro com uma câmera Kodak. Após alguns minutos, ouviu-se o som de
algo sendo quebrado em pedaços com um maneio, e ele surgiu, muito, mui-
to branco.
      “Você tirou uma fotografia?”, disse Mottram. “Como é a criatura?”
      “Foi impossível, é claro. Você não precisa olhar, Mottram. Destruí os
filmes. Não havia nada lá. Foi impossível.”
      “Isso”, disse Lowndes, escandindo as palavras, observando a mão que
tremia, tentando acender o cachimbo, “uma mentira deslavada.”
      Mottram  riu  inquieto.  “Spurstow   está   certo”,  disse.  “Estamos   todos
em   tal  estado   agora   que   acreditaríamos   em   qualquer   coisa.   Pelo   amor   de
Deus, vamos tentar ser racionais.”
      Nada mais se disse por um longo tempo. O vento quente soprou lá fo-
ra, e as árvores secas soluçaram. Então, o trem diário, relampejando metal,
aço polido e jorrando vapor, parou ofegante na intensa luz cegante. “Deve-
mos embarcar”, disse Spurstow. “Voltar ao trabalho. Já escrevi meu atesta-
do. Não podemos ajudar em mais nada aqui, e o trabalho manterá nossos
juízos em ordem. Vamos.”
      Ninguém   se   moveu.   Não   é   agradável   enfrentar   viagens   de   trem   no
meio do dia em junho. Spurstow pegou seu chapéu e seu chicote e, voltan-
do-se na soleira da porta, disse:


       “Pode existir Céu — pode existir Inferno. Por enquanto, existe a nossa
vida aqui.19  E então?”

       Nem Mottram nem Lowndes encontraram resposta para a pergunta.

 19  Citação do final do poema de Robert Browning, “Time’s Revenger”: There may be heaven;

there must be hell; / Meantime, there is our earth here — well! (N.E.).

0 comentários:

Postar um comentário

Poste apenas comentários construtivos , A Toca da Morgana é um espaço para energias positivas.

Músicas da Toca


MusicPlaylistView Profile
Create a playlist at MixPod.com
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...